comercial ou militar compartilha seu caráter de negócio sujeito a análise, divisão de trabalho e estimativa de necessidades para atender a situação e evitar duplicação ou desperdício de esforço. Apesar de sua diferença de escopo – em especial no que diz respeito a atividades suportes às operações militares e humanitárias como manutenção de edificações entre outras – em todos os contextos a logística se apresenta como a área responsável pela disponibilização e manutenção dos materiais necessários para o sucesso da operação (FILHO; TORIGOE, 2008; APTE, 2009).
A distribuição final de recursos é similar tanto na logística humanitária quanto na militar, mas difere da comercial, pois em geral nas operações humanitárias e militares o contexto em que o material deve ser entregue é altamente volátil, incerto e com planejamento dificultado (APTE, 2009).
Humanitária Comercial
Rápido emprego por demanda
Responsividade, Eficiência e Flexibilidade
Alianças, Forças conjuntas Cadeias de suprimentos
dinâmicas Papéis dinâmicos, compartilhamento de riscos e recursos Interesses diferentes de múltiplas organizações Agilidade Adaptabilidade Alinhamento
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A gestão do nível de estoques também aparece como uma etapa da SCM importante para todas as cadeias, mas com características distintas entre elas, pois enquanto a principal dificuldade da cadeia comercial é a definição da quantidade necessária de estoque com base na previsão da demanda, as operações militares precisam considerar a distância entre a origem (economia do país) e o destino (fronte) cujo acesso pode ser rapidamente debilitado devido a ações inimigas. Já as operações humanitárias são desafiadas pelo conhecimento do nível de estoque esperado tanto pela incerteza da demanda quanto da oferta, pois a quantidade de materiais enviados ao desastre e suas características contêm alto grau de incerteza devido às doações indesejadas e aos fluxos convergentes de materiais (HOLGUÍN-VERAS et al., 2014). Em resumo, as cadeias compartilham o caráter da incerteza nas variáveis essenciais para definir seus níveis de estoque.
Na Tabela 2.4 são apresentadas algumas características de uma cadeia de suprimentos e suas diferenças na área comercial, militar e humanitária:
Tabela 2.4 Comparação entre logística comercial, militar e humanitária
Característica Comercial Militar Humanitária
Oferta Previsível e controlável
Dependente da capacidade nacional de produção Desafiadora devido à imprevisibilidade das doações Demanda Em geral é previsível com base em análises
de mercado Conhecida conforme planejamento da operação Desconhecido no início da operação e sujeita a mudanças rápidas Armazenagem Armazéns fixos e de grande porte, localizados de forma a otimizar o custo e o tempo de entrega
Fixa e de grande porte dentro do país, mas temporárias durante a operação. Essencialmente temporários devido à incerteza do local do desastre e a falta de infraestrutura local. Sistemas de Gerenciamento Altamente informatizado (Softwares de Gestão) Sistemas de comando e controle bem executados
Pouca informatização e desenvolvimento recente. Comunicação Transmissões automáticas de pedido e facilidade na comunicação entre cliente e fornecedor. Estruturas móveis de comunicação e uso de tecnologias para diálogo
entre tropas e comando
Comunicação prejudicada devido à falta de infraestrutura Prioridade Atendimento da
demanda do cliente Sustentação da Operação Atendimento de Vítimas Custos custos é primordial Minimização dos
Minimização de custos é um tópico crescente, mas
auxiliar quando se pensa em uma guerra total
Limites de recursos implicam na disponibilidade da
ajuda.
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Adicionalmente, outro conceito similar nas áreas militar e humanitária é a logística de projeção de força cujo papel é a mobilização e coordenação dos recursos de um país para seu pronto emprego na projeção de forças combatentes em teatros de operação quando o fluxo de materiais e informações é exigido de forma a permitir o suporte em tempo real com manobras flexíveis e móveis tanto em movimentações terra-terra quanto em movimentações ar-terra e mar-terra (WILLIAMS; PALMER, 1994).
A necessidade dos esforços logísticos serem flexíveis e móveis é potencializada pelo emprego de unidades logísticas enxutas, evitando a sobreposição ou duplicação de esforços e, portanto, o uso conjunto e coordenado de recursos por organizações aliadas, sejam elas do mesmo país ou de uma coalização, é uma ferramenta fundamental na projeção de força correntemente dependente de redes formadas apressadamente com atores com distintas visões sobre o emprego de recursos.
