2.1. İletişim Kavramı ve Tanımı
2.1.1. İletişim Sürecinin Temel Ögeleri
2.1.1.3. İleti (Mesaj)
Historicamente a invisibilidade da mulher mascarava o seu papel como sujeito/agente ativo na vida pública, de forma mais específica no mundo do trabalho e sua conseqüente contribuição na vida privada, particularmente para a sobrevivência familiar. As versões históricas do passado davam destaque ao homem, branco e adulto, das camadas privilegiadas. Essa invisibilidade passou a ser questionada e transformada pela ação de mulheres e homens, estudiosas (os), pesquisadoras (es), conscientes do lugar das mulheres no mundo, em diferentes épocas e lugares, respeitando as especificidades culturais.
Del Priore (2002:8) convida-nos, a saber, mais sobre as “irmãs do passado” e através delas conhecer mais sobre nós mesmas. Para esse trabalho de observá-las entre os séculos XVI e XVIII, foram utilizados processos da inquisição, processos-crime, leis, livros de medicina, crônicas de viagem, atas de batismos e de casamentos. A esse material são acrescentados no século XIX, diários, fotos, cartas, testamentos, relatórios médicos e policiais, jornais e pinturas. Já no século XX elas ganham visibilidade através da escrita de seus próprios livros e manifestos, através da mídia, pela sua participação em sindicatos e movimentos sociais, e dos números dos recenseamentos. Através de inúmeros documentos e estudos tem sido então possível estudar o cotidiano de mulheres singulares e plurais, bem como, suas práticas e representações através dos séculos.
Del Priore (2002:9) enfatiza que a história das mulheres é relacional à medida que inclui tudo que envolve o ser humano, suas aspirações e realizações, seus parceiros e contemporâneos, suas construções e derrotas. O importante não é ver a história das mulheres por meio da vida de heroínas ou mártires e sim enfocar as mulheres a partir das tensões e das contradições que se estabeleceram em diferentes épocas, entre elas e seu tempo, entre elas e as sociedades nas quais estavam inseridas. O importante é “... desvendar as intrincadas relações entre a mulher, o grupo e o fato, mostrando como o ser social, que ela é, articula-se com o fato social que ela também fabrica e do qual faz parte integrante”.
No Brasil Colônia era comum a existência de mães solteiras, muitas vezes vítimas de exploração sexual e doméstica, vivendo situações de humilhação, abandono e violência. As mulheres de elite também enfrentavam problemas. Eram vistas como auto-sacrificadas, sexualmente submissas e materialmente reclusas, se opondo a imagem de promíscuas imputada às mulheres da camada popular, como as negras ou as mulatas. Grande parte das mulheres pobres estava inserida num contexto familiar sem a presença de cônjuges ou com companheiros instáveis, o que resultava em lares chefiados por mulheres. As crianças
circulavam em outras casas e eram criadas por comadres, vizinhas e familiares (DEL PRIORE, 1989:46).
Essa situação acontecia nos tempos de povoamento e instalação do sistema colonial brasileiro nos séculos XVI, XVII e início do século XVIII, em decorrência da mobilidade geográfica, em virtude das entradas dos homens no sertão e das viagens para as minas. Essas ausências provocavam o fato de as mulheres passarem a se ver como chefes de suas casas e de suas famílias, já que se viam obrigadas a lutar sozinhas por sua sobrevivência e a dos filhos. A ausência dos cônjuges podia transformar-se em muitos casos em abandono do lar. Esses episódios sugerem a possibilidade de novas imagens da mulher na família e na sociedade, com uma participação mais ativa, embora seu papel fosse limitado, frente à manutenção dos privilégios masculinos na estrutura social.
Bittencourt (1937) ao retratar o período colonial baseia-se na leitura de cronistas e viajantes para descrever a senhora de engenho, na ausência do marido, como uma boa administradora capaz de supervisionar e administrar a propriedade da família.
Sob o sistema colonial, a vida feminina estava restrita "ao bom desempenho do governo doméstico e na assistência moral à família, fortalecendo seus laços" (SAMARA, 1983:59). Ao homem estava ligado o papel da provisão, manutenção e proteção dos bens da família e sobre esta concentrava o seu poder. À mulher e aos filhos cabia obediência ao homem, como marido e pai, e como detentor do pátrio poder.
