Nesta seção, descrevo o local da pesquisa. Para tornar essa descrição mais clara, apresento primeiro o macro contexto e depois o micro contexto.
2.4.1. Macro contexto
A pesquisa foi desenvolvida em uma escola pública estadual na região central da Grande São Paulo, a qual tem 2000 alunos, um diretor, duas vices, duas coordenadoras pedagógicas, sendo uma do diurno e a outra do noturno, 20 funcionários entre secretaria, limpeza, inspetores de alunos e 80 professores que ministram aulas tanto para o ensino fundamental como para o ensino médio, sendo eles professores titulares de cargo e ocupantes de função atividade (professores contratados sem concurso). A escola recebe verbas dos governos estadual e federal para a manutenção do prédio e a aquisição de material didático. Há 17 salas de aulas, biblioteca, refeitório, cozinha, quadra coberta, pátio coberto, sala dos professores, sala de coordenação, salão de eventos ou vídeo, diretoria, secretaria e sala da vice-direção. O nível sócio-econômico dos alunos é classe média baixa, sendo eles moradores do Centro da Grande São Paulo e alguns filhos de trabalhadores da região que moram em outras regiões mais distantes do centro. A escola tem três turnos: período da manhã, tarde e noite.
Quanto ao espaço físico da escola, há um prédio não muito grande, muito fechado, não possui uma área livre para as crianças se dispersarem, para ficarem na hora do intervalo ou do lazer. Há somente uma entrada, que está sempre trancada; fica entre outros prédios residenciais e possui uma acústica bastante ruim;, o som ecoa muito de uma sala para outra de maneira que podemos facilmente escutar o barulho das outras salas de aula e os professores têm de falar num tom de voz mais alto para serem ouvidos
por todos. Na opinião dos professores, são dois os problemas principais da escola: a acústica ruim, que atrapalha e pode acarretar problemas de saúde, e a alta rotatividade da direção e vice-direção, principalmente no ano da coleta de dados – um fator que influencia bastante os professores e alunos, pois eles sentem falta de uma direção presente e atuante.
Há dois andares. Abaixo do térreo estão: a direção, a vice-direção e a sala da APM. No térreo estão: o pátio-quadra juntos, a cantina, a cozinha, o refeitório, os banheiros dos alunos, a casa do caseiro, a biblioteca e o salão de eventos ou vídeo. No primeiro andar, estão as salas de aula de números 1 a 7 e o laboratório de Ciências e Informática. No segundo andar, estão as salas de aula de números 8 a 17 e a sala dos professores, número 18.
O Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC) acontece em três dias na semana, das 12:20 às 13:00. Nessa reunião, os assuntos são variados, mas sempre voltados ao pedagógico, ou seja, ao fazer dos professores em sala de aula. A partir de textos, são propostas reflexões aos professores e a idéia é que haja uma troca de experiências entre eles. A proposta pedagógica da escola é feita todo ano a partir de uma pesquisa (um diagnóstico) com os alunos. Em 2006 a proposta pedagógica da escola foi preparar o aluno para o mercado de trabalho e em 2007 será preparar o aluno para a universidade.
A escola não oferece cursos extras. Com relação à inclusão, a mesma recebe o aluno com necessidade especial, não discrimina e ele participa da aula. Entende-se por necessidade especial na escola uma necessidade visual, motora ou neurológica. Os casos especiais de doenças físicas são encaminhados para a Diretoria de Ensino em último caso, mas as questões de aprendizagem precisam ser resolvidas na escola.
Abro a seguir um breve espaço para um comentário sobre a escola na minha perspectiva, pois acredito que isso seja importante para que o leitor ao tomar contato com os dados possa apreendê-los em seu contexto e não perca de vista a dimensão sócio-histórica-cultural da presente pesquisa.
