A compreensão da infância dessas mulheres é um elemento importante em nossa análise, pois ajuda a compor um quadro mais completo de suas histórias, de seus relacionamentos, de seus ensinamentos e pertencimentos. As narrativas revelam a imagem que elas têm de sua infância, bem como os papéis sociais que, naquela época, em suas terras de origem, já estavam sendo atribuídos por seus pais e sendo desempenhados por elas. Revelam uma infância vivenciada em sítios, recheada de brincadeiras, mas também sobrecarregada pela necessidade de ajudar os pais no trabalho. Recordam a relação entre pais e filhos e afirmam que, em seus tempos de criança, os filhos já aprendiam a trabalhar cedo, sendo ensinados pelos pais. Revelam ainda a relação entre os próprios pais e destacam a autoridade paterna nessa relação.
Em geral, tanto as mulheres nordestinas quanto as paranaenses nasceram em núcleos familiares patriarcais, caracterizados pela autoridade e dominância masculina sobre a figura feminina e sobre os filhos. São núcleos nos quais os filhos e as mulheres estavam sob a chefia do patriarca, recebendo ordens dele e desempenhando seus papéis sociais, segundo as normas desse modelo. É muito comum, nesse sentido, as mulheres trabalharem na roça, plantando e colhendo, bem como produzindo e manufaturando alimentos, como forma de ajuda ao serviço do marido, mas também desempenhando, necessariamente, os trabalhos domésticos sem, contudo, receber a ajuda do cônjuge. São mulheres que, de certa forma, aceitavam a dominação masculina e a encaravam como natural. Conforme destacou Bordieu (1999), a dominação masculina é resultado de uma violência suave, quase imperceptível e, portanto, é vista pelos dominadores e, também, pelos dominados, como normal, como algo natural. Ou seja, segundo o autor, a dominação masculina deixa de ser encarada como arbitrária e passa a ser entendida, pelos sujeitos sociais, como natural. Eles naturalizam aquilo que, na verdade, foi culturalmente criado.
Muitas dessas famílias nordestinas e paranaenses moravam e trabalhavam em terras de fazendeiros, produzindo para os donos da fazenda e plantando para si em pequenas áreas de terra na fazenda. Trabalhavam não só o homem, mas também a mulher e os filhos, como forma
de complemento ao trabalho do primeiro. Um sistema parecido com o que Silva (2004) chama de colonato. Com o final do trabalho escravo e o início da mão de obra livre, com a chegada dos imigrantes europeus, o colonato, segundo a autora, foi adotado por fazendeiros de café no estado de São Paulo no final do século XIX, vindo a perdurar até por volta de 1960. Nesse sistema, os fazendeiros contratavam unidades familiares, e o trabalho das mulheres estava incluído no contrato feito com a sua família; nesse processe, a família recebia proporcionalmente ao número de braços aptos ao trabalho. Em contrapartida, tinha permissão para plantar culturas de subsistências intercalares nos cafezais. “O que a família conseguia produzir era usado para a sua subsistência e o excedente poderia ser comercializado pelos colonos, vendido ao próprio fazendeiro ou nas fazendas, vilas ou cidades da vizinhança” (SILVA, 2004: p. 556). A família era, simultaneamente, produtora e consumidora.
Nesse sistema, o trabalho da mulher era importante na indústria doméstica, em que ela preparava carnes de vaca e de porco, gorduras, doces, conservas farinha de milho, etc. Além disso, fabricava sabão, costurava roupas para toda a família, produzia rapaduras, queijo, manteiga, bem como beneficiava arroz e café nos pilões. As filhas também ajudavam as mães com a indústria doméstica e com o serviço do lar. A participação dos homens na indústria doméstica era bem limitada, referindo-se mais à produção de cestos, balaios, móveis, etc. Mas, apesar do importante papel das mulheres na produção, seu trabalho individualizado não era reconhecido, pois pertenciam a uma força de trabalho familiar que era controlado pelo marido autoritário que dava ordens. Segundo Silva:
A mulher exercia um papel muito importante no sistema de colonato. Seu sucesso dependia da capacidade das mulheres de aproveitarem ao máximo as vantagens desse regime de trabalho, que lhes permitia conjugar o trabalho da casa com o da roça e do cafezal. Mas, apesar de desempenharem tarefas dentro de casa, na roça de subsistência e no cafezal, as mulheres não existiam enquanto trabalhadoras individualizadas, porque seus trabalhos eram englobados no trabalho familiar controlado diretamente pelo pai-marido. A organização do trabalho – a alocação dos diferentes membros da família no trabalho – cabia ao homem. Sendo simultaneamente chefe da família e do trabalho, seu poder atingia a todos os membros, transformando filhos e mulher praticamente em seus trabalhadores. Era como se o trabalho familiar mascarasse o trabalho realizado pelas mulheres e crianças, pois era o homem, o chefe da família, quem fazia o contrato de trabalho com o proprietário das terras (2004: p.557).
