Fruto do período da redemocratização brasileira, temos a inserção do turismo pela primeira vez numa constituição federal. Presente no art. 180, título VII (da ordem econômica e financeira), da C.F. de 1988, o referido trata que “a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios promoverão e incentivarão o turismo como fator de desenvolvimento social e econômico” (BRASIL, 1989, p. 203). Propunha-se, portanto, a descentralização das políticas de turismo e a formação de uma organização pautada na corresponsabilidade entre as diferentes esferas de governo.
Nesse contexto de reestruturação das políticas de turismo, temos a promulgação da Lei Nº 8.181, de 28 de Março de 1991, no qual a partir de então, a EMBRATUR passava a vincular-se à Secretaria de Desenvolvimento Regional, sendo definida como Instituto Brasileiro de Turismo. Com tal reestruturação dá-se a proposição de um planejamento da
atividade turística, a nível nacional, definido pelo Plano de Desenvolvimento do Turismo, novo marco na condução de políticas públicas de turismo no Brasil. O referido plano propunha um “conjunto de diretrizes e normas integradas em um planejamento de todos os aspectos ligados ao desenvolvimento do turismo e seu equacionamento como fonte de renda nacional” (FERRAZ, 1992, p. 13).
Como forma de regulamentar os dispositivos da Lei 8.181, o governo do presidente Fernando Collor de Melo (1989-1992) aprova o texto do decreto nº 448, de 14 de fevereiro de 1992, ressaltando o papel do Poder Público em atuar, através de apoio técnico e financeiro, “no sentido de consolidar a posição do turismo como instrumento de desenvolvimento regional, de forma a reduzir o desequilíbrio existente entre as distintas regiões do País” (BRASIL, 1992, p. 1).
No texto dessa nova legislação para o turismo, observamos também uma interligação com a questão ambiental, fruto das pressões incididas pela vinda da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (Eco-92) sobre o impacto dessa atividade na natureza. Assim, o Plano Nacional de Turismo (PNT) de 1992 apresentou em suas diretrizes:
I - a prática do turismo como forma de promover a valorização e preservação do patrimônio natural e cultural do país;
II - a valorização do homem como destinatário final do desenvolvimento turístico (BRASIL, 1992, p. 1).
No campo midiático, o instituto EMBRATUR passa a propor estratégias que visem promover um país jovem e promissor, lembrando a campanha eleitoral do então presidente da república, além de alvitrar a maciça inserção das paisagens naturais na seara publicitária voltada, sobretudo, para o público estrangeiro. Assim, é proposta a promoção do meio ambiente, de modo que “não comprometa o maior produto turístico nacional, que é a própria natureza” (EMBRATUR, 1990, p. 69). Desse modo, é delineado no PNT-1992 que:
a imagem do país à natureza e ao novo momento de desenvolvimento pelo qual passa o país, rompendo, assim, com o antigo estigma de praia, mulheres, carnaval e violência, que sempre foi a nós associado pelo imaginário internacional.
(...)
O fomento e o incentivo à atividade turística se dará através de programas e subprogramas voltados à ampliação e diversificação da capacidade instalada em áreas pré-selecionadas como pólos (sic) turísticos. (EMBRATUR, 1991, p. 13-27).
Apesar das remodelações desse PNT – fruto do impeachment do então presidente Fernando Collor, e início do governo de seu vice-presidente, Itamar Franco (1992-1994) – notamos o delineamento da promoção do turismo nacional ao longo dos anos 1990, pautado na exposição de ambientes como o Pantanal e a Amazônia. Fazendo parte da pasta do Ministério da Indústria, Comércio e Turismo, as políticas públicas pensadas para essa atividade passam a focar, além do turismo ecológico, o patrimônio histórico e a lógica do sol e praia (ver Figura 41), sendo esse último direcionado essencialmente para o litoral nordestino. Pensada com a proposição de reverter os desequilíbrios regionais, é possível observar ao longo do processo de formação dos planos de turismo no Brasil uma gama de problemáticas relacionadas à baixa produtividade de incentivos a atividade, malgrado o exagero dos discursos desenvolvimentistas.
Após as experiências de aplicações isoladas do PNT, os dois ciclos de governo de Fernando Henrique Cardoso (1994-2002) – por meio do programa Brasil em Ação12–propõe em 1995 a aplicação do Programa de Desenvolvimento do Turismo do Nordeste13 (Prodetur/NE), pensada em 1991, mas que não havia recebido maior atenção ate então. Desse modo, o referido programa surge com linha de crédito com o objetivo de expandir a atividade turística, consolidando sua gestão sob a ótica da descentralização. Sendo essa atividade correspondente nos anos iniciais da década de 1990 a quase 10% do Produto Interno Bruto Mundial, o Brasil apresentava ainda desempenho tímido (0,3% do total de viagens internacionais em 1993), mas apresentava um amplo campo para expansão (CRUZ, 1998, p. 340).
12 Esse programa surgiu com o objetivo de gerenciar um conjunto de ações e obras do governo federal em
parceria com estados, municípios e empresas privadas, voltado para a promoção do desenvolvimento sustentável do país e a redução das desigualdades regionais e sociais, induzindo novos investimentos produtivos em áreas como saúde, habitação, saneamento, agricultura e turismo.
13 O Prodetur/NE surge a partir da Portaria Conjunta nº 1, de 29 de novembro de 1991, fazendo parte do
Programa de Ação para o Desenvolvimento do Turismo Regional. Fruto da parceria entre o Governo Federal, SUDENE, Banco do Nordeste do Brasil (BNB), Comissão do Turismo Integrado do Nordeste (CTI/NE), Governos de Estado e organismos internacionais, o Prodetur/NE teve como abrangência inicial os nove Estados Nordestinos e posteriormente foi acrescido a região norte dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Segundo Beni (2006c, p. 27) o referido programa “foi estruturado com recursos externos, provenientes em sua quase totalidade do BID e do Banco Mundial (BIRD), tornando-se o programa por meio do qual o governo interviu na região através de ações de ordenamento e impulsão ao processo de desenvolvimento turístico, no território notadamente, com a implantação de infraestrutura básica (transporte, saneamento, energia), instalação de equipamentos urbanos e oferta de serviços públicos em espaços considerados com vocação turística e definição para a expansão turística. Os recursos e investimentos destinados a esse programa foram concentradamente
Nesse período, reforça-se a característica da EMBRATUR no desempenho basicamente “normativo, disciplinador e coordenador das atividades turísticas no país, cabendo à iniciativa privada a função propriamente empresarial e executiva” (BANDUCCI JÚNIOR & BARETTO, 2001, p. 71). Assim, vincular-se-ia à participação da inserção da iniciativa privada enquanto gestora dos projetos de hotelaria e demais serviços, enquanto os investimentos do Prodetur/NE se destinariam essencialmente nas áreas de infraestrutura viária, abastecimento d´agua e esgotamento sanitário.
Considerando os três estados de abrangência da atual proposição do PDSRT do Meio-Norte, a indicação do Prodetur/NE no ano 1992 pretendia envolver os seguintes municípios, em diferentes níveis de prioridade:
- Quadro 5 -