A aprendizagem é a nossa própria vida, desde a. juventude até a velhice, de fato quase até a morte; ninguém passa dez horas sem nada aprender. Paracelso
Parece não haver dúvidas quanto ao crescimento da pobreza entre os jovens das periferias das grandes cidades brasileiras, sobretudo nas últimas décadas após a contrarreforma do Estado brasileiro e sua adesão subserviente à pragmática neoliberal. Depois disso acontecimento, observa-se que há uma pressão para que o Estado coordene ações públicas que promovam a inclusão de jovens trabalhadores, principalmente no que tange a
políticas de trabalho/emprego e de escolarização. É preciso reconhecer que a questão da exclusão é um processo inerente ao funcionamento do capitalismo. Por isso Marx cria a categoria exército industrial de reserva. Se o sistema não permite o pleno desenvolvimento social, a exclusão de muitos é a forma de se inserir nesta sociabilidade.
O tipo de intervenção predominante na contextura brasileira mais recente privilegia de modo especial, o estabelecimento de parcerias com a iniciativa privada e com setores da sociedade civil (ONGs, sindicatos, associações), que, sistematicamente, vêm assumindo responsabilidades que antes eram exclusivas do Poder Público brasileiro. Dessa maneira, o Governo termina privilegiando setores da iniciativa privada em detrimento dos setores públicos, a exemplo do que acontece nas parcerias firmadas com instituições que promovem a educação da classe trabalhadora jovem. Ao preferir investir nesses setores, O Governo termina negligenciando a escola pública brasileira, historicamente abandonada em toda historia republicana do País. Decorre daí uma das maiores contradições do Poder Público nacional, uma vez que é urgente a necessidade de se investir na educação pública brasileira, com o meio de garantir não só o acesso dos trabalhadores jovens aos saber historicamente construído, mas garantindo-lhes condições menos desiguais no que tange a conquista do tão sonhado emprego formal.
O atual contexto vivenciado pelos jovens das classes populares no Brasil, resultado de um modelo de desenvolvimento possuidor de características individualistas, as quais priorizam qualificações, competitividades e adaptações, exige um panorama perverso e contraditório, bem diferente do modelo de educação que defendemos para nossos jovens. Em decorrência, a adoção de políticas públicas voltadas para esse público é particularmente marcada pela quase completa omissão do Poder Público, acarretando um défice social sem precedentes. Além do mais, a tímida intervenção estatal nessa área conserva intensivos traços de discriminação e exclusão social, uma vez que atingem quase exclusivamente os jovens mais empobrecidos desse segmento de classe.
Esse panorama começou a mudar no final dos anos de 1980, sobretudo após a promulgação da Constituição Federal de 1988 e do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, Lei Federal nº 8.069, de 13/07/1990, os quais passaram a reconhecer a criança e o jovem de qualquer segmento social como sujeitos de direitos. As orientações defendidas pelos movimentos voltados para os direitos da infância no final da década de 1980 procuraram superar uma concepção restritiva do que é ser criança e adolescente, caminhando para uma
representação que reconhece direitos e demandas políticas dos que ainda não atingiram a maioridade (SPOSITO e CARRANO, 2003).
Em tal conjuntura, o Estatuto representou um referencial importante na conquista dos direitos de crianças e jovens no País. Por outro lado, sua aplicação é morosa, dados os entraves e resistências de setores conservadores das classes dominantes que tentam minimizar e aviltar esses direitos, conquistados por meio de embates num dos momentos mais emblemáticos da história das lutas e das conquistas sociais no Brasil. Para complicar ainda mais,o País aderiu à pragmática neoliberal, promovida por meio da contrarreforma do Governo FHC, o que na prática significou verdadeiro retrocesso no campo das conquistas sociais, sobretudo dos trabalhadores.
No âmbito da contrarreforma de FHC, o Brasil teve que adotar outro modelo de desenvolvimento, denominado neoliberalismo, resultando num verdadeiro retrocesso no campo das conquistas sociais. Atuando na contramão dos interesses sociais e criando mecanismos legais para aviltar algumas das melhores conquistas sociais da década anterior, o governo de FHC promoveu uma contrarreforma de corte classista pró-sistêmico, em sintonia com os “aconselhamentos” dos organismos financeiros internacionais, sob o pretexto de acabar com a crise fiscal e recolocar o País nos trilhos do desenvolvimento econômico numa era marcada pelos mercados globalizados.
