• Sonuç bulunamadı

2.5. Okul Öncesi Dönemde Sosyal Davranışlar

2.5.1. Saldırganlık

Diversas línguas ao redor do mundo apresentam os chamados verbos auxiliares. Em geral, esses verbos são utilizados para expressar tempo, aspecto, modalidade, voz gramatical, etc. Entretanto, é preciso frisar que esses elementos são elementos funcionais que apenas codificam certas categorias gramaticais. Adicionalmente a esses verbos auxiliares, aparecem os verbos lexicais na sentença. São esses verbos lexicais que projetam a estrutura argumental da sentença e atribuem papel temático a seus argumentos. Destaca-se ainda que muitos verbos auxiliares são o resultado de um processo de gramaticalização em que um verbo lexical é gramaticalizado, tornando-se uma categoria auxiliar (ver Roberts, 1993; Castilho, 1997; entre outros). Em (28) são apresentados exemplos de verbos auxiliares em português e em inglês, respectivamente.

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28) a. Eu tenho andado muito de skate ultimamente. b. John has traveled a lot.

Algumas línguas de sinais também apresentam certas categorias que possuem um comportamento bastante semelhante aos verbos auxiliares das línguas orais. Esses elementos são utilizados, basicamente, como pura realização morfológica das relações de concordância presentes na sentença. Um exemplo desse elemento em Libras é a sentença (3), repetida abaixo como (29):

29)JOÃOi MARIAk iAUXk AMAR

„João ama a Maria‟

Em (29), o elemento transcrito como AUX é utilizado como forma de

realizar morfologicamente a relação de concordância da frase, uma vez que o verbo AMAR em Libras é um verbo simples, sem concordância. Essa categoria AUX é um tipo de apontamento em que há o movimento entre o

locus do sujeito e o locus do objeto, conforme pode ser visto na escrita do sinal dada em (30).

30) AUX

É importante notar ainda que AUX não é utilizado para expressar

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por essa categoria é concordância. Por esse motivo, essa marca pode ser chamada de auxiliar de concordância.

Essa forma de auxiliar, entretanto, não é a única encontrada nas línguas de sinais ao redor do mundo. Steinbach e Pfau (2007) propõem uma distinção entre três tipos de auxiliares de concordância: os auxiliares indexicais; os auxiliares não-indexicais derivados de verbos; e os auxiliares não-indexicais derivados de nome.

O auxiliar encontrado em Libras corresponde ao primeiro tipo, que, conforme o nome já diz, é um auxiliar derivado de um índex, ou melhor, de uma forma pronominal básica, um „apontar‟. De acordo com Sapountzaki (2012: 209) esse tipo de auxiliar é o mais frequentemente encontrado nas línguas de sinais já estudadas, dentre elas as Línguas de Sinais Japonesa (Fischer, 1992, 1996), Taiwanesa (Smith, 1989, 1990), Grega (Sapountzaki, 2005) e Indo-Paquistanesa (Zeshan, 2000). Assim, esse auxiliar indexical, assim como os demais elementos indexicais como os pronomes e os determinantes, são o resultado de uma evolução/gramaticalização de apontamentos (gestos) que se lexicalizaram na forma de sinais indexicais. Esse auxiliar indexical é ilustrado a seguir:

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Figura 8. Auxiliar indexical. (Quadros e Karnopp, 2004: 165)

O segundo grupo de auxiliares é composto por elementos derivados de uma raiz verbal, tais como DAR, ENCONTRAR, IR. Steinbach e Pfau (2007)

apontam para o fato de que esses elementos funcionam como semi- auxiliares e que seu uso é restrito a contextos específicos. Esse tipo de auxiliar pode ser encontrado nas Línguas de Sinais Taiwanesa (Smith, 1990), Grega (Sapountzaki, 2005), Holandesa (Bos, 1994) e Flamenga (Van Herreweghe e Vermeerbergen, 2004). Um exemplo desse tipo de elemento é o semi-auxiliar GIVE/DAR em Língua de Sinais Grega (Figura 9) e em Língua de Sinais Flamenga (31).

