C. Araştırmanın Metodu
1. FOLKLOR VE SÖZLÜ ZAZA EDEBİYATI
4.2. Aşk-Ayrılık Türküleri (Lawiki zêr-cerabiyayış ser umêy vatış)
A narrativa de Esaú e Jacó, sofisticadamente elaborada, tecida como um bordado no tempo, um nada em cima de invisível, apresenta uma infinidade de pontos falsos (ou invisíveis), em que nada evolui e tudo parece esboroar-se mediante a mera enunciação: “o tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo, uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo, um túmulo. Também se pode bordar nada. Nada em cima de invisível é a mais sutil obra deste mundo, e acaso do outro”97.
Em Esaú e Jacó, se os protagonistas são Aires, Flora, Pedro e Paulo, o principal “antagonista é invisível”98 – o tempo: “Conheceis este dragão; toda a gente lhe tem dado os mais fundos golpes que pode, ele esperneia, expira e renasce”99. Simultaneamente vivo e defunto, tanto vale matá-lo como nutri-lo, avalia o narrador. Matar ou nutrir o tempo, o que dá no mesmo, é uma das maiores preocupações do homem moderno, que elabora toda sorte de divertimentos para preencher (nutrir) ou passar (matar) as horas e os minutos. Quem, como esse dragão, sofre violência ou ameaça de constrangimento, tem o direito de pedir uma ordem de habeas corpus a seu favor: “Este desejo de capturar o tempo é uma necessidade da alma e dos queixos; mas ao tempo dá Deus habeas corpus100.
Habeas corpus ad subjiciendum: “traga o corpo que está sob sua guarda”. Este é um dos instrumentos jurídicos mais fundamentais das democracias modernas, que existe com o propósito de garantir que ninguém tenha seu direito de ir e vir ilegalmente tolhido. Direito que até mesmo o finado Deus concedeu ao “imortal tempo”101.
Esse breve excurso sobre o tempo nos remete ao título desta subseção. O leitor, que ainda se lembrará das palavras sobre a modernidade capenga, dado que me tenha lido a seção anterior, sabe que a expressão se refere às contradições inerentes à passagem incompleta do Brasil à modernidade. Pois “modernidade de caranguejo” é um conceito gêmeo. Filhos do mesmo pai, ambos identificam processos pares, que compõem um conjunto: “O choque entre a razão autocrática (sem autocrítica) e a desrazão enfurecida configura a nossa modernidade de caranguejo, sempre andando de lado”102.
97 ASSIS. Esaú e Jacó, XXII, p. 1104.
98 CALDWELL. Machado de Assis: the Brazilian master and his novels, p. 162. 99 ASSIS. Esaú e Jacó, LXXXIX, p. 1189.
100 ASSIS. Esaú e Jacó, XXIII, p. 1106. 101 ASSIS. Esaú e Jacó, XXXIII, p. 1117.
Marcus Freitas indica que usou a metáfora do caranguejo por ser um animal que, podendo ser encontrado em diversos ambientes, tanto de água doce e salgada como terrestres, anda para os lados, nunca para frente. Porventura também tivesse em vista o regionalismo mineiro, que chama de caranguejo ao indivíduo lento e vagaroso. A modernização brasileira seria lenta e vagarosa, movendo-se para os lados, conciliando contradições como paradigma científico e escravidão, capitalismo urbano e modelo socioeconômico agrário, continuidade e reiteração da centralização de poder, a despeito da mudança de Império a República, dentre outras características já avaliadas.
Para pensar o problema, eu acrescento a palavra gêmea “caranguejola”, usada por Pedro para adjetivar a Proclamação da República103. Além de designar um crustáceo da costa atlântica rochosa da Europa, por extensão de sentido, remete a um conjunto infirme de coisas ou estrutura instável composta de objetos superpostos; por analogia, refere-se a qualquer coisa mal presa, em desequilíbrio, sem sustentação confiável; em uso pejorativo, significa empresa ou sociedade pouco confiável, sistema político corrupto, objeto velho ou sem valor. Todas essas características estão presentes na modernidade de caranguejo.
Paulo Margutti, em seu estudo da especificidade da Península Ibérica no contexto da modernidade europeia, afirma que na época das revoluções científica e religiosa a região já tinha assumido uma forma moderna que conservava o seu espírito medieval, de tal modo que os lusitanos conseguiram manter as suas tradições medievais de maneira relativamente estável, apesar das mudanças que foram levados a adotar, em virtude das novas contingências históricas com que se defrontaram. Essa conjuntura, segundo o filósofo, permitiu o aparecimento de um fenômeno tipicamente ibérico, que ele descreve mediante o oximoro “modernização conservadora”, outro conceito gêmeo da modernidade de caranguejo:
Fortemente marcados pelo conservadorismo e pelo salvacionismo medievais que conseguiram preservar com relativo sucesso durante a dominação moura por meio de mecanismos para enfrentar as revoluções científica e religiosa. O resultado, como vimos, foi o desenvolvimento de uma modernidade sui generis, em que os processos econômicos ligados ao descobrimento e à colonização de terras no além-mar conviveram mais ou menos pacificamente com uma visão de mundo medieval. Na construção dessa modernidade, os portugueses e espanhóis contribuíram grandemente para o estabelecimento das bases iniciais das revoluções em questão, mas, para preservar as suas crenças católicas medievais, não passaram desse passo inicial. Eles recuaram quando as modificações que se anunciavam puseram em perigo essas mesmas crenças. Esse processo decorreu de um impressionante apelo à já mencionada modernização conservadora que marca a Península Ibérica104.
103 Cf. ASSIS. Esaú e Jacó, LXVII, p. 1165.
Essa modernização conservadora, traço cultural típico dos ibéricos, herdado pelo Brasil, é excludente, porque “deixou de fora largas parcelas dos candidatos a cidadãos, em função do viés autocrático de sua implantação”105. É, assim, uma boa caracterização para o processo que ocorreu no país no período da Proclamação da República, tal como tematizado em Esaú e Jacó.
Se a modernidade ocidental foi definida como o desencantamento do mundo, a narrativa de Esaú e Jacó parece assistir ao desencantamento e à falência dos valores num momento em que a sociedade brasileira vivia a incompletude – ou até mesmo a irresolução – entre o arcaico e o moderno, a monarquia e a república, impulsos modernizadores e reações conservadoras.
O movimento ambíguo e contraditório da modernidade de caranguejo e a justaposição de estruturas históricas díspares constituem a nervura da obra, que trata do colapso da sociedade estamental dentro do capitalismo brasileiro daquela época, recém-saído da escravatura, que foi legalmente abolida em 13 de maio de 1888, mas ainda hoje persiste: “Consolidada por seu grande papel no mercado internacional, e mais tarde na política interna, a combinação de latifúndio e trabalho compulsório atravessou impávida a Colônia, Reinados e Regências, Abolição, a Primeira República, e hoje mesmo é matéria de controvérsia e tiros”106. Essa modernidade de caranguejo, contexto histórico da emergência do niilismo no Brasil, tem sua reductio ad absurdum no episódio da tabuleta da confeitaria do Custódio, que será abordado mais adiante.