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Antik Yunan Felsefesinde Bona Fides

Pesquisador: Bom mestre, como eu lhe expliquei, este trabalho é sobre capoeira contemporânea.

Então eu gostaria de saber, em sua opinião, o que significa hoje falar de capoeira contemporânea?

Entrevistado: Eu quero até, antes de falar o que significa capoeira contemporânea pra mim, eu

queria dar uma contribuição pra você da minha ideia, do meu pensamento sobre o surgimento da capoeira. Talvez isso possa te auxiliar no seu trabalho e vai ajudar eu te responder sobre a capoeira contemporânea.

Bom, existem dois segmentos, dois entendimentos, ou duas doutrinas, ou dois pensamentos, sobre o surgimento da capoeira. Uns dizem que a capoeira é originária da África, veio de lá com os escravos para o Brasil e então... ela se originou na África. E tem a segunda corrente que diz que a capoeira é originária nossa, brasileira, que é a corrente à qual eu me filio, que eu entendo ser a mais correta, a mais verdadeira por estudos e pesquisas que eu já busquei. Então, os escravos na época, né, do Brasil colônia, e tal, que vieram para o Brasil desenvolveram a capoeira aqui, né, então por isso ela ser originária nossa, por isso ela ser da nossa cultura. E é reforçada essa tese até mesmo agora em 2008, se não me falha a memória, onde ela foi considerada cultura brasileira, reconhecida pelo IPHAN, se não me falha a memória.

Então, a capoeira surgiu daí, com os escravos e como uma forma de libertação. Então eles não poderiam demonstrar, ou mostrar, que estavam praticando uma luta, então por isso ela é disfarçada de arte, né, de dança até, que confundia-se muito no passado; “capoeira é uma luta ou é uma dança?”. Capoeira é luta, é arte, é dança, é cultura, é tudo isso. Por isso o misto, né, esse misto da capoeira é positivo por isso, é bom por isso. Nenhuma arte, nenhuma arte marcial tem a diversidade que a capoeira tem. Então isso é muito interessante, é muito importante. E até mesmo também a parte da música. Nenhuma outra arte marcial tem a parte da musicalidade dentro da luta.

Bom, então com isso, com esse surgimento da capoeira, com a origem da capoeira no Brasil, que eu penso ser verdadeira, existia uma capoeira que era jogada ou praticada, depois dessa fase, até mesmo depois da abolição da escravatura, foi começada a ser difundida na sociedade. Então, com essa difusão da capoeira na sociedade começou a surgir o estilo, e daí tem então o estilo da capoeira. Porque se a gente for buscar lá na origem dela não existia capoeira angola, não existia capoeira regional, existia capoeira. Mas a partir do momento que ela entra pra sociedade começa então a ter uma denominação, uma diferenciação. Então existia o que eles chamam de capoeira angola que é uma capoeira mais rasteira, que é uma capoeira jogada mais lenta, jogada no chão, e veio o famoso Mestre Bimba com uma capoeira já mais luta, uma capoeira mais rápida, uma capoeira mais em cima, jogada mais em cima. Menos no chão mais em cima, que aí ele próprio denominou de luta regional baiana. Então aí se reforçou mais ainda uma... duas conjunções da capoeira; capoeira angola e capoeira regional.

“Ah não, a capoeira angola é a capoeira mãe, é a capoeira que iniciou. A capoeira regional veio depois”, “Ah, mas agora não se joga mais nem angola, nem regional, se joga capoeira contemporânea, que é um misto da capoeira angola e regional”, né. Isto é o que é dito, e conversado e explorado por alguns... até historiadores que escrevem sobre a capoeira. Eu, particularmente, tenho minha posição. Eu venho de uma linha da capoeira onde o meu mestre diz que “nós jogamos capoeira”. Ou seja, o grupo Senzala de capoeira de Brasília, e o Senzala como um todo em geral, joga capoeira. “Ah, mas que capoeira você joga? Você joga capoeira angola ou capoeira regional?”. Eu jogo capoeira. Eu jogo angola e eu jogo regional. O que vai dizer o que eu vou jogar vai ser o toque do berimbau, porque ele é que comanda a roda. Então se é pra jogar angola, o toque de angola é que vai acontecer e eu vou jogar angola. Se é pra jogar regional, um toque de regional vai acontecer e eu vou jogar regional.