Um exemplo relevante da projeção de força e a logística envolvida são operações de assalto em cabeça de praia quando a força é projetada do mar para terra por meio de embarcações de baixo calado, mas que são extremamente sensíveis ao tipo do litoral, às características do mar e do solo, às condições de onda, marés e capacidade de atracação e ancoragem (MORANG; DANTAS, 2014). A dificuldade em se assaltar uma cabeça de praia não envolve apenas a manobra de desembarque anfíbio, mas também a análise e movimentação dos materiais e pessoal desembarcado nas áreas subsequentes, ou seja, a malha de transporte de materiais e tropas adentro do território.
Os desafios da criação dos fluxos simultâneos de materiais e pessoal que devem ser mobilizados e disponibilizados de forma convergente neste tipo de operação podem ser exemplificados na Segunda Guerra Mundial pela operação Overlord em junho de 1944, cujo momento mais emblemático é o dia- D para a qual o principal objetivo não era a derrota do inimigo, mas sim a instalação da capacidade logística necessária para as campanhas continentais dos aliados (RUPPENTHAL, 1953) e seu caráter convergente pode ser comparado à mobilização necessária para responder a desastres de início
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súbito como o terremoto do Haiti, quando centenas de organizações deslocaram pessoas, veículos e mantimentos para responder as demandas da região tendo de compartilhar os pontos de entrada do país (e.g. aeroportos e portos).
A projeção de força visa à tomada da iniciativa e o emprego do poder bélico na movimentação de unidades militares para atacar o centro de gravidade de uma força opositora em um local objetivado pelas forças aliadas.
Em uma operação humanitária, as organizações envolvidas buscam mobilizar os recursos necessários para a disponibilização da capacidade de assistência necessária, visando a mitigação do foco da demanda de ajuda que pode ser tanto o próprio local afetado (e.g. o epicentro de um terremoto) quanto ao local para onde a população afetada se deslocou (e.g. um campo de refugiado), mas em todos os casos, o objetivo da ajuda é se projetar de forma rápida e efetiva para alcançar as regiões onde seu emprego mitigará o sofrimento, logo é análogo o conceito de logística de projeção de força visando a tomada de uma região ou ataque ao centro de gravidade de um inimigo com a logística de projeção de ajuda humanitária, para a mitigação do sofrimento em um local demandante (o centro de gravidade da crise humanitária).
Um exemplo ilustrativo é citado por Barber (2012) no uso de transporte aéreo em emergências como uma forma de operação que aproxima as especificidades de ações humanitárias daquelas vivenciadas por militares. O uso de lançamentos aéreos – airdrop – para regiões inacessíveis ou que exigem uma velocidade de entrega superior àquela conseguida em processos convencionais demonstra como ambas as áreas devem se adaptar conforme a Figura 2.4 (distribuição de alimentos pelo WFP no Sudão do Sul em 2014 – esquerda – e o envio de mantimentos para tropas no Iraque pela Força Aérea dos Estados Unidos - direita):
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Figura 2.4 Entrega de mantimentos por meio aéreo (Humanitária x militar)
Fonte: WFP (2014a) e Pulliam (2009)
2.4 COORDENAÇÃO E COLABORAÇÃO NA CADEIA COMERCIAL
A coordenação de atividades na cadeia de suprimentos de companhias comerciais é um tema bastante abordado pela academia, cuja literatura é significativamente mais extensa e exaustiva que a literatura humanitária, incluindo publicações com cunho revisionista de grande amplitude, das quais são exemplos: Thomas e Griffin (1996); Power (2005) e Arshinder et al. (2011). Skjoett-Larsen (2000) afirma que o maior potencial de melhoria em logística não se encontra dentro de uma companhia individualizada, e sim na interface entre atores formalmente independentes de uma cadeia de suprimentos, mas que interagem entre si.
Esta seção visa apresentar o tema de coordenação e colaboração entre atores de uma cadeia de suprimentos e suportar as discussões vindouras sobre coordenação humanitária, com o conteúdo conceitual necessário advindo das cadeias comerciais para as quais o tópico já é maduro e melhor estudado.