A ofensiva neoliberal, montada pelo Governo FHC, além de sabotar e desqualificar as políticas públicas, do tipo universal, as subordina apenas a uma lógica macroeconômica que nega profundamente os interesses da coletividade. Assim, o Estado brasileiro, que já apresentava enormes defasagens no atendimento aos seus cidadãos, assume um papel secundário no trato da garantia de políticas universais, passando a operar mediante políticas do tipo minimalistas e assistenciais, focalizadas nos segmentos sociais mais empobrecidos. Esta foi e é a principal característica que norteia as ações do Estado Brasileiro, também para os jovens desse segmento de classe.
Ao desobrigar-se de suas funções, o Estado passou a transferi-las para setores da iniciativa privada, seja de grupos econômicos nacionais ou internacionais, bem ao gosto da nova ofensiva burguesa internacional, que exigia um amplo processo de privatização do aparelho estatal, começando pela privatização de nossas melhores e mais rendáveis riquezas. Com esteio nessa nova concepção da gestão estatal, o Brasil, cada vez mais, se desobriga dessa função primordial de guardião de políticas universais e as transfere para setores da
iniciativa privada, assim como orienta os “aconselhamentos” das agências financiadoras internacionais, notadamente o Banco Mundial e o FMI.
No âmbito das ações de juventude, como não poderia ser diferente, o Estado sistematicamente se desobriga da tarefa de ofertar uma educação de qualidade, capaz de modificar uma realidade social historicamente constituída. De modo geral, a qualidade da educação ofertada aos jovens das classes populares deteriora-se cada vez mais. Por trás de um discurso de inclusão que acena com a possibilidade de inserção no mercado de trabalho, mediante oferta de cursos profissionalizantes, são promovidos cursos aligeirados que, no máximo, preparam o jovem em tela para uma ocupação no mercado informal, ou para o empreendedorismo.
Com a aproximação do fim do mandato do Governo FHC, emergem no País várias organizações e grupos juvenis de variados campos, tais como: cultura, esporte, meio- ambiente, estudantil, político-partidário, movimentos étnicos e em prol da igualdade de gênero, associações de bairro, entre outros, que começaram a pressionar as autoridades políticas governamentais para que reconhecesse os problemas específicos que afetavam esses sujeitos e formulassem políticas públicas que superassem as ações que até se desenvolveram no País, as quais viam os jovens apenas como sinônimo de problema (CASTRO et alli.), tarefa que foi postergada ao Governo Lula da Silva.
A eleição de Lula da Silva levantou grandes expectativas em torno de mudanças na legislação educacional brasileira, sobretudo no âmbito da educação profissional, fragmentada propositadamente durante a contrarreforma de FHC. Tais mudanças só foram realizadas de forma bastante tímida, também por meio de outro decreto impositivo, que não representou significativo avanço nesse campo. Segundo Frigotto, Ciavatta e Ramos (2005, p. 1107), “não obstante toda a expectativa em contrário, a vitória das forças conservadoras tem feito predominar a manutenção de princípios e práticas que orientaram as reformas no Governo Fernando Henrique Cardoso”. Para esses autores, esperava-se que a promulgação de um novo decreto pudesse constituir dispositivo transitório, capaz de garantir ao mesmo tempo a pluralidade de ações nos sistemas e instituições de ensino e a mobilização da sociedade civil em torno do assunto, entretanto, isso se deu de forma tímida.
A proposta de integração entre a educação básica e a profissional fragmentou-se e o resultado encontra-se, ainda, muito longe do aguardado pela classe trabalhadora. Essa fragmentação foi iniciada internamente no próprio Ministério da Educação reestruturado, e colocou o ensino médio sob a responsabilidade da Secretaria de Educação Básica e o ensino
técnico sob os cuidados da Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Além do mais, algumas medidas tomadas pelo MEC deixaram “[...] claro que a política de integração não seria prioridade e que não estavam claras as concepções das equipes dessas secretarias sobre o tema”. (IDEM, IBDEM, p. 1091). Assim, não obstante as declarações do Governo Lula da Silva, favoráveis à integração do ensino profissional ao ensino médio, sua política de educação profissional se processou mediante programas focais e contingenciais, a exemplo dos programas Escola de Fábrica, Integração da Educação Profissional ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos PROEJA e do Programa de Inclusão de Jovens – Projovem (ÍDEM, p. 1090).
