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A origem do nosso estudo, os objetivos decorrentes de nossas preocupações direcionaram o foco de análise para a formação, profissionalização, os saberes docentes e a prática educativa do professor em processo de formação, cuja atividade pedagógica se desenvolve no primeiro e segundo ciclo do ensino fundamental.

Assim, neste item discutiremos, inicialmente, a formação, profissionalização docente, procurando relacioná-la, sobretudo com o trabalho do professor em formação, para num segundo momento realizar uma reflexão sobre a prática educativa.

A docência é uma profissão que possui singularidades e complexidades, porém, difícil de ser exercida, portanto, “o que a sociedade espera dos professores depende em grande parte do que ela pretende da educação”. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA, RELATÓRIO, 1998, p. 62). O que se tem observado é que estas expectativas, atualmente, são de grande expressividade, apesar de não possuir uma precisão tão concreta.

A esse respeito, a Comissão Internacional sobre a Educação para o Século XXI “atribui à educação um papel ambicioso no desenvolvimento dos indivíduos e das sociedades”, (DELORS 2001, p.152), destacando “a importância do papel do professor enquanto agente de mudança, favorecendo a compreensão mútua e a tolerância, que nunca foi tão patente como hoje em dia [...] e será ainda mais decisiva no século XXI” (DELORS 2001, p. 152), “[...] período em que muito se espera e muito se exige dos professores” (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA, RELATÓRIO, 1998, p. 13).

A sociedade e as instituições de um modo geral possuem uma alta expectativa em relação ao trabalho do professor, requerem um retorno imediato, muito embora não percebam as possibilidades e condições que os professores possuem para efetivarem as diversas responsabilidades que geralmente são muito difíceis para serem postas em ação, às vezes não estão muito bem definidas. O relatório Mundial de Educação da UNESCO (1998) vagamente define o papel do professor, quando afirma, que “os professores têm um papel central a desempenhar na preparação das novas gerações de modo a que estas possam concretizar as nossas esperanças de um mundo socialmente mais justo, mais tolerante e mais pacífico no próximo século”. (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA, RELATÓRIO, p. 5).

Este mesmo relatório considera a dificuldade de ser feita essa definição, o que pode produzir problemas quanto às decisões em relação às orientações conceptuais na formação de professores. (IMBERNÓN, 1998; GARCÍA, 1999). A esse respeito, a UNESCO diz o seguinte:

A formação de professores [...] tem tantas abordagens, quanto os papéis que se pretendem atribuir aos professores, seja na sala de aula, no ambiente escolar ou noutro ambiente educativo ou numa sociedade alargada. Dadas às diferenças nacionais e culturais, o único consenso internacional, a que se pode chegar, relativamente a uma questão tão complexa, é o de que o ensino deve ser encarado como profissão. (UNESCO, 1998, p. 86).

Apesar do ensino ter sido considerado internacionalmente como profissão e, lamentavelmente, a Recomendação relativa ao Estatuto dos Professores, feita pela UNESCO, em 1966 com diversas Recomendações, Acordos, Pactos, por parte dos organismos internacionais e nacionais não tem tido força suficiente para sair do papel.(ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA, RELATÓRIO, p. 5).

Com tudo, a definição do ser professor(a), hoje,

[...] se orienta por finalidades que além de nem sempre serem claras, são muitas vezes também retóricas: ‘formação integral do indivíduo; desenvolvimento das capacidades básicas; transmissão de conhecimento; ensino de conhecimentos; atitudes, valores, habilidades, etc, [...]. (IBAROLA, 1998, p. 72).

No desenvolvimento das atividades diárias em sala de aula, com um grupo de alunos heterogêneos, o professor deve possuir competência para: Articular vários saberes – desde os espontâneos até os científicos - seus e dos alunos visando à construção compartilhada de novos conhecimentos; Estimular processos intersubjetivos de construção do conhecimento que vão sendo elaborados intrasujetivamente; Promover o ensino-

aprendizagem para um mundo em mudança, apesar das diversas situações da sua vida e da vida dos seus alunos, a quem devem ser proporcionadas experiências significativas para que possam aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver junto e aprender a ser.

