1. BÖLÜM
3.3. Sürdürülebilir Muhasebe Oluşturma Süreci
pressupostos sobre a natureza do mundo social e a forma na qual estes podem ser investigados. Estes pressupostos são de quatro naturezas: ontológica, epistemológica, humana e metodológica. Para cada um destes pressupostos, os autores apresentam perspectivas polarizadas em relação às abordagens objetivista e subjetivista, conforme Figura 11.
Figura 11 – Esquema de análise dos pressupostos sobre a natureza da ciência social – Fonte: Burrel e Morgan, 1982, p.3
O realismo, da natureza ontológica, representa a visão de mundo social caracterizado por estruturas sólidas, tangíveis e relativamente imutáveis. Para o realista o mundo social existe independente da apreciação dos indivíduos. Já o nominalismo, percebe as entidades como algo etéreo, onde o que conta são as interpretações dos indivíduos, que podem gerar vários significados (CAVALCANTI, 2005).
Ao transportar estes conceitos para os estudos sobre modelagem, a visão da arquitetura é concebida por meio do caráter ontológico de realismo, pois está fundamentada na análise de estruturas formais. Isto fica mais bem caracterizado quando se verifica que uma das premissas da arquitetura, conforme descrito por Weick (1995, p.354), é “modelagens são grandes estruturas que são estáveis”.
Abordagem Subjetivista para a Ciência Social Abordagem Objetivista para a Ciência Social
Nominalismo Ontologia Realismo
Antipositivismo Epistemologia Positivismo
Voluntarismo Natureza Humana Determinismo
Ideográfica Metodologia Nomotética
A dimensão subjetiva- objetiva
Por outro lado, a vertente de improvisação está baseada exclusivamente nas interpretações de fatos passados pelos indivíduos na organização, o que representa a própria essência da abordagem subjetivista do nominalismo. Weick (1995, p.360) ratifica este entendimento quando menciona que na improvisação “interpretações determinam a efetividade”, “o propósito da modelagem é facilitar a interpretação” e que “pessoas agem e então elas interpretam”.
A metáfora da equalização, no que se refere à natureza ontológica, aporta elementos tanto do realismo quanto do nominalismo. Do realismo quando considera que as estruturas formais fazem parte de um contexto do gerente equalizador que não pode ser ignorado. Porém, a base da equalização é a interpretação dos sinais distorcidos, o que leva à uma abordagem voltada para o nominalismo. Conforme mostrado por Cavalcanti (2005), o gerente equalizador ao modelar estruturas formais, delimitadas por normas pré- determinadas, explora os limites da formalidade para construir instrumentos de gestão de forma criativa e ousada.
Em relação à dimensão epistemológica, Burren e Morgan (1982) dividem a abordagem da ciência social em positivismo e antipositivismo, considerando os aspectos objetivos e subjetivos respectivamente. Para os autores, o positivismo é caracterizado pela forma de tentar explicar e preditar o que acontece no mundo social pela busca de regularidades e de relação causal. Para o antipositivismo o mundo social é relativizado na sua essência e só pode ser compreendido do ponto de vista do indivíduo que está diretamente envolvido na atividade que está sendo estudada.
A base dos estudos da modelagem como arquitetura representa um padrão positivista, pois está sustentada por diagnósticos organizacionais que buscam identificar modelos regulares
e de relações de causa e efeito entre as diversas variáveis organizacionais. No que concerne à vertente de improvisação, esta é constituída de idéias que rejeitam qualquer busca por leis e regularidades. A interpretação das pessoas na organização é que determina a ação de gestão, por isso é epistemologicamente antipositivista.
O “gerente equalizador” não apresenta esta dicotomia positivismo e antipositivismo. Quando ele redesenha modelagens, servindo de mecanismos formais de diagnóstico organizacional, está sendo positivista. Porém, quando interpreta os sinais distorcidos, provenientes das disfunções e incongruências das variáveis organizacionais, ele utiliza uma abordagem antipositivista.
No que diz respeito ao caráter da natureza humana, Burrel e Morgan (1982) estabelecem duas visões: de um lado, o determinismo que vê o homem e suas atividades como sendo completamente determinados pela situação ou ambiente em que estão inseridos; por outro lado, na dimensão subjetiva, verifica-se o voluntarismo que entende que o homem é autônomo e livre em suas escolhas.
Como afirma Cavalcanti (2005), a visão tradicional da modelagem, ou a vertente da arquitetura, atribui importância fundamental para a estrutura formal de todos os elementos organizacionais, pois entende que esta racionalidade tem um papel importante na indução do comportamento funcional, visando à busca dos resultados organizacionais. Essa intenção é claramente determinística, pois entende que o conjunto das estruturas formais da organização afeta o homem funcional.
Para a improvisação, o caráter da natureza humana do voluntarismo está implícito na própria discussão sobre bricolage. Para Weick (1995), as pessoas que possuem as
características de um bricoleur são aquelas que possuem a habilidade de improvisar, sem se contaminar pelas estruturas que as cercam. A improvisação é fruto de um ato de vontade, o que significa que é independente de induções ou determinações estruturais.
O determinismo e o voluntarismo estão presentes no cotidiano do gerente equalizador. Quando ele atua como um burocrata, tomando decisões limitadas por instrumentos formais burocráticos, ele age como homem cuja natureza é determinada pelo ambiente em que vive. Entretanto, quando ele toma ações equalizadoras surge o homem que não se conforma com as estruturas que o cercam. Esta atuação voluntarista do gerente equalizador é salientada no trabalho de Cavalcanti (2005, p.120), ao definir como uma das categorias das ações de gestão equalizadora o “fazer o jogo da burocracia”. Nesta categoria, o equalizador utiliza todo o seu repertório para “varrer a burocracia para o lado” utilizando- se de suas idiossincrasias, com uma ação autônoma e de livre escolha.