De fato, o Projovem Integrado foi estruturado para funcionar como espécie de programa “carro-chefe” de todas as ações federais de juventude, o qual passou a ter a incumbência de dar eficácia à nova Política Nacional de Juventude – PNJ. Pela sua característica aligeirada, acreditamos que tal tarefa não tenha sido realizada. Para o Governo do presidente Lula da Silva, a promulgação da PNJ significou ruptura com a forma de atendimento aos jovens no País, todavia, pode ser observado é que as ações desenvolvidas no âmbito da nova política continuaram sendo aplicadas nos mesmos moldes daquelas de décadas anteriores. Essa análise nos faz asseverar que, efetivamente, não houve mudança na direção das políticas públicas de juventude no País, mesmo com a institucionalização de uma política do tipo universal. Na prática, a “nova” PNJ serviu para perpetuar no Brasil um antigo modo de conceber políticas assistenciais, focalizadas nos grupos mais empobrecidos da sociedade, marcada pela oferta de uma educação dualista e discriminatória.
Ao interpretar o Programa apresentado pelo Governo Federal como elemento-chave de sua política nacional para a juventude, pode-se perceber que esta não se exibe como efetiva expressão de compromisso com a democratização e universalização da educação que envolva uma direção comum e orgânica. Ao contrário, reforça e expressa a estrutura socioeconômica do País e seu adestramento aos “aconselhamentos” das agências financiadoras internacionais, capatazes dos interesses do capital.
O Projovem Trabalhador – Juventude Cidadã é um bom exemplo de como a “nova” PNJ apenas se travestiu de nova, mas na sua essência pouco se diferenciou das ações de juventude da era FHC. Assim, percebe-se que tais políticas foram pautadas em programas e projetos de educação do tipo aligeirado e compensatório, focados nos segmentos juvenis mais pobres das classes populares o que nos faz afirmar sua similaridade com as políticas neoliberais da gestão passada. De fato, na gestão do governo Lula da Silva houve, apenas,
ampliação dessas ações em proporções jamais observadas em toda a história das políticas públicas de juventude no País. Tal ampliação promoveu, também, o alargamento dos investimentos públicos em setores da educação particular, confirmando a tendência, também nesse Governo, da privatização da educação profissional, bem ao gosto dos interesses capitalistas.
Conforme anunciamos antes, o Projovem Trabalhador-Juventude Cidadã, um dos pilares da PNJ do Governo Lula, tem como objetivo prioritário ajudar os jovens cursistas a recuperar seus estudos elementares e, ao mesmo tempo, dar-lhes uma formação inicial para o trabalho, ajudando-os na difícil tarefa da inserção produtiva. Alguns aspectos desse modelo de escolarização e formação profissional, entretanto merecem considerações, visto que, até o presente momento, o governo apenas apresenta dados genéricos e não dados concretos que confirmem a eficácia do Programa.
Constata-se que sua carga horária é insuficiente para garantir uma formação sólida e de qualidade para os jovens cursistas. A sua função mais explicita circunscreve-se ao âmbito da mediação do conflito de classes por meio da propagação da ideia de protagonismo social combinada com o discurso do empreendedorismo, que transfere para esses sujeitos a responsabilidade pelo seu sucesso ou insucesso profissional. O efeito mais evidente dessas ideias é o ofuscamento das verdadeiras causas do desemprego e o reforço do sentimento de responsabilidade nos jovens trabalhadores pobres ante de sua condição de desempregado ou de precariedade. Igualmente, tais ideias funcionam apenas como instrumento de mediação do conflito de classes, na medida em que educam para o consenso diante da sociabilidade do capital.
Assim, percebe-se que a educação ofertada por meio dos cursos desse Programa não oferece as condições básicas para uma formação, nem mesmo nos moldes da escola burguesa. A promessa de inclusão de pelo menos 30% dos cursistas no mercado de trabalho, também, não foi concretizada, consoante pudemos constatar na experiência desse Programa no Estado do Ceará, que pode servir como referência para o Programa no patamar federal.