Vainfas (2002) retrata as mulheres pobres do século XVI em Minas Gerais, ganhando a vida como vendedora de quitutes nas ruas, agindo como chefes de família, sós, sem os cônjuges ou companheiros que saíam à cata de ouro e aventuras e não voltavam mais. Foram mulheres que apesar de oprimidas e abandonadas, souberam construir suas identidades; mulheres recolhidas ou enclausuradas em conventos; mulheres que gerenciavam, com conhecimento de causa, tudo o que dizia respeito à maternidade, ao parto e às práticas de contracepção.
Figueiredo (2002:141) retrata o cotidiano das mulheres mineiras no século XVIII, principalmente aquelas que trabalhavam enfrentando condições adversas em que aconteciam situações de miséria, preconceitos e dificuldades de toda natureza. Inicialmente o autor faz referência ao lugar que não lhes era permitido estar, ou seja, eram excluídas de qualquer exercício de função política nas câmaras municipais da administração colonial que lhes garantissem reconhecimento social. Apareciam excepcionalmente, ocupadas em funções consideradas masculinas, como na panificação, tecelagem e alfaiataria e de forma exclusiva, como costureiras, doceiras, fiandeiras, cozinheiras, lavadeiras ou criadas. Algumas se
tornavam aptas ao exercício legal da função de parteiras, após serem submetidas a uma prova
prática assistida por médicos e sangradores. Elas recebiam então uma “carta de exame” que
era uma espécie de diploma fornecido pelas câmaras municipais. Nas atividades de mineração
as mulheres apareciam com a função de “carregadoras de gamelas”, pois transportavam
gamelas com pedras para serem lavadas.
Figueiredo amplia a descrição das atividades femininas em outras localidades do Brasil, ao afirmar que:
[...] a presença feminina sempre foi destacada no exercício do pequeno comércio em vilas e cidades do Brasil colonial. Desde os primeiros tempos, em lugares como Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, estabeleceu-se uma divisão de trabalho assentada em critérios sexuais, em que o comércio ambulante representava ocupação preponderantemente feminina. A quase exclusiva presença de mulheres num mercado onde se consumia gêneros a varejo, produzidos muitas vezes na própria região colonial, resultou da convergência de duas referências culturais determinantes no Brasil. A primeira delas está relacionada à influência africana, uma vez que nessas sociedades tradicionais as mulheres desempenhavam tarefas de alimentação e distribuição de gêneros de primeira necessidade. O segundo tipo de influência deriva da transposição para o mundo colonial da divisão de papéis sexuais vigentes em Portugal, onde a legislação amparava de maneira incisiva a participação feminina. Às mulheres era reservado o comércio de “doces, bolos, alféloa, frutos, melaço, hortaliças, queijos, leite, marisco, alho, pomada, polvilhos, hóstias, obreiras, mexas, agulhas, alfinetes, fatos velhos e usados”. Dessa forma, conjugam-se dois padrões que irão atuar na definição do lugar das mulheres no Brasil (FIGUEIREDO, 2002:144).
A pobreza em que viviam as mulheres fez a prática do meretrício invadir o tecido familiar, conforme relata Figueiredo (2002:163-4) a partir de situações vividas por mulheres em cidades de Minas Gerais, como Mariana e Ouro Preto, com destaque para o período de 1745 a 1753:
[...] se o binômio miséria e exclusão do mercado de trabalho transforma o cotidiano da sobrevivência das mulheres num verdadeiro inferno, oferece também a medida exata de sua enorme capacidade de luta e resistência naquela sociedade. Muitas mulheres precisaram adotar a prostituição como estratégia de sobrevivência e manutenção de suas unidades domésticas. Também homens, incapazes de prover seus lares como pais ou padrastos, negociavam suas filhas e dependentes. Nessas situações, não poucos abusaram de qualquer laço de parentesco para garantir o sustento. As prerrogativas da moral oficial pareciam ceder espaço às exigências do cotidiano. Muitos se mantiveram graças à cafetinagem de parentes.
