Duas das quatro colaboradoras da pesquisa relatam momentos de suas vidas como estudantes ao exporem sobre suas experiências na e para a educação das relações étnico-raciais, Antonieta, mulher negra, e Luísa, mulher branca.
Antonieta e Luísa trazem experiências negativas relacionadas à história do povo negro durante suas trajetórias escolares. As duas educadoras fazem essa retrospectiva de suas vidas escolares ao refletirem sobre o trabalho que desempenham em sala de aula hoje. No caso de Luísa, as lembranças se fazem presentes ao buscar elaborar suas aulas e trazer uma outra história, agora positivada e valorizada, do povo negro no Brasil. Para Antonieta, as lembranças se fazem presentes na medida em que percebe os ganhos de hoje com os trabalhos positivos para a educação das relações étnico-raciais e a mudança de comportamento das crianças, tanto negras como não negras.
Na experiência de Antonieta, a vida escolar fez parte de sua formação para a percepção das desigualdades das relações étnico-raciais por tornar invisível sua negritude e mostrar, assim, o significado do racismo velado. Ela conta que não sofreu discriminação evidente em sua trajetória escolar, pois fazia parte do grupo de alunos(as) “inteligentes” da turma. Essa condição lhe permitia participar de todas as tarefas destinadas aos bons alunos(as) da classe, como apagar a lousa, ser chamada para os grupos de trabalho, escolher o lugar onde queria se sentar. No entanto, isso não a fez
104 eximir da percepção do racismo, pois, por mais que não sofresse explicitamente, sentia que sua negritude era invisível, como relata no seguinte trecho da entrevista:
“Se eu faço uma retrospectiva do que foi minha vida escolar, eu não tive problemas, assim, de racismo evidente, porque eu sempre fui uma pessoa queridinha da professora, porque era inteligente. Então eu fazia parte de um grupo em que minha negritude ela era invisível, porque eu era inteligente” (Antonieta).
Antonieta demonstra nessa passagem da entrevista que aprendeu na escola que crianças inteligentes não podiam ser negras e, por isso, ela não era vista como tal. No entanto, essa era uma visão da professora, o que não significa que concordasse com essa postura. Isto porque Antonieta, como demonstrado na dimensão anterior, já ia construindo seu pertencimento étnico-racial dentro da família de forma positiva. Além disso, ela convivia com a vida escolar dos primos e suas experiências como estudantes, os quais vivenciavam o racismo abertamente. Eles, que estudavam em São Paulo, na Escola SENAI, tinham de conviver com piadas racistas feitas pelos demais alunos brancos, que tornavam negativa a experiência de ser negro.
Para Luísa, diferentemente de Antonieta, as percepções da desigualdade das relações étnico-raciais não vieram durante a experiência escolar e as lembranças desse período passaram a fazer parte de suas reflexões depois que passou a buscar reeducar as relações étnico-raciais em sala de aula. Luísa conta que se lembra dos estudos sobre a população negra no Brasil somente por um viés negativo, em que apenas se abordava aspectos da escravização e sob uma perspectiva de sofrimento. Ela acredita, ainda, que esse olhar vem aos poucos se modificando.
“Porque antigamente não, o que que eu lembro? Eu lembro só de tristeza, mas agora a história já mostra a cultura africana, então não fica batendo só na escravidão. Foi um período, é uma marca que vamos carregar para sempre, mas eu acho que tem que olhar, tem que estender esse olhar agora para o que é o povo africano, o porquê aconteceu isso na história também” (Luísa).
Luísa aponta em sua fala sobre a importância de, apesar de mudar o foco no olhar sobre essa história, não se perder de vista os motivos que a fizeram existir dessa forma. Essa é também uma questão pontuada pelas professoras Lélia e Inaycira que, embora não comentem sobre suas trajetórias como estudantes e de que forma essa dimensão está presente no processo de educar-se na e para as relações étnico-raciais,
105 afirmam sobre a importância de se entender os processos históricos que fazem com que a população negra seja encarada com menor prestígio que a população branca.
Inaycira também compartilha da compreensão de Luísa, sobre a necessidade de mostrar às crianças uma outra perspectiva histórica sobre a formação do Brasil, trazendo também para a ementa do currículo escolar um resgate positivo da trajetória do povo negro, revertendo a visão de que ser negro é um sofrimento. Ela diz que é muito fácil para os(as) professores(as) conhecerem a história dos povos orientais, dos italianos, e a história do povo negro fica sempre esquecida.
As lembranças do período escolar de Luísa e as reflexões feitas por ela sobre as relações étnico-raciais hoje, a fazem buscar uma outra maneira de se abordar essa questão para os(as) alunos(as), procurando formular atividades que mostrem a população negra na posição do belo e pertencente de uma cultura.
De acordo com as participantes da pesquisa, é possível compreender que o trabalho positivo para a educação das relações étnico-raciais contribui para a construção da consciência negra, no entendimento explicitado no Parecer CNE/CP 003/2004, o qual ensina que consciência negra está relacionada tanto às pessoas negras quanto brancas. Antonieta, diretora negra, por exemplo, faz relações sobre sua trajetória escolar com as conquistas feitas com o trabalho da educação das relações étnico-raciais dentro da escola, quando percebe que, diferentemente dela, as crianças estão tendo a oportunidade de construir uma história de vida diferente, tanto para as crianças negras, que passam a encarar sua negritude positivamente, quanto para as crianças brancas, que passam a perceber que as diferenças não são um problema.
Essa dimensão mostra-nos mais uma vez que a vida das participantes fora da escola contribuiu e contribui no trabalho que exercem dentro da escola para a educação das relações étnico-raciais. A memória é viva para as participantes e mesmo a vida que ficou no passado se mostra presente na busca pela construção de novas relações sociais e étnico-raciais.
3.3.3 A educação das relações étnico-raciais na convivência com outras