As entrevistas revelam que muitas mulheres migrantes, principalmente aquelas que já moram há mais tempo em São Carlos e que têm uma intensa rede de parentesco na cidade ou no bairro, calcada em “laços fortes” e composta por filhos, netos, mães e pais e parentes mais próximos, não desejam retornar para suas terras de origem ou sair de São Carlos com o objetivo de migrar para outras localidades. Essas afirmam que, apesar da saudade de sua antiga cidade e dos parentes que nela ficaram, e de terem sofrido no começo com a adaptação, hoje sentem como se a cidade de São Carlos fosse a sua terra de origem. Muitas dessas mulheres, em São Carlos, têm trabalho, redes de amizade e de parentes, além de filhos e netos que já nasceram ali e, por tudo isso, não pensam em retornar para a cidade ou estado onde nasceram.
Mulheres Paranaenses:
Não pretendo retornar para lá (Porecatu-PR). A minha cidade é aqui, a minha família está aqui. Estou satisfeita com a cidade (Marisa, 43 anos, paranaense).
Não volto, agora a minha cidade é aqui. Eu não tenho um pingo de vontade de voltar para lá. Tanto eu como meu esposo não temos vontade de voltar para lá. Não sinto falta. Só se for para passear. Às vezes, passo até dois anos sem ir lá
(Natália, 34 anos, paranaense).
Mulheres Nordestinas:
Pra morar não vou não. Aqui é a minha fazendinha agora. Não volto não, só se for para passear (Malvina, 73 anos, nordestina).
Não, meu lugar agora é aqui (Glória, 37 anos, nordestina).
Embora, para muitas mulheres o sentimento de pertença a São Carlos seja bastante grande, negando-se a retornar para suas terras de origens, pois já estabeleceram laços profundos na cidade, muitas delas, especialmente as nordestinas, não vão embora porque sabem que lá passarão por muitas dificuldades. Ao relembrarem seus momentos de sofrimento na terra de origem, elas se negam a retornar.
Não volto! Só se for a passeio. Mas para morar, não. A dificuldade é muito grande lá. Se você ver a dificuldade que eu já passei lá. Um filho da gente te pedir um pedaço de pão e a gente não ter para dá, né (Silvana, 45 anos,
nordestina).
Não, não pretendo voltar. Aqui é bem melhor. Muito melhor, porque lá foi muito sofrido (Joana, 67 anos, nordestina).
Contudo, o sentimento de pertença à cidade de São Carlos não é unânime entre as mulheres entrevistadas. Há aquelas que desejam ir embora, regressar para o seu local de origem. Principalmente aquelas que chegaram há menos tempo e estão passando por processos difíceis de adaptação, bem como aquelas que se encontram em situações problemáticas, como a falta de
emprego, de dinheiro, de recursos para atender as necessidades familiares, estas desejam retornar para as suas terras de origem.
Mulheres paranaenses:
Se dependesse de mim, eu voltava. Se eu conseguisse comprar uma casinha lá, eu voltava (Irene, 63 anos, paranaense, passa por problemas financeiros e
falta de emprego em São Carlos).
Se dependesse de mim, eu voltaria. Se tivesse emprego, eu voltaria. Jamais que eu deixaria o meu lugar (Maria, 37 anos, paranaense).
Mulheres Nordestinas:
Se Deus quiser, nunca mais moro nesse lugar. Eu vou embora. Fico contando as horas de ir embora. É duro, viu. Até agora não arrumei emprego. Não sei nada, não conheço nada. Não saio de casa. Já decidi: eu vou embora. Se meu marido não quiser ir, ele fica. Eu vou (Rita, 37 anos, nordestina).
Se eu tivesse uma boa condição financeira, se eu fosse aposentada, se eu tivesse uma renda fixa, se eu não tivesse que batalhar por uma renda fixa lá, eu iria
(Sandra, 35 anos, nordestina).
Enfim, neste capítulo expusemos, em linhas gerais, a trajetória de vida e de migração das mulheres migrantes, paranaenses e nordestinas, e de suas respectivas famílias. Em sequência, no próximo capítulo, discutiremos, a partir de todo conhecimento já acumulado e dos arranjos e contextos familiares em que estão inseridas, os papéis sociais atribuídos e desempenhados por elas no âmbito do processo migratório e da sociedade.
9 MULHERES MIGRANTES: O DESEMPENHO DOS PAPÉIS SOCIAIS
O intuito deste capítulo é o de compreender, a partir da origem e do status13 que as mulheres migrantes em questão ocupam no contexto familiar, os papéis sociais desempenhados por elas na trajetória de suas vidas e, mais especificamente, no processo migratório, analisando não apenas aqueles desempenhados na sociedade de destino, isto é, em São Carlos, relacionados ao mundo do trabalho e ao convívio social, tanto na esfera pública, quanto na esfera privada, mas também a sua participação nos processos decisórios da migração e, ainda, na articulação e mobilização das redes migratórias de parentesco. Buscamos, com esta análise, verificar se existem especificidades nas atribuições e desempenhos destes papéis sociais entre as mulheres migrantes, paranaenses e nordestinas, segundo o seu contexto familiar.
Compreendemos, a partir da leitura de diversos autores14, que, historicamente, os papéis sociais designados e desempenhados pelas mulheres no Brasil estiveram bastante ligados ao circuito doméstico, gerando uma enorme separação entre papéis masculinos e papéis femininos. Mas, segundo Santana (2000), o marco da modificação do papel das mulheres na sociedade e na forma como elas se subjetivam ocorreu depois que elas começaram a controlar a própria sexualidade e a fecundação e com a intensificação da entrada no mercado de trabalho produtivo. Isso ocorreu por volta de 1960 e se fortaleceu nas décadas seguintes (70, 80, 90), com a participação delas em movimentos que exigiam igualdades trabalhistas entre homens e mulheres e que lutavam pela cidadania, colocando em crise a divisão sexual no trabalho (GIULANI, 2004).
Portanto, é certo que houve profundas mudanças na condição feminina a partir da segunda metade do século XX. Mas será que todas as mulheres foram beneficiadas por essas mudanças? Qual será a condição e o status das mulheres provenientes das camadas populares, moradoras de periferias? Quais os papéis sociais desempenhados por elas? Os contextos
13Estamos utilizando o conceito sociológico de status de Giddens (2005), aquele que consiste na localização do
indivíduo na sociedade dentro de uma hierarquia social, de acordo com a sua participação na distribuição desigual da riqueza, do prestígio e do poder. Nesse sentido, entendemos que, de acordo com o status assumido pelas mulheres migrantes em seus respectivos contextos familiares, lhe são designados papéis sociais específicos para serem desempenhados no âmbito da sociedade e no processo migratório.
14 Santana (2000); Giulani (2004); Oliveira (2005); Sorj (2005); Rago (2004); Picanço (2005); Bassanezzi (2004);
familiares nos quais estão inseridas influenciam na atribuição e desempenho destes papéis? Procuramos responder a estas e a outras questões neste momento.