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A partir da leitura realizada anteriormente correspondente ao processo de divisão regional brasileira, foi possível observar que objetivamente o termo Meio-Norte até então não havia sido incorporado oficialmente na conjuntura das elaborações das macrorregiões do país. Assim, no conjunto histórico das divisões regionais brasileiras, aquela que mais se aproximava com a atual perspectiva meio-nortista existente na atualidade emergiu a partir da divisão brasileira de André Rebouças, que em 1889 propôs a zona do Parnaíba, correspondendo a junção dos Estados do Piauí e Maranhão. Essa primeira proposta de divisão do período republicano, aparece justificada sob a ótica econômica, no qual vem interligar esses dois estados, dado as trocas comerciais perpetradas ao longo do rio Parnaíba.

Em 1937, Betim Paes Leme apresenta em sua divisão regional os estados do Piauí e Maranhão como uma Zona Intermediária, inserida entre a Zona de Sedimentação (Acre, Amazonas e Pará) e a Zona Estabilizada por Pediplanação (Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas), dando claras características da influência geológica no processo de divisão do território brasileiro (Mapa 2). Apesar de encontrar-se direcionado para a especificidade das pesquisas de Paes Leme, essa configuração regional encontra importância em propor a busca de uma divisão que levasse em conta a necessidade de atentar para a ruptura existente entre as macrorregiões, com a proposição das zonas de intermediação. A característica transicional é corroborada na divisão regional de Moacir Silva, que em 1939 apresenta os estados do Piauí e Maranhão como uma Zona de Transição entre o Brasil Setentrional ou Amazônico e o Brasil Norte Oriental, resultando num aprofundamento das propostas de Delgado de Carvalho e suas regiões naturais e econômicas (Mapa 3).

Mesmo após a elaboração da divisão regional brasileira por Fábio Macêdo Soares Guimarães nos anos 1940, a junção de Piauí, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco na região Nordeste gerou certa complexidade. Tendo em vista a opção pela percepção ambiental, a inserção numa mesma unidade regional os Estados da bacia do Parnaíba com os demais, resultou na proposição de uma subdivisão, o Nordeste Ocidental e Nordeste Oriental.

Acerca da complexidade na inserção do Maranhão e Piauí dentre as macrorregiões pensadas até então, quer seja Norte e Nordeste, cabe observarmos a influência da perspectiva histórica na formação destes Estados. Para isso, nos remetemos à proposição de Marquês de Pombal na elaboração de subdivisões da colônia brasileira, fruto do processo de reordenamento administrativo no qual passava a coroa portuguesa ao longo do reinado de D. José I.

Nesse contexto, emerge em 1751 o Estado do Grão-Pará e Maranhão, fruto da administração pombalina no país, que incluía além das capitanias do Maranhão e Piauí, também São José do Rio Negro e Grão Pará, configurando-se como um novo momento da gestão metropolitana no Brasil. Raymundo (2006, p. 125) ao analisar o momento de formação desse Estado, lembra que este vem a ser marcado principalmente aos embates entre colonos e jesuítas pelo controle da população indígena, base da mão-de-obra local.

Mesmo com o desmonte da administração pombalina – a partir da ascensão ao trono de D. Maria I, e o consequente desmembramento do Estado do Grão Pará e Maranhão em 1772 – a capitania do Piauí continuava subordinada ao Maranhão, vindo encontrar sua independência apenas em 1811. A opção pela ampliação da migração portuguesa para a região, bem como a constituição da Companhia Geral do Comércio do Grão-Pará e Maranhão em 1756 (para a gerência das novas diretrizes econômicas), marcam a interligação entre esses dois Estados.

Com a criação dessa companhia comercial, destaca-se no Maranhão ao longo do século XIX a cultura do algodão e arroz. Com o aumento do consumo desses insumos na Europa, era estimulado o crescimento do cultivo, tornando a Capitania uma das mais ricas do país. Como no processo de agricultura da região priorizava-se a queimada como forma de preparar a terra para a plantação, tal modo forçava os agricultores a buscarem novas terras para dar continuidade a produção. Assim estendia-se o processo de ocupação do Maranhão, definindo a agricultura como uma das principais marcas de sua economia. Com a abolição da escravatura no Brasil “os engenhos e as plantações ressentiram-se da falta de mão-de-obra e regrediram” (ANDRADE, 1963, p. 234). Enquanto isso, o Piauí desenvolvia a criação de gado, que apesar de não ter sofrido o mesmo impacto que a agricultura após a abolição – dado a pouca mão-de-obra necessária para o cuidado com os rebanhos – não suportou a concorrência gaúcha, provocando a decadência do charque piauiense.

Influenciado pelo seu histórico transicional, emerge de modo não oficial o termo Meio-Norte, ressaltando a complexidade de inserção desses dois Estados tanto no Norte como no Nordeste quer seja pelos aspectos naturais ou econômicos. Em 1957 é editado o primeiro grande trabalho a tratar da relação entre Piauí e Maranhão na esfera federativa. Fruto da clássica coletânea titulada Enciclopédia dos municípios brasileiros, organizada pelo IBGE, esta coleção destina um tomo exclusivamente para tratar do Meio-Norte. Reconhecendo a dificuldade em se trabalhar com essa delimitação regional, em “razão das deficiências existentes em estudos realizados até então” (IBGE, 1957, p. 3) esta investida trabalhou tendo como recorte espacial a totalidade dos Estados do Piauí e Maranhão (ver Figura 24).