... O mais surpreendente era a postura do marido, que consentia em “razão dele não trabalhar, e quando carece de alguma coisa pede à mulher e não proíbe as saídas”. ... A estabilidade nas uniões consensuais instituídas entre as camadas populares possibilitou uma divisão de papéis no domicílio caracterizada por uma maior atuação feminina do que a prevista no casamento cristão. O verdadeiro estímulo para a definição de papéis não foi o discurso teológico que fixava a submissão feminina no casamento, mas as exigências de um cotidiano em que era vital a repartição de
tarefas ou a transferência de papéis para a sobrevivência do grupo doméstico. Mesmo com a presença do parceiro nestas uniões, à mulher cabia funções determinantes para a sua manutenção: umas ocupadas com o pequeno comércio, outras na administração da casa e dos negócios do companheiro, permanentemente ou em sua ausência. Algumas vezes a atividade econômica desempenhada por mulheres ocorria por exigência masculina [...] longe dos papéis que a religião determinava, o trabalho feminino representou importância vital para a manutenção de domicílios em que os parceiros encontravam-se doentes [...] (p.178).
Em Minas Gerais havia mulheres que viviam da prostituição de suas escravas, embora houvesse legislação contra isso. No distrito Diamantino, houve negras e mulatas que ficaram famosas por sua riqueza e prestígio, mas freqüentemente eram expulsas e hostilizadas por serem suspeitas de fazer evadir os quintos reais.
Em Belém e São Luís houve restrições ao trabalho da mulher, que só poderia ser contratada como ama-de-leite, criada de idade para funcionários superiores e eclesiásticos, criada para mulheres brancas respeitáveis e, em número limitado, mulheres que trabalhavam com os maridos, na safra da mandioca (BOXER, 1963).
As citações transcritas mostram o grande peso da condição econômica das famílias sobre a divisão de papéis e a atuação marcante da mulher na manutenção da unidade doméstica.
Falci (2002) ao retratar as mulheres do sertão nordestino no século XIX estabelece um paralelo entre as atividades das mulheres de classe mais abastada e as da classe menos favorecida. As primeiras não tinham muitas atividades fora do lar e eram treinadas para desempenhar o papel de mãe e dona-de-casa. As “prendas domésticas” consistiam em orientar os filhos a cozinhar, costurar e bordar. As mulheres menos afortunadas, viúvas ou de elite empobrecida, faziam doces por encomenda, arranjos de flores, bordados a crivo, davam aulas de piano e solfejo. Com o desempenho dessas atividades contribuíam para o sustento e a educação dos filhos, que eram quase sempre, em grande número.
A atividade produtiva da mulher fora do espaço da casa era mal vista e criticada:
[...] essas atividades, além de não serem muito valorizadas, não eram muito bem vistas socialmente. Tornavam-se facilmente alvo de maledicência por parte dos homens e mulheres que acusavam a incapacidade do homem da casa, ou observavam sua decadência econômica. Por isso, muitas vendiam o produto de suas atividades através de outras pessoas por não querer aparecer. Na época, era voz comum que a mulher não precisava, e não deveria ganhar dinheiro (FALCI, 2002:249).
No relato de Leite (2001) na sociedade oitocentista já era comum ver nas ruas da Província da Bahia uma quantidade significativa de escravas negras, libertas, mestiças e
brancas pobres, envolvidas em atividades diárias de trabalho. Essas mulheres prestavam os mais variados serviços, sejam domésticos ou nos ramos do comércio urbano, para atender ao papel de responsáveis pela sua sobrevivência e, ou, da família. As mulheres das classes populares se inseriram no mundo do trabalho, como quitandeiras, vendedoras, rendeiras, lavadeiras ou amas de leite, numa condição informal, para garantir o seu sustento. Construíram o seu cotidiano a partir de uma rede de solidariedade, que lhes permitia compartilhar uma cultura própria.
Asevedo (1975) destaca alguns dados do Censo de 1872 sobre Salvador, que à época contava com uma população constituída de 52% do sexo masculino e 48% do sexo feminino. A porcentagem de escravas era bem menor que a de mulheres livres, e a de brasileiras, maior que a de estrangeiras. A porcentagem das que sabiam ler e escrever era muito menor que a de analfabetas. A população de 20 anos de idade predominava e o número de mulheres solteiras, tanto livres como escravas, era muito maior que o de casadas e viúvas. Das vinte e cinco categorias ocupacionais, três eram exercidas por mulheres como, operárias de tinturaria, operárias de chapéus e criadoras. 57,6% das mulheres não tinham profissão e 18,5% faziam serviços domésticos. A maior ocupação das mulheres livres era como costureira. As estrangeiras representavam a maior porcentagem da população ativa. O censo revela que, tanto entre as mulheres livres como entre as escravas, as mulheres se dedicavam principalmente à função reprodutiva e às tarefas domésticas.
