2.5. Motivasyon Teorileri
2.5.2. Süreç Teorileri
Compreender a maneira como se organizam intelectualmente os etnosaberes dos pescadores é tal como tentar entender o modo como os indivíduos pensam, só é possível por meio da linguagem. Conforme Wittgeinstein (1999) as convicções humanas “[...] não estão a mão” (p. 201), podendo-se obter delas apenas suas representações. Logo, o modo como ocorre a organização intelectual dos saberes da pesca só pode ser explorado mediante à “[...] expressão convincente de uma convicção” própria do pescador (WITTGEINSTEIN,1999, p.201).
Além disso, entender as falas dos pescadores pressupõe compartilhar de suas convicções, pois, conforme Kourilsky-Belliard (2004), ao interpretar as manifestações verbais e não-verbais de um indivíduo “[...] o que percebemos do outro resulta de nossa subjetividade, seletiva e relativa [...]” (p.44). Apreender o sentido da fala dos pescadores sem estabelecer uma interpretação simplista constituiu, portanto, um desafio, pois a tendência é que a compreensão dos saberes de uma cultura distinta seja limitada por impressões pessoais de quem “vê” de fora. A respeito das diferentes percepções de mundo Kourilsky-Belliard (2004, p. 44) salienta que “[...] cremos perceber a realidade do outro quando o que percebemos é a impressão que ele produziu em nós.”
Partindo desses pressupostos, vale ressaltar que não foram feitos julgamentos a respeito dos modos como os pescadores descrevem seus modos de pensar, medir e contar. Buscou-se, sobretudo, estabelecer algumas inferências a respeito de suas enunciações que permitissem conhecer parte do processo de organização intelectual de seus saberes, partindo, na medida do possível, do mesmo referencial sociocultural. Tomar como princípio a realidade dos pescadores implica partilhar do mesmo jogo de linguagem, pois conforme Knijnik e Wanderer (2008, p.558) os saberes gerados por grupos culturais específicos podem ser entendidos como “[...] conjuntos de jogos de
92 linguagem associados a diferentes formas de vida, agregando critérios de racionalidade específicos.”.
Assim, pode-se entender que os pescadores artesanais compartilham de um jogo de linguagem particular que é produzido sob a forma de vida28 da pesca artesanal
da Ilha da Pintada. No entanto, é preciso considerar que entre jogos de linguagens distintos, segundo Wittgeinsten (1999), sempre há analogias a serem identificadas, as quais são denominadas pelo autor como semelhanças de família. No entanto, não constituiu objeto do presente estudo a análise das semelhanças de família presentes entre as produções culturais dos pescadores e outros jogos de linguagem, uma vez que isso demandaria outro viés a pesquisa.
A existência de um jogo de linguagem típico dos pescadores manifestou-se, principalmente, quando o Pescador 1 explicou, durante entrevista, todo o processo de confecção da rede de pesca. Por exemplo, sobre a medida do objeto denominado malheiro: “A medida dele é duas vezes a medida da malha. Esse aqui é para entralhar 4 malhas, só que essa medida eu sei porque ele encaixa entre duas malhas, de nó a nó.” (Pescador 1). Evidencia-se, por meio desse excerto, que o pescador afirma saber a medida do malheiro tão somente porque ela equivale à medida de duas malhas de rede, de nó a nó. E ainda, na linguagem dos pescadores, malheiro cuja medida equivale a duas malhas da rede serve para entralhar quatro malhas (Figura 14).
28 Ver WITTGENSTEIN, L. Investigações Filosóficas. Tradução de: José Carlos Bruni. São Paulo: Nova
93 Figura 14- Medida do malheiro para entralhar quatro malhas
Fonte: Elaborada pela autora (2015).
A partir do exemplo do malheiro, pode-se inferir que há certas regras no processo de confecção da rede que definem o que é certo ou errado. Sob a perspectiva wittgensteiniana, o conjunto de regras que compõem um jogo de linguagem denomina- se gramática29 (KNIJNIK; WANDERER, 2008). Assim, a determinação de que o
tamanho do malheiro deve ser equivalente ao dobro da medida da malha é apenas uma das regras que constituem a gramática do jogo de linguagem particular dos pescadores. Nas palavras do Pescador 1, “[...]... se nós tivésse uma malha 10 o malheiro teria que ser o dobro. Seria 20.”.
Outro exemplo que demonstra o modo particular de medir dos pescadores é percebido na definição de encala. Segundo Pescador 1, o espaço delimitado entre os nós na tralha da rede chama-se encala. No entanto, a partir das entrevistas percebeu- se que o tamanho da encala varia de acordo com a técnica de pesca. Na rede do Pescador 1, por exemplo, a encala equivale a medida de quatro malhas, já de acordo com a técnica do Pescador 3 a encala corresponde ao espaço de dez malhas. Essa variação ocorre em razão das diferentes técnicas que podem ser utilizadas na confecção da rede. A técnica usada pelo Pescador 1 é conhecida como a técnica das treze malhas. “É assim, a cada 13 encala eu coloco uma boia. Por exemplo, aqui vai
29 Ver WITTGENSTEIN, L. Investigações Filosóficas. Tradução de: José Carlos Bruni. São Paulo: Nova
94 estar a boia, daí vai ter 4 malhas, mais 4 malhas, mais 4 malhas... Quando fizer 13 encalas eu coloco mais uma boia (Pescador 1).”.
