• Sonuç bulunamadı

Relatar procedimentos de pesquisa, mais do que cumprir uma formalidade, oferece às outras pessoas a possibilidade de refazer o caminho e, desse modo, avaliar com mais segurança as afirmações que fazemos.

Decidir investigar a vida, os modos como as pessoas constroem seus cotidianos, como articulam seus valores, suas crenças, seus costumes, bem como expressam seus sentimentos, envolve fazer uma opção por uma metodologia qualitativa que privilegia a narrativa. Nesse percurso a preocupação com o quantitativo é substituída pelo qualitativo, privilegiando as falas e os relatos. E assim o fizemos.

Os dados foram coletados através de entrevistas gravadas com roteiro semi- estruturado. Não determinamos a priori o número de pessoas a serem entrevistadas, encontrando respaldo para essa decisão em Duarte (2002) ao afirmar que numa metodologia de base qualitativa o número de sujeitos que virão compor o quadro das entrevistas dificilmente pode ser determinado a priori – tudo depende da qualidade das informações obtidas em cada depoimento, assim como da profundidade e do grau de recorrência e divergência destas informações. Enquanto estiverem aparecendo “dados” originais ou pistas que possam indicar novas perspectivas à investigação em curso as entrevistas precisam continuar sendo feitas. À medida que se colhem os depoimentos, vão sendo levantadas e organizadas as informações relativas ao objeto da investigação e, dependendo do volume e da qualidade delas, o material de análise torna-se cada vez mais consistente e denso. Quando já é possível identificar padrões simbólicos, práticas, sistemas classificatórios, categorias de análise da realidade e visões de mundo do universo em questão, e as recorrências atingem o

que se convencionou chamar de “ponto de saturação”, dá-se por finalizado o trabalho de

campo, sabendo que se pode voltar a ele para esclarecimentos.

Esse tipo de trabalho de campo na visão de Dauster (1999) tem como objetivo compreender as redes de significados a partir do ponto de vista do outro, operando com a lógica e não apenas com a sistematização de suas categorias e não deve ser interrompido enquanto essa lógica não puder ser minimamente compreendida.

Para reafirmar a questão da representatividade dos dados coletados através de pesquisa qualitativa, em que está embutida a questão da possibilidade (ou não) de sua generalização, remetemos a (GOLDENBERG, 2001:49-50):

[...] partindo do princípio de que o ato de compreender está ligado ao universo existencial humano, as abordagens qualitativas não se preocupam em fixar leis para se produzir generalizações. Os dados da pesquisa qualitativa objetivam uma compreensão profunda de certos fenômenos sociais apoiados no pressuposto da maior relevância do aspecto subjetivo da ação social. [...] a representatividade dos dados na pesquisa qualitativa em ciências sociais está relacionada à sua capacidade de possibilitar a compreensão do significado e a “descrição densa” dos fenômenos estudados em seus contextos e não a sua expressividade numérica.

A mesma autora pondera que os dados qualitativos consistem em descrições detalhadas de situações com o objetivo de compreender os indivíduos em seus próprios termos; ou ainda que, a pesquisa qualitativa depende da biografia do pesquisador, das opções teóricas, do contexto mais amplo e das imprevisíveis situações que ocorrem no dia-a-dia da pesquisa. É o processo da pesquisa que qualifica as técnicas e os procedimentos necessários para as respostas que se quer alcançar. O valor da pesquisa qualitativa é evidente para estudar questões difíceis de quantificar, como sentimentos, motivações, crenças e atitudes individuais, todas elas presentes na investigação em apreço.

Para a constituição do grupo investigado utilizamos a metodologia "bola de neve"

ou “formação em rede” em que os primeiros entrevistados indicam outros, que por sua vez

indicam outros, e assim sucessivamente (BIERNACKI e WALDORF, 1981).

