Neste capítulo, faço considerações sobre os caminhos percorridos no desenvolvimento da pesquisa, e descrevo os procedimentos de coleta e análise de dados utilizados.
Quando falamos em metodologia de pesquisa, estamos referindo-nos ao modo de aproximação da realidade, ao caminho escolhido para tentar responder a uma pergunta. O método é definido a partir do objeto de pesquisa, que se constrói, por sua vez, a partir de uma visão de mundo e uma intencionalidade. “Diferentes concepções de realidade determinam diferentes métodos” (GAMBOA, 2007, p. 29).
Portanto, quando se busca compreender processos educativos, trabalha-se com metodologias qualitativas, pois estas atendem a questões situadas no “universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, um lado não perceptível e não captável em equações, médias e estatísticas” (MINAYO, 1994, p.22).
Diante da questão de pesquisa como a prática da produção coletiva de
comunicação pode se relacionar à ressignificação da velhice por mulheres idosas,
desenvolvi um estudo de caso referente à oficina de vídeo realizada no CRI Vera Lucia Pilla.
O estudo de caso não é considerado um método específico de pesquisa, mas uma forma particular de estudo, na qual o conhecimento construído deriva do caso estudado e do que se pode aprender com ele. A opção por esta forma é feita a partir do objeto escolhido para a pesquisa. (ANDRÉ, 2005).
Entende-se estudo de caso como o processo de delimitar um caso específico e particular (ou um conjunto de casos), conhecê-lo profundamente, retrata-lo e analisa-lo em diversos aspectos, tomando-o como referência para revelar a multiplicidade de dimensões presentes naquela determinada situação, evidenciando as inter-relações entre seus componentes. O estudo de caso pode permitir compreender melhor a realidade dos agentes sociais, suas histórias e lutas e as relações existentes com o contexto em que o caso está inserido.
É possível, também, a partir do estudo de caso, estabelecer relações entre um caso específico, inserido em determinada realidade, e outros casos de outros contextos. Neste sentido, Lüdke e André aportam que:
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O caso pode ser similar a outros, mas ao mesmo tempo distinto, pois tem um interesse próprio, singular. Segundo Goode e Hatt (1968), o caso se destaca por se constituir numa unidade dentro de um sistema mais amplo. O interesse, portanto, incide naquilo que ele tem de único, particular, mesmo que posteriormente venham a ficar evidentes certas semelhanças com outros casos ou situações. (LÜDKE E ANDRÉ, 1986, p. 17)
Segundo Chizzotti (2006), o caso deve ser apto para permitir generalização a situações similares ou autorizar inferências em relação ao contexto da situação analisada. Ou seja, a leitura do estudo de caso permite ao leitor fazer transposições e analogias do caso estudado para outros contextos, refletir de que forma aquela experiência pode ser ou não válida para sua própria realidade ou para outras.
André (2005) descreve algumas qualidades usualmente atribuídas a esta forma de pesquisar a realidade. Uma delas é:
o seu potencial de contribuição aos problemas da prática educacional. Focalizando uma instância em particular e iluminando suas múltiplas dimensões, assim como seu movimento natural, os estudos de caso podem fornecer informações valiosas para medidas de natureza prática e decisões políticas. (p. 35-36)
A opção pelo estudo de caso no presente trabalho justifica-se, portanto, pelo fato de que o objeto de minha pesquisa – os processos educativos vivenciados em uma oficina de vídeo para mulheres idosas – representa uma experiência particular, que observada em múltiplas dimensões, poderia ajudar a compreender a realidade das participantes, as relações que estabelecem com o seu contexto e sua compreensão a respeito delas, bem como, poderia trazer contribuição para reflexões no campo da educação de pessoas idosas e da educomunicação.
Em geral o estudo de caso emprega técnicas de coleta de dados utilizadas em estudos sociológicos ou antropológicos, como por exemplo, observação participante, análise de documentos, gravações, anotações de campo. “Mas não são as técnicas que definem o tipo de estudo, e sim o conhecimento que dele advém” (ANDRÉ, 2005, p.16).
5.1 – Procedimentos de coleta de dados
A coleta de dados desta pesquisa foi realizada no período compreendido entre abril e julho de 2012, após aprovação do projeto de pesquisa pelo Comitê de Ética de Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal de São Carlos, conforme parecer
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n. 062/2012 (ANEXO A) e com o consentimento das participantes, documentado em Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (APÊNDICE B).
Para a coleta dos dados, optei por utilizar a observação das situações vivenciadas no grupo, com registros em diário de campo, atentando-me às falas, ações, atitudes, e outras expressões das participantes do estudo. Este procedimento exige sensibilidade e acuidade do(a) pesquisador(a), na tentativa de captar, simultaneamente, o todo da situação observada, e os menores detalhes que o compõe.