Vemos então que o pai detinha um grande poder sobre os filhos e a mulher, organizando o trabalho familiar na fazenda e estabelecendo uma rígida estrutura familiar baseada na divisão sexual e geracional do trabalho. O homem era considerado o “chefe da família” e todos ali deveriam responder à sua autoridade. Nessa unidade familiar, à qual também pertenciam as famílias originárias das mulheres migrantes paranaenses e nordestinas, também existia uma diferenciação entre a relação do pai e da mãe com os filhos. Assim, as entrevistas revelam a autoridade do pai e a delicadeza e a sensatez da mãe. Enquanto os pais eram de pouca conversa, as mães, naquele tempo, estavam mais abertas ao diálogo com os filhos, embora não discordassem da autoridade do marido.
Mulher Paranaense:
Ah, minha infância foi bem divertida, porque a gente morava no sítio e a gente brincava muito. Ia no rio no final de semana, mas ajudava os pais também. Meu pai era muito turrão, não conversava com o filho de jeito nenhum. Minha mãe é que conversava mais comigo. Não era liberal, aberto como hoje. Mas meu pai era muito autoritário, a gente pedia alguma coisa e era sempre não. Minha mãe fazia tudo que ele queria. Ela trabalhava em casa, fazia o serviço de casa, depois ia para a roça, trabalhava o dia inteiro e chegava à tarde. Então, não tinha muito não para ela, porque ela fazia tudo que ele queria. Meu pai era muito autoritário com ela. E assim ele foi comigo (Luana, 35 anos, paranaense).
Mulheres Nordestinas:
Olha, a minha infância foi boa. A gente era pobre. Mas tive uma infância muito boa. Eles ensinavam as coisas boas para a gente e trabalhar. Mas meu pai, só de olhar para mim eu até chorava. Sabe aquela educação tradicional. Minha mãe já era diferente, eu falava de tudo. Lá os pais são autoritários, mas minha mãe não. Minha mãe teve uma vida muito sofrida (Sandra, 35 anos, nordestina).
Eles me davam conselho, porque meu pai era de uma família pobre também, e ele sempre trabalhou na roça, né. Aí que ele ensina para gente era da roça mesmo. Porque no meu tempo mesmo era mais diferente do que hoje para criar filho. Porque se eu ia fazer uma coisa e meu pai falasse não, eu não fazia aquilo, mesmo que eu não gostasse, eu ficava calada. Hoje, os filhos não tem mais respeito pelos pais (Joana, 67 anos, nordestina).
As mulheres entrevistadas não negam que começaram a trabalhar desde cedo e que suas mães lhes ensinaram o trabalho doméstico ainda quando eram crianças. Afirmam que
naquele tempo era natural a filha aprender com a mãe o serviço de casa, muitas vezes, responsabilizando-se sozinha por ele e pelo cuidado dos irmãos menores. Assim, práticas como lavar, passar, limpar a casa, cuidar de crianças menores, foram ensinadas por suas mães ainda quando nossas entrevistadas eram pequenas. Desse modo, percebemos que, se havia naquele tempo a dominação e autoridade do homem para com a mulher e os filhos, também havia a autoridade da mãe para com as filhas no quesito “ensino das práticas domésticas”. Como a autoridade dessas mulheres-esposas e mães se restringia ao âmbito doméstico, eram elas as responsáveis a ensinar as filhas os serviços domésticos. Portanto, as mulheres migrantes entrevistadas foram educadas quando crianças por suas mães a lidarem com as atividades do lar.
Heilborn (2000) aponta que o serviço doméstico realizado por crianças e jovens em suas próprias casas é ordenado pelo gênero. As meninas são ensinadas que a casa é coisa de mulher e, dessa forma, são educadas para lidarem com as atividades do lar e, sobretudo, são repreendidas caso não cumpram de maneira positiva esses deveres.
As meninas desde cedo se incumbem de tarefas bastante árduas, representadas pela variedade de atividades necessárias para a reprodução da unidade residencial. Os serviços domésticos das meninas compreendem a produção ou transformação secundária de bens de consumo e a realização de atividades associadas à subsistência e manutenção do lar e de seus dependentes. Lavar, passar, tomar conta de crianças menores, limpar e arrumar a casa, esquentar refeições, são atividades regulares para as meninas desde os cinco, seis anos de idade (HEILBORN, 2000: p.16).
