• Sonuç bulunamadı

Todos esses cenários discursivos, construídos exclusivamente para este álbum, nos contam como o dispositivo da experimentação vem se consolidando na escola, o modo como é entendido atualmente e o lugar que ocupa ao compor currículos de Ciências. A partir desse exercício de arranjar cenários, criar legendas e, assim, compor um ensaio fotográfico, folheio suas páginas com interesses pós-críticos e parto para essa apreciação das fotos sem intenção de contemplação. Quero, por outro lado, visualizar esse álbum como um histórico não-linear e conflituoso. Em tal exercício, busco por técnicas, procedimentos discursivos e modos de subjetivação operados em sua constituição. Cometo, em seguida, o ato de nomeá-lo por currículo experimental. Um currículo produzido sob direção dos discursos que ditam verdades na produção acadêmica de como se deve viver, sentir e pensar a experimentação.

Com base na produção científica acerca das aulas experimentais na Educação em Ciências, seria possível pensar agora como discursos da ciência moderna, das teorias curriculares, das pedagogias e das psicologias descrevem, produzem e divulgam o currículo experimental. No espaço reservado aos recursos didáticos, poderíamos fotografar: lupas, cadinhos, pipetas, jalecos, balanças, jogos, brincadeiras, músicas, noticiários, computadores, simuladores. Nas páginas dos procedimentos didáticos, poderíamos colar fotografias com os seguintes componentes: atenção ao/à aluno/a, identificação dos subsunçores, aproveitamento dos conhecimentos prévios, exploração do ambiente, problematização do conteúdo, confronto com os saberes cotidianos, definição de situações-problemas, delimitação da ciência com a não-ciência, exploração da interatividade e autonomia, controle da observação e condução da investigação. Por outro lado, poderíamos compor uma sessão fotográfica destinada aos resultados esperados: mudança conceitual, racionalidade, formação da argumentação, pensamento lógico, criticidade, cidadania, alfabetização científica e agir cientificamente.

Pensar na constituição discursiva do currículo experimental é entender que “a história de um conceito não é, de forma alguma, a de um refinamento progressivo, de uma racionalidade continuamente crescente [...], mas de seus diversos campos de constituição e de validade” (FOUCAULT, 2005, p. 4-5). Assim, são múltiplos discursos que concorrem, investem e se reformulam para compor o currículo experimental. Esses discursos, ao fazer referência a certas urgências, convergem para fixar, ao longo dos momentos históricos, as aulas experimentais como artefato fundamental das disciplinas científicas e para decretar

modos de relação que sujeitos têm de estabelecer consigo mesmos, com os outros e com o mundo. Afinal, como sugere o projeto iluminista da modernidade, urge a necessidade de esclarecer-se, de iluminar-se, de tornar-se humano. Um currículo que, ao ser vivido por professores/as e alunos/as, opera para demandar, incitar e produzir sujeitos que pensam, agem e comportam-se segundo os conhecimentos científicos. Um currículo que, por meio de múltiplas relações de poder-saber inerentes ao dispositivo da experimentação, produz sujeitos do tipo Homo experimentalis.

Por meio de técnicas de colagem e de disposição fotográfica, mostro os cenários que trazem personagens, recorto cuidadosamente cada uma delas e colo-as de maneira a dispô-las em sessões. Feita a montagem, é possível perceber que na literatura especializada verdades sobre alunos/as, professores/as e atividades experimentais são produzidas em meio às relações de poder-saber e transformadas em “formas de dizer coisas plausíveis sobre outros seres humanos e sobre nós mesmos, [...] de pensar o que pode ser feito a eles e a nós” (ROSE, 1998, p. 34). Em cada enunciação, existem variados posicionamentos do sujeito. São essas posições “que literalmente constroem o sujeito, na mesma operação em que lhe atribuem um lugar discursivo” (LARROSA, 1994, p. 66). Assim, demanda-se conflituosas posições ao sujeito Homo experimentalis. Por ora, convidam-no a portar-se com racionalidade, empiria, responsabilidade, controle e eficiência. Em outros momentos, engendra-o em uma fase de desenvolvimento biológico, como representante do senso comum. Se, por vezes, prima-se por acertos, conhecimentos científicos, métodos rígidos, em algumas outras, permite-o ter suas concepções prévias, cometer seus erros.

Com esse mapa, objetivo apontar conflitos, disputas, enfim, o empreendimento de múltiplos discursos que compõem o currículo estudado. A partir de agora, não me interesso pelo teor de verdade que essas pesquisas estipulam para cada cenário, nem em descobrir qual cenário é real ou qual professor/a é ideal. Dirijo minha atenção para o cruzamento desses múltiplos conhecimentos, trabalhando com o pressuposto de que eles governam sujeitos. Quero entender por que e como se diz que eles são verdadeiros. Pretendo analisar quais acordos são estabelecidos de maneira a compor, com uma finalidade em comum, cada peça dos cenários. Anseio perseguir os saberes acerca de professores/as e alunos/as vinculados/as ao consolidado currículo experimental. É esse olhar, ainda lacunar em estudos sobre currículo de Ciências, que lanço ao currículo de aulas experimentais. Nos capítulos que se seguem, conto como ocorre, em sala de aula, a produção de tal Homo experimentalis.

Veiculadora de múltiplos discursos, a literatura especializada em compor a experimentação escolar sugere, recomenda, critica, desfaz, refaz, ressuscita, reformula, enfim, engendra professores/as, alunos/as e cenários de aulas experimentais. Longe de ser um ensaio fotográfico estático e calmo, o território desse currículo vem sendo constituído aos rabiscos de conflituosas enunciações. Em cada um dos cenários montados, negocia-se iluminação, foco, nitidez, enquadramento, aproximações entre componentes e disposição nas sessões do álbum. Junta-se, separa-se, modifica-se inúmeras vezes as cenas. Utiliza-se, para isso, técnicas de colagem e de disposição de fotos. Sobretudo, é por meio da técnica de montagem que se percebe que os componentes cenográficos fazem mais sentido misturados do que organizados em cada cenário. Porém, curiosamente, alguns preferem ver este álbum sob lentes que dão foco, nitidez e uniformidade. Aqui, prefiro apreciá-lo como uma astuta montagem de fotografias.