“Ah, só que esse misto de capoeira angola e regional é denominado capoeira contemporânea”. Olha, eu não entendo muito como isso, né, como hoje se tem uma capoeira contemporânea. “Ah, porque a capoeira hoje é mais... ela tem mais floreio, ela tem mais exibição e por isso ela é um misto da angola com a regional. Por isso ela é diferente da angola, por isso ela é diferente da regional. E hoje ela é denominada contemporânea”.

Eu não vejo assim. Toda arte, toda cultura, ela evolui. O que não pode deixar de existir são os seus fundamentos, que é a sua origem e a sua base. Então, no nosso grupo Senzala ele mantem a origem, mantem a fundamentação da capoeira, né... seus toques, seus princípios ali, os golpes e tal. E acompanha o crescimento e a evolução da arte, com novas metodologias de ensino, com novos tipos de golpes, de floreios e tal, que faz parte de uma evolução natural. Porque antigamente se tinha uma condição, até mesmo física, né, que talvez com a evolução do homem, que é natural, as coisas também evoluem. Então... “pô, mas antes não se faziam determinados floreios que se fazem hoje, como acrobacias e etc.”. Sim, mas antes, naquela época, era outra forma de lidar com a sociedade que hoje se evoluiu, né, e que é possível se utilizar e fazer, é... malabarismos e contorcionismos com o corpo que antes não se fazia, né.

Então eu entendo, na minha condição, que não existe a capoeira contemporânea. Isso é uma denominação criada, inventada, mas que na verdade existe capoeira. E eu jogo capoeira, seja angola, seja regional, seja contemporânea.

P: Então para o senhor, o que se está denominando capoeira contemporânea na verdade seria só

essa terminologia para recriar a capoeira como um todo?

E: Eu entendo que sim, que é justamente isso. Como hoje a capoeira já está num processo de

evolução maior do que era antes... porque hoje... antigamente, se você for ver, a capoeira veio entrar na sociedade mesmo em torno da década de trinta, né, por ali. Que ela começou a entrar em faculdade, universidade, ser ensinada. Antes ela era aprendida, né. Como que ela era aprendida? Você via uma roda de capoeira, você parava ali do lado e ficava olhando. “hum, tá, pô, é”. Aí ia, e convidava, e começava, e você ia para aquela roda e ficava imitando fazer, e tal. Depois não. Isso foi inserido na sociedade e foi criado um método de ensino, né. Olha, uma sistemática de ensino. Mestre Bimba mesmo criou a sequência... sequências de Mestre Bimba, né, tinha lá e tal. Ou seja, uma metodologia de ensino, que isso veio aprimorando, né. Então eu vejo muito isso, né. Ah, o contemporâneo está nisso, numa evolução da capoeira, numa nova... numa sistemática de ensino. Mas não, é a capoeira, é a capoeira, entendeu? Ela não mudou, ela só evolui.

Como que... como um outro processo de evolução da capoeira: a profissionalização dela. Coisa que antes, aquilo era uma coisa um pouco tradicional, de alguns mestres que tinham, e tal, às vezes até nem ensinava, não passava, aquilo ficava com ele. E hoje não. Hoje você tem livro, você tem cd, você tem muito mais. Você abre a internet você tem lá, “curso de capoeira”, “aprenda a fazer capoeira”, “meia lua de frente, assim, assado, levante a perna, tal, a perna esquerda pra trás, a mão na frente, não sei o que, etc”. Então, hoje você aprende a capoeira de várias formas de vários meios, né, vários métodos. Então isso é... eu acho que essa evolução que a capoeira teve é que eles estão denominando de contemporânea, mas é capoeira.