Portanto, no contexto familiar em que predomina a divisão sexual dos papéis, o trabalho doméstico reveste-se de um conteúdo de obrigação para as meninas e de ajuda para os meninos, condicionada à vontade deles. Sua socialização segue regras que o impelem para fora do grupo doméstico, privilegiando o trabalho externo. Sendo assim, os meninos, em comparação às meninas, gozam, nos primeiros anos de suas vidas, de uma relativa liberdade derivada da construção social da masculinidade nesses grupos sociais. Já as meninas são objetos de restrições relativas aos locais que podem frequentar (HELBORN, 2000). É isso que constatamos nas entrevistas com as mulheres migrantes em São Carlos, especialmente com as provenientes do estado paranaense. Elas relatam a obrigação de aprender o serviço doméstico ainda quando crianças, bem como a divisão sexual do trabalho, revelando a diferenciação entre papéis masculinos e femininos. Vejamos os detalhes:
Mulheres paranaenses:
Quando eu era criança, minha mãe realizava o serviço de casa e meu pai trabalhava na roça, plantando arroz e feijão. Ela fazia e falava: “vocês ajudam eu lavar a louça, fazer isso, fazer aquilo”. Ela ensinava tudo, como lavar uma roupa, até como colocar num varal. Então, desde pequena minha mãe me ensinou o trabalho doméstico. Tudo que eu aprendi hoje foi por causa da minha mãe. Ela me ensinava a cozinhar, lavar, fazer todos os afazeres de casa, né. Eu ajudava minha mãe. Quando criança eu já ia aprendendo tudo que ela ia fazendo (Maria, 37 anos, paranaense).
Minha mãe sempre chegava nóis no eixo, né. Falava: “fulana, você tem que fazer isso, fazer aquilo, porque quando vocês casarem, vocês terão o marido de vocês e vocês vão ter que fazer isso, fazer aquilo. Vocês vão ter que cuidar da casa”. Ela ensinava nóis tudinho. A mãe ensinou nóis. Nóis aprendeu com ela a lavar roupa, costura, a mexer com máquinas de costurar, nóis aprendeu de tudo. À noite nóis ia para a igreja. Nóis não tinha amigo, não tinha amiga.
(Irene, 63 anos, paranaense).
Minha mãe era muito rígida com nós, meninas, com o serviço de casa. Tinha que fazer bem feito, senão faria duas vezes. Às vezes a gente lavava a roupa, era criança, não lavava direito. Minha mãe chegava em casa e dizia: “não tá bom, vai lavar de novo”. Tinha que estar tudo certinho (Cida, 32 anos,
paranaense).
Minha mãe falava que a gente tinha que fazer as coisas certinhas, o serviço de casa, porque se casasse o marido ia bater se não aprendesse. Ela falava que o trabalho doméstico é coisa de mulher (Ruti, 43 anos, paranaense).
Por sua vez, embora as mulheres migrantes nordestinas, provenientes de núcleos familiares patriarcais, também tenham aprendido o trabalho doméstico com as mães, há uma diferença na educação delas para o trabalho doméstico, em relação às mulheres paranaenses: parece que não existia a obrigação da filha realizar o serviço de casa, já que a mãe dava liberdade para a filha escolher fazer as atividades domésticas ou não. Este é o caso de Sandra. Segundo ela, era a sua mãe e sua irmã mais velha que ficavam responsáveis pelas atividades domésticas, sendo que ela própria contribuía pouco na realização de tais atividades. Segundo conta, a sua mãe lhe dava liberdade de escolha e, por isso, não a obrigava e nem a responsabilizava pelo serviço de casa:
Era minha mãe e minha irmã mais velha quem cuidava dos afazeres domésticos de casa. Eu ajudava bem pouco. A minha mãe me dava muita
liberdade. Se eu não quisesse fazer nada, ela nem ligava. Mas minha mãe que fazia mais e minha irmã (Sandra, 35 anos, nordestina).
Como vemos no depoimento de Sandra, além de sua mãe não lhe obrigar a realizar o serviço de casa, era a sua irmã mais velha que ficava responsável, juntamente com a mãe, pelas atividades domésticas. Segundo Heilborn (2000), é sempre a filha mais velha que fica responsável pelo serviço doméstico, ao passo que a mais nova, acima dos cinco, seis anos de idade, pode apenas ajudar a irmã mais velha. De qualquer forma, tal ajuda faz parte da socialização feminina nas famílias pobres, em que as meninas, desde a tenra idade, são educadas para o serviço doméstico. Mas essa ajuda não se traduz em obrigação.
