Os trágicos incidentes relacionados com o futebol e seus adeptos ocorridos, sobre- tudo, na década de oitenta, despertaram a consciência das instituições europeias sobre a máxima importância que a cooperação internacional e o intercâmbio em tempo útil de in- formações exatas para o reforçar da segurança e o evitar da violência e dos distúrbios associados ao futebol. Esta é a génese da Decisão do Conselho 2002/348/JAI, de 20 de abril de 2002, alterada pela Decisão 2007/412/JAI, de 12 de junho de 2007, que determinou a criação de um ponto de contato permanente em cada Estado Membro para a troca de
informações policiais sobre futebol. Através do Ofício n.º 368/GAE/02, que mereceu des- pacho do Ministro da Administração Interna, foi a PSP incumbida desta tarefa, tendo sido criado, desde essa data, o Ponto Nacional de Informações de Futebol (PNIF) na depen- dência do DIP.
Apesar de a sua missão vir mencionada nas duas decisões supramencionadas, é na Resolução do Conselho, de 3 de junho de 2010, que encontramos definido com maior rigor a missão e as tarefas dos vários PNIF, bem como as normas e os procedimentos orientadores para o intercâmbio de informações policiais sobre futebol. Em termos de di- reito interno, é consagrado pela Lei n.º 39/2009, de 30 de julho, com as alterações introdu- zidas pela Lei n.º 52/2013, de 25 de julho, na alínea p), do seu art.º 3.º, que o PNIF constitui a “entidade nacional designada como ponto de contacto permanente para intercâmbio in- ternacional de informações relativas aos fenómenos de violência associada ao futebol para efeitos” das decisões supracitadas. Deste modo, cabe ao PNIF constituir uma fonte nacio- nal de conhecimentos especializados sobre policiamento do futebol e questões de segu- rança conexas, providenciando apoio às autoridades nacionais competentes por ocasião de eventos desportivos de dimensão nacional ou internacional. Não obstante a sua génese serem eventos internacionais, atualmente o PNIF centra o seu objeto de trabalho também na “situação doméstica, enquanto recetáculo e veículo de toda a informação recolhida”, conforme refere Rodrigo Cavaleiro.
A Resolução do Conselho, de 3 de junho de 2010, distingue dois tipos de informa- ções: as informações gerais e as informações pessoais. Relativamente às primeiras, po- dem ser subdivididas em três categorias: as informações estratégias, que englobam todo o conjunto de dados que descrevem determinado evento em todas as suas dimensões, com particular atenção aos riscos de segurança associados ao mesmo; as informações operacionais, que visam permitir uma análise centrada no evento de quaisquer riscos po- tenciais; e as informações táticas, que se consubstanciam nos dados que ajudam os res- ponsáveis operacionais a responder de forma adequada às diversas questões de segu- rança e de ordem pública durante o evento. As informações pessoais, por outro lado, estão diretamente relacionadas com as pessoas avaliadas como representantes de um risco po- tencial para a segurança pública de determinado evento. Neste grupo de pessoas estão incluídos aqueles que tenham anteriormente provocado ou participado em atos de violência ou distúrbios relacionados com jogos de futebol. Este intercâmbio de informações é feito através de três fases que nem sempre se diferenciam de forma estrita e que correspondem aos momentos antes, durante e depois do evento.
Segundo Rodrigo Cavaleiro, em termos práticos, a troca de informações a nível internacional é realizada através de dois relatórios: o Pre Match Assessment e o Post Match Report. Como é facilmente deduzível, o Pre Match Assessment representa a previsão de
todos os aspetos a ter em conta para o evento em causa. Este relatório assenta numa caracterização de nível tático e operacional e nele é reunida “toda a intelligence que existe sobre o jogo”, o que vai permitir aos seus destinatários – UID e comandantes de policia- mento – efetuar um planeamento mais eficaz e “lidar com eventuais contingências que possam surgir”. O Post Match Report, por sua vez, constitui o momento avaliativo do que efetivamente aconteceu. Este relatório acaba por ter um valor acrescido visto que irá per- mitir em intercâmbios futuros de informações, atestar da qualidade e fiabilidade das análi- ses de risco realizadas por determinado PNIF. Se relativamente a um PNIF ou a uma UID existirem vários Post Match Report, será possível fazer uma análise sobre a fiabilidade e qualidade da informação normalmente prestada, o que, por sua vez, irá influenciar a forma como o planeamento é executado.
Denota-se, assim, uma clara preocupação no PNIF, enquanto entidade responsável pela mediação e transmissão de toda a informação entre os PNIF internacionais e as UID nacionais em ambos os sentidos do fluxo, pela questão da credibilidade e qualidade da informação prestada. Segundo Rodrigo Cavaleiro, nas situações em que existe uma dife- rença substancial entre os números apurados no final do evento e as previsões e análises efetuadas, é feita uma avaliação onde se questiona o “porquê?” desse desfasamento, prá- tica esta que se mostra, em nosso entender, fundamental para que exista uma qualidade efetiva no serviço prestado pelos vários PNIF.
É igualmente referido pelo nosso entrevistado que um dos fatores que auxilia o in- tercâmbio de informações é o relacionamento próximo que existe entre os elementos dos vários PNIF, constituindo “uma rede quase familiar, em que toda a gente se conhece”. Aliando este facto à dinâmica inerente à troca que informações, que muitas vezes obriga a um “acompanhamento constante que vai até para além do momento do jogo”, facilmente constatamos que a relação de confiança e de compromisso mútuo estabelecida dota o trabalho desenvolvido pelo PNIF de um valor acrescentado relativamente à qualidade e fiabilidade da inteligência fornecida.
Um exemplo paradigmático da mais-valia que esta troca de informações representa para a gestão de adeptos foi o ocorrido no jogo entre o Futebol Clube do Porto e o Eintracht Frankfurt, a 20 de Fevereiro de 2014, a contar para os 1/16 de final da Liga Europa. Em consequência do ambiente de enorme apoio que se vivenciava em torno do clube alemão, ocorreram várias deslocações em massa de adeptos sempre que este clube se deslocava para outros países da Europa. A mais preocupante dessas deslocações ocorreu em Bor- déus, França, onde as autoridades policiais foram surpreendidas pelo número de adeptos alemães, que chegaram, inclusivamente, a adquirir bilhetes para áreas de adeptos da casa e a ultrapassar as linhas de ARD sem título de ingresso (UEFA, 29 de novembro de 2013). Fruto do feedback recolhido junto dos PNIF francês e alemão, esta situação foi antecipada
para Portugal através da adaptação do policiamento aos circunstancialismos, invertendo- se assim o efeito surpresa sentido em Bordéus.
Em termos internacionais existe ainda o Club Overivew, que é um formulário pre- enchido no início de cada época desportiva onde se apresentam informações como a “ca- raterização geral do clube, dos seus adeptos e dos seus GOA, quais são os grupos de