ARAġTIRMANIN KURAMSAL ÇERÇEVESĠ VE ĠLGĠLĠ ARAġTIRMALAR
2.2. ĠLGĠLĠ ARAġTIRMALAR
2.2.6. Sanal Zorbalığın Etkileri
2.2.6.2. Sanal zorbalığın etkileri ile ilgili yurt içinde yapılan çalıĢmalar
O segundo modelo de análise vai, pois, desenhar o inverso do primeiro. Foucault direciona sua analítica em busca de extrair o fato da dominação encravada no discurso do direito, afirmando e evidenciando esse discurso como portador das relações de dominação. O princípio norteador desse modelo é a substituição do olhar sobre a soberania e a obediência, para analisar o problema da dominação - entendida por Foucault como “as múltiplas formas de dominação que podem se exercer na sociedade” (2006b, p. 181) - e da sujeição. O que estava em jogo agora não era, portanto, a centralidade de um poder soberano, mas as múltiplas relações estabelecidas num contexto social. Um poder descentrado, difundido, pulverizado (GREGOLIN, 2004, p. 55).
E a primeira preocupação metodológica de sua pesquisa diz respeito justamente a descentralidade do poder, de modo a não considerá-lo como procedendo de uma localidade específica. Esse aspecto justifica a descrição de sua pesquisa como uma analítica, visto que o objetivo é alcançar elementos que possam fazer uma análise dos princípios de funcionamento do poder, e não teorizar sobre ele, assim como esclarece o próprio autor:
O poder não existe. Quero dizer o seguinte: a idéia de que existe, em um determinado lugar, ou emanando de um determinado ponto, algo que é um poder, me parece baseada em uma análise enganosa e, que, em todo caso, não dá conta de um número considerável de fenômenos. Na realidade, o poder é um feixe de relações mais ou menos organizado, mais ou menos piramidalizado, mais ou menos coordenado. Portanto, o problema não é constituir uma teoria do poder (...), o problema é munir-se de princípios de análise que permitam uma analítica das relações de poder (FOUCAULT, 2006c, p. 248).
Sendo o poder um feixe de relações, é preciso analisá-lo, portanto, numa racionalidade móvel, que alcance sua produtividade, sua exterioridade, baseada no
antagonismo de estratégias estabelecido entre poder e resistência, visto que “o poder só pode
ser analisado como algo que circula, como algo que só funciona em cadeia” (FOUCAULT, 2006b, p. 183). Há, portanto, uma interação indissolúvel, um encadeamento estrutural, onde poder e resistência interagem um sobre o outro de maneira cíclica, permanente. E, além de coexistirem, poder e resistência possuem, ambos, as mesmas características: “para resistir, é preciso que a resistência seja como o poder. Tão inventiva, tão móvel, tão produtiva quanto ele. Que, como ele, venha de baixo e se distribua estrategicamente” (FOUCAULT, 2006a, p. 241).
Devendo ser observado, portanto, a partir de confrontos estratégicos entre relações, a analítica foucaultiana subtrai, assim, a idéia de um poder como propriedade, como um patrimônio, mas antes, como um exercício, móvel, dinâmico, tático, onde os indivíduos estão sempre em posição de praticá-lo e de sofrer sua ação. Assim como afirma Revel:
A análise dos vínculos entre as relações de poder e os focos de resistência é realizada por Foucault em termos de estratégia e de tática: cada movimento de um serve de ponto de apoio para uma contra-ofensiva do outro (REVEL, 2005, p. 75).
Dessa forma, o poder se dá a partir do momento em que se estabelece um jogo tático entre poder e resistência. Um tabuleiro de xadrez nos oferece essa imagem: a jogada de um está estreitamente relacionada à jogada de seu oponente, e como decorrência disso, o tabuleiro passa a ser um campo estratégico em que atuam várias forças concomitantemente. Sob esse ponto de vista, podemos dizer que aquilo que define uma relação de poder é sua maneira de agir, isto é, não agindo diretamente sobre o outro, mas sobre sua ação. O poder é, portanto, “uma ação sobre a ação, sobre ações eventuais, ou atuais, futuras ou presentes” (FOUCAULT, 1995, p. 243).
Essa imagem reforça a noção do poder como exercício, se contrapondo, mais uma vez, à idéia de um poder central, unilateral e localizado. Tal oposição descarta a possibilidade de uma análise decrescente do poder, isto é, uma análise que parte do que se consideram os “grandes poderes” até chegar às parcelas mínimas da sociedade. Surge daí mais uma preocupação metodológica da analítica foucaultiana: Foucault vai propor uma análise de micro-relações, onde seriam travadas micro-lutas e onde seriam produzidos micro- poderes. Uma análise, portanto, ascendente do poder, partindo de elementos moleculares do corpo social:
Deve-se fazer uma análise ascendente do poder: partir dos mecanismos infinitesimais que têm uma história, um caminho, técnicas e táticas e depois examinar como estes mecanismos de poder foram e ainda são investidos, colonizados, utilizados, subjugados, transformados, deslocados, desdobrados, etc., por mecanismos cada vez mais gerais e por formas de dominação global (FOUCAULT, 2006b, p. 184).
Essa é, sem dúvida, uma maneira de considerar um poder invisível, que viria e estaria em todo lugar. Assim sendo, podemos entender que a análise foucaultiana vem na contramão da concepção tradicional na qual o poder está ligado a lutas-de-classe, o que significa dizer que o poder em Foucault não traz a noção althusseriana de aparelhos
ideológicos. Segundo Deleuze, “as instituições são práticas, mecanismos operatórios que não
explicam o poder, já que supõem as relações e se contentam em fixá-las sob uma função reprodutora e não produtora” (2005, p. 83).
O poder estaria, portanto, diluído na sociedade em inúmeros micro-poderes, e é justamente esse feixe de relações de poder que irá produzir sujeitos através de processos de subjetivação, o que significa dizer que é um poder que possui mecanismos de controle que acabam por se tornar inerentes ao corpo social, de modo que os sujeitos interiorizam o comportamento ditado pelo poder de comando. Foucault analisa, então, as relações estabelecidas no interior daquilo que ele chama de “sociedades disciplinares”, onde se procura ter o maior controle possível sobre os corpos e sobre os discursos, nem sempre, porém, de modo violento, mas, antes, sutil e estrategicamente organizado.
O “regime disciplinar” caracteriza-se por um certo número de técnicas de coerção que exercem um esquadrinhamento sistemático do tempo, do corpo e do movimento dos indivíduos e que atingem particularmente as atitudes, os gestos, os corpos (REVEL, 2005, p. 35).
A disciplina traz, portanto, a necessidade de produção de corpos dóceis através de técnicas de individualização do poder, isto é, técnicas que permitam interferir e controlar o comportamento dos indivíduos, de modo a aumentar, cada vez mais, suas habilidades e competências para colocá-lo, em seguida, no lugar onde será melhor “aproveitado”. Essa forma de poder aplica-se à vida cotidiana dos indivíduos, impondo-lhes uma identidade com fins de categorizá-lo numa verdade que deve ser reconhecida por ele e pelos outros. E é justamente contra essas técnicas que agem as micro-lutas sociais às quais Foucault faz referência.
A análise das relações de poder que passeiam pela questão racial do Brasil não partiria, pois, das verdades produzidas pelos aparelhos de Estado acerca da questão, nem do discurso das leis criadas por um sistema jurídico a partir da necessidade de controle e de dominação social. Ao contrário disso, a análise dessas questões parte das micro-lutas travadas cotidianamente, nas menores esferas possíveis, e que estariam resistindo não a um outro adversário, mas a uma forma de poder.