Figura 9. Auxiliar GIVE em Língua de Sinais Grega (Sapountzaki, 2005 apud Sapountzaki, 2012: 208)

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31) Língua de Sinais Flamenga (Sapountzaki, 2012:211):

GIRL GIVE BOY HIT

„A garota bateu/atingiu o garoto.‟

Há ainda o terceiro tipo de auxiliar, que é um auxiliar derivado de um nome. De acordo com Sapountzaki (2012), este tipo de auxiliar só foi encontrado até o momento em duas línguas de sinais: na Língua de Sinais Germânica (Rathmann, 2001) e na Língua de Sinais Catalã. Em ambas as línguas, o auxiliar deriva do sinal de PESSOA. Um exemplo da língua de sinais germânica é dado a seguir:

32)IX1 POSS1 BROTHER IX3aPROUD 1PERSON3a

„Eu estou orgulhoso do meu irmão.‟

A Libras, portanto, possui apenas o auxiliar do tipo indexical. É preciso destacar que esse auxiliar apresenta um comportamento sintático bastante distinto. Quadros (1999) e Quadros e Quer (2008) afirmam que a

Figura 10. Auxiliar PERSON em Língua de Sinais Germânica (Sapountzaki, 2005 apud Sapountzaki, 2012: 208)

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categoria AUX em Libras é uma pura instanciação da relação de

concordância entre sujeito, verbo e objeto. Os autores afirmam ainda que

AUX pode ocorrer apenas com verbos simples que não apresentam concordância (Quadros, 1999) e com verbos de concordância reversa (Quadros e Quer, 2008). Já demos anteriormente um exemplo de AUX com o verbo simples AMAR. Em (33), tem-se uma sentença com verbo de

concordância reversa e AUX realizado:

33) Quadros e Quer (2008: 545)

IXx IXy xAUXy (y)PICK-UP

Os autores apontam para o fato de que na sentença em (33), o verbo reverso não apresenta a concordância totalmente realizada. Apenas a concordância com o objeto pode ocorrer e, mesmo assim, esta é opcional. Além disso, o padrão de concordância apresentado por AUX é sempre

SUJAUXOBJ, mesmo ocorrendo com um verbo reverso.

Fica então a pergunta: como motivar que AUX apresenta um padrão

de concordância diferente do verbo principal, sendo que são os mesmos argumentos envolvidos? É a partir dessa pergunta que proponho mais adiante nesta investigação que AUX e a concordância apresentada pelo verbo

principal codificam diferentes categorias gramaticais e que, portanto, não são derivadas de uma mesma operação sintática. Apresentarei, no Capítulo 5 desta dissertação, evidências de que AUX é, na verdade, um marcador de

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tópico que é realizado quando ambos o sujeito e o objeto da sentença são topicalizados. Já a concordância presente no verbo resultado de relações Agree entre as sondas-ϕ presentes em T e em v (ver Capítulo 4).

Quadros e Quer mencionam ainda que é possível a ocorrência de um verbo de concordância com a categoria AUX realizada, mas que este não deve apresentar nenhuma flexão (concordância).

Por fim, Quadros (1999) postula que AUX é gerado na posição de

núcleo de IP e que a ordem da sentença com AUX realizado será sempre SOV ou OSV. Entretanto, é preciso ainda motivar essa mudança na ordem da frase e também o que engatilha a realização de AUX nas sentenças. Além disso, destaca-se o fato de que quando realizada a categoria AUX, os verbos

principais não apresentam concordância (ou então, apresentam concordância parcial – apenas com o objeto).

Voltarei às questões levantas aqui, acerca do elemento AUX, no

Capítulo 5 desta dissertação. Mas antes, no próximo capítulo, analiso algumas propostas teóricas que discutem a concordância nas línguas de sinais.

