“O mundo passa e a polícia passa também” (Dias, 2010, p. 1). Este tem, forçosa- mente, que ser o mote de atuação de qualquer polícia moderna, que deve ser capaz de acompanhar de forma competente as dinâmicas próprias das sociedades atuais. Apenas compreendendo de forma plena os fenómenos das multidões, bem como as suas dinâmi- cas, as suas formas de atuação, as suas linguagens próprias e os contextos em que estas atuam, é possível ser-se bem-sucedido na sua gestão (della Porta & Diani, 2006; della Porta, Peterson & Reiter, 2006; Drury & Reicher, 2009; Reicher, 1984, 1996; Stott & Drury, 2000; Stott & Pearson, 2006; Waddington, 2007). É com esta premissa base que, na se- gunda metade do século XX, se começa a assistir a uma mudança de paradigma nos mo- delos de policiamento utilizados (dal Lago & de Biasi, 1994; della Porta & Diani, 2006). Estes passam a ser caracterizado por um estilo de gestão assente em princípios como o diálogo, a negociação e a facilitação, ao invés da tradicional resposta reativa e reacionária (McPhail, Schweingruber & McCarthy, 1998), combatendo assim a fragilidade apontada por Hoggett e Stott (2010b, p. 223), ao sugerirem que “a visão ‘clássica’ das multidões tenha levado a polícia a desperdiçar oportunidades de desenvolver abordagens mais efici- entes, eficazes e menos conflituosas na gestão de multidões durantes os diversos eventos de massas”.
É com o objetivo de dar forma aos princípios referidos e de explicar os processos subjacentes ao comportamento das multidões que surge o Elaborated Social Identity Model (ESIM). Este modelo explicativo da dinâmica das multidões, propõe que o comportamento coletivo durante eventos de massas é determinado pela “identidade social partilhada pelos participantes e que a multidão deve ser intendida como um fenómeno intergrupal” (Stott et al., 2007a, p. 5). Desta forma, cada indivíduo pertencente a uma multidão, para além da sua identidade pessoal, é possuidor de um conjunto de identidades sociais que se carac- terizam por serem fluidas, dinâmicas e variarem a sua importância em função do contexto (Novelli, Drury, Reicher & Stott, 2013). Por ser um fenómeno intergrupal, explica a volatili- dade de uma determinada identidade social, como consequência de uma incorreta inter- pretação e consequente reação a essa identidade por parte de um grupo exterior, que em muitos casos acaba por ser a polícia (Drury & Reicher, 2009; Reicher, 1984, 1996). Assim, de acordo com este modelo, a ação coletiva apenas ocorre quando os membros de uma multidão partilham uma identidade social comum, o que é facilmente entendível se anali- sarmos os GOA e as subculturas a si associadas.
O ESIM tem tido um especial contributo na explicação de fenómenos de distúrbios (Stott et al., 2007b). Este modelo defende que a ocorrência de distúrbios pode ser explicada em função de assimetrias nas relações intergrupais, provocadas pela existência de dife- rentes perceções do mesmo contexto social por parte dos grupos em causa, levando com isso a um aumento da tensão negativa entre eles. Quando uma relação entre grupos é assimétrica, dá-se uma recategorização entre os membros do grupo e as normas aceites podem sofrer alterações e, por exemplo, levar a uma situação em que a violência é perce- cionada como apropriada (Stott & Drury, 2000). Como exemplo apontamos o sucedido no Campeonato do Mundo de 1990, em que a atuação das forças policiais italianas durante a competição foi considerada inapropriada e indiscriminada por parte dos adeptos ingleses, o que levou à criação de um contexto em que os hooligans e os adeptos tradicionais se uniram sob uma perceção comum de vitimização (Stott & Reicher, 1998b). De entre os adeptos emergiu uma identidade social criada pela ilegitimidade das relações intergrupais com a polícia, onde a retaliação contra a polícia era considerada uma ação social não só aceitável por todos, como também possível (Stott & Reicher, 1998b).