Vivenciei questões relacionadas à violência, ao autoritarismo e ao medo na escola. A escola é muito barulhenta e há algumas brigas. É difícil manter a ordem e os alunos parecem respeitar apenas os professores autoritários, em especial aqueles que impõem o respeito pelo medo, gritam, são bravos e podem contar com o apoio de um inspetor para levar os alunos bagunceiros à direção para suspensão ou convocação dos
pais à reunião.
2.4.2. Micro contexto
A pesquisa foi realizada na 5ª. série A, durante a aula de inglês, estando a professora de inglês da classe presente na maioria das aulas e eu sempre atuando como professora-pesquisadora. Este trabalho foi realizado no segundo semestre de 2006 e atualmente os alunos estão na 6ª. série A.
A classe tinha 38 alunos, dos quais 14 do sexo feminino e 24 do sexo masculino. A maioria dos alunos tem 11 e 12 anos, com exceção de dois que tem 10 e 15 anos. Muitos alunos estão juntos desde o primário, portanto se conhecem bem, brincam muito e têm um relacionamento relativamente próximo. No entanto, nesta classe há grupos que se fecham entre si, não abrindo muito espaço para trabalhar e se relacionar com os outros, e eles são considerados pelos professores como uma classe agitada, difícil de trabalhar, falante e bagunceira.
Os alunos da 5ª. série A são, em geral, advindos de famílias de classe média baixa, com baixa escolaridade, sendo a maioria filhos de trabalhadores da região ou moradores do Centro.
2.5. Participantes
Nesta seção apresento os participantes desta pesquisa. É importante mencionar que foram participantes a professora de inglês-pesquisadora, a professora de inglês da classe e os alunos de uma 5ª. série. Entretanto, com objetivo de delimitar minha pesquisa tomo como participantes focais um aluno (R) e sua professora de inglês (P). Passo agora a descrever cada um dos participantes.
2.5.1. A professora de inglês
Paula (P)17 é professora há oito anos na escola onde foi realizada a pesquisa. Tem 50 anos, é solteira, natural de Pindamonhangaba, tem um filho. Ela se formou em Letras Inglês na Universidade de Taubaté no interior de São Paulo. Fez cursos rápidos (de um mês) nos Estados Unidos e de atualização, sendo um deles o curso “Reflexão
sobre a Ação: o Professor de Inglês Aprendendo e Ensinando”, oferecido na COGEAE pelo Programa de Pós-Graduação em Lingüística Aplicada e Estudos da Linguagem (PUC-SP), em parceria com a Associação Cultura Inglesa São Paulo.
Leciona desde o terceiro ano da faculdade, foi professora da rede particular por muitos anos e é professora da rede estadual há 25 anos, onde está quase para se aposentar.
P diz que não tem muita história sobre o que a levou a ser professora de inglês, apenas que ela sempre gostou e se identifica com o inglês e acha que através dessa disciplina é possível expandir muitas aptidões no aluno.
A professora também é atriz e dubladora de filmes. No futuro pretende voltar a atuar e com relação à aula pretende sempre tentar se aperfeiçoar e melhorar. P considera as aulas de inglês com dramatização interessantes e, além desta pesquisa, está envolvida em um projeto de Iniciação Científica desenvolvido sob a coordenação e orientação de uma professora da PUC-SP e cujo nome é “Living Dramma in the Classroom”.
A escolha de P como participante da pesquisa foi justificada por uma indicação de uma professora da PUC-SP, que me relatou o interesse e o comprometimento de P em trabalhar com artes, e também pelo fato de eu já conhecer um pouco da escola e saber que a mesma recebe alunos com necessidades especiais.