A partir do que foi exposto acima, pode-se afirmar que as expectativas sobre o trabalho do professor estão estritamente relacionadas com os conceitos e as concepções de homem, sociedade, educação, escola, ensino, aprendizagem, currículo, conhecimento, assim como outros aspectos que integram a complexa rede de relações que envolvem o ato de ensinar, de aprender e de aprender a ensinar.

Por outro lado, o conceito de formação é passível de múltiplas interpretações. Ferry (1991, p. 36) considera a formação “como um processo de desenvolvimento individual destinado a adquirir ou aperfeiçoar capacidades”. Afirma ainda, que a formação de professores é a formação de formadores. Já Sacristán (1992, p. 72) considera que o conceito de formação representa uma das pedras angulares imprescindíveis em qualquer tentativa de renovação do sistema educativo. García (1999, p. 26) compreende a formação de professores como:

[...] a área de conhecimentos, investigação e de proposta teóricas e práticas que, no âmbito da Didática e da Organização Escolar, estuda os processos através dos quais os professores em formação ou em exercício se implicam individualmente ou em equipe, em experiências de aprendizagem através das quais adquirem ou melhoram os seus conhecimentos, competências e disposições, e que lhes permite intervir profissionalmente no desenvolvimento do seu ensino, do currículo e da escola, com o objetivo de melhorar a qualidade da educação que os alunos recebem.

A educação que está sendo exigida no século XXI nos diferentes países e principalmente no Brasil requer um repensar dos modelos formativos de professores, que devem atender às necessidades formativas dos docentes, estando coerentes com as mudanças que estão propondo. De acordo com Ramalho, Nuñez e Gauthier (2003, p. 2),

A escola necessita acompanhar as Reformas Educacionais na sociedade da informação e nessas mudanças os profissionais da educação têm um papel a cumprir. Assim, pois, se justificam as preocupações com a formação de docentes para as novas tarefas e problemas característicos da educação para o século XXI.

No Brasil, a temática sobre formação de professores vem sendo discutida em diversos estudos e reflexões críticas, revelando a existência de um modelo formativo hegemônico, que tem como suporte o racionalismo técnico com base formativa no modelo academicista. Neste modelo formativo o professor é considerado um mero executor-produtor de saberes profissionais produzidos por especialistas das diferentes áreas científicas, assumindo um papel secundário no processo de construção da profissão, situando-se numa posição inferior no processo hierárquico que estratifica a profissão docente. Porém, o modelo de formação predominante (modelo hegemônico) na perspectiva de Ramalho, Nuñez e Gauthier (2003, p. 21) é baseado:

1 - No treinamento de habilidades (identificadas como competências); 2 - Em conteúdos descontextualizados da realidade profissional, fragmenta - da, reveladores de uma formação acadêmica fragilizada;

3 - Na distância do objeto da profissão (do processo educativo da escola), com uma evidente dicotomia teoria-prática, com o criticado estágio terminal e com escassos momentos para mobilizar saberes da profissão na prática real.

Essa situação, segundo os autores, encontra-se relacionada à questão de se ter que rever, criticamente, os contextos formativos desprofissionalizantes, marcados pelas relações de poder, interesses, hábitos ou atitudes que são fragilizadas, tanto em relação aos professores, como dos processos formativos. A Figura 1 seguinte conforme Ramalho, Nuñez e Gauthier (2003) representa o Modelo Hegemônico de Formação referido pelos autores, com suas características:

Figura 1 - Representação do Modelo Hegemônico da Formação Fonte: (RAMALHO, NUÑEZ e GAUTHIER, 2003, p. 22)

Existe a necessidade de uma contraposição a este Modelo Formativo Hegemônico, sendo necessário a construção de um novo modelo que possibilite a inovação das práticas formativas, com vista à superação dos obstáculos que o docente enfrenta ao exercer a profissão.

A construção de um Modelo de Formação Emergente, que possa se contrapor ao Modelo Hegemônico de Formação tem sido uma tarefa que diversos pesquisadores que vêm contribuindo com referências teóricas que procuram explicitar a constituição de novos processos formativos, em que a profissionalização docente é tomada como ponto chave nos processos formativos: Bráslausky (1999); Bar (1999); Brzezinski (2002); Díaz Barriga e

Professor

Executor-reprodutor de saberes produzidos por especialistas

Excluído da construção da profissão (nível inferior na hierarquia da profissão) Identifica-se com habilidades Competência Processo Formativo fundamentado no Racionalismo Técnico (Tecnicismo)

Traduz uma cultura educacional do contexto desprofissionalizante Modelo Formativo Base no treinamento de habilidades Formação distante da escola, distante do objeto da profissão

Espinosa (2000); Gatti (1997); Gauthier, Tardif (1998); Imbernón (2000); Ramalho, Nuñez, e Gauthier (2003) e Torres (2000). A convergência de referências num modelo formativo que são expressas como metáforas do professor, constituem atitudes ligadas entre si, de forma dialética ao próprio processo da profissionalização docente.

