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Conforme apresentado no capítulo anterior, a Gramática Cognitiva postula que as unidades linguísticas são pareamentos entre uma conceituação e uma expressão fonológica. Estabelece-se este vínculo por meio da chamada relação de simbolização, e uma unidade linguística pode apresentar diferentes graus tanto de convencionalidade (aceitação e compartilhamento entre os falantes de uma determinada língua) e de entrincheiramento psicológico (grau de automatização do domínio de uma expressão por um falante em particular). Ao descrever as características básicas do tratamento dado ao componente semântico (conceituação) das unidades linguísticas, definiu-se que o significado de uma unidade constitui-se a partir de dois componentes básicos: uma base conceitual formada por um domínio conceitual (ou uma matriz composta por diversos domínios) e um conjunto de operações de perspectivação conceitual que recortam os domínios conceituais evocados por uma unidade linguística e moldam os diferentes modos de construir e visualizar uma determinada entidade em um (conjunto de) domínios conceituais.

O presente capítulo aborda a questão da causalidade a partir do ponto de vista da Gramática Cognitiva e abordagens nela baseadas. Conforme havia sido exposto no capítulo anterior, as diferentes linhagens teóricas da Linguística alternam entre definir com precisão de que se trata quando se fala de causalidade e a descrição dos contextos de uso de expressões linguísticas cujo significado baseia-se na causalidade. A tradição formalista, argumentou-se, procura por uma definição científica da causalidade e aborda este conceito a partir de perspectivas externalistas, ou seja, sem levar em consideração os aspectos psicológicos do usuário da língua e de seu contexto sociocultural. A tradição funcionalista, por outro lado, coloca para si o objetivo de descrever as funções e os usos de expressões consideradas como causais, mas não engaja numa explicação sobre as bases conceituais que definem o fenômeno causal, baseando-se essencialmente no conhecimento intuitivo do falante sobre o conceito. É no contexto da Linguística Cognitiva que a possibilidade de unir ambos os objetivos ganha corpo: o framework cognitivista permite a definição de um conceito de causalidade que se adequa à experiência cognitiva humana e explora as diferentes maneiras de emprego deste conceito em diferentes eventos de uso. A Gramática Cognitiva, sendo o ramo da Linguística Cognitiva mais bem desenvolvido até o presente momento para a descrição gramatical, oferece o aparato teórico necessário à abordagem pertinente do tema da causalidade e, mais especificamente, dos conectores oracionais causais; onde o aparato da Gramática Cognitiva é insuficiente, existem pontos de diálogo com outros frameworksda linhagem como, por exemplo, a Semântica Cognitiva, de Talmy (2000a, 2000b).

As seções seguintes apresentarão o tratamento dado à causalidade no contexto da Gramática Cognitiva e de abordagens que dela derivam ou que com ela fazem interface. Conforme já mencionado, a Gramática Cognitiva dispõe de aparato teórico bastante avançado para a descrição de estruturas gramaticais, mas alguns aspectos que envolvem as diferentes bases conceituais (domínios de experiência) precisam ser mais bem desenvolvidos, aqui estabelece-se a interface com o sistema de dinâmica de forças, descrito por Talmy (2000a, p. 409-70), para descrever a base conceitual da causalidade em termos de abstrações conceituais sobre a interação de forças físicas estendidas para outros domínios experienciais. Embora essa seja a abordagem favorecida pelo autor do presente estudo para a descrição da base conceitual da causalidade, pois permite alicerçar os elementos básicos da causalidade em aspectos bem definidos da experiência humana; autores como Pander Maat & Degand (2001) preferiram importar definições lógico-matemáticas mais abstratas, desenvolvidas por Mackie (1965) para fundamentar sua proposta de pesquisa. Por isso, ambas as possibilidades serão apresentadas e confrontadas. Dado que o estudo original de Pander Maat & Degand (2001) dita as diretrizes para o presente trabalho, serão as definições por ele apresentadas que pautarão a análise, mas, sempre que possível, será feita a contraposição com a abordagem de Talmy. Essas possibilidades de descrição das bases conceituais da causalidade são tema da seção 2.2.

A seção 2.3, por sua vez, abordará as questões pertinentes a operação de perspectivação conceitual denominada perspectivação e sua suboperação alinhamento subjetividade/objetivi- dade, envolvidas na construção do significado dos conectores oracionais da língua alemã — da, denn e weil. Essa proposta de análise foi inicialmente desenvolvida para o holandês, por Pander Maat & Degand (2001), e posteriormente extendida para o francês, inglês e polonês; o alemão figura apenas como coadjuvante no estudo contrastivo de Pit (2003) sobre subjetificação (cristalização de um arranjo específico do alinhamento supracitado) em conectores oracionais, no qual, entretanto, não se trata diretamente da questão da categorização do significado dos conectores oracionais do alemão em termos de um gradiente de relações causais. Esse gradiente de relações causais proposto por Pander Maat & Degand (2001) parte da base conceitual abstrata proposta por Mackie (1965), e da escala de alinhamento subjetividade/objetividade, desenvolvida por Langacker (1987, 1991, 2008), para descrever diferentes possibilidades de uso da causalidade. É preciso notar desde já que o gradiente diz respeito essencialmente a diferentes formas de causalidade passíveis de serem encontradas no uso linguístico como elementos de coerência, sendo esta causalidade codificada ou não por meio de conectores oracionais. O presente tra- balho, entretanto, volta sua atenção somente para os usos que envolvem conectores oracionais sintáticos, ou seja, as unidades linguísticas tradicionalmente conhecidas como conjunções, e procurará demonstrar como especificamente os conectores da língua alemã que se enquadram nesta categoria podem ser organizados nos termos desse gradiente relacional.