4. BULGULAR VE YORUMLAR
4.2. Balıkesir’de Uşşâkıyye Kültürü
4.2.3. Balıkesir’de Uşşâkıyye Tarikatı
4.2.3.1. Sıddîk Naci Eren (1925-2018)
Minuchin (1982) considera a família a matriz de identidade do indivíduo, lugar onde ocorrem as experiências de identidade com seus dois elementos: pertencimento e ser separado. Para o autor, o sentido de pertencimento de um indivíduo advém do pertencimento a uma determinada família, enquanto o sentido de individuação e de separação por sua vez resulta da participação nos diferentes subsistemas da família e na participação em outros grupos extra-familiares.
O autor indica que a estrutura e o funcionamento da família nos oferecem diretivas claras para o diagnóstico e tratamento. Compreende o sistema familiar como formado por subsistemas cujas interações e fronteiras que os delimitam são pontos básicos para a compreensão da dinâmica familiar. Afirma que os padrões de interação são constituídos por seqüência de comportamento e atitudes repetidas; papéis ou funções que
são recíprocos ou complementares, regras explícitas e veladas, relações de autoridade ou hierarquia, expectativas e relações de poder.
Distingue-se na família três subsistemas básicos, o conjugal, o parental e o fraternal em que os membros se reúnem para satisfação de necessidades e realização de suas funções (MINUCHIN, 1982). O autor explica que o subsistema conjugal é formado pela relação de casal, com seus níveis próprios de complementaridade, interdependência e acomodação mútua das diferentes características; pode haver apoio à criatividade e às diferentes funções ou um parceiro pode estimular aspectos negativos do outro por meio da desqualificação, ou adotar padrões de dependência-proteção. Indica que o subsistema parental é formado pelas relações pais-filhos e tem as funções de nutrir, guiar, controlar, cuidados com a educação e socialização e que o padrão de interação neste subsistema pode favorecer a autonomia e independência ou a manutenção da dependência. Pontua que o subsistema fraterno, formado pelos irmãos, comporta as primeiras relações sociais com os iguais com experiências de cooperação, negociação, competição, diferentes jogos de poder e escolha de bode expiatório, e que estas primeiras experiências tornam-se significativas na relação posterior com outros grupos. O autor ainda lembra que os subsistemas também podem ser determinados por sexo, interesse e funções, formados de um só indivíduo, de díades e triângulos, além do que cada pessoa pode desempenhar diferentes papéis nos diferentes subgrupos, com diferentes níveis de poder e de complementaridade.
Os sistemas e subsistemas são delimitados por fronteiras que regulam as inter- relações entre os indivíduos por meio de regras explícitas ou implícitas e asseguram a sua diferenciação (MINUCHIN, 1982). O autor explica que as fronteiras protegem a autonomia da família e de seus subsistemas, demarcam a hierarquia, o exercício de autoridade e poder entre seus membros e oferece a justa medida entre proximidade e
afastamento. Comenta que ao mesmo tempo em que auxilia no processo de diferenciação, oferece um sentido de pertencimento, estimulando apoio e solidariedade, criando limites para a expressão de conflitos e competições.
O autor aponta que o bom funcionamento da família requer a existência de fronteiras nítidas entre os subsistemas e da família com o sistema maior, ou social, ao passo que fronteiras emaranhadas ou difusas, ou fronteiras rígidas dificultam o processo de adaptação às novas situações.
Ainda segundo Minuchin (1982), a família emaranhada possui maior nível de interação entre os membros, e tende a oferecer apoio mútuo com mais presteza em horas de estresse ou dificuldades. No entanto, com suas fronteiras difusas e sem limites claros nas suas funções tende à fusão, criando dificuldades de autonomia e independência. Diz ainda que a instabilidade e tensões em um indivíduo ou subsistema exercem influência excessiva nos demais, o que torna o processo de adaptação à mudança deficitária, sendo maior a tendência à manutenção do “status quo” maior.
O autor supracitado entende que as famílias desligadas, tendo como característica suas fronteiras rígidas, estimulam a autonomia e independência, podendo haver maior diferenciação entre seus membros, mas pode prejudicar o sentimento de pertencimento, lealdade, e de pedido de ajuda nas horas mais difíceis, além de criar um distanciamento emocional.