Existem também as contribuições e limitações dos estudos sobre o professor reflexivo apontado por Schön (2000); Zeichner (1993) e Freire (2002); o professor como investigador, discutido por Stenhouse (1987) e Elliot (1998); o professor crítico, priorizado nas obras de Freire (2002) e Carr e Kemmis (1998). Essas referências sinalizam para um novo fazer profissional competente do professor, servindo para a construção do seu desenvolvimento profissional. A convergência dessas referências teóricas significa que:

Assumir a reflexão, a pesquisa e a crítica como atitudes que possibilitam ao professor participar na construção de sua profissão e no desenvolvimento da inovação educativa norteia a formação de um profissional não só para compreender e explicar os processos educativos dos quais participa, como também para contribuir para transformar a realidade educacional no âmbito de seus projetos pessoais e coletivos, como membro de um grupo social e profissional. (RAMALHO, NUÑEZ e GAUTHIER, 2003, p. 23).

Na Figura 2 a seguir encontra-se representado o Modelo Emergente de Formação. Proposto por Ramalho, Nuñez e Gauthier, (2003).

Figura 2 - Modelo Emergente da Formação Docente Fonte: (RAMALHO, NUÑEZ, GAUTHIER, 2003, p. 24)

Por meio do esquema acima, os autores propõem uma alternativa de superação de antigas práticas de formação e da ação docente que têm se conformado com o modelo da tradição, centrado no racionalismo técnico.

Um modelo formativo que prima pela mudança na prática docente deve considerar as seguintes condições básicas de atitude profissional: a reflexão, a pesquisa e a crítica. Estes elementos se articulam como um sistema apontando para uma nova visão de atividade

Processo Formativo fundamentado na perspectiva: do professor como profissional Professor Construtor da profissão (saberes, competências, etc)

Mobilizar saberes, valores, habilidades, desconstruir hábitos, em sinergia, para resolver situações-problema

capacidade de Argumentar as decisões e os resultados com uma ética,

no contexto do grupo profissional Competência

Traduz uma perspectiva de superação do contexto desprofissionalizante Modelo Formativo Fundamentado na investigação- Reflexão-crítica da prática em sua relação dialética com a teoria Construção/reconstruç ão das competências

segundo o desenvolvimento profissional Formação centrada na escola (no objeto) da profissão)

profissional dos docentes. A convergência de perspectivas teóricas do modelo formativo, proposto por Ramalho, Nuñez e Gauthier (2003) está representado na Figura 3 a seguir:

Figura 3 - A Convergência de Perspectivas Teóricas no Modelo Formativo Fonte: (RAMALHO, NUÑEZ, GAUTHIER, 2003, p. 25)

Assumir a reflexão como uma estratégia de ação formativa como é proposta por Schön (2000) requer que o docente realize a construção-reconstrução de sua prática profissional a partir de sua própria prática. A reflexão do professor deve ser usada como um processo que possa contribuir com o desenvolvimento profissional, como um processo que possibilita tomar de decisão e interpretar o trabalho docente. (IMBERNÓN, 2000).

Para que o docente reflita sobre a sua prática é preciso que ele tenha domínio de alguns recursos teórico-metodológicos que são importantes para a ressignificação do seu agir

Modelo

Formativo

Profissionalização docente Formação de competências reflexão pesquisa crítica Inovação educativa

profissional. O processo de reflexão torna-se necessário para que os docentes sejam produtivos, sendo orientado por novas referências teóricas sobre o saber científico. Nesse ponto a teoria exerce um importante papel essencial para que o docente possa redefinir a sua ação profissional e construa novos saberes.

Sobre a reflexão, Smyth (1992, p. 30) afirma ser necessário “uma noção de reflexão na formação de professores que seja simultaneamente ativa e militante, que introduza no discurso sobre o ensino e a escola uma preocupação pelo ético, pessoal e político”.

