Pesquisador: Bom, a primeira pergunta é, na sua opinião, o que significa falar hoje de capoeira
contemporânea?
Entrevistado: Bom, eu entendo dessa forma, assim: contemporânea é aquilo que é do momento. É
aquilo que acontece no momento. Falar sobre capoeira contemporânea, na minha opinião... aquilo que acontece no momento. Por exemplo, na... antigamente, quando existia apenas a capoeira primitiva, naquela época você poderia tratar ela como a capoeira contemporânea. Naquela época! Né. A capoeira regional, depois da capoeira primitiva, que hoje nós consideramos como um estilo tradicional, na época ela era capoeira contemporânea. Mas hoje, em tempos atuais, nós classificamos assim: como a capoeira angola e a regional são dois estilos distintos e que mantêm as origens, a tradição, a tradicionalidade do estilo, então nós chamamos de capoeira tradicional, né. E aquilo que você não determina, não classifica como angola nem regional, que é uma fusão dos dois estilos, nós tratamos como capoeira contemporânea. Inclusive a capoeira que vem... que vem se aprimorando, que vem inovando cada vez mais as suas técnicas. Isso nós chamamos de capoeira contemporânea. Eu nem sei se nós podemos classificar isso como um estilo. Porque pra se classificar como um estilo ele tem que ser... é... tem que ter todos os seus movimentos pré-determinados, tem que ter uma uniformização. E isso não acontece na capoeira contemporânea no seu geral. Existe grupos, como eu vou citar aqui, o grupo Abadá, o grupo Muzenza, que são grandes grupos, né. E eles tem uma uniformidade no trabalho deles. Eles têm um estilo de jogo. Inclusive, esse termo contemporâneo, capoeira contemporânea, ela passou mais a ser utilizado mais ou menos ali na década de setenta, oitenta pra cá. Inclusive quando Mestre Camisa, do Rio de Janeiro, ele fundou o grupo... quer dizer, a associação Abadá... porque o Abadá é uma associação, e... ele trouxe novas técnicas e muitas inovações na capoeira. Mestre Camisa ele foi da capoeira regional, da regional ele fez várias atualizações, e se deu esse nome, passou a se chamar capoeira contemporânea pra diferenciar da capoeira angola e da regional, que são as tradicionais.
P: E essa capoeira contemporânea, quais são os elementos que compõem essa capoeira
contemporânea?
E: É como eu digo pra você né, nós não podemos afirmar que a capoeira contemporânea seja
praticamente um estilo porque existem vários grupos e cada grupo ele segue uma certa tradição; a composição dos instrumentos, na forma das cantigas, tem grupos que no seu estilo eles utilizam o jogo de angola, tem outros grupos que já não, substitui a benguela pela angola. Mas se você for fazer assim, num modo geral, num catado geral, a capoeira contemporânea ela se diferencia do seguinte modo: a composição dos instrumentos, ela usa praticamente a bateria da capoeira angola pra um estilo mais voltado para a capoeira regional, que são os três berimbaus, o pandeiro, o atabaque, o agogô, né. Seria uma composição mais voltado pro estilo de angola. Porque na regional tradicional mesmo é um berimbau e dois pandeiros. Então essa daí é uma diferenciação na parte da formação de bateria do estilo contemporâneo.
P: Ela se utiliza de elementos de outras áreas ou de outras práticas fora da capoeira?
E: Então... elementos de outras práticas, ela já vem desde a capoeira tradicional, principalmente da
capoeira do Mestre Bimba. Porque o que que é a capoeira regional? Ela se traduz no que? Na junção da capoeira angola, que Mestre Bimba praticava, com o batuque que ele aprendeu com seu pai – que era uma dança africana, uma dança guerreira africana – e depois, mais tarde, depois de ter fundado a sua primeira academia lá nos anos de 1937. Aí o que que aconteceu, no tempo ele conheceu uma pessoa de nome Cisnando, Cisnando Lima, que era um cearense que foi estudar medicina em Salvador. E o Cisnando Lima ele tinha técnicas de outras lutas, como, por exemplo, o jiu-jitsu. E Cisnando Lima foi fundamental também na ajuda da formação da capoeira regional. Então nós podemos dizer que existem elementos de outras artes marciais já da época da capoeira tradicional de Mestre Bimba.
P: E considerando estes elementos que o senhor apontou, como se caracteriza a aprendizagem ou
E: É, a aprendizagem é um elemento bem simples mesmo, né. É lógico que tudo começa com o
básico, né... com o básico, que é... apesar que nós temos também assim, que classificar a faixa etária de idade, né. Porque cada categoria de idade pode variar um pouco o estilo de ensinamento, os métodos de ensinamento, a sua didática. Por exemplo, não se ensina uma criança de quatro, cinco anos com a mesma didática de aula que você tem com uma criança de doze, treze, ou um adulto, né. Mas no geral, num catado geral, se inicia, lógico, basicamente, pela ginga, que é o movimento básico e que dá a base para todos os movimentos. O aluno começa a aprender os movimentos defensivos no princípio, as negaças, os movimentos básicos como a queixada, a armada, a benção, que são os golpes de aplicação direta, os giratórios, juntando com a esquiva. E, para um treinamento mais avançado, vêm também os floreios, né, saltos que são utilizados geralmente em apresentações. Então uns movimentos, assim, de um grau mais difícil de aprendizagem.
P: E na sua opinião, o que significa se tornar um mestre de capoeira contemporânea?
E: Bom, eu acho que o mestre... ele se torna mestre pelo seu reconhecimento dentro da sua
comunidade que ele atua. Porque nós vemos por aí pessoas abusando inclusive, mas... de se graduar, de se auto graduar. Tem muito isso na capoeira. Mas eu acho que a capoeira é muito mais, né. Eu acho que a pessoa se torna mestre quando ele é realmente reconhecido como mestre pela sua comunidade.