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Kurmanci Olarak (Kurmancca) Söylediğimiz Türküler (Lawiki ma yi zun

C. Araştırmanın Metodu

1. FOLKLOR VE SÖZLÜ ZAZA EDEBİYATI

4.8. Kurmanci Olarak (Kurmancca) Söylediğimiz Türküler (Lawiki ma yi zun

O niilismo, caracterizado por Nietzsche como “radical rejeição de valor, sentido, desejo”142, corrói os princípios, as instituições, os referenciais e as tradições. Ele não designa simplesmente a diluição de fundamentos, mas a ausência de todo fundamento, na medida em que constata a impossibilidade de fundamentação. Diante dessa voluptuosidade do nada, alguns indivíduos são acometidos pela frustrante paralisia da vontade. É o caso de Flora, que carrega a indecidibilidade e o niilismo que permeiam o romance.

A filha de Claudia e Batista é apresentada como mais moça que os gêmeos, a que os agrilhoou à força de costume ou de natureza, se não foi de ambas as coisas. Frágil como um vaso quebradiço, retraída e modesta, avessa a festas públicas, gostava de música, e mais do piano que do canto. Meiga criatura, definiu Aires. “Uma esquisitona, como lhe chamava a mãe”143.

Flora, que em princípio não tinha nada que a distinguisse das outras jovens de sua idade, passa a ocupar um maior espaço na trama quando o conselheiro lhe atribui um traço peculiar: “Aires, que a conheceu por esse tempo, em casa de Natividade, acreditava que a

140 NIETZSCHE. Nachgelassene Fragmente 1885-1887, p. 350. 141 ASSIS. Esaú e Jacó, CXXI, p. 1224.

142 NIETZSCHE. Nachgelassene Fragmente 1885-1887, p. 125. 143 ASSIS. Esaú e Jacó, XLVIII, p. 1137-1138.

moça viria a ser uma inexplicável”144. Por que inexplicável? Quando Flora lhe perguntou a razão do adjetivo, o aposentado pegou na mão da mocinha e inventou uma resposta vaga:

Inexplicável é o nome que podemos dar aos artistas que pintam sem acabar de pintar. Botam tinta, mais tinta, outra tinta, muita tinta, pouca tinta, nova tinta, e nunca lhes parece que a árvore é árvore, nem a choupana. Se se trata então de gente, adeus. Por mais que os olhos da figura falem, sempre esses pintores cuidam que eles não dizem nada. E retocam com tanta paciência, que alguns morrem entre dois olhos, outros matam-se de desespero145. A moça achou a explicação obscura, mas o conselheiro não acrescentou nada, para não ficar incluído entre os artistas daquela espécie. Ele bateu paternalmente na mão dela e mudou de assunto. Posteriormente, em conversa com Natividade, Aires explica a dificuldade das definições e a imprecisão que alcançam:

Flora é, como já lhe disse há tempos, uma inexplicável. Agora é tarde para lhe expor os fundamentos da minha impressão; depois lhe direi. Note que gosto muito dela; acho-lhe um sabor particular naquele contraste de uma pessoa assim, tão humana e tão fora do mundo, tão etérea e tão ambiciosa, ao mesmo tempo, de uma ambição recôndita... Vá perdoando estas palavras mal embrulhadas, e até amanhã, concluiu ele, estendendo-lhe a mão. Amanhã virei explicá-las146.

Diante da insistência da baronesa, que pedia um esclarecimento imediato, Aires afirma que a explicação era longa e difícil, e não era urgente. Ele mesmo não sabe se entende a si mesmo, nem se pensa a verdade. A despeito da hesitação do conselheiro, pode-se reconhecer a ambição recôndita de Flora no fato de que, com sua indecisão, ela abandona o lugar-comum da jovem frágil e sonhadora para assumir papel central no enredo – tenha ou não a moça essa cobiça oculta.

A “emblemática Flora, imagem do Brasil dividido por correntes de pensamento e de interesse divergente”147, ao contrário de outras personagens femininas marcantes, como as exuberantes Virgília, Marcela, Sofia e Capitu, se destaca por meio de seu apagamento. Enquanto as protagonistas de outras obras sabem muito bem o que desejam, e agem para alcançarem seus objetivos, Flora é marcada pela paralisia da vontade.