Para Smyth (1992), existem quatro fases que permite o desenvolvimento do conceito de reflexão que são: descrever, informar, confrontar e reconstruir. Isto significa que o processo formativo oferecido pela agência formadora deve permitir aos alunos a capacidade de descrever o que realizam, informar sobre o significado do que realizam, confrontar como conseguiu chegar até onde chegou e reconstruir realizando uma síntese da prática desenvolvida de maneira criativa, significativa.

Zeichner (1993) considera que a reflexão do professor sobre a sua prática como um potencial transformador das condições em que acontece sua atividade profissional. Isso pode acontecer através da implementação de projetos que tenham em vista a mudança institucional e social com implicações sociais e políticas, que devem ser explicitadas como um critério de orientação da prática reflexiva.

Através da reflexão como uma estratégia formativa é possível construir uma epistemologia da prática, considerando-se a docência como uma profissão que é construída na prática. De acordo com Perrenoud (2002), a reflexão da prática, na prática e sobre a prática possibilita a tomada de consciência dos processos de construção da atividade profissional, característica do trabalho do professor como profissional.

Fazer uso da pesquisa como processo formativo requer propor recursos metodológicos para avançar no desenvolvimento da profissão. Essa perspectiva tenta superar

a concepção de professor conforme o racionalismo técnico. Assim, o professor pode reconstruir a sua ação pedagógica e construir novos saberes.

Desse modo, a sala de aula pode ser considerada como um laboratório de pesquisa onde o(a) professor(a) busca criar situações mediadas por valores e critérios educativos. Nesta perspectiva, o professor como pesquisador toma sua prática com objeto de pesquisa, como o objetivo de transformá-la e reconstruí-la.

Segundo Ramalho, Nuñez e Gauthier (2003, p. 27-28), os professores devem superar a metodologia da superficialidade1 tão usada na construção de saberes do senso comum. Para tanto,

[...] supõe incorporar a pesquisa como um dos componentes da formação. A pesquisa, como ferramenta da reflexão crítica da prática, contribui para a construção de novos saberes, para se lograr uma autonomia profissional que se constrói no coletivo do trabalho. Dessa forma, a pesquisa se orienta também à construção de debates sobre as experiências de vidas, sobre outras experiências de pesquisas para refletir sobre o trabalho profissional coletivo como categoria. A inovação educativa do professor é um processo de reflexão, pesquisa e crítica para a transformação não só de um currículo como também da escola no contexto social.

Conforme Ramalho, Nuñez e Gauthier, (2003) a visão de professor pesquisador, defendida pelos autores, não se identifica com a pesquisa do professor em sala de aula com a pesquisa acadêmica, aproxima-se do profissional que participa da produção de saberes com métodos e estratégias sistematizadas, fazendo uso da pesquisa como um mecanismo de aprendizagem. Na perspectiva dos autores, o professor como pesquisador também se profissionaliza à medida que participa de um coletivo como prática social, que reflete, constrói saberes e competências, caminho para conquista da autonomia profissional.

1 Superar a metodologia da superficialidade significa que os docentes devem aprofundar seus conhecimentos no sentido de realizar modificações substanciais nó seu modo de agir profissional.

Para os autores o processo de construção de saberes cresce de acordo com o desenvolvimento da pesquisa (como inovação educativa), que é resultante da reflexão da prática, através da crítica coletiva como uma condição de legitimação dos saberes, que têm um alcance epistemológico e prático maior ou menor, segundo os próprios processos de legitimação.

Consideramos que para haver inovação educativa é necessário que as agências formadoras se comprometam com a formação de profissionais que sejam capazes de refletir a sua ação docente no sentido tomar a pesquisa como um dos eixos de sua formação, como um mecanismo de aprendizagem da profissão.

Por meio desse mecanismo é possível que os docentes venham superar a superficialidade de sua ação pedagógica como sujeito e não apenas como consumidor de conhecimentos, mas como produtor de diversos saberes, desenvolvendo suas potencialidades, promovendo a inovação educativa e o seu desenvolvimento profissional.