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3.R

EVISITANDO ALGUMAS PROPOSTAS TEÓRICAS

Este capítulo tem como objetivo fazer um breve levantamento da literatura que trata sobre a concordância nas línguas de sinais. Assim, foram selecionadas algumas propostas teóricas de maior destaque na área que apresentam diferentes abordagens e explicações para o fenômeno em discussão. Além disso, aponto também algumas inconsistências apresentadas por essas análises que justificam a necessidade de uma nova explicação teórica para a concordância, especialmente em Libras. Dentre os problemas encontrados, destaca-se o fato de muitas análises apresentarem explicações puramente temáticas ou lexicais, de modo a não contemplarem como a concordância é derivada sintaticamente nas línguas de sinais.

O capítulo está organizado em seis seções. Na Seção 3.1, apresento a proposta lexicalista de Padden (1983). Já na Seção 3.2 apresento a hierarquia de Janis (1992, 1995). Nas Seções 3.3 e 3.4, respectivamente, são discutidas a proposta temática de Meir (1998, 2002) e a análise de animacidade de Rathman e Mathur (2002). Na Seção 3.5, discuto a proposta de Quadros e Quer (2008, 2010) de que os verbos de concordância reversa são, na verdade, verbos manuais. Por fim, na Seção 3.6, apresento a conclusão do capítulo.

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3.1PADDEN (1983)

Padden (1983) faz uma distinção entre três classes de verbos presentes na ASL, a saber: (i) os verbos simples, por exemplo o verbo

AMAR, que não apresentam nenhum tipo de concordância; (ii) os verbos com concordância, por exemplo o verbo AJUDAR, que apresentam concordância

com o sujeito e com o objeto da sentença; e (iii) os verbos espaciais, como o verbo IR, que estabelecem concordância com os elementos locativos da sentença.

Para motivar a diferença entre eles, Padden fornece uma explicação lexicalista, segundo a qual que esses verbos já possuem uma especificação no léxico quanto a seu comportamento sintático. Assim, apenas os verbos marcados no léxico como verbos de concordância apresentariam tal fenômeno.

Mathur e Rathmann (2012) apontam que tal análise não se mostra satisfatória, uma vez que há verbos que são simples, mas que ao longo do tempo tornam-se verbos com concordância (por exemplo, o verbo TEST em ASL e o verbo EXPLICAR em Libras que apresenta uma tendência de estabelecer concordância com o objeto, em especial com a 1ª pessoa do singular).

Além disso, a proposta de Padden não consegue dar uma explicação satisfatória para os verbos que possuem uma dualidade de status, ou seja, os

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verbos que apresentam diferentes comportamentos em diferentes contextos. Quadros e Quer (2008, 2010) trazem exemplos de verbos que podem ser tanto verbos locativos quanto verbos de concordância em Libras, tais como

DAR, LEVAR, CARREGAR, MORDER, etc. Assim, de acordo com a proposta de

Padden, esses verbos deveriam receber duas especificações no léxico, ou ainda serem listados no léxico duas ou até três vezes.

Se considerarmos que esses verbos recebem duas especificações é preciso explicar quais os mecanismos que favorecem o uso de uma especificação (verbo de concordância) ou de outra (verbo espacial). Se, por outro lado, consideramos que esses verbos são listados duas ou três vezes no léxico, tem-se um grande problema de aquisição. Afinal, a criança ou o falante em geral terá que aprender duas entradas diferentes que possuem o mesmo conteúdo semântico e que se diferem apenas por um comportamento sintático distinto (Mathur e Rathmann, 2012).

Adicionalmente, a proposta lexicalista de Padden (1983) assume que não há uma predição ou uma regularidade que faça com que os verbos sejam classificados em uma classe ou em outra. Em outras palavras, o fato de o verbo ser simples, de concordância ou espacial é simplesmente uma questão idiossincrática. Entretanto, conforme apontam Mathur e Rathmann (2012) muitos verbos de diferentes línguas de sinais apresentam um comportamento bastante similar e pertencem, geralmente, à mesma classe.

