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3.6.1 Variáveis de rastreamento ocular e de registro de teclado e mouse

Como apresentado no capítulo teórico deste estudo, o esforço cognitivo pode ser estudado por meio de indicativos. Neste estudo, esses indicativos são provenientes de certas variáveis oriundas: i) dos dados de rastreamento ocular e de registro de teclas e mouse, no caso dos instrumentos de coleta em tempo real; e ii) dos protocolos verbais, no caso dos instrumentos introspectivos. 1. RECEPÇÃO DO PARTICIPANTE Esclarecimentos sobre a pesquisa e assinatura do termo de consentimento 2. TESTE DE CÓPIA Calibragem (Tobii e Translog-II) Aferição taxa de rastreamento Correção (distância, altura, posicionamento etc.) 3. COLETA PRINCIPAL Calibragem (Tobii e Translog II) 4. PROTOCOLO LIVRE Ratreamento ocular. Gravação de voz (Tobii). Uso da função Replay (translog-II) 5. PROTOCOLO GUIADO Ratreamento ocular. Gravação de voz (Tobii). TT estático 6. QUESTIONÁRIO Apresentação do questionário. para posterior preenchimento on- line 7. DESPEDIDA Compromisso com a divulgação dos resultados

No primeiro caso, são indicativos de esforço cognitivo variáveis como número e duração de fixações, número e duração de visitas, bem como número e duração de pausas de produção textual e movimentos recursivos (e.g., inserções e eliminações). No que se refere aos dados coletados via instrumentos introspectivos, as informações dos protocolos verbais são utilizadas como complemento à interpretação dos dados anteriormente citados, buscando-se averiguar a capacidade de metarreflexão do participante.

Contudo, com o fim de se estudar o processamento cognitivo em processos de tradução, alguns dados devem ser descartados. Just e Carpenter (1980) pontam que, em uma leitura silenciosa, a média da duração das fixações gira em torno dos 225 ms. Pavlović e Jensen (2009) e Hvelplund (2011) descartam participantes com fixações com duração média menor que 200 ms. Sjørup (2013) descarta os participantes com fixações com duração média inferior a 180 ms, mesmo valor utilizado neste estudo.

Com relação às pausas, Alves (2005, p. 8) define ritmo cognitivo como “um padrão de alternância rítmica entre pausas e redação no decorrer de um tempo total de produção textual”. Nesse sentido, o autor assevera que as pausas podem ser consideradas um indicativo de processos cognitivos subjacentes. Diante disso, o número e a duração das pausas também foram analisados.

Jakobsen (2005) classifica as pausas entre longas e curtas. As pausas longas costumam ocorrer no início e no fim do processo de tradução. Ocorrem, também, antes e depois de um parágrafo ou oração. Com base nessas observações, Jakobsen identificou as três fases do processo tradutório: orientação, redação e revisão. Para este estudo, adotou-se a duração de 2,4 segundos, métrica proposta por Jakobsen e adotada por pesquisas recentes do LETRA.

Diante do exposto, as variáveis utilizadas no presente estudo são aquelas apresentadas no Quadro 13.

Quadro 13 - Variáveis utilizadas no estudo Variáveis utilizadas no estudo

Duração média da fixação (≥ 180 ms) total, por AOI e MAOI Número de fixações total, por AOI e MAOI

Número e duração de visitas total, por AOI e por MAOI Número de transições entre AOI

Número e duração das pausas (2,4 s)

3.6.2 Extração e análise dos dados

Similarmente à metodologia de coleta, a metodologia de análise também foi pautada na metodologia de triangulação de dados. Partiu-se do pressuposto de que a combinação de diferentes instrumentos de coleta proporciona “maior rigor metodológico, maior potencial de replicabilidade dos estudos e, consequentemente, maior capacidade de generalização dos resultados” (ALVES, 2003, p. 14).

Dito isso, a análise dos dados se deu de forma independente e interligada. Primeiro, analisam- se os dados referentes a cada variável: número e duração de visitas (total, por AOI e por MAOI), número e duração de fixações (total, por AOI e por MAOI), transições realizadas entre as AOI, número e duração de pausa (total e por fase do processo tradutório), número de microunidades de tradução e dados dos protocolos verbais. Posteriormente, os dados são triangulados.

3.6.2.1 Extração e análise dos dados de rastreamento

Para a extração dos dados de rastreamento, é necessária a criação de cenas. Primeiramente foram criadas as cenas para, então, serem criadas as áreas de interesse. Essas cenas, criadas no âmbito do programa Tobii Studio 3.3.0, possibilitaram a exclusão de trechos do processo que não interessavam à pesquisa, como a leitura do comando e resquícios de tempo desassociados da tarefa em si, como os relacionados com ativação da tecla stop (Translog-II) e com o encerramento do Tobii Studio, ambos realizados pelo pesquisador.