Construímos essa rede a partir de uma série de contatos e conversas com pessoas

sobre a ocorrência do fenômeno da “provisão familiar feminina” nos dias atuais, revelando a

nossa intenção em desenvolver uma pesquisa nessa linha. Na maioria das vezes as pessoas

achavam muito interessante o tema e diziam “... eu conheço muita gente que vive nessa

situação, mas não sei se essa pessoa e o seu marido vão aceitar assumir que isso acontece na casa deles e participar da pesquisa”. Em outras ocasiões ouvíamos “... eu conheço fulana e sicrana que há tantos anos sustentam os maridos e tenho certeza que não vão se importar em participar da pesquisa”. E assim fomos anotando nomes e telefones e formando uma pequena lista que ia crescendo à medida que as primeiras mulheres entrevistadas também nos indicavam outros nomes para contatos. A formação da rede favoreceu a heterogeneidade do grupo e não restringiu a amostra excessivamente, não a configurando dentro de um determinado setor de atividade ou saber.

Em outro momento estabelecemos contato com a coordenadora do Centro do Trabalhador Autônomo (CTA) do Sistema Nacional de Empregos (SINE)3 em Fortaleza, CE, local que cadastra mulheres e homens para a prestação de serviços. As mulheres se inscrevem predominantemente para realização de trabalhos domésticos em residências, trabalhando como faxineiras, passadeiras, babás, cozinheiras e costureiras, e os homens se registram para serviços gerais e atividades que envolvem consertos. O objetivo desse contato foi selecionar, dentro desse grupo, mulheres vivendo a condição de provisão ou co-provisão em suas famílias. A partir da autorização recebida para conversar com as mulheres presentes no setor de espera do CTA, as entrevistas foram agendadas a partir da disponibilidade de horários e local apresentados pelas mesmas.

Nesse momento observamos o que recomenda Bourdieu (1989) sobre escapar das armadilhas dos objetos pré-construídos e eleger o campo como o grande lócus de construção e de diálogo com os sujeitos/agentes. E, ainda, procuramos mobilizar todas as técnicas, que pareceram pertinentes ao estudo e que, dadas às condições práticas de recolha dos dados, se mostraram utilizáveis.

As entrevistas foram realizadas em diferentes locais como no CTA/SINE, em residências das famílias e, ou, em seus locais de trabalho. Em todas elas fizemos uso do gravador, com o consentimento prévio de todas (os) as (os) entrevistadas (os). Utilizamos um roteiro de entrevistas semi-estruturadas, aplicadas em profundidade com as mulheres/cônjuges e quando era aceito pelo casal, também com o homem/cônjuge. Iniciávamos as entrevistas sempre pela indagação sobre a história de vida de cada um (a) e esse relato de vida, acontecia em sua forma mais pura e livre, quando as (os) entrevistadas (os) eram abordadas (os) do

modo mais aberto possível, dizendo “fale de sua vida” e, interferindo o mínimo indispensável

durante a narrativa, tendo em vista a importância desses dados, bem como a relevância desse momento para ganhar a confiança e obter a espontaneidade dos sujeitos.

À medida que as entrevistas iam acontecendo iam se revelando as histórias de vida de mulheres e de homens, a partir de seus relatos, valorizados considerando o pensamento de (BRIOSCHI e TRIGO, 1989:29):

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O Sistema Nacional de Emprego (SINE) é um programa do Ministério do Trabalho (MT) instituído pelo Governo Federal em 1976. Seu objetivo é criar estratégias para organizar o mercado de trabalho. No Ceará o SINE foi implantado em 1977. A reforma administrativa do Estado abriu espaço para a criação do Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT), uma organização social qualificada pelo governo do Estado do Ceará, através do Decreto 25.019, de 3 de junho de 1998, para prestar os serviços públicos na área de trabalho, tendo como principal atribuição executar as ações do programa SINE em todo o território cearense. O SINE/IDT criou o Centro do Trabalhador Autônomo (CTA), através da Unidade de promoção do emprego, com o objetivo prioritário de intermediar mão-de-obra para prestação de serviços diários ou temporários para empresas e, principalmente, para domicílios.