A filha de Batista e Claudia não conhece a independência no decidir, o ousado prazer no querer. As suas melhores forças se inibem, as próprias virtudes não permitem uma à

144 ASSIS. Esaú e Jacó, XXXI, p. 1114. 145 ASSIS. Esaú e Jacó, XXXIV, p. 1118. 146 ASSIS. Esaú e Jacó, LIX, p. 1153.

outra crescer e se fortalecer, falta equilíbrio no corpo e na alma. Sombria como uma “nuvem carregada de pontos de interrogação”148, ela aparece sedutoramente enfeitada.

A jovem de cabelos ruivos, rosto comprido, nariz aquilino, boca meio risonha e olhos grandes e claros, dotados de um mover cheio de graça, mavioso e pensativo, parece ser o único interesse comum dos contraditórios irmãos gêmeos Pedro e Paulo – triângulo amoroso sui generis que sintetiza o dilema da modernidade de caranguejo.

Flora recreava com os gêmeos. Às vezes, simulava “confundi-los, para rir com ambos”. Ela tocava piano para Pedro, conversava com Paulo, ou então fazia ambas as coisas, e tocava conversando, soltava a rédea aos dedos e à língua. Sem rejeitar nem aceitar especialmente nenhum, despertou a paixão nos dois. E pode ser até que nem percebesse nada:

A mãe dela cuido que percebeu alguma coisa; mas a princípio não lhe deu grande cuidado. Também ela foi menina e moça, também se dividiu a si sem se dar nada a ninguém. Pode ser. Pode ser até que, a seu parecer, fosse um exercício necessário aos olhos do espírito e da cara. A questão é que estes se não corrompessem, nem se deixassem ir atrás de cantigas, como diz o povo, que assim exprime os feitiços de Orfeu. Ao contrário, Flora é que fazia de Orfeu, ela é que era a cantiga. Oportunamente, escolheria a um deles, pensava a mãe149.

Quando um deles se ausentava, a tristeza empanava a alegria, mas a alegria vencia depressa a outra: “as duas, tristeza e alegria, agasalharam-se no coração de Flora, como as suas gêmeas que eram”150. Quisera-os ambos naturalmente, e as duas sensações se mostravam a um só tempo. “Como pode um só teto cobrir tão diversos pensamentos?”151, indaga o narrador. Com o passar do tempo, a inexplicável vai se desvendando. Ao contrário de personagens que já aparecem completas, Flora parece ser construída ao longo de toda a narrativa, se revelando ao leitor a cada parágrafo:

Enquanto indagavam dela em Petrópolis, a situação moral de Flora era a mesma – o mesmo conflito de afinidades, o mesmo equilíbrio de preferências. [...] No valor e no ímpeto podia comparar o coração ao gêmeo Paulo; o espírito, pela arte e sutileza, seria o gêmeo Pedro. Foi o que ela achou no fim de algum tempo, e com isso explicou o inexplicável152.

148 NIETZSCHE. Além do bem e do mal, §208, p. 112-113. 149 ASSIS. Esaú e Jacó, XXXV, p. 1118. Grifo meu. 150 ASSIS. Esaú e Jacó, LXX, p. 1168.

151 ASSIS. Esaú e Jacó, XCIV, p. 1196. 152 ASSIS. Esaú e Jacó, XCIII, p. 1195.

Flora nada quer. Ela opta por não optar, porque “se sentiria reduzida à metade se o fizesse, e só a posse das duas metades a realizaria; isto é impossível, porque seria suprimir a própria lei do ato, que é a opção. Simbolicamente, Flora morre sem escolher”153. Algum tempo depois de explicar o inexplicável, ela começou a ter alucinações. Os dois gêmeos, de tão iguais que eram, acabaram sendo uma pessoa só. Esse fenômeno extraordinário passou a ocorrer com frequência: “Era um espetáculo misterioso, vago, obscuro, em que as figuras visíveis se faziam impalpáveis, o dobrado ficava único, o único desdobrado, uma fusão, uma confusão, uma difusão...”154. Um delírio ao qual ela foi se acostumando e deleitando:

Tudo se mistura, à meia claridade; tal seria a causa da fusão dos vultos, que de dois que eram, ficaram sendo um só. Flora, não tendo visto sair nenhum dos gêmeos, mal podia crer que formassem agora uma só pessoa, mas acabou crendo, mormente depois que esta única pessoa solitária parecia completá-la interiormente, melhor que nenhuma das outras em separado. Era muito fazer e desfazer, mudar e transmudar. Pensou enganar-se, mas não; era uma só pessoa, feita das duas e de si mesma, que sentia bater nela o coração155.

