C. Araştırmanın Metodu
1. FOLKLOR VE SÖZLÜ ZAZA EDEBİYATI
3.2. Sait Altun
Esaú e Jacó, dois nomes que o próprio Aires citou nos capítulos XIV e XV, fazem referência à história bíblica dos gêmeos que brigaram no ventre da mãe, pressagiando a hostilidade entre dois povos irmanados – os edomitas, descendentes de Esaú, e os israelitas, descendentes de Jacó. Segundo o primeiro livro da Bíblia:
Eis a história de Isaac, filho de Abraão. Abraão gerou Isaac. Isaac tinha a idade de quarenta anos quando se casou com Rebeca, filha de Batuel, o arameu, de Padã-Arã, e irmã de Labão, o arameu. Isaac rogou ao Senhor por sua mulher, que era estéril. O Senhor ouviu-o e Rebeca, sua mulher, concebeu. Como as crianças lutassem no seu ventre, ela disse: “Se assim é, por que me acontece isso?” E ela foi consultar o Senhor, que lhe respondeu: “Tens duas nações no teu ventre; dois povos se dividirão ao sair de tuas entranhas. Um povo vencerá o outro, e o mais velho servirá ao mais novo88. O gêmeo que nasceu primeiro foi chamado Esaú. Saiu em seguida o seu irmão, segurando o calcanhar do primogênito, e deram-lhe o nome de Jacó. O primeiro tornou-se homem do campo e caçador, conquistando a afeição do pai. O segundo, mais pacífico e caseiro, tornou-se o predileto da mãe. Um dia, Esaú desprezou o seu direito de primogenitura, vendendo-o ao irmão em troca de um prato de comida.
Como Isaac não estava a par da negociação e a mãe tinha preferência pelo caçula, ela planejou um golpe para enganar o patriarca, que estava velho e cego. Rebeca ajudou Jacó
a passar-se por Esaú, para roubar o direito de herança deste. Com o ardil, Jacó ganhou a bênção do pai e usurpou do irmão a posição privilegiada de sucessor. Quando a farsa foi descoberta, Isaac confirmou a benção ao impostor.
Em mitos bíblicos anteriores sobre a rivalidade de irmãos, Deus comparecia de forma ativa, dirigindo os acontecimentos, declarando suas escolhas. Veja-se, por exemplo, o caso de Caim e Abel, onde Deus dá preferência à oferenda do segundo em detrimento à do primeiro; ou a história dos meios-irmãos Ismael e Isaac, em que Deus interfere nos rumos da sucessão familiar, determinando que o segundo dê continuidade à linhagem patriarcal. A narrativa bíblica sobre Esaú e Jacó se distingue por ser guiada por artimanhas humanas, ainda que estas cumpram aquilo que foi predestinado por Deus, que aparece para dar a palavra final:
“Eu sou o Senhor, o Deus de Abrãao, teu pai e o Deus de Isaac; darei a ti e à tua descendência a terra em que estás deitado. Tua posteridade será tão numerosa como os grãos de poeira no solo; tu te estenderás para o ocidente e para o oriente, para o norte e para o meio-dia, e todas as famílias da terra serão benditas em ti e em tua posteridade. Estou contigo, para te guardar onde quer que fores, e te reconduzirei a esta terra, e não te abandonarei sem ter cumprido o que te prometi”89.
A passagem acima deixa bem claro que Deus abençoou a falcatrua de Rebeca e Jacó, anunciando o impostor como o herdeiro que virá a gerar a linhagem do povo hebreu. Confirma-se, assim, a profecia divina, segundo a qual o mais velho servirá o mais novo. E Jacó veio a ser o último patriarca da história israelita, o pai do qual descenderam as doze tribos de Israel, cada uma com origem em um dos seus doze filhos.
Qual a relação do mito bíblico com a ficção machadiana? Luiz Costa Lima avalia que, em Esaú e Jacó, a consulta muda de tempo e figura. De tempo, pois os gêmeos já cumpriram um ano quando Natividade sobe o morro do Castelo (que foi um dos pontos de fundação do Rio de Janeiro no século XVI). De figura, pois o consultado não é o deus Javé, mas Bárbara, a cabocla em que os brancos acreditavam sem admiti-lo em público. Senhoras da sociedade, como Natividade e Perpétua, precisavam disfarçar sua presença e interesse90.
Ironicamente, Bárbara inicia a consulta repetindo um caso da passagem bíblica. Só que, enquanto no Gênese afirmava-se a briga no ventre, a pitonisa brasileira deixa a dúvida no ar, e indaga se os gêmeos não teriam brigado no ventre de sua mãe. Insinua-se que, tendo ou não brigado no útero, em algum outro lugar haveriam de fazê-lo:
89 BÍBLIA. Gênese, 28, 10-15, p. 75.
Enquanto o fumo do cigarro ia subindo, a cara da adivinha mudava de expressão, radiante ou sombria, ora interrogativa, ora explicativa. Bárbara inclinava-se aos retratos, apertava uma madeixa de cabelos em cada mão, e fitava-as, e cheirava-as, e escutava-as, sem a afetação que porventura aches nesta linha. Tais gestos não se poderiam contar naturalmente. Natividade não tirava os olhos dela, como se quisesse lê-la por dentro. E não foi sem grande espanto que lhe ouviu perguntar se os meninos tinham brigado antes de nascer.
