Logo após ter sido criada pelo Tratado de Versalhes em 1919, como órgão de cooperação dentro do sistema da Sociedade das Nações, a OIT reuniu já em outubro do
29 O Tratado de Paz que deu origem à OIT tratou da questão dos imigrantes e emigrantes, reconhecendo que este não são apenas viajantes fugindo de situação difícil em seu país de origem, mas, notadamente, indivíduos que viajaram em busca de trabalho. Cf. HOWARD-ELLIS, 2003, p. 223.
mesmo ano para a sua primeira conferência internacional do trabalho. Na ocasião foram adotadas seis conferências tratando de temas que já estiveram nas pautas de reivindicação ao longo do século XIX. Assim, essas primeiras convenções versam respectivamente sobre jornada de trabalho na indústria, desemprego, proteção à maternidade, trabalho noturno de mulheres, idade mínima para trabalho na indústria e trabalho noturno de jovens na indústria (cf. OIT, ILSE, 2010).
Os primeiros anos de atividade da OIT foram de intensa produção normativa. Crivelli (2010, p. 59) observa que nesse período a organização se dedicou a regulamentar condições de trabalho e emprego e quando da deflagração da Segunda Guerra mundial, a OIT já havia aprovado 67 Convenções e 65 Recomendações.
Durante esse intenso período, a OIT foi ganhando autonomia em relação ao sistema da Sociedade das Nações criado pelo Tratado de Versalhes. Na medida em que a SDN explicitava suas fraquezas e perdia terreno político – sobretudo a partir da falha em atuar decisivamente diante da invasão Japonesa na Manchúria, em 1931–, a OIT, como agência especializada, se tornava mais e mais independente em relação à SDN (KERNS & MINGST, 2010, p. 71; CRIVELLI, 2010, p. 61).
Uma vez que a OIT era parte integrante da SDN, a forma de adesão de uma Estado àquela organização era entrar na Sociedade. Essa regra foi se flexibilizando, o que contribuiu para aumentar a autonomia política, administrativa e financeira da OIT (CRIVELLI, op. cit.). Assim, países não aceitos para participarem da SDN, aderiram à OIT e nela ingressaram. O autor cita ainda o caso do Brasil, que se retirou da SDN devido ao ingresso da Alemanha na organização, permanecendo, contudo, como Estado-membro da OIT30.
Os anos 1930 foram extremamente desafiadores para a SDN. Incapaz de responder à crise econômica iniciada em 1929 e ao aumento do nacionalismo em diversos países, muitos países-membros se retiraram da organização. A sombra da Guerra lavou novamente de sangue o Velho Continente. Durante os seis anos de conflito bélico (1939- 1945), a SDN esteve silente (KERNS, MINGST, op. cit., p. 71).
O fim da Segunda Guerra mundial descortinou um novo cenário nas relações internacionais. As ruínas físicas e humanas desse conflito levaram a rascunhos de um direito
internacional que efetivamente assegurasse dignidade às pessoas; obra inconclusa, muitos são anda os obstáculos para que o rascunho se afigure como desenho pronto e acabado.
Para entender o contexto, é preciso se ter em conta que as particularidades da Segunda Guerra mundial. Esse fora um conflito armado que opôs países que se faziam crer o berço da humanidade e da luz da razão. A Escola de Frankfurt denuncia o fato de que todo o saber acumulado pela humanidade serviu para destruir ela própria. Para essa escola filosófica, a sociedade do desenvolvimento técnico esqueceu-se de desenvolver-se humanamente, de amadurecer para usar todo o aparato criado. Essa civilização produziu a barbárie em escala industrial (Max Picard apud PAVIA, 1999, p. 6).
Um dos expoentes da Escola, Walter Benjamin, no texto “Teorias do fascismo alemão”, diz que há uma “distância abissal entre os meios gigantescos de que dispõe a técnica, por um lado, e sua débil capacidade de esclarecer questões morais, por outro” (BENJAMIN, 1985, p. 62). Por esse viés, somos seres empobrecidos, uma vez que toda a tecnologia e as possibilidades que ela permite são maravilhosas, contudo insuficientes para a humanidade, pois isto é apenas um fragmento do grande mosaico que compõe a complexa vida social e suas exigências. Mesmo o Direito se via em xeque, vez que suas construções positivistas mostraram sua aptidão para justificar massacres e atrocidades.
Diante de todo esse quadro, fazia-se de extrema relevância “descobrir” a dignidade da pessoa humana. Marie-Luce Pavia chama a atenção para o fato de que compreender os eventos que levaram à Segunda Guerra e o desenrolar do conflito é essencial para entender o conceito de dignidade tal como o conhecemos hoje. Para a autora,
foi no contexto da Segunda Guerra mundial que se fez uma terrível descoberta: um regime inumano tentava destruir aquilo que há de humano no homem. Diante desta barbárie ilegal, o direito se viu impotente. Era necessário elaborar uma nova categoria jurídica para apreender e tentar que ela [a barbárie] não mais se reproduzisse. (PAVIA, 1999, p. 6)
O nascimento da ONU e a Declaração Universal dos Direitos Humanos busca causar uma ruptura na história ao se opor vigorosamente contra o totalitarismo nazista31. O exemplo inovador da SDN levou à sua sucessão, através de uma nova organização internacional de cunho abrangente, a Organização das Nações Unidas (ONU). Não cabe ao
presente trabalho uma análise detida acerca das circunstâncias de construção da ONU, bastante diferentes daquelas que levaram à criação da SDN. Entretanto, cumpre dizer que essa nova organização já previa a criação de várias agências especializadas (também pela inclusão de organizações já existentes, como e.g. a União Internacional das Telecomunicações, criada em 1865). A OIT foi uma dessas agências especializadas (com natureza de organização internacional) que passaram a compor o recém criado sistema ONU.
Diante do novo contexto, era forçoso à OIT rever, após seus mais de trinta anos de atuação e da dissolução da SDN, seus objetivos e forma de atuação. Assim, a 26ª Conferência Internacional do Trabalho teve grande importância na atualização e adequação dos objetivos da OIT no contexto social e jurídico internacional após a guerra. Essa atualização se deu através da Declaração da Filadélfia, de 1944, cujo texto foi incluído como anexo ao texto da constituição da OIT.
A Declaração da Filadélfia assume papel de grande relevância por anunciar uma nova abordagem da organização, não mais apenas pautada na positivação de normas juslaborais, mas também pela adoção de programas objetivando eliminar desigualdades sociais e econômicas. Para Süssekind (2000, p. 128), a mais importante inovação na Declaração da Filadélfia foi a extensão da competência da OIT para tratar de problemas econômicos e financeiros no que estes influem na justiça social. As lições trazidas pela crise de 1929 e sua superação através do New Deal e programas de valorização do Bem-Estar Social entraram na agenda da OIT. Ademais, a defesa dos direitos do trabalho como direitos humanos fundamentais ampliou o horizonte de produção normativa, para incluir valores de liberdade, igualdade e dignidade.