2.5.2. O aluno R
O aluno Rodrigo (R) tem 15 anos e está na 5ª. série A do ensino fundamental. R estuda há quase um ano nessa Escola. Antes disso, ele morava no interior de Minas Gerais. Veio para São Paulo em 2004 e, antes de estudar na escola onde foi feita a pesquisa, estudou em outra escola estadual da região central por dois anos. R apresenta muita dificuldade de aprendizagem. Embora não haja na escola nenhum tipo de diagnóstico formalizado sobre ele, sua dificuldade é percebida por todos os professores e pela coordenação, não só nos trabalhos escolares e nas avaliações como também pela sua aparência, seu jeito de falar e de se portar na sala de aula. Assim, sua necessidade especial pode ser facilmente percebida por todos, mesmo fora da sala de aula.
De acordo com os professores, logo que entrou na escola, R era muito agressivo no relacionamento com os colegas e com os professores, tinha uma atitude agressiva com os colegas - física e verbalmente - batia e falava coisas absurdas. Era muito difícil
aproximar-se dele para fazer amizade, pois era muito fechado. Além disso, seu comportamento era meio antagônico, meio estranho: ao mesmo tempo em que ele era carinhoso e queria abraçar e beijar, quando chegava à sala de aula era agressivo com os professores - talvez para mostrar algo aos colegas.
Segundo os professores, R até agora não consegue ler com fluência, apresenta dificuldades na fala e na escrita, e quando se pede a ele uma interpretação de texto oral, R sai totalmente do assunto. Com os colegas de classe, mesmo tendo passado, agora, quase um ano juntos, ainda tem e sofre brincadeiras agressivas, como por exemplo: socos, batidas com régua nos colegas, etc. Fala muito durante as aulas, talvez por não conseguir participar do que está acontecendo. Muitas vezes, pelo fato de ser bem mais velho que os outros alunos da classe, sofre discriminação. Durante a aula, quando R responde errado, os outros falam: “ele é bobão, não sabe nada”, ou quando há trabalhos em grupo os alunos não o querem no grupo. Apesar de sua dificuldade, no tempo em que estive na escola R pareceu estar interessado em aprender e fez perguntas durante as aulas.
Com relação à sua situação familiar, ele mora com uma tia, pois foi abandonado pelos pais e não tem contato com eles. R adora futebol, conhece o nome dos jogadores e dos times e disse que no futuro pretende ser jogador de futsal.
2.5.3. A professora-pesquisadora
Sou uma professora apaixonada pela sala de aula, embora sempre escute muitas pessoas dizendo: “mas você só leciona, por que não faz outra coisa melhor”? Embora escutando o que as pessoas dizem, acredito no potencial criativo dos seres humanos e na responsabilidade pela educação que os professores e a escola como um todo têm em mãos. Minha trajetória como professora de inglês se iniciou em 2000 após me ver realmente frustrada e cerceada no desenvolvimento de meu próprio potencial criativo, ao trabalhar como secretária bilíngüe em empresas.
Iniciei meu percurso lecionando em empresas e prestando consultorias referentes à língua inglesa para adultos, mas acabei também em escolas de cursos livres e escolas particulares lecionando para crianças de 2 a 10 anos e, também, para adolescentes de diversas faixas etárias. Com adultos, também tive experiências interessantes, que me permitiram conhecer um pouco diferentes faixas etárias, suas particularidades, inclusive
idosos, em empresas e em escolas de cursos livres.
Me formei em Letras-Inglês-Licenciatura em 2003 pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Após a graduação, resolvi fazer um curso de especialização de três meses no Canadá, onde tive a oportunidade fascinante de atuar em um day care com “special needs learners” de três a seis anos.
O interesse pela pesquisa veio mais tarde, após um processo de amadurecimento entre minhas idéias e minha prática. Em 2005 comecei a participar das reuniões do Grupo de Pesquisa Ilcae e conclui o curso de Projetos de Pesquisa em Linguagem e Educação no Cogeae. No ano seguinte, ingressei oficialmente com a idéia inicial de trabalhar com necessidades especiais, criatividade e jogo.
Participo desta pesquisa como professora-pesquisadora (PP) junto com os alunos e com a professora de inglês da classe.