– Brigado?
– Brigado, sim, senhora. – Antes de nascer?
– Sim, senhora, pergunto se não teriam brigado no ventre de sua mãe; não se lembra?
Natividade, que não tivera a gestação sossegada, respondeu que efetivamente sentira movimentos extraordinários, repetidos, e dores, e insônias... Mas então que era? Brigariam por quê? A cabocla não respondeu. [...] Natividade instou pela resposta, que lhe dissesse tudo, sem falta...
– Coisas futuras! – murmurou finalmente a cabocla. – Mas, coisas feias?
– Oh! não! não! Coisas bonitas, coisas futuras!
– Mas isso não basta; diga-me o resto. Esta senhora é minha irmã e de segredo, mas se é preciso sair, ela sai; eu fico, diga-me a mim só... Serão felizes?
– Sim.
– Serão grandes?
– Serão grandes, oh! grandes! Deus há de dar-lhes muitos benefícios. Eles hão de subir, subir, subir... Brigaram no ventre de sua mãe, que tem? Cá fora também se briga. Seus filhos serão gloriosos. É só o que lhe digo. Quanto à qualidade da glória, coisas futuras!91
Outra distinção entre Esaú e Jacó e a Bíblia é que Rebeca engravida por intervenção de Isaac junto a Javé, pois até então fora estéril. No romance, escrito após a morte de Deus, Natividade engravida a contragosto e de forma imprevista. Santos, o marido e pai das crianças, sentiu o prazer da vida nova mais do que ela, que a princípio hesitou em aceitar o novo estado:
Natividade não foi logo, logo, assim; a pouco e pouco é que veio sendo vencida e tinha já a expressão da esperança e da maternidade. Nos primeiros dias, os sintomas desconcertaram a nossa amiga. É duro dizê-lo, mas é verdade. Lá se iam bailes e festas, lá ia a liberdade e a folga. Natividade andava já na alta roda do tempo; acabou de entrar por ela, com tal arte que parecia haver ali nascido. Carteava-se com grandes damas, era familiar de muitas, tuteava algumas [...] No meio disso, a que vinha agora uma criança deformá-la por meses, obrigá-la a recolher-se, pedir-lhe as noites, adoecer dos dentes e o resto? Tal foi a primeira sensação da mãe, e o primeiro ímpeto foi esmagar o gérmen. Criou raiva ao marido. A segunda sensação foi melhor. A maternidade, chegando ao meio-dia, era como uma aurora nova e fresca. Natividade viu a figura do filho ou filha brincando na relva da
chácara ou no regaço da aia, com três anos de idade, e este quadro daria aos trinta e quatro anos que teria então um aspecto de vinte e poucos... 92.
Por causa da gravidez, Natividade teria que abrir mão, ainda que temporariamente, do divertimento, da nomeada e de todo o repertório da “vida elegante”. A diferença modernizadora outra vez se intromete na comparação, porque “a mulher da sociedade burguesa não tem interesse em servir à comunidade, mas em usufruir de seus salões”93. Em contrapartida, “o que o embrião quer é entrar na vida”94, afirma o narrador, endossando a metafísica do amor de Schopenhauer.
O aproveitamento machadiano dos meandros da saga judaica foi escrito com a pena da galhofa. Por um lado, vê-se o uso de nomes e passagens bíblicas para ironizar, enriquecer ou ilustrar o discurso de personagens – especialmente dos irmãos Pedro e Paulo, que brigavam assim como os apóstolos de mesmo nome. Machado mencionava os dois santos como símbolos do futuro e do passado: São Paulo encarnaria o espírito do progresso, enquanto São Pedro o da conservação, a rocha, a força do passado95.
Em relação à história dos filhos de Isaac, um vínculo que merece destaque é o embuste, tendo em vista que o próprio ponto de partida do romance é “o embuste armado por Machado ao inventar a história dos manuscritos encontrados na secretária do conselheiro Aires”96. Enquanto o narrador bíblico não se detém por motivos de ordem ética ou moral, legitimando as práticas de ludibriar o pai cego e lesar o irmão, os fingimentos da vida social são ironizados pelo narrador de Esaú e Jacó, embora muitas vezes ele também compactue com os mesmos.
Por fim, se a narrativa bíblica está imbuída do pessimismo cristão – protoforma do niilismo – na prosa machadiana Tem-se o niilismo moderno, isto é, a ausência de finalidade e de resposta ao “porquê”; a crise em que os valores tradicionais se depreciam e os princípios e critérios absolutos se dissolvem nos planos social e político.
92 ASSIS. Esaú e Jacó, VI, p. 1083-1084. 93 LIMA. Sob a face de um bruxo, p. 52. 94 ASSIS. Esaú e Jacó, VI, p. 1084. 95 Cf. ASSIS. A Semana, p. 1271.