Na formação de fronteiras, de acordo com o autor, podemos também observar formas disfuncionais de resolução de conflitos, como a coalizão e o desvio. Na coalizão dois ou mais membros podem unir-se contra um indivíduo, por exemplo, a mãe pode se unir com um dos filhos contra o pai. Explica que o desvio na formação de fronteiras pode levar a formação de bode expiatório, por exemplo, pais podem projetar nos filhos os
conflitos que não conseguem resolver entre si; conflitos no casal podem também ser desviados por meio de preocupação excessiva com um dos filhos vitimizando-o.
O terapeuta familiar estrutural exerce a função de um reparador de fronteiras (GOLDBETER-MERINFELD, 1998) tais como: problemas na delimitação de intimidade do casal em relação aos filhos, a relação de autoridade assumida indevidamente por um dos filhos, permissão para que as crianças possam adquirir independência de acordo com o seu ciclo de vida, e o respeito às escolhas pessoais e diferenças. O autor indica que a boa delimitação dos subsistemas entre si, como do sistema familiar com a família de origem, oferece melhores condições para a funcionalidade da família na resolução de dificuldades, na superação das ansiedades naturais dos processos de mudança e no processo de adaptação. Lembra que o casal precisa separar-se da família anterior, e formar nova estrutura com nova delimitação de fronteiras. Muitos conflitos, adverte o autor, advêm da necessidade de manutenção de estruturas da família de origem, principalmente quando há divergência na experiência anterior entre os cônjuges. Assim acredita que o sintoma e a sua manutenção devem ser avaliados com relação aos padrões familiares, sempre se considerando o contexto. E finalmente lembra que o sintoma indica disfuncionalidade das relações de um sistema, que não está em nenhuma parte isoladamente, mas na interdependência entre os vários subsistemas ou na relação com o macrosistema.
Sem adotar uma posição determinista entre funcionamento familiar e distúrbios mentais, Minuchin (1982) assinala que pode acontecer de o problema estar no indivíduo, assim como no contexto social. E propõe a análise da interinfluência entre os diferentes contextos. Para o autor embora a família seja a matriz psicossocial, está inserida em uma cultura em permanente transformação, e a complementaridade leva a mudanças na estrutura familiar e nas suas funções em lugares e épocas diferentes.
Para uma adequada intervenção e compreensão do estresse familiar, esta deve ser vista em movimento e analisada como se adapta às novas situações, em resposta a pressões internas vindas de mudanças evolutivas, ou a forças externas que podem atuar em um dos membros ou na família como um todo (Minuchin, 1982; Minuchin & Fishman, 1990).
Minuchin e Fishman (1990) apontam que a mudança no sistema familiar requer a co-participação do terapeuta quando este, entre outras técnicas, adota a postura de introduzir-se no sistema familiar. Indicam que o terapeuta pode adotar posições medianas, de proximidade ou de distância, e até fazer coalizões temporárias para mudança nas relações. Dessa forma ponderam que não só a família pode se sentir mais compreendida, mas experimentar novas formas de relações a partir do sistema terapêutico.
As diferentes configurações que o sistema e os subsistemas adotam em um momento de conflito ou mudança podem se tornar patológicas quando impedem o desenvolvimento de um dos seus membros de acordo com o seu ciclo de vida. A família perde sua função de matriz de identidade importante para a individuação e socialização.
Ao lado de conflitos, cisão, coalizão, fusão, outros jogos patológicos podem entrar em cena. Em pesquisa com famílias com membro psicótico em idade juvenil, alguns jogos foram identificados por Palazzoli et al. (1998). Estes autores propõem um modelo para a formação da psicose a partir da interação familiar composto de seis etapas: o impasse no casal conjugal, o enredamento do filho no jogo do casal, o comportamento inusitado do filho, a reviravolta do suposto aliado, a explosão da psicose e as estratégias baseadas nos sintomas.
Para os autores, a situação de impasse do casal é caracterizada por conflito no casal em que a luta é seguida por movimentos de evitar a ruptura, não podendo haver ganhador nem perdedor. Informam que quando um dos parceiros coloca-se na situação de
ataque, antes do desfecho, resolução ou definição de posições o outro faz um contra- movimento até o ponto apenas de manter a disputa. Assim, as vantagens no jogo são sempre retiradas pelo outro – de forma ativa ou passiva – e permanece o impasse.