Os critérios utilizados na escolha do público-alvo, a bolsa auxílio de caráter compensatório, entre outros, são fatores que, lamentavelmente, não respondem a um projeto de educação que garanta uma formação integral dos sujeitos e, nem de longe, podem significar propostas de educação emancipatória, visto que esta existe para adequar os sujeitos, ideologicamente, às demandas do capital. Na prática, as supostas metas de inserção, elevação da escolaridade, entre outras, não passam de uma retórica que beira, sem nenhuma dúvida, à
demagogia.
Por tudo o que foi dito, avaliamos que a proposta de escolarização do Projovem Trabalhador representa uma perda sensível para a educação, visto que, além de seu caráter assistencialista, siguinífica uma iniciativa que não oferece à juventude efetivo acesso à educação, mas apenas a certificação de conclusão do ensino fundamental de qualidade discutível. O Projovem constitui-se em mais um exemplo de ação política que, sob a aparência da inovação, enseja a continuidade da submissão ao atual modelo de desenvolvimento que promete a inclusão, mediante sacrifício e a exclusão de muitos outros. Na perspectiva desse programa, ou seja, da sua proposta de escolarização da juventude trabalhadora, a educação é concebida, ao mesmo tempo, como estratégia política e variável econômica capaz de impulsionar o pretendido desenvolvimento e a redução da pobreza de forma condizente com as necessidades de reprodução do capital.
Ao nos posicionar contra os “novos” modelos de escolarização e formação para o trabalho, presentes nos programas governamentais voltados para a educação da juventude trabalhadora, não queremos negar sua importância, inclusive como direito desses trabalhadores. Por outro lado, não podemos ser omisso e não alertar para o fato de que os atuais modelos de educação profissional não asseguram nem a formação acadêmica, muito menos uma educação profissional, pelo contrário. Os cursos oferecidos por esses programas, pelo seu caráter aligeirado, ao contrário do que se propagandeiam, não conseguem preparar esses jovens para a difícil tarefa da inserção no mercado de trabalho. Quase sempre terminam assumindo a culpa por não conseguirem emprego. A busca por novas certificações, de certa forma, isentam o Estado brasileiro de criar políticas de emprego e renda, transferindo aos jovens a culpa pelo seu insucesso profissional.
Defendemos, portanto, a superação total dos atuais modelos de políticas aligeiradas de formação e qualificação da classe trabalhadora jovem. É preciso assegura uma educação alargada que contemple todos os aspectos da vida. Sem dúvida, uma sólida formação acadêmica e profissional poderá estabelecer a grande diferença na vida pessoal e profissional desses sujeitos. Somente uma escola comprometida com uma formação para além do mercado de trabalho, ou seja, para a vida, será possível a emancipação da classe trabalhadora, que garanta tal formação para além do mercado de trabalho, é possível assegurar o que é de direito aos jovens trabalhadores.
Portanto, a superação dos atuais modelos de educação e formação profissional presentes nos programas citados implicará no abandono dessas práticas por parte do Estado
brasileiro e, no lugar delas, o investimento em políticas do tipo universal, que garantam não só a preparação para o trabalho, como também uma sólida formação intelectual e acadêmica. Dessa forma, poderíamos sonhar com uma escola que realmente esteja comprometida com os interesses da classe trabalhadora e que supere o modelo de escola dual que há muito tempo perdura na nossa sociedade. Uma escola que seja capaz de reaver, na sua prática cotidiana, a concepção de formação umnilateral, unitária, politécnica ou tecnológica (GRAMISCI, 1968), a qual nos permite considerar políticas públicas voltadas verdadeiramente para uma educação escolar integrada ao trabalho, à ciência e à cultura, que desenvolva as bases científicas, técnicas e tecnológicas necessárias à produção da existência e à consciência dos direitos políticos, sociais e culturais, bem como à capacidade de atingi-los.
Portanto, a superação dos modelos de escolarização presentes nas atividades do Projovem Trabalhador nos remete a construção da escola unitária em que, a qual não está condicionada
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