P: Bom, na sua opinião, o que significa... qual o significado, hoje em dia, de se tornar um mestre de

capoeira contemporânea?

E: É, isso é importante você levantar porque até mesmo com essa evolução da capoeira, e essa

profissionalização, muitas coisas se perderam. A fundamentação da capoeira, hoje, se perdeu. Isso é... acaba sendo comercializado, né. Então, a tradição, os fundamentos são perdidos por força do dinheiro. Infelizmente né, no mundo capitalista, hoje em dia mais ainda com a globalização, você acaba perdendo aquilo que é o essencial da capoeira – que é a base, o fundamento – para o dinheiro. Então, hoje você vê mestres sendo formados com seis anos de capoeira. Seis anos de capoeira não é nada, não é nada. Seis anos a pessoa está se iniciando na capoeira, ainda esta aprendendo e começando a entender o que que é capoeira.

Então, uma pessoa para se formar mestre, ele tem que viver. Viver a arte, viver a cultura. E não é só dar golpe, saber dar armada, queixada, meia lua de compasso, mortal, negativa, não. Ele tem que ter toda uma vivência de vida mesmo, né. É até redundante né. Eu fiz isso de propósito pra reforçar: é uma vivência de vida. Ou seja, ele tem que absorver aquilo. Ele tem que ter uma postura. Ele tem que ser um orientador. Ele tem que entender que ele é um educador. Ele tem que entender que ele é um líder. Ele tem que entender que ele tem seguidores. Ele tem que entender que ele tem que passar pelos gostos daquelas pessoas. E em seis anos você não aprende isso. Uma pessoa com dezoito anos não tem essa maturidade. Ele vai ter essa maturidade quando? Sei lá, mais lá pra frente. Agora, o mestre de dezoito anos... você já teve dezoito anos. Eu já tive dezoito anos. Você sabe qual a cabeça que nós tivemos quando tínhamos dezoito anos.

Então é isso. O fundamento da capoeira está aí, em você vivenciar a arte, vivenciar a cultura e amadurecer nela. O fruto está bom no pé quando ele amadurece. Amadureceu, tá na hora de tirar. Se você tira ele antes, ele ainda não tá preparado. Capoeira é a mesma coisa. Pra você se formar um mestre de capoeira você tem que ter uma vivência, né, não simplesmente saber dar golpes. Você tem que saber conduzir pessoas, você tem que entender que você tem pessoas que você precisa orientar e que você precisa dar um direcionamento pra elas. E hoje em dia, com a capoeira contemporânea... não digo nem com a capoeira contemporânea, mas com o capitalismo e a profissionalização da capoeira, os seus valores iniciais, e primordiais, importantes estão sendo perdidos.

P: Quais são algumas das etapas que o senhor considera que são importantes nessa formação do

aprendiz até o mestre?

E: Bom, o básico, é óbvio né, que tem que aprender os golpes da capoeira, ou seja, a capoeira em

si. Vamos chamar isso de básico, você saber o que você está fazendo, quais são os golpes da capoeira, os movimentos da capoeira. Isso você precisa saber. Você precisa ter noção e conhecimento da parte de liderança, de liderar um grupo. Porque você vai ter seguidores. Vão ter pessoas que vão olhar pra você, e “poxa, esse é meu professor, eu quero ser igual a ele”. Então você tem que ter consciência que você tem que ter boas atitudes, boas ações. Você não pode ter a capoeira pra você pra um aspecto negativo. Você tem que usá-la para os aspectos positivos, pra crescimento. Porque a capoeira, ela é ação, ela é musicalidade, ela te ajuda na sua percepção, ela te ajuda no seu reflexo, ajuda no seu desenvolvimento psicomotor, etc. Então, é uma outra etapa que a pessoa tem que entender e tem que amadurecer isso. Por isso não formar um mestre em cinco anos, com seis anos, com dez anos. Precisa ter uma bagagem pra isso, ter uma vivência pra isso.

P: Perfeito, muito obrigado Mestre. E: Deu aí? Entendeu?

Benzer Belgeler