Essas alucinações, enfraquecimento resultante de doença, coincidem com o diagnóstico, apontado no capítulo anterior, da décadence enquanto expressão fisiopsicológica do niilismo: Flora não é mais senhora de si, por causa do desregramento confesso dos instintos, sintoma da vida que declina e reduz tudo a nada. Nessa situação de perigo, ela tinha duas opções: afirmar sua vontade ou sucumbir.

Como os santos ascetas, a vontade de Flora foi quase totalmente suprimida; ela venceu os tumultos, valores e desejos inerentes ao mundo. Mas como ainda vivia ligada a um corpo, mesmo que doente, não era possível a dissolução completa dos fenômenos da vontade. Essa mortificação da vontade conduziu-a à voluptuosidade do nada.

Prejudicando a si mesma, Flora acaba morrendo vítima de sua indecisão. A morte, que põe um fim à décadence, porventura seja o único destino aceitável para terminar a construção do inexplicável: “Flora acabou como uma dessas tardes rápidas, não tanto que não façam ir doendo as saudades do dia; acabou tão serenamente que a expressão do rosto, quando lhe fecharam os olhos, era menos de defunta que de escultura”156.

Flora aniquilou os tumultos inerentes ao mundo. Mas a sua morte ocorreu em meio a um confuso movimento de grupos, patrulhas, metralhadoras e tropas nas ruas, com

153 CANDIDO. Esquema de Machado de Assis, p. 120. 154 ASSIS. Esaú e Jacó, LXXIX, p. 1179.

155 ASSIS. Esaú e Jacó, LXXXIII, p. 1184. 156 ASSIS. Esaú e Jacó, CVI, p. 1210-1211.

pessoas presas. Uns falavam de manifestações ao Marechal Deodoro, outros de conspiração contra o Marechal Floriano (presidente que desagradava às forças econômicas dominantes).

O ano do falecimento de Flora, 1891, marcou a transição definitiva da Monarquia para a República, com a promulgação da Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil. E o ano também foi particularmente trágico, com o mais violento surto de epidemias da história da cidade do Rio de Janeiro – malária, tuberculose, varíola e febre amarela, somadas aos velhos problemas de abastecimento de água, de saneamento e de higiene, resultaram em taxa recorde de mortalidade157.

O enterro da filha de Batista teve a novidade de percorrer as ruas em estado de sítio, regime de exceção instaurado pelo Marechal Floriano Peixoto diversas vezes durante o seu mandato, como uma medida provisória de proteção do Estado. Durante as velhas cerimônias funerárias, toda a gente que passava, parava. Das janelas debruçava-se a vizinhança. Todos os olhos examinavam as pessoas que pegavam nas alças do caixão. O povo, mais interessado no velório que no estado de exceção, revela a própria omissão diante dos fatos de natureza política.

Inviolável e distante, a virgem estéril não aceitou o sacrifício indispensável à renovação da vida158. Sem escolher entre Pedro e Paulo, entre a Monarquia e a República, ela corrobora o desfecho inacabado do romance, com irônica sensação de nada. Se “o que está verdadeiramente em jogo na mudança de Império a República é a passagem ou não à modernidade”159, as questões política e histórica, assim como a amorosa, ficam sem desfecho – pois no tempo, esse tecido invisível, também se pode bordar nada. O livro acaba meio que abruptamente, dando a impressão de não concluído, como se algo não tomasse forma definida e completa, como se faltasse o fim e a resposta ao “por quê”.

“Mas pode alguém dar razão ao nada? Pode o nada dar razão a alguma coisa? Pode a razão dar razão à des-razão ou àquilo que não tem razão? Certamente, não”160. Mesmo o niilismo mais profundo – que afirma a falta de sentido da vida e do mundo, e a falta de sentido das questões sobre sentido – também acaba projetando suas significativas visões de mundo como algo carente de sentido. Essa devastadora sensação de nada que se forma em sua esteira é o resumo fiel de uma experiência, que continuaremos a ver no próximo capítulo.

157 Cf. CARVALHO. Os bestializados, p. 19.

158 Cf. MEYER, Machado de Assis, 1935-1958, p. 35. 159 FREITAS. Contradições da modernidade, p. 139. 160 DOMINGUES. A filosofia no terceiro milênio, p. 32.