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ROUSSEAU’NUN İDEAL TOPLUM SÖZLEŞMESİ: ADİL VE EŞİTLİKÇİ

B. AYDINLANMA VE UYGARLIK ELEŞTİRİSİ

I. BÖLÜM

2.3. ROUSSEAU’NUN İDEAL TOPLUM SÖZLEŞMESİ: ADİL VE EŞİTLİKÇİ

Ao se estudar o cooperativismo e as cooperativas médicas brasileiras, observa-se nos referenciais teóricos de ambos que tais cooperativas têm sido historicamente consideradas como formas de cooperativismo de trabalho. Atualmente, a OCB e a Organização das Cooperativas do Estado de Minas Gerais – OCEMG – as classificam como pertencentes ao ramo de saúde. Essas cooperativas, entretanto, são também cooperativas de trabalho. A denominação saúde pode ser considerada como uma subclassificação. Sendo assim, examinar- se-á o cooperativismo de trabalho para, em seguida, se analisar o cooperativismo médico.

Carneiro (1981) identifica que há uma variação da terminologia cooperativismo de trabalho em diversos países do mundo. São utilizadas denominações, tais como, cooperativas de trabalho, de produção, de produtores, industriais, artesanais e de serviços. Estas são, na realidade, sinônimas, pois servem para identificar o mesmo tipo de sociedade, ou seja, a sociedade cooperativa.

No caso, a diferença é o tipo de trabalhador que se associa para fundar a cooperativa. Esse mesmo autor lembra que, no cooperativismo, a terminologia em si não é o mais importante e, sim, a concepção. Essa organização social se pauta em valores que não podem ser desrespeitados pela intermediação. Assim, na perspectiva cooperativista, o resultado do trabalho sempre retorna ao produtor do mesmo, sem qualquer tipo de desvio.

Sendo esse o pressuposto básico da sociedade cooperativa, define-se então o cooperativismo de trabalho. No entender da Profª. Diva Benevides Pinho,

as cooperativas de trabalho são organizações de pessoas físicas, reunidas para o exercício profissional comum, em regime de autogestão democrática e livre adesão, tendo como base primordial o retorno ao cooperado do resultado de sua atividade laborativa, deduzidos exclusivamente os custos administrativos, a reserva técnica e os fundos sociais” (PINHO, 1984, p.251).

Para a Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo – OCESP44 – estado brasileiro que apresenta o maior número de cooperativas, cooperados e empregados diretos, as cooperativas de trabalho são entendidas como aquelas constituídas por pessoas de uma determinada ocupação profissional que se reúnem com a finalidade de melhorar a remuneração e as condições de trabalho, de forma autônoma.

O cooperativismo de trabalho surgiu, na França, influenciado pelas mesmas razões que levaram os ingleses a criar a cooperativa de Rochdale. No Brasil, Pinho (1981) relata a expansão de vários tipos de cooperativas de trabalho, na década de 70, com a queda no ritmo de crescimento econômico, portanto, em um contexto que apresentava aumento da taxa de desemprego, agravamento do problema do subemprego45, e alta taxa de crescimento demográfico. Essas cooperativas de trabalho emergiram com o objetivo de atender às necessidades de emprego, de organização da força de trabalho e de valorização da mão-de- obra, especialmente nos centros urbanos.

No entender de Carneiro (1981), diferentemente do que ocorreu em muitos países, nos quais o cooperativismo de trabalho foi impulsionado pela classe operária, no Brasil, tais sociedades ganharam força por meio de uma classe social ligada à burguesia – os médicos –, em 1967. Pinho (1981, p.38) atesta que, apesar de várias cooperativas de trabalho já funcionarem antes de 1967, foi a partir de então que começou a se intensificar o movimento associativista no Brasil, especialmente por técnicos e profissionais de alto nível. Aponta as “cooperativas de prestação de serviços médicos e hospitalares”, no caso a Unimed, como exemplo das primeiras cooperativas de trabalho fundadas no País.

No que tange às cooperativas de trabalho Carneiro (1981, p.174) afirma que a legislação brasileira confunde o cooperativismo de trabalho com o cooperativismo de serviços, o que leva a “uma complicada interpretação na aplicação dos dispositivos fiscais, no qual o retorno ao trabalho [é] taxado como serviço prestado, porque está fora do ato cooperativo, já que este [é] interpretado como relacionamento entre cooperado e cooperativa”. Sendo assim, o autor afirma que a legislação brasileira chega a uma “esdrúxula e quase anedótica resultante de as

44Disponível em: <http://www.ocesp.org.br/jcprtvsmo.htm> Acesso em: 18 out. 2001

45 Por subemprego entendem-se os trabalhadores que ganham menos de um salário mínimo. Naquela época, com

base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio – PNAD de 1977, quase 36% da mão-de-obra brasileira encontrava-se na categoria de subempregados (PINHO, 1981).

cooperativas de táxi só poderem conduzir seus cooperados, as cooperativas médicas só poderem atender seus cooperados, os médicos etc.”.

É importante ressaltar que, até 1960, ou seja, anteriormente à promulgação da Lei n. 5.764/71 que rege o cooperativismo no País, as cooperativas dos centros urbanos (de consumo, de crédito, escolares, de trabalho etc.), de modo geral, eram mais numerosas e dinâmicas do que as cooperativas das zonas rurais (de produtores agrícolas, de criadores, de mineradores e outras). A partir da década de 60, essa tendência inverteu-se: as primeiras decaíram, ou ficaram estagnadas, e as segundas se fortaleceram, especialmente graças a incentivos governamentais, ou seja, um tratamento discriminatório do Estado com as cooperativas dos centros urbanos, onde se situavam a maioria das cooperativas de trabalho (PINHO, 1981).