Uma vez criadas as cenas, que iniciam no momento em que o participante começa a ler o ST e terminam quando o participante conclui a tarefa, foram criadas as áreas de interesse (AOI) com o auxílio da função “Create AOI”, do próprio Tobii Studio. Como o objetivo central deste estudo é a caracterização do processo de (re)tradução, criaram-se quatro grandes áreas, uma para cada texto envolvido no processo, ou seja, ST, TT, T1 e T2.

Posteriormente, procedeu-se à extração dos dados relativos, às transições (visitas) e às fixações, adotando-se como filtro o padrão do Tobii Studio I-VT (velocity-threshold identification). O referido filtro classifica o movimento do olhar em três categorias: fixações, sacadas e indeterminado (unclassified). Foram descartados todos os participantes que

de 70% do tempo olhando para a tela do computador (gaze time on screen). Apesar de haver autores que questionam essa medida arbitrária (cf. HVELPLUND, 2014), optou-se pelo seu uso, tendo em vista que outras pesquisas já a utilizaram e que ainda há uma falta de consenso no que tange à definição do que seja significativamente alto (O’BRIEN, 2009). Parte-se do pressuposto que quanto maior o número e duração de visitas e fixações, maior o esforço cognitivo.

Foram extraídos os dados de rastreamento das AOI e das MAOI. Os dados foram exportados para tabelas do Excel e organizados para a leitura por outros programas estatísticos como o R, versão 3.1.1 e o SPSS (Statistical Package for the Social Sciences)29 versão 17. Com o programa R, foram realizados os testes de normalidade de Shapiro Wilk e os testes comparativos (i.e., teste T e Wilcoxon pareados); com o SPSS, foram realizados os testes de correlação.

3.6.2.2 Extração e análise dos dados de registro de teclado e mouse

Com respeito aos dados de registro de teclado e mouse, empregou-se o aplicativo LRSB (Linear Representation Spreadsheet Builder)30 para extrair os dados (Figura 15).

29

O software passou a se chamar IBM SPSS. Disponível em: <http://www- 01.ibm.com/software/analytics/spss/> e <http://semiologiamedica.blogspot.com.br/2009/10/o-spss-statistical- package-for-social.html>. Acesso em: 10 nov. 2015. Neste estudo, utiliza-se somente a sigla SPSS.

30 Software livre desenvolvido por Gabriel Eduardo na Universidade Federal de Uberlândia (Projeto

2014PBG00083) com supervisão do professor Dr. Igor A. Lourenço da Silva. Disponível em: <https://github.com/gabrieleduardo/LRSB/blob/master/Netbeans%20Project/LRSB/dist/LRSB.jar>. Acesso

Figura 15 –Tela do aplicativo LRSB (Linear Representation Spreadsheet Builder)

Como pode ser depreendido da Figura 15, o LRSB trata os arquivos extraídos do Translog-II e disponibiliza os dados em forma de tabela. A representação linear e a contagem das microunidades de tradução são geradas a partir do valor da pausa determinado pelo pesquisador, de acordo com seus objetivos de pesquisa. Ao clicar em “Start”, o programa gera planilhas como a demonstrada na Figura 16.

Figura 16 - Exemplo de planilha gerada pelo LRSB (Linear Representation Spreadsheet Builder)

Como mostra a Figura 16, a planilha gerada pelo LRSB disponibiliza dados referentes à sequência de microunidades (coluna B), a representação linear (coluna C), as pausas com valores iguais ou superiores ao mínimo de 2400 ms determinado pelo pesquisador, tempo de início e fim da microunidade (colunas E e F, respectivamente), duração do processo de elaboração da microunidade (coluna G), bem como número de acionamentos de inserção e

eliminação (colunas H e I). As planilhas geradas são individuais, por participante. Parte-se do pressuposto que quanto maior o número de segmentos e duração da pausa, maior o esforço cognitivo.

Vale salientar que, para análise dos dados de segmentação textual, restrito ao número de microunidades de tradução, utilizou-se informação advinda dos protocolos verbais, além de observação direta dos processos dos participantes por meio da função replay do Tobii Studio.

Com os dados extraídos e adequadamente refinados, procedeu-se à análise, sistematizada, primeiramente, com os dados gerais e, posteriormente, por AOI, por MAOI, por grupo de participante (G1 e G2), por participante e por fase do processo tradutório, dependendo da pertinência da análise, além dos protocolos livres e guiados. Mais especificamente, os dados de rastreamento foram tratados em termos gerais, por AOI, por MAOI e por grupo de participante; os dados de registro de teclado e mouse foram tratados em termos gerais (e.g., duração total da tarefa), por fase do processo tradutório, por grupo de participantes e por participante; e os dados introspectivos foram tratados por tipo de instrumento (protocolos livre e guiado) e por participante.