O caso de Mercedes também é bastante representativo e revela que a principal ocupação dela quando criança era o trabalho no campo. Ela ajudava desde pequena seu pai na lavoura de mamona.
Eu vim de uma família de agricultores. Meu pai tinha fazenda e nós trabalhava na fazenda junto com ele. Inclusive eu não estudei muito, porque eu trabalhava na fazenda. Eu fui para a roça com meu pai. Ele tinha lavoura de mamona e eu quebrava mamona na roça com ele. Eu também juntava mamona para eu comprar roupa, comprar sapato. Aí eu fazia horta, vendia na feira para ajudar meus pais. (Mercedes, 58 anos, nordestina).
É interessante ainda relatar a representação que seus respectivos pais faziam do casamento. Segundo a análise das entrevistas, compreendemos que, quanto menos dominador e autoritário o pai fosse, maior era a sua participação no diálogo com as filhas sobre o casamento. Este é o caso de Maria, por exemplo. Ela nasceu numa família paranaense baseada no modelo conjugal nuclear, caracterizada claramente pela diferenciação entre papéis femininos e masculinos. Consistia numa família em que o pai lidava com os assuntos referentes à esfera pública, realizando trabalhos fora do ambiente doméstico, e a mãe lidava com as atividades do lar. Porém, era uma família na qual a dominância e autoridade do marido e pai não ultrapassavam os limites do respeito familiar, e que prevalecia, mais do que as ordens e mando, o diálogo entre os membros familiares. Nessa família, havia espaço para a conversa entre marido e mulher e, sobretudo, entre pai e filha. Inclusive sobre o casamento. Apesar de dar conselhos, que aparentemente demonstram a importância à filha de se casar, de ter um marido de boa índole e se
portar conforme uma mulher casada de respeito, ainda assim o diálogo estava estabelecido entre pai e filha. Vejamos:
Meu pai falava assim: quando a gente conhecesse alguém, era para a gente levar as coisas a sério, sem brincadeira. Quando eu conheci o meu marido, eu comecei a namorar. Foi meu primeiro namorado, já casei. Eu tinha treze anos quando eu comecei a namorar ele. Daí meu pai falava: “cuidado, vê aonde pisa, o que fala e namora direito”. E foi me ensinando assim. Para eu fazer um bom casamento, para eu escolher a pessoa certa (Maria, 37 anos,
paranaense).
Por sua vez, quanto mais dominador e autoritário o pai fosse, quanto mais assentada no núcleo patriarcal a família estivesse, menor era o diálogo do pai com a filha sobre a noção de casamento, recaindo mais sobre a mãe esta obrigação. A compreensão que temos é a de que a noção de casamento em famílias cujo homem é a autoridade máxima está associada ao ambiente doméstico, a casa, a coisas femininas e que, portanto, a conversa sobre ele é um assunto que deve ser iniciado pela mãe, sobretudo se o assunto for tratado com as filhas. Porém, é evidente que o pai participava decisivamente no processo de efetivação do casamento da filha. Nessas famílias mais tradicionais, a mão da filha sempre era pedida, pelo noivo, ao pai e não à mãe. Mas, a conversa inicial sobre o casamento, sobre o status que a filha deveria assumir no casamento, geralmente era iniciada pela mãe. O pai parecia se isentar dessa responsabilidade. Era a mãe que dizia o que a filha poderia, ou não, fazer num casamento.
O meu pai nunca conversou comigo sobre casamento não, mas minha mãe sim. Minha mãe que conversava comigo. Minha mãe era muito assim: ela falava sobre o que não podia fazer. Ela não aconselhava como se faz hoje. Ela falava: “não pode isso, não pode aquilo” (Luana, 35 anos, paranaense).
Minha mãe me dava conselho, que era para a gente casar (Ruti, 43 anos,
paranaense).
Há casos ainda de famílias notadamente assentadas em um núcleo patriarcal em que nem o pai e nem a mãe conversavam com os filhos, especialmente com as filhas, sobre o casamento. Este é o caso, novamente, da nordestina Sandra. Ao conferirmos seu depoimento, compreendemos que a obrigação de tratar sobre o assunto matrimonial com ela, se não recaía ao pai, também não recaía à mãe. Segundo ela: “Meus pais não conversavam nada comigo sobre o
casamento. A gente não conversava sobre isso”. E também é o caso da paranaense Lurdes, que afirma: “meus pais não falavam nada sobre o casamento não. Minha mãe nunca falou”.
Assim, nessas relações familiares, quanto mais acentuadas fossem a autoridade do marido e do pai sobre a mulher e filhos, maior era a distinção entre os papéis masculinos e femininos, e menor era o diálogo entre pai e filhas sobre assuntos considerados domésticos.