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Por fim, a proposta lexicalista não traz nenhuma explicação sobre como seria derivada a concordância nos verbos com concordância e tampouco sobre a distinção entre verbos com concordância regular e verbos com concordância reversa.

3.2JANIS (1992,1995)

Janis (1992, 1995) aponta que uma análise puramente lexicalista como a de Padden (1983) é bastante indesejável, uma vez que uma teoria linguística deve: (i) usar o menor número possível de regras para prever os fatos linguísticos; (ii) ser descritivamente adequada; e (iii) capturar generalizações sobre os dados. A proposta de Padden (1983), então, não apresenta nenhuma dessas características, uma vez que não fornece nenhum mecanismo para prever o comportamento verbal.

Sob essa perspectiva, Janis (1992, 1995) defende que a concordância verbal em ASL pode sim ser prevista com base nas propriedades dos nominais. Mais especificamente, a partir das propriedades semânticas dos argumentos da sentença.

A análise de Janis inicia-se por predizer que há duas formas distintas de concordância: uma concordância que é locativa e uma não-locativa. Todavia, o que define qual tipo de concordância ocorrerá não são os verbos em si, mas sim os nominais envolvidos. A autora afirma ainda que os traços

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que devem ser observados são os traços de caso que os nominais possuem. É feita então uma distinção entre caso locativo e caso direto. Sob essa perspectiva, os nominais que possuem caso locativo realizam concordância locativa, enquanto os que possuem caso direto realizam o que Janis chama de concordância de caso direto.

Enquanto Padden (1983) analisava os nominais apenas com base nas relações semânticas estabelecidas por eles (se os nominais são locativos ou não), Janis (1992, 1995) inclui dois outros traços necessários para a discriminação dos nominais, a saber: função sintática e animacidade.

Com relação à função sintática, Janis define que há três funções sintáticas relevantes para a análise da concordância: sujeito, objeto direto e objeto indireto. Além disso, Janis afirma que ambos os argumentos devem ser animados para que seja engatilhada a concordância (com exceção dos verbos que indicam emoções que podem selecionar um objeto inanimado e mesmo assim realizar concordância). Com base nesses traços, Janis propõe uma hierarquia de concordância em que os traços dos nominais são ranqueados de forma a poder prever quando o verbo realizará ou não concordância.

A autora propõe em primeiro lugar que a concordância locativa é hierarquicamente mais alta que a concordância de caso direto e que, por isso, se os nominais da sentença permitem que ambas as formas de concordância sejam realizadas, a concordância locativa é a privilegiada

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devido a essa hierarquia. Um nominal recebe caso locativo se for interpretado como uma localização ou como estando em uma localização que afeta a ação ou o estado caracterizado pelo verbo.

Com relação à concordância de caso direto, Janis apresenta uma hierarquia complexa que envolve função sintática, função semântica e ainda leva em consideração a animacidade dos argumentos e a morfofonologia do verbo principal. Essa hierarquia é dada em (34):

34) Hierarquia de concordância com base nos traços dos nominais: (mais baixo na hierarquia < mais alto na hierarquia)

caso direto < caso locativo |

Função sintática: sujeito < objeto direto < objeto indireto Função semântica: agente, experienciador', paciente'', recipiente

'apenas se o verbo não for preso ao corpo '' apenas se animado

Conforme mostra a hierarquia, um nominal que recebe caso direto (ou seja, não recebe caso locativo) deve possuir um traço de cada uma das duas listas (função sintática e função semântica). Adicionalmente, se dois nominais estão em competição por um único slot de concordância, aquele que possuir os traços mais altos na hierarquia irá controlar a concordância.