Figura 24 - Meio-Norte: divisão em regiões naturais

Definidos como sendo os Estados mais pobres da Federação, dado às condições "climatéricas e da própria formação do quadro econômico brasileiro”, (IBGE, 1957, p. 3) a Enciclopédia teve como escopo trazer resposta à série de questionamentos acerca da imprecisão de caracterização geográfica dessa região geográfica natural tratada nos estudos de Fábio Guimarães nos anos 1940.

Sendo uma das primeiras publicações do IBGE a constar imagens a cores, era notória a preocupação em formar um rico banco de fotografias e ilustrações a fim de dar uma face para o ainda pouco conhecido Meio-Norte. Cercado por figuras que buscava cobrir as mais diversas perspectivas dos territórios do Piauí e Maranhão, este trabalho possibilitou o delineamento imagético do país em torno daquela espacialidade. Evitando estabelecer um maior debate sobre a situação retratada nas imagens apresentadas, o documento serviu como uma espécie de relicário ilustrativo e descritivo dos aspectos ditos como naturais dessa construção regional (ver Figuras 25 e 26).

Figura 25 e 26 - Meio-Norte (a esquerda relevo e a direita vegetação)

Fonte: IBGE (1957, p. 35-37).

A fim de reafirmar a situação naturalista dessa segmentação regional, a Enciclopédia adota uma subdivisão para o Meio-Norte – Planície, Custa e Chapada – (ver Figura 27), realçando-o enquanto zona de transição entre o Nordeste, Amazônia e Centro-

oeste, bem como servindo de resposta a uma tentativa de compreender sua constituição ambiental heterogênea, frente a considerável influência da circunvizinhança.

Figura 27 - Representação dos aspectos naturais do Meio-Norte

Fonte: IBGE (1957).

Apesar do desenho em buscar firmar o Meio-Norte enquanto macrorregião por parte do IBGE, temos a consolidação do Maranhão e Piauí no Nordeste, dado a negativa do Governo Federal em ampliar o leque de divisões regionais. Apesar dessa situação, o IBGE

reforçar o discurso em encontrar dificuldade em inserir esses dois Estados quer seja enquanto parte do Norte ou Nordeste, reconhecendo a complexidade da questão:

Ao se cuidar do espaço geográfico interposto entre o Ceará e o Pará, não foi possível, face ao seu forte caráter de área de contato, de mesclamento ou de transição [...] não se poderia filiar todo o território piauiense ao grupo nordestino nem tampouco integrá-lo no conjunto do Planalto Central. Do mesmo modo, o Maranhão como que se fraciona entre a Amazônia e o Brasil Central e se articula com o Piauí, parcialmente nordestino. [...] Daí a tendência e a justificação para o reconhecimento de uma área intermédia, à guisa de transição, entre o Nordeste, a Amazônia e o Brasil Central. Essa área constituiria, então, o Meio-Norte, título que deixa entrever seu caráter intermédio e transicional. E ficaria, assim, excluído do âmbito do Nordeste [grifo nosso]. (IBGE, 1962, p. 4)

Nesse mesmo período Manuel Correia de Andrade apresenta uma das maiores contribuições de análise para a região Nordeste, com o livro A terra e o homem no Nordeste, de 1963. Definindo o clima como o principal elemento que “marca mais sensivelmente a paisagem e mais preocupa o homem” (ANDRADE, 1963, p. 25), o autor subdivide o Nordeste em:

i) Região da Mata e do Litoral Oriental: estendendo-se do Rio Grande do Norte até o Sul da Bahia;

ii) Agreste: região de transição entre a Mata e o Sertão;

iii) Sertão e Litoral Setentrional: área mais extensa, com aproximadamente 49% da região nordestina;

iv) Meio-Norte: compreendendo extensa área do Piauí e Maranhão (ver Figura 28).

Sobre esse último, Andrade o caracteriza como sendo dominado por cerrados, chapadas e interflúvios, além das florestas de cocais nas baixadas e nas várzeas. Estendendo- se por certa de 422.911km², o Meio-Norte apresentado em A terra e o homem no Nordeste configurava-se como essencialmente rural, sendo a de menor população dentre as quatro sub- regiões nordestinas (ver tabela 2) e pela atração de pecuaristas de vários pontos do Brasil, dado à maior facilidade de acesso da carne ao mercado consumidor de Belém e do Sudeste do país. Dado a características de ordem social, econômica e ambiental, Andrade (1963, p. 54) define o Meio-Norte como sendo uma “área de transição entre o Nordeste, o Norte e o Centro Oeste do país”.

Figura 28 - Divisão do Nordeste, segundo Manuel Correia de Andrade.

Fonte: Andrade (1963, p.34).

- Tabela 2 -