Finalmente, a última dimensão da natureza das ciências sociais é a metodológica. Burrel e Morgan (1982) estabelecem para esta dimensão o caráter nomotético, objetivista, e o ideográfico, subjetivista. A abordagem nomotética enfatiza a importância da pesquisa embasada por protocolos e técnicas sistematizadas. Por isso, está preocupada com a construção de testes científicos e o uso de técnicas quantitativas para análise de dados, questionários, testes, entre outros.
Por outro lado, a abordagem ideográfica para a ciência social está fundamentada no entendimento que o mundo social só pode ser compreendido pela obtenção do conhecimento de primeira mão do assunto sob investigação. Burrel e Morgan (1982, p.6) insistem neste ponto quando afirmam que “A abordagem ideográfica enfatiza a análise dos relatos subjetivos que o sujeito produz ao “penetrar” em situações e envolver-se no fluxo
vital do cotidiano ...”.
A visão da modelagem como arquitetura se vale do aparato metodológico do caráter nomotético, pois utiliza com muita freqüência técnicas quantitativas para a análise e diagnóstico organizacional, como presenciado, principalmente, nos estudos de Van de Ven e Ferry (1980).
No que se refere aos estudos da modelagem nas vertentes improvisação e equalização, o caráter ideográfico da dimensão subjetivista é a base de pesquisa. Estas duas visões da modelagem interpretam as percepções dos improvisadores e dos equalizadores, para poder entender as ações sociais que emergem. A pesquisa que tornou possível identificar o gerente equalizador como uma nova vertente para os estudos da modelagem organizacional, foi toda construída em cima dos relatos das ações de gestão de alguns gerentes. Cavalcanti (2005) “penetrou” nas experiências dos gerentes públicos, desvelando a natureza e as características da equalização. Este estudo mostra a pureza do aparato metodológico ideográfico.
Ao fim desta análise dos pressupostos sobre a natureza das ciências sociais, cotejando as dimensões objetivista e subjetivista e as bases conceituais das três vertentes dos estudos da modelagem organizacional, é possível construir um quadro comparativo, conforme Tabela 1, com as principais características referenciais da arquitetura, improvisação e equalização. Este quadro mostra que a equalização aporta elementos que ajudam a superar as dicotomias estruturalismo-interpretativismo e objetivismo-subjetivismo. Além disso, o estudo demonstra que as ações equalizadoras tendem tanto para os conceitos da vertente de arquitetura, quanto para a vertente de improvisação, com destaque maior para esta última. Sendo assim, é possível concluir que o conceito de equalização, visto dentro da realidade
dos gerentes brasileiros e do contexto das organizações nacionais, representa uma síntese “verde e amarela” dos estudos sobre modelagem organizacional.
Características Arquitetura Improvisação Equalização Autores Referenciais Jay Galbraith Karl Weick Bianor Cavalcanti
Visão Objetivista Subjetivista Ambas, mais
Subjetivista Paradigma Estrutural-funcionalista Interpretativista Ambas, mais
Interpretativista
Caráter Ontológico Realismo Nominalismo Ambas, mais
Nominalismo Caráter
Epistemológico Positivismo Antipositivismo
Ambas, mais Antipositivismo Caráter da
Compreensão da Natureza Humana
Determinismo Voluntarismo Ambas, mais
Voluntarismo
Aparato Metodológico Abordagem Nomotética Abordagem Ideográfica Abordagem Ideográfica Papel do Executivo-
Chefe Decision Shaper Modelador Equalizador
Visão da Organização Estática Processo Contínuo Dinâmica
Tabela 1 – Características referenciais das vertentes conceituais
O estudo de Cavalcanti (2005), que culminou na metáfora do Gerente Equalizador, representa para o campo da modelagem organizacional uma consciência crítica da nossa realidade, principalmente para a administração pública brasileira.
Entender como se forma um gestor público com a capacidade de interpretar os sinais distorcidos, formais e informais, que surgem das incongruências das variáveis organizacionais, e sobre elas atuar no sentido de compensar as distorções, é um passo fundamental na busca da formação de profissionais públicos capacitados para enfrentar os problemas nacionais, com uma história e contexto próprio.
da administração estatal, pois chama atenção para a necessidade de se rever alguns mecanismos formais que geram disfunções nas e entre as variáveis organizacionais, demandando do gestor público ações equalizadoras, como o “explorar os limites da formalidade e fazer o jogo da burocracia”, as quais nem todos os gerentes estão preparados.
Além das teorias destes autores sobre modelagem, outro ponto importante que é necessário ser analisado para entender como a organização funciona hoje é o seu passado. Como afirmam Nadler, Gerstein e Shaw (1994, p. 36), também estudiosos deste assunto, “É particularmente importante compreender as fases principais do desenvolvimento da organização no decorrer do tempo, bem como o atual impacto de acontecimentos passados...”.
No caso particular da CNEN, a história da própria formação do Estado brasileiro e da relação entre política e administração pública têm influência direta na complexidade e diversidade da atual configuração da CNEN. Desta forma, o capítulo seguinte tem a finalidade de ajudar a compreender como se deu o processo de desenvolvimento das políticas públicas do setor nuclear nacional pelo Estado e como isto influenciou na acumulação pela CNEN de tantas funções heterogêneas.
Neste capítulo buscou-se fazer uma revisão dos principais conceitos de modelagem organizacional e sua importância para o desempenho da organização. Em seguida, foram apresentadas as diversas vertentes da teoria da modelagem: arquitetura, improvisação e equalização. Ao final, foi analisada a possível evolução conceitual da modelagem organizacional, considerando a equalização como uma síntese “verde e amarela” das outras visões conceituais.