A proposta de Janis parece prever o comportamento da concordância e ainda dizer qual nominal irá estabelecer concordância se apenas um único slot estiver disponível. Entretanto, Mathur e Rathmann (2012) apresentam

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alguns problemas concernentes a essa análise. A primeira observação trazida pelos autores é a de que a hierarquia é bastante complexa e suas condições são difíceis de motivar. Por exemplo, como motivar que animacidade é relevante apenas se o nominal possuir função semântica de paciente? Essas condições são, portanto, bastante arbitrárias, propostas apenas para justificar os fatos encontrados na língua.

Outra questão levantada por Mathur e Rathmann (2012) é sobre a universalidade dessa hierarquia. Seria essa hierarquia realmente universal? Em caso afirmativo, como explicar a instalação dessa hierarquia na gramática do falante? E ainda, porque essa hierarquia só se manifesta nas línguas sinalizadas e não nas línguas orais?

Percebe-se, com isso, que a proposta de Janis possui certa robustez descritiva, mas é bastante inconsistente teoricamente. A autora não apresenta nenhuma motivação ou desenvolvimento teórico que explique os traços envolvidos e a disposição de cada um deles na hierarquia, tornando, portanto, o modelo frágil em termos de adequação explanatória.

3.3MEIR (1998,2002)

Meir (1998, 2002), por sua vez, propõe uma análise sintática e temática da concordância nas línguas de sinais. De acordo com a autora, as

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línguas de sinais manifestam dois tipos de concordância: uma concordância que é sintática e uma concordância de natureza temática.

Seguindo o modelo de arquitetura da linguagem proposto por Jackendoff (1987, 1990) e outros, Meir considera que a informação léxico- semântica está representada na Estrutura Léxico Conceptual (LCS – Lexical

Conceptal Structure) e na Estrutura Argumental (PAS – Predicate

Argument Structure). Além disso, as informações da LCS são mapeadas na

PAS.

Sob essa perspectiva, Meir (2002) propõe que a concordância nas línguas de sinais é, na verdade, um tipo de concordância de predicado (predicate agreement) que se estabelece na LCS. A autora assume que os verbos que apresentam concordância são verbos que denotam transferência, seja esta concreta (DAR, ENVIAR, PEGAR) ou abstrata (ENSINAR, AVISAR,

AJUDAR). Assim, a relação de concordância apresentada pelos verbos reflete

uma relação temática do tipo FONTE-ALVO.

Meir (2002) propõe então os Princípios da Morfologia de Concordância das Línguas de Sinais:

35) Princípios da Morfologia de Concordância das Línguas de

Sinais

A. A direção da trajetória do movimento de concordância do verbo vai da fonte para o alvo.

B. A direção da palma da(s) mão(s) é sempre em direção ao objeto do verbo (o alvo ou a fonte que não seja o sujeito).

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Para dar conta da trajetória do movimento, Meir (2002) propõe um morfema DIR(ecional) que se funde à raiz verbal na LCS. Quando a unificação da raiz e do morfema DIR acontece, tem-se a identificação de qual argumento é a fonte e qual é o alvo, em consonância com o principio (A) apresentado acima.

A autora propõe ainda que há duas instâncias de DIR, uma em que α marca o argumento fonte e β o argumento alvo (36) – para os verbos de

concordância regular – e uma em que a relação é invertida (37) – para os verbos de concordância reversa.

36) CAUSE ([α], [GOposs ([ ] , [Path FROM [α / ] TO [ / α])]) 14 AFF ([ ]α, [ ] )

∪ [GO ([ ] , Path FROM [ ]α TO [ ] ]

37) CAUSE ([α], [GOposs ([ ] , [Path FROM [α / ] TO [ / α])]) AFF ([ ]α, [ ] )

∪ [GO ([ ] , Path FROM [ ] TO [ ]α ]

Assim, em uma sentença de concordância regular do tipo “α DAR β LIVRO” a fusão da raiz verbal com o morfema DIR resultaria na LCS dada

em (38a). Já a LCS de uma sentença de concordância reversa do tipo “α

PEGAR β LIVRO” é dada em (38b).

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O primeiro tier CAUSE refere-se às relações temáticas-espaciais estabelecidas na LCS, enquanto o tier AFF refere-se à relação de afetação entre os argumentos.