A segunda etapa do jogo, de acordo com os autores, forma-se a partir do enredamento do filho no jogo do casal: o filho envolve-se com o conflito dos pais, tentando modificar o comportamento do provocador ativo, ou por ser alvo também das agressões ou por atitudes de sedução encoberta do provocador passivo ou por movimentos próprios de apoio ao que se põe no lugar de vítima. Lembram, no entanto, que a promessa própria da sedução nunca se cumpre, permanecendo ambígua, sempre adiada, permanecendo o filho preso a esse jogo.
Em seguida mostram que na terceira etapa o filho consegue manifestar a sua posição a favor da aparente vítima e expressa um comportamento violento ou contestador em relação ao provocador ativo, com intenções de rebelar-se, de mostrar ao seu aliado como deveria fazer, ou mesmo na busca de autonomia. No entanto, comentam, o filho não alcança seus objetivos, o provocador não muda sua situação em favor do filho e o perdedor não muda sua postura passiva. A complicação maior aparece quando o suposto aliado volta-se contra o filho em uma coalizão com o suposto inimigo, o que Palazzoli et al. (1998) consideram a quarta etapa.
Neste momento o filho sente-se traído, sozinho, aparecendo junto à depressão e à sensação de impotência uma fúria destrutiva e um desejo de vingança: a confusão psicótica o invade, e “os fundamentos lógicos do mundo e de seus significados foram revirados pelo avesso, visto que as previsões que se consideravam certas demonstraram estar erradas” (PALAZZOLI et al., 1998, p.209). Os autores sinalizam que se perde a coerência do mundo cognitivo e afetivo. A sintomatologia psicótica então será sua arma
para conseguir a vitória, dominando o vencedor e mostrando sua força ao perdedor, configurando a quinta etapa.
Os autores mostram o jogo psicótico quando no momento em que o filho explode em uma psicose, o seu aparente aliado forma uma coalizão com o outro cônjuge, voltando- se contra aquele filho. Ao passar o surto o jogo volta à posição inicial, retomando-se à antiga coalizão filho-aparente perdedor, que se rompe novamente em momento de novos surtos. Na verdade, comentam, o filho é apenas um instrumento no jogo do casal e as aparentes alianças um imbróglio. Esta sexta etapa, das estratégias baseadas no sintoma, leva ao processo de cronificação: “cada membro da família organizou a sua própria estratégia em torno do sintoma do filho, que tem o efeito pragmático de mantê-lo” (PALAZZOLI et al., 1998, p. 210).
Esses jogos psicóticos, advertem os autores, não se resumem à tríade pai-mãe- filho. Nas famílias com irmãos os jogos psicóticos se estendem para a fratria, que também entra na formação de coalizões, em busca de prestígio, de alianças. Os autores apontam que os conflitos entre os irmãos são mais facilmente identificados, aparecendo na linha de frente dos conflitos familiares. Da mesma forma, membros de família extensa podem tomar parte dos imbrogli interativos, acrescentam.
Os autores conseguem demonstrar por meio dos resultados de sua pesquisa não só o processo interativo que dá origem à psicose como conseguem também sinalizar como as configurações familiares podem indicar o curso que o surto psicótico pode tomar, seja de cronificação ou remissão dos sintomas, o que usualmente é chamado de remissão espontânea:
A partir do momento em que a psicose explode, a família pode pôr em prática intervenções para a mudança. Em alguns casos, podemos supor que elas se cumpram exclusivamente dentro da família: não se pode excluir a possibilidade
de que o protesto psicótico dramático obtenha algum efeito algum efeito real de transformação e, com isso, vá se atenuando gradualmente até desaparecer. Poderíamos explicar dessa maneira alguns episódios psicóticos que, às vezes, manifestam-se em adolescentes e jovens, e parecem regredir “espontaneamente” e sem deixar vestígios (PALAZZOLI et al, 1998 p. 209).
No entanto os autores comentam que mais freqüentemente a mudança nas relações e a extinção do jogo têm o auxílio de terceiros, normalmente de pessoas especializadas.
Enquanto a visão sistêmica nos permite uma visão das configurações vinculares da família em torno de suas fronteiras e limites, suas modificações e os jogos relacionais que se formam nas diferentes situações, a abordagem psicanalítica tem o foco nos aspectos inconscientes da formação e funcionamento do grupo familiar, o que veremos a seguir.