Exemplos como esses vão ao encontro do entendimento de Wittgenstein (1999) de que os signos vivem no uso, ou seja, de que a produção de sentido a respeito de um enunciado depende, essencialmente, de estar inserido no mesmo jogo de linguagem de quem o pronuncia. Acentua-se, também, o fato de que a compreensão das falas dos pescadores, do modo como confeccionam os instrumentos de pesca, como denominam certas “unidades” de comprimento, pressupõe “posicionar-se” no mesmo contexto em que se situam os pescadores. Nesse sentido,
[…] aprender a significação de uma expressão não se restringe a denominar objetos, mas também a operar, através de regras gramaticais contextualizadas, as expressões que constituem as significações. (CONDÉ, 2004, p.95).
Sobre a denominação dos instrumentos de pesca o Pescador 3 relata que há certas nomenclaturas que só são conhecidas por aqueles que são pescadores de verdade, em suas palavras: “Agora hoje em dia não pode chamar de tralha, é cabo. É, porque se chamar de tralha eles não sabe o que que é.”. A partir disso, pode-se perceber que sob a visão do pescador existem pessoas que se dizem pescadores entretanto, desconhecem as “regras” que constituem seu jogo de linguagem. Tal como a tralha, há outras nomenclaturas designadas sob a linguagem própria dos pescadores. Por exemplo, a palavra balão, se fosse dita a uma criança qualquer certamente a representação seria do balão como um brinquedo, já no contexto dos pescadores balão é a denominação atribuída a um objeto confeccionado artesanalmente para armazenar os peixes pescados.
De acordo com Larrosa (2002), as palavras funcionam como “[...] potentes mecanismos de subjetivação” (p.21), a partir das quais são determinados os pensamentos. Desse modo, considerando o caráter subjetivo do uso da linguagem, apoiadas nas teorizações wittgensteiniana, Knijnik et al. (2012), apontam a necessidade de reconhecer não apenas a existência de diversos jogos de linguagem mas também distintos critérios de racionalidade, conforme as autoras:
95 O “Segundo” Wittgenstein concebe a linguagem não mais com as marcas da universalidade, perfeição e ordem, como se preexistisse às ações humanas. Assim como contesta a existência de uma linguagem universal, o filósofo problematiza a noção de uma racionalidade total e a priori, apostando na constituição de diversos critérios de racionalidade. (KNIJNIK et al., 2012, p.29).
Com base nesse pressuposto, é possível compreender que os saberes dos pescadores artesanais, além de constituir um jogo de linguagem específico, são produzidos por critérios de racionalidade particulares que não se fundamentam em conhecimentos científicos. Corroboram essa afirmação o fato de que os pescadores entrevistados frequentaram muito pouco a escola. O Pescador 1 e o Pescador 2 estudaram, respectivamente, até o quinto e o quarto ano da educação básica e o Pescador 3 não chegou a completar três meses de frequência escolar. Quando questionado sobre a vida escolar o Pescador 3 afirmou: “Não, eu nunca fui. Pra não dizer que eu nunca fui, eu fui na escola em 86 uma coisa assim. Fui dois mês só na escola e aí veio a enchente. Daí não tinha mais colégio porque nós morava lá embaixo. É preciso. Na verdade pro meu serviço não.” (Pescador 3).
A consideração de que os saberes escolares não são necessários para desempenhar as atividades pesqueiras também é percebida na fala do Pescador 2. Quando questionado sobre a importância de ter frequentado os três anos iniciais da educação básica respondeu: “Hum... Não mudou muito não. Mais é negócio de conta, essas coisa assim.” Embora tenha afirmado que os saberes escolares não modificaram seus saberes pesqueiros, o Pescador 2 reconhece que ter aprendido a fazer contas na escola lhe auxiliou no trabalho com a pesca.
Aliás, em mais de um momento na entrevista o pescador exclamou: “Matemática eu era bom!” (Pescador 2). Tal entusiasmo percebido na fala do Pescador 2 em relação à disciplina Matemática não está, no entanto, relacionado à serventia dos saberes matemáticos escolares para sua vida mas, ao sentimento de orgulho que sentia por ser um “bom” aluno. Ao relatar que costumava preencher as atividades no quadro para a professora e que fora, certa vez, considerado o primeiro aluno da classe, o Pescador 2 demonstra que considera-se uma pessoa com facilidade. Assim, ter concluído os estudos não é sinônimo de sabedoria para os pescadores uma vez que os
96 saberes valorizados por eles não são os mesmos saberes valorizados na escola. O mesmo pode ser observado nas falas do Pescador 1: “Meu pai nunca foi na escola, não sabe escrever nem o nome dele direito, mas bobear é mais inteligente que eu.”.
A valorização desses “outros” modos de pensar faz com que essas pessoas, produtoras e produtos desses saberes, sejam vistas como sábias ainda que não saibam sequer escrever o próprio nome. A partir disso, pode concluir que a organização dos saberes dos pescadores ocorreu independentemente do saber escolar. Ademais, ainda que as regras do jogo de linguagem dos pescadores não estejam submetidas ao rigor científico, tal como a utilização da medida dos dedos, elas são qualificadas porque fazem sentido aos pescadores e, sobretudo, resolvem seus problemas.