Em pesquisas desta natureza, o(a) pesquisador(a) convive com os sujeitos da pesquisa, participando de suas práticas, vivenciando presentemente as situações do grupo, ao mesmo tempo em que desempenha a observação, procurando ver a cena aparente e ver o que está além das aparências, ouvir cuidadosamente as palavras e também aquilo que não é verbalizado. Neste sentido, a pesquisa pode atingir maior profundidade e consequentemente maior potencial de contribuição real para transformação social, quanto mais atento forem o olhar e a escuta do pesquisador, e mais firmes forem os laços de confiança estabelecidos na convivência com o grupo. A respeito do papel da convivência neste procedimento de pesquisa, Oliveira traz a seguinte contribuição:
A convivência permitirá perceber o que cotidianamente aflige as pessoas e, assim, repensar trabalhos coletivos e políticas públicas, tornando-os mais condizentes com a concretude do cotidiano. Conviver é mais do que visitar e, não sendo algo que possa ser delegado, requer um envolvimento pessoal de observação, questionamento e diálogo. (OLIVEIRA, 2009, p.4)
As informações que coletava, eu registrava, logo após os encontros com as participantes, em um documento chamado diário de campo. O diário de campo é um registro textual em que o(a) pesquisador(a) anota, após cada encontro, os fatos, falas, situações vivenciadas, impressões pessoais, reflexões ou perguntas, enfim, as informações todas que considera úteis para a pesquisa. (APÊNDICE C – trecho do diário de campo)
Complementando esta ferramenta de registro, utilizei gravações de nossas reuniões, em áudio e vídeo, bem como material filmado pelo próprio grupo. Assistindo e ouvindo este material, pude complementar detalhes que haviam passado despercebidos e pude transcrever parte das falas a fim de obter maior precisão das expressões das participantes.
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A coleta de dados se deu nos encontros com o grupo durante a oficina, em reuniões no salão da igreja e nas saídas para gravação nas ruas próximas à igreja. Complementando estes eventos principais relacionados à oficina, participei de algumas aulas de ginástica no CRI, participei da festa junina do CRI e assisti a três reuniões do Conselho Municipal do Idoso de São Carlos. Estas atividades complementares contribuíram para que eu conhecesse melhor o contexto do CRI e as discussões sobre políticas públicas para a população idosa no município.
5.2 - Procedimentos de análise
Para definir os procedimentos de análise dos dados, inspirei-me nos passos propostos por Minayo (2004):
○ ordenação dos dados - leituras das notas e transcrição das gravações;
○ classificação dos dados - leitura repetida dos documentos para apreender as ideias centrais e estabelecer as categorias empíricas que deles emergem;
○ leitura transversal dos registros - enxugamento da classificação, reagrupamento e reordenação por temas;
○ análise final - articulações entre as informações e as referências teóricas adotadas.
Acolhendo sugestão colocada por meu grupo de pesquisa, acrescentei a estes quatro passos propostos, antes da análise final, uma análise compartilhada com as participantes do estudo. A análise compartilhada consistiu na apresentação e discussão com as participantes, da análise prévia dos dados. Nesta ocasião foi possível solicitar esclarecimentos, complementar informações que julguei incompletas e aprofundar algumas ideias relevantes para a pesquisa. O grupo se envolveu com este trabalho, procurando entender o processo da pesquisa e discutindo conceitos. As participantes sentiram-se valorizadas por fazer parte de uma produção de conhecimento sistematizada no universo acadêmico.
Na classificação dos dados, procurei destacar trechos do diário de campo e da transcrição, buscando elementos que guardavam maior relação com a questão de pesquisa. Na etapa seguinte, após reler algumas vezes o material, codifiquei o texto,
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marcando elementos correlatos com grifos da mesma cor, e sinalizei com palavras-chave ao lado do trecho destacado, como exemplificado na imagem a seguir:
Busquei nos trechos destacados, identificar dados, ideias e sentidos, que por proximidade de sentido pudesse agrupar, para melhor compreendê-las no passo seguinte.
Selecionei os temas mais significativos, levando em consideração a frequência com que se manifestaram, bem como a relevância para responder à pergunta de pesquisa. Por exemplo:
No primeiro dia de gravação, em 02 de maio, 5º encontro, anotei no diário de campo: “(...) Nilva H e Zuleika procuraram ajudá-la, Zuleika dando dicas e Nilva dirigindo. (...) Elas perguntaram algumas vezes se estavam fazendo certo, se tinha ficado bom.”.
No dia 26 de junho, 14º encontro, anotei: “Cida está muito interessada em aprender a mexer na câmera e a filmar. Ela quer comprar uma câmera. Comentou que há muitos anos atrás chegou a comprar uma filmadora, mas sua filha comentou que a mãe não tinha jeito pra essas coisas e pegou o equipamento para si.”
Já nas anotações do dia 03 de julho, no 15º encontro, quando filmamos umas às outras, registrando nossos próprios depoimentos sobre a oficina, encontra-se: “...Nilva F
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disse „estamos nos sentindo tão importantes fazendo filmagem! A Cida operando a máquina, a outra segurando o microfone... tá tudo muito legal, viu gente? me sinto realizada!‟”
Por ocasião do primeiro agrupamento que fiz, identifiquei, nestes destaques, sinalizações sobre a vontade de aprender, a insegurança inicial e a alegria de reconhecer a própria capacidade de fazer e criar. Estas passagens posteriormente foram agrupadas com outras, também por proximidade de sentido.
Para permitir melhor visualização destas divisões, sem perder o específico de cada elemento e sua relação com o todo, montei e alimentei uma tabela em que constava o nome provisório da categoria temática, o trecho destacado e sua localização no documento, conforme exemplificado na imagem a seguir:
Das releituras e reagrupamentos, emergiram três categorias temáticas:
Ressignificando a velhice, Co-laborando e Comunicando, a partir das quais eu entendi que poderia proceder a discussão do estudo. Retomei a leitura das anotações, desenhando três nuvens em uma grande folha de papel, uma para cada categoria. Fui alocando as notas do caderno, inserindo-as nas nuvens às quais elas se relacionavam. Depois tracei algumas ligações mais relevantes entre notas que poderiam ou deveriam estar próximas. O novo quadro, com base no qual desenvolverei a discussão dos resultados ficou assim:
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