As proposições de Ramalho, Nuñez e Gauthier (2003) estão representadas a seguir na Figura 4:

Figura 04 - Processo de Construção de Saberes

Fonte: (RAMALHO, NUÑEZ e GAUTHIER, 2003, p. 30)

Assumir a pesquisa como estratégia formativa também significa compartilhar com as idéias de Freire (2002), quando afirma que não há ensino sem pesquisa e pesquisa sem ensino, uma vez que fazem parte da prática educativa a busca e a indagação. O professor necessita assumir uma atitude de pesquisa sobre sua própria prática, para que possa formar indivíduos criativos, críticos, reflexivos e participantes e solucionadores de problemas. Freire (2002, p. 32) afirma que: Novos saberes Profissionais docentes Projeto de inovação educativa, pesquisa - crítica. Análise de prática educativa individual (reflexão) Análise da prática; Reflexão coletiva; Processo de legitimação Análises da prática educativa; reflexão coletiva Saberes profissionais docentes

Fala-se hoje, com insistência, no professor pesquisador. No meu entender o que há de pesquisador no professor não é uma qualidade ou forma de ser ou de atuar que se acrescente à de ensinar. Faz parte da natureza da prática docente a indagação, a busca, a pesquisa. O de que se precisa é que, em sua formação permanente, o professor se perceba e se assuma, porque professor, como pesquisador.

Essa seria sua função político-ideológica na construção de projetos, como alternativas políticas, podendo assumir um compromisso com uma educação democrática e de qualidade.

Assumir a crítica como estratégia formativa, conforme Ramalho, Nuñez e Gauthier (2003), significa considerar a relação entre teoria e prática. É refletindo a prática que está sendo desenvolvida no momento presente que o docente tem a possibilidade de modificar sua ação pedagógica futura. Na visão de Ramalho, Nuñez e Gauthier (2003) a crítica possibilita ao docente fazer uma releitura da realidade educativa a partir do uso de referenciais que os ajudem a construir uma compreensão dessa realidade e a superar as práticas exclusivas e reprodutoras, transformando o papel da escola, considerando-a como um espaço de conscientização e construção da democracia. Portanto, é o conteúdo da crítica que possibilita a modificação do significado da realidade educativa, que deve ser refletida e construída pelo coletivo de professoras(as).

Adotar a perspectiva crítica para a formação docente como um pressuposto ideológico, segundo Ramalho, Nuñez e Gauthier (2003), significa o reconhecimento da não neutralidade dos saberes, das atitudes de quem ensina e de quem aprende. Significa formar certos valores nos futuros profissionais da docência, constituindo uma nova ótica na relação entre os interesses, saberes e competências, entre os elementos afetivos e cognitivos gerados no âmbito das estruturas de poder, no sentido de assumir um compromisso com os alunos e a sociedade.

Neste sentido, a prática pedagógica passa a ter um novo significado, deverá ser desenvolvida eticamente a partir de novos propósitos ou objetivos. Na perspectiva de Ramalho, Nuñez e Gauthier (2003, p. 36),

Uma das tarefas essenciais dos projetos formativos é compreender-construir o sentido da crítica como condição da profissionalização dos professores no marco dos Projetos Pedagógicos. A atitude crítica, ligada à reflexão e à pesquisa, supõe a reconstrução das categorias pelas quais os professores explicam os fenômenos educacionais, como processos sociais, políticos, econômicos, ideológicos, complexos, na busca de superar suas práticas educativas e dessa forma contribuir com os Projetos Educativos que procuram ‘transformar a sociedade’ e conseqüentemente, a escola, como instituição da democratização de saberes, valores, atitudes, que possam contribuir com a formação cidadã dos alunos e dos próprios professores como profissionais em desenvolvimento.

De acordo com Ramalho, Nuñez e Gauthier, (2003) ao elaborar os projetos formativos, as agências formadoras devem, portanto, deixar bem claro, os sentidos que estão atribuindo ao seu compromisso com a transformação da sociedade; bem como que perspectiva têm os professores para pensar a transformação que desejam realizar na educação dos cidadãos, como também na sua participação na construção de referenciais teórico-práticos que possam contribuir com o avanço da educação junto com seus pares.

A situação social e educacional no Brasil vem exigindo novas perspectivas teóricas e filosóficas no campo das teorias críticas da educação. Trata-se de buscar novas referências teóricas que possam possibilitar aos docentes um novo olhar sobre suas práticas enquanto

Benzer Belgeler