Segundo Drury e Reicher (2009), a polícia tem a capacidade de criar um grupo coeso e hostil a partir de um aglomerado fragmentado de indivíduos, pelo que as suas abordagens devem sempre basear-se no conhecimento adquirido sobre o contexto no qual os indivíduos interagem, bem como a identidade social por eles partilhada (Reicher, 1984; Stott et al., 2007b; Stead & Rookwood, 2007). À imagem do sucedido em Itália com os adeptos ingleses, uma análise incorreta de determinada identidade pode provocar o seu
reposicionamento, o que aumentará consideravelmente a possibilidade de indivíduos mo- derados se juntarem aos indivíduos violentos. Com isto, surgirão novas formas de ação que se podem materializar em condutas antissociais ou hostis.
Reicher, Stott, Cronin e Adang (2004), partindo do preconizado pelo ESIM, formu- laram quatro princípios chave no policiamento de massas, com vista à prevenção da difu- são de distúrbios: a educação, através do conhecimento dos valores, padrões, objetivos e histórico de interações, etc., dos grupos/identidades sociais em questão; a facilitação, atra- vés do possibilitar aos membros da multidão o alcançar dos seus intentos, desde que com isso, não ultrapassem os limites impostos pela polícia; a comunicação, por forma a evitar potenciais conflitos e a criar relações de confiança entre a polícia e a multidão; e a diferen- ciação, dado que uma multidão é, geralmente, constituída por uma maioria pacífica e uma minoria radical (Drury & Reicher, 2009), devendo qualquer intervenção ser o tão discreta e direcionada quanto possível (Adang & Brown, 2008).
Encontramos a aplicação dos princípios deste modelo na prática através do entre- vistado Subintendente Pedro Pinho, Comandante da 3.ª Divisão Policial do COMETLIS, ao afirmar que “os modos de trabalhar são baseados numa análise de risco que é feita”, ade- quando o policiamento “às características do evento, dos adeptos de risco, do seu número, da envolvente, do dia de semana, e da meteorologia”, sempre numa lógica de proatividade e de antecipação dos problemas. Um exemplo claro desta capacidade de adequação aos níveis de risco e às identidades sociais dos grupos de adeptos relaciona-se com a “não solicitação da comparência do GOC quando estão em causa adeptos ingleses”, uma vez que, na sua realidade, a utilização de recursos cinotécnicos é característico de cenários críticos de alterações de ordem pública.
De igual forma, os modos de atuação adaptam-se quando estão em causa adeptos ingleses ou alemães, relativamente ao hábito cultural que estes possuem de se fazerem deslocar ébrios para os jogos de futebol. Segundo Pedro Pinho é muito mais oneroso cum- prir estreitamente a lei, deixando com isso milhares de adeptos descontentes no exterior do recinto desportivo, do que permitir a sua entrada. Isto deve-se ao facto de estes adeptos estarem conscientes de que “são severamente punidos no seu país” por comportamento inadequados ou violentos em recintos desportivos, mesmo que perpetrados no estrangeiro, e, portanto, ainda que ébrios, “são tendencialmente bem comportados”. No caso concreto dos adeptos ingleses, existe ainda um grande sentimento de zelo pelo lugar que lhe é atribuído. Isto deve-se ao facto de, no Reino Unido, os bilhetes serem nominais e, por conseguinte, existir responsabilização do adepto em causa por qualquer dano verificado ou provocado.
quada relativamente ao comportamento de uma multidão deve incluir uma análise do co- nhecimento e comportamento da polícia”, pelo que se mostra premente que a análise de risco seja feita de forma tão competente quanto possível, por forma a evitar que sejam atribuídos níveis de risco elevados em situações de risco reduzido. Desta forma, tendo em consideração os quatro princípios do policiamento de Reicher et al. (2004) e o preconizado pelo manual da Association of Chief Police Officers (ACPO, 210), a atuação policial deverá ser sempre adequada, eficaz e eficiente, sob pena de uma perceção errada de determinada realidade social e consequente reação, poder colocar em causa a legitimidade de toda a instituição policial (Waddington, 2007).