Falci (2002) retrata uma realidade semelhante à vivida pelas mulheres pobres mineiras, ocupando-se das mesmas atividades citadas acima, acrescentando, porém a condição de roceiras, na enxada, ao lado de irmãos, pais ou companheiros, onde faziam todo o trabalho considerado masculino como: cortar paus, carregar feixes de lenha, cavoucar, semear, limpar a roça do mato e colher. Algumas escravas especializavam-se em um ofício, como a carpintaria ou a fiação, mas a maioria teve de aprender a fazer um pouco de tudo devido à escassez de escravos na região.
Na Bahia no início do século XX, grupos distintos de mulheres pobres continuavam a exercer os seus ofícios na cidade; contribuindo com a sua renda para sustentar inteiramente a família ou para complementar as despesas da casa. As mulheres das camadas intermediárias e abastadas, por sua vez, se inseriam de forma diferente no mundo do trabalho e da rua, em atividades de filantropia e assistencialismo, na literatura e no magistério. Sua inserção na esfera pública era favorecida pelos estudos de sua educação formal, em profissões liberais.
Para Telles (2002:438) a caridade, a assistência social e a filantropia provocaram efeitos sobre as mulheres e na sociedade no século XIX, pois:
“Permitiram às burguesas descobrirem o mundo da pobreza, o que, se por um lado foi um choque, por outro, na Europa e nos Estados Unidos, permitiu desenvolver saberes associativos e de organização, que tiveram lugar também no Brasil. No entanto, o encontro das burguesas, ainda que caridosas ou feministas – não se deu sem ambigüidades e conflitos”.
Joana Pedro (2002) relata que escrever sobre as mulheres do Sul não significa traçar um perfil único que as identifique e as diferencie das outras mulheres do restante do país. Nessa região encontram-se diferentes perfis femininos nos diversos períodos históricos, ou seja, mulheres oriundas de etnias e classes sociais diversas. A autora faz referência aos relatos dos viajantes que visitaram Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, entre 1816 e 1822. Ao escreverem sobre as mulheres brasileiras referem-se exclusivamente as brancas de família abastada, ignorando a existência de filhas de imigrantes pobres, de mulatas e de negras livres. Na formação social do Sul do Brasil o grupo racial branco teve número superior em comparação ao do grupo racial negro e um modo de vida vinculado à pequena propriedade. A economia do Rio Grande do Sul era baseada na pecuária extensiva o que atraía uma população masculina eminentemente nômade, tendo por conseqüência então, a situação da mulher assumindo a subsistência da família. Situação semelhante é mencionada por Silva Dias (1984) em relação a São Paulo na década de 1930, época em que várias casas eram comandadas por mulheres sem cônjuge. A constante ausência dos homens levava as mulheres a comandarem sozinhas estâncias, fazendas e negócios.
Joana Pedro (2002) destaca também a situação das mulheres na cidade de Desterro, antigo nome da capital de Santa Catarina, no último quartel do século XIX, em que o crescimento do comércio determinou uma nova distribuição de funções e delimitação de espaços e papéis. Nas antigas vendas e pequenas casas comerciais, as mulheres apareciam atendendo a freguesia, com ou sem a presença dos maridos. Nas casas comerciais de maior porte e nas atividades do transporte marítimo a presença feminina era rara. As mulheres permaneciam ativas na agricultura, nos engenhos de farinha de mandioca, na limpeza e secagem do peixe.
Fonseca (2002:516) faz referência à mulher pobre, cercada por uma moralidade oficial completamente desligada de sua realidade, vivendo com o salário minguado e regular
de seu marido, que não atendia às necessidades da família. “[...] a dona de casa, que tentava
A autora cita ainda que:
[...] apesar de evidente que em muitos casos a mulher trazia o sustento principal da casa, o trabalho feminino continuava a ser apresentado pelos advogados e até pelas mulheres como um mero suplemento à renda masculina. Sem ser encarado como profissão, seu trabalho em muitos casos nem nome merecia. Era ocultado, minimizado em conceitos gerais como “serviços domésticos” e “trabalho honesto” (p.517).
