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BÖLÜM 1 : TÜKENMİŞLİK (BURNOUT) SENDROMU

2.5 Rol Çatışması ve Rol Belirsizliğiyle Başa Çıkma Yöntemleri

No quarto ao lado, as meninas prepararam uma apresentação. Todos nos quartos vizinhos vieram assistir. Foi lindo. Nós cantamos e as garotas até apresentaram uma pequena peça. Por um tempo esquecemos tudo. Foi como se estivéssemos em casa ou em algum teatro, como se as velas, colocadas em malas e em canecas, brilhassem numa árvore de Natal e fôssemos livres.

Ninguém ouve, ninguém repara nas danças e nas canções das meninas. Na verdade elas não estão dançando. Seus pensamentos estão em outro lugar. Elas já não são prisioneiras nesses alojamentos frios e sujos. Já não enfrentam cada novo dia com a barriga vazia e medo constante. Estamos livres, muito além dos muros e dos portões do gueto que ocultam tanta desgraça e sofrimento, onde a morte espreita suas milhares de vítimas – longe daqui, ao redor de uma mesa farta, entre tantos rostos e coisas queridas. Aí estão os pensamentos de todos, e, no brilho das velas que ardem, vemos uma imagem linda e inesquecível ganhar vida... Lar.

Ficamos acordadas noite a dentro, lembrando-nos de nossos lares com lágrimas nos olhos (WEISS, 2013, p. 77).

O campo de Terezín ficou conhecido por sua rica vida cultural. Apesar da fome, das

doenças e da ausência de espaço e liberdade de ir e vir, a atividade intelectual do gueto pode

ser considerada de elevado nível: havia palestras, orquestras, grupos de jazz, produções de

teatro para adultos e crianças, performances musicais, leituras de poesia, jornais e revistas feitos

a mão, escolas, aulas de arte, sendo que até uma ópera (Brundibár), como dito, foi ensaiada e

executada pelas crianças.

A arte era literalmente uma ferramenta de sobrevivência, tanto espiritual quanto física,

pois os internos participantes dos grupos de jazz ou teatro, pintores que produziam para o

Partido Nacional-Socialista e outros profissionais cujas habilidades pudessem ser aproveitadas

ficavam fora das listas de deportação para o Leste. Espiritual porque, segundo Seligmann-Silva (2004), “a arte funcionava […] como meio para extravasar o medo e a dor, a raiva e o ódio,

permitindo assim uma espécie de purificação dessas paixões”.

Além de ferramenta de sobrevivência física e resistência cultural e espiritual frente à

cotidiana do gueto. De acordo com Charlotte Buresova, pintora sobrevivente de Terezín, esse

mergulho numa outra esfera, na esfera da arte, era uma forma de apresentar “todas as coisas

incríveis que ela vira… para opor-se com a beleza ao desastre” (SELIGMANN-SILVA, 2004). Segundo o Sr. Thomas Venetianer, os artistas se uniram em prol das crianças, havia um

desejo de proteção e cuidado. Eles pretendiam, por meio da arte, ocupar o tempo delas para que

pudessem suportar, e talvez por um momento até esquecer, os horrores vividos, as recorrentes

mortes, o frio e a fome. Em Terezín houve toda uma movimentação, um esforço conjunto em

benefício das crianças.

O fato de muitos músicos profissionais, professores e artistas terem sido aprisionados em

Terezín possibilitou uma rara oportunidade cultural. De acordo com Thomson (2011), Karel

Fleischman, renomado professor universitário, deu centenas de palestras sobre Ciência, Leis,

Literatura, Filosofia, Música e Medicina no porão do alojamento para homens. As pessoas

tinham que ficar em pé pois não havia mais cadeiras vagas.

[Hana Pravda]70: Nós tínhamos apresentações quase todas as noites nos sótãos e

porões. Nós tínhamos quatro pianos – apenas os profissionais virtuosos tinham permissão para tocar. Havia um coral.

Você poderia assistir palestras sobre história da arte, física e matemática. Nossa vida intelectual era mais intensa do que havia sido antes. Nós tínhamos livros, tínhamos poesia, tínhamos noites de poesia, e tudo isso fazia maravilhas com a moral das pessoas, eu lhe asseguro, mesmo que eles estivessem famintos. [...]

O que nos mantém é nossa cultura. Eu rio das pessoas que dizem que isso é luxo. [...] Eu lhes asseguro, se qualquer pessoa está desamparada, poesia, teatro e música são a única resposta para sobreviver (THOMSON, 2011, p. 44-45, tradução nossa).

Os ensaios e performances eram realizados em segredo – no sótão ou no porão, onde as

janelas poderiam ser recheadas com palha para abafar o som e evitar que os nazistas

descobrissem. Mais tarde, depois que os nazistas descobriram a música e o teatro, eles

encorajaram seu uso para seus próprios propósitos. Eles ordenaram aos detentos que

encenassem quando a Comissão da Cruz Vermelha fizesse sua visita de inspeção.

No início do ano de 1943, no porão do L410, Kamilla Rosenbaum começou a ensaiar com as crianças um poema dançado baseado no livro infantil “Broucci” (Vagalume), de Pastior Jan Karafatiat. Com a participação de artistas muitos dedicados, essa empreitada logo se transformou em um projeto teatral ambicioso. Vlasta Schönová, uma jovem atriz e estudante de direção teatral de Praga, começou a cuidar da parte cênica. A artista Friedl Dicker-Brandeis criou as fantasias coloridas e criativas junto com as crianças. O cenário foi criado por Adolf Aussenberg e Franta Pick e o artista de cabaré Karel Svenk, de Praga, fez os arranjos a partir de canções folclóricas. [...] Uma atração especial era a apresentação do teatro de marionetes de Walter Freund [...] Suas marionetes, que ele próprio fabricava, eram obras de arte e encantavam ainda mais as crianças. Uma de suas peças de teatro mais conhecidas era “As aventuras de uma menina na Terra Prometida”. O cenário dessa peça foi criado pelo antigo cenógrafo do Teatro Nacional de Praga, Frantisek Zelenka, e Friedl Dicker-Brandeis criou o figurino.