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38) a. CAUSE ([α], [GOposs ([BOOK] , [Path FROM [α] TO [ ]])]) AFF ([ ]α, [ ] )

b. CAUSE ([α], [GOposs ([BOOK] , [Path FROM [ ] TO [α]])]) AFF ([ ]α, [ ] )

É importante destacar que, segundo essa proposta, DIR atribui os papéis temáticos de cada argumento e estabelece a relação de concordância antes mesmo de se unir à raiz verbal. Entretanto, a autora aponta que nesse estágio os traços referenciais dos argumentos não são checados por DIR. É adotada então uma espécie de flexão dentro da própria derivação que, vale lembrar, se dá em um estágio pré-sintático.

Meir continua argumentando que, uma vez que a relação de afetação é a mesma em ambas as LCS, tanto os verbos de concordância regular quanto os verbos de concordância reversa apresentarão a mesma PAS, o que resulta na ordem SVO em ambas as construções, independentemente de o sujeito e objeto serem, respectivamente, fonte e alvo, ou vice-versa.

Quanto à ordem inversa da concordância, o modelo proposto atribui à linearização em PF a tarefa de manter sempre o afixo de concordância que se refere ao argumento fonte à esquerda do verbo e o afixo referente ao argumento alvo à direita do verbo. Um problema para essa proposta é que, de acordo com a própria autora, a derivação sintática não leva em consideração as relações do tipo fonte-alvo que se estabelecem na LCS, apenas o segundo tier AFF. Então fica a pergunta: como a linearização em PF, que opera sobre o produto da derivação sintática, ou seja, sobre a

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estrutura hierárquica gerada durante a derivação, pode ter acesso a traços que foram atribuídos na LCS e que não foram computados na sintaxe? Ou seja, como explicar que durante a linearização duas estruturas sintáticas idênticas (a dos verbos com concordância regular e a dos verbos com concordância reversa) resultem em padrões de afixação opostos?

Outra predição feita pelo modelo é o que consta no princípio (B), de que a face da mão estará sempre voltada para o objeto sintático, independentemente de este ser uma fonte ou um alvo. A partir dessa constatação, Meir propõe que a orientação da palma da mão está relacionada a um tipo de concordância que é sintática e que deve ser analisada como um afixo verbal que atribui Caso dativo inerente ao objeto sintático.

Entretanto existem alguns verbos com concordância (tanto regular, quanto reversa) que não apresentam a orientação da palma da mão voltada para o objeto sintático, como por exemplo, DAR, AVISAR, XINGAR, CONVIDAR, PERGUNTAR, etc. Além disso, parece pouco provável que o objeto sintático de um verbo do tipo XINGAR ou PEGAR seja marcado com

Caso dativo e não com Caso acusativo, o que também é questionado por Quadros e Quer (2008).

Em suma, a proposta de Meir (2002) considera que os verbos de concordância são constituídos por uma raiz verbal que denota um evento de transferência, um morfema DIR que estabelece a trajetória da concordância de predicado e a orientação da palma da mão que seria um afixo atribuidor

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de caso dativo inerente. Entretanto, ainda é possível apontar outros problemas com relação a essa análise.

Quadros e Quer (2008, 2010) chamam a atenção para o fato de que alguns verbos que apresentam concordância selecionam um argumento interno do tipo tema e não um alvo ou uma fonte, por exemplo, os verbos

CONVIDAR, PRESSIONAR, CHAMAR, ESCOLHER, etc. Além disso, os autores

questionam se realmente existe uma leitura de transferência em verbos do tipo CONVIDAR e ESCOLHER.

Outra questão apontada por Quadros e Quer (2008) é a de que, se realmente a concordância é uma questão temática, os verbos deveriam apresentar o mesmo comportamento inter-linguisticamente. Entretanto, o que se observa é que um verbo com a mesma estrutura temática pode apresentar concordância regular em uma língua e concordância reversa em