O século XIX é marcado por uma série de transformações na sociedade, como a consolidação do capitalismo; o incremento de uma vida urbana que oferecia novas alternativas de convivência social; a ascensão da burguesia e o surgimento da mentalidade burguesa, que teve o papel de reorganizar as vivências familiares e domésticas, do tempo e das atividades femininas. Foram afetadas também a sensibilidade e a forma de pensar o amor
(D‟ÍNCAO, 2002:223).
As últimas décadas do século XIX apontam para a necessidade de educação para a mulher, vinculando-a a modernização da sociedade, à higienização da família, à construção da cidadania dos jovens. A preocupação em afastar do conceito de trabalho toda a carga de degradação que lhe era associada por causa da escravidão e em vinculá-lo à ordem e progresso levou os condutores da sociedade a arregimentar as mulheres das camadas populares. Elas deveriam ser diligentes, honestas, ordeiras e asseadas. A elas caberia controlar seus homens e formar os novos trabalhadores e trabalhadoras do país. Àquelas que seriam as mães dos líderes também se atribuía a tarefa de orientação dos filhos e filhas, a manutenção de um lar afastado dos distúrbios e perturbações do mundo exterior (LOURO, 2002:447).
Soihet (2002) reafirma essa discussão ao retratar a sociedade brasileira no período de 1890 a 1920 destacando a instauração da ordem burguesa, que traz como lema dos grupos ascendentes a modernização e higienização do país. A preocupação maior era transformar as capitais em metrópoles com hábitos civilizados, similares ao modelo parisiense. A preocupação com o trabalho também é alvo de preocupação e medidas são tomadas para adequar homens e mulheres dos segmentos populares a uma nova ordem, inculcando-lhes valores e formas de comportamento que passavam pela rígida disciplinarização do espaço e do tempo da atividade laboral, estendendo-se às demais esferas da vida. Das camadas populares se esperava uma força de trabalho adequada e disciplinada. A organização familiar dos populares era vista com uma multiplicidade de formas, sendo grande o número de famílias chefiadas por mulheres sós. Essa nova ordem repercutia diretamente sobre o comportamento feminino:
[...] as imposições da nova ordem tinham o respaldo da ciência, o paradigma do momento. A medicina social assegurava como características femininas, por razões biológicas: a fragilidade, o recato, o predomínio das faculdades afetivas sobre as intelectuais, a subordinação da sexualidade à vocação maternal. Em oposição, o homem conjugava à sua força física uma natureza autoritária, empreendedora, racional e uma sexualidade sem freios. As características atribuídas às mulheres eram suficientes para justificar que se exigisse delas uma atitude de submissão, um comportamento que não maculasse sua honra (SOIHET, 2002:363).
Em relação ao homem pobre, Soihet (2002) traz a contribuição de Chalhoub (1986) ao refletir que o mesmo, por suas condições de vida, estava longe de poder assumir o papel de mantenedor da família previsto pela ideologia dominante, tampouco o papel de dominador, típico dos padrões da época.
Rago (2002:603) evidencia a importância das mulheres para a construção do país nas primeiras décadas do século XX, sendo elas pobres ou de camadas médias e altas da sociedade, seja no meio rural ou no meio urbano. A participação das mulheres pobres não se dava apenas nas indústrias, principalmente no Sudeste, pois elas estavam também no campo, trabalhando nas plantações e colheitas, em fazendas e outros tipos de propriedades rurais. Nas cidades elas trabalhavam como empregadas domésticas, lavadeiras, cozinheiras, bem como, em escolas, escritórios, lojas, hospitais e asilos. Havia ainda uma grande circulação delas pelas ruas como doceiras, vendedoras de cigarros e charutos, floristas e prostitutas. Entre as jovens que provinham das camadas médias e altas, muitas se tornavam professoras, engenheiras, médicas, advogadas, pianistas, jornalistas, escritoras e diretoras de instituições culturais. Enfim, aos poucos sua participação no mundo do trabalho foi acontecendo em todos