[...] no relato de vida o indivíduo fornece a matéria prima para o conhecimento sociológico, não é ele o objeto de estudo, e sim as relações nas quais se encontra imerso. [...] Os relatos de vida têm sido uma fonte bastante rica para os estudos sobre trajetórias de vida e mobilidade social, apreendendo as relações estabelecidas pelos indivíduos durante sua vida e indicando o sentido histórico e a dinâmica das relações sociais.

Pela natureza da pesquisa privilegiamos as narrativas dos cônjuges na busca de uma maior aproximação da realidade de cada família. Tal como afirma Massi (1992) a importância da técnica de investigar reside na eficiência da apreensão dos sistemas de valores, das normas, das representações, fantasias e símbolos próprios a uma cultura ou subcultura. Por meio da narrativa, percebem-se os modelos interiorizados pelo sujeito, resguardando suas contradições e conflitos, e seu papel explicativo na visão de mundo que nos interessa conhecer.

Pensamento semelhante é expresso por Briosch e Trigo:

[...] a sociologia encara o relato de vida como capaz de fornecer elementos para o conhecimento da realidade social tanto a nível sócio-estrutural como sócio- simbólico. Ao mesmo tempo, fornecendo elementos para o estudo dos processos estruturais e relacionais, as histórias de vida podem ser consideradas como produtos do sistema de valores e significados do narrador enquanto ser social. [...] no fundo da narrativa encontra-se a realidade social e coletiva incorporada pelo sujeito (1989: 39).

As entrevistas gravadas foram transcritas na integra e após tal procedimento realizamos uma leitura criteriosa dos discursos, para apreensão de seus significados. As pausas, os silêncios e as omissões de fatos foram considerados também elementos importantes para a análise, como bem explicita Queiroz (1983), ao destacar que a omissão de fatos, de ocorrências, de detalhes pode ser tão significativa quanto sua inclusão nos depoimentos. O importante não é verificar se a (o) entrevistada (o) conhece ou não o fato, “mas sim buscar saber por que razão ela/ele o havia esquecido, ou o havia ocultado, ou simplesmente dele não

tivera registro”.

Durante a análise nos debruçamos inicialmente sobre as entrevistas de cada família (análise vertical) para posteriormente realizar uma integração com as demais (análise horizontal), a partir das semelhanças e particularidades acerca das questões abordadas.

Compartilhamos do sentimento de inquietação experimentado por Bourdieu (1997:9) “... no momento de tornar públicas conversas privadas, confidências recolhidas numa relação de confiança que só se pode estabelecer entre duas pessoas”.

Essa situação de confiança deve se estender ao uso dos depoimentos e a proteção

da identidade das pessoas “... procurar colocá-los ao abrigo dos perigos aos quais nós

exporíamos suas palavras, abandonando-as, sem proteção, aos desvios de sentido”.

As identidades de todas (os) as (os) entrevistadas (os), 19 mulheres e 07 homens foram protegidas (os) através do uso de pseudônimos. O mesmo foi feito para as filhas e para os filhos.

A primeira pessoa a ser contatada para a entrevista era a mulher/cônjuge e a partir dela era viabilizada a entrevista com seu cônjuge/companheiro. Em alguns casos as mulheres já afirmavam da impossibilidade de entrevistar seus companheiros e usavam justificativas para tal, tais como viagens constantes dos cônjuges/companheiros, características negativas de suas personalidades, alegação do hábito da ingestão constante de bebida alcoólica pelo cônjuge/companheiro ou mesmo por questão de não enfrentamento por parte do cônjuge/companheiro da situação de não provisão familiar. Essa impossibilidade de realização das entrevistas resultou em número desigual de homens e de mulheres entrevistados (as), com quantidade inferior para os homens.

O fato de as mulheres se anteciparem a evitar a entrevista com os cônjuges/companheiros pode ser revelador da intenção das mesmas de não lhes dar oportunidade de voz, o que observamos de forma mais marcante nas famílias da camada popular.

Na análise dos depoimentos procuramos compreender, através das falas das (os) entrevistadas (os), como é vivenciado o cotidiano em famílias que vivem a provisão familiar feminina única ou compartilhada, dando destaque as questões relacionadas ao “ser mulher”,

“ser homem”, “ser família” na perspectiva das relações de gênero.