Após essa fase, o cooperativismo de trabalho voltou a se expandir no País, na última década do século XX. Em sua grande maioria (72,5%), as cooperativas desse ramo foram criadas a partir de l992 (OCESP46, 2001). Par e passo a essa expansão do cooperativismo de trabalho, Ramos e Reis (1997), discutindo os níveis de emprego nas regiões metropolitanas, identificaram que, na década de 90, houve um aumento da taxa de desemprego e uma tendência à precarização do emprego propriamente dito, levando-se em conta os parâmetros que têm sido utilizados para a avaliar a questão da qualidade de emprego.

O emprego de qualidade, tradicionalmente, é aquele relacionado aos postos de trabalho que estão protegidos pela legislação trabalhista tanto via Consolidação das Leis do Trabalho quanto por meio de um regime estatutário. Ramos e Reis (1997, p.14) consideram que

apesar de ser uma visão estreita e simplista de qualidade do emprego, esta tem sido, na grande maioria das vezes, a praxe na literatura. Alternativamente, a idéia de precariedade do emprego tem sido associada à inserção no mercado de trabalho como empregado sem carteira ou por conta própria.

Portanto, sob a ótica tradicional de análise, a qualidade de emprego no País, nos anos 90, apresentou visível grau de deterioração. Esses autores constataram que houve um aumento na proporção de empregados sem carteira e trabalhadores autônomos, no período de 1991 a 1995.

Face a essas explanações como poderia ser considerado o trabalho médico nas cooperativas Unimed? Ser médico autônomo, associado a uma cooperativa médica, significa ter um trabalho precário? Estas indagações talvez ainda estejam por ser respondidas. Mas o recente ressurgimento e a expansão das cooperativas de trabalho podem impulsionar também o debate teórico sobre o cooperativismo de trabalho médico. No caso, uma questão a ser revista é a concepção tradicional da qualidade do emprego, citada por Ramos e Reis (1997), na medida em que há tantos anos esse tipo de trabalho autônomo do médico existe no Brasil.

Misi (2000), ao estudar as cooperativas de trabalho brasileiras, entende que as mesmas fazem parte de uma polêmica que envolve o mundo do Direito do Trabalho, pois, se, por um lado, o cooperativismo pode ser considerado uma alternativa de fonte de renda para os trabalhadores face ao desemprego, por outro, tem sido utilizado como meio de fraude e desvirtuamento da proteção trabalhista.

Sobre essa questão, o então Ministro do Tribunal Superior do Trabalho47, em setembro de 1997, declarou que há casos em que o trabalhador é, de fato, prestador de serviços de uma denominada cooperativa de trabalho, e não um cooperado. Sendo assim, fica caracterizado o desrespeito aos direitos trabalhistas e a utilização fraudulenta da sociedade cooperativista.

Queiroz (1998) entende que as organizações criadas sob esse formato fraudulento de cooperativas de trabalho utilizam o trabalho de pessoas a ela associadas, supostos cooperados, para reduzir os custos com a mão-de-obra. Os resultados não são sobras a serem repartidas entre cooperados de acordo com a sua produtividade e, sim, lucro para os investidores do capital.

Mas há um certo consenso em torno da idéia de que a criação de sociedades cooperativas tem sido uma alternativa para os trabalhadores face ao desemprego. Alguns autores também constatam que há ainda questões conceituais, legais, fiscais e culturais dentre outras, a serem debatidas, na medida em que essas questões têm dificultado o desenvolvimento do cooperativismo no País (CARNEIRO, 1981; PINHO, 1981; QUEIROZ, 1998; DIAS, 2000; OCESP, 2001).

Mesmo assim, esse tipo de sociedade tem se expandido no Brasil conforme mencionado anteriormente. No estado de Minas Gerais, interesse particular do presente estudo, a OCEMG contava com 496 cooperativas associadas, em 1990, e atingiu 905, em 2000, havendo, portanto, um crescimento de 54,81% desse tipo de sociedade, na década de 90. Essas cooperativas estavam divididas em nove ramos, quais sejam: agropecuário, de consumo, educacional, habitacional, de infra-estrutura, mineral, de crédito, de trabalho, de saúde e outras48.

No que tange ao cooperativismo de trabalho, Mendes (2000) afirma que no Estado de Minas Gerais, em janeiro de 2000, havia 300 cooperativas de trabalho, legalmente constituídas de acordo com a Lei n. 5.764/71 e, portanto, constitucionalmente protegidas e apoiadas. No entanto, dois anos depois, em dezembro de 2001, havia 208 cooperativas de trabalho vinculadas à entidade, o que significa uma redução de 69,3%, no ramo trabalho, no referido período (OCEMG, 2001).

De acordo com a divisão do cooperativismo em Minas Gerais, as cooperativas médicas estão inseridas no ramo de saúde. Essas cooperativas surgiram em Minas Gerais, na década de 70, e estão atuando no ramo saúde junto a outros três segmentos distintos: o odontológico, o psicológico e o de usuários. De acordo com a OCEMG (2001), o exemplo mais vigoroso dentre esses segmentos é o cooperativismo dos médicos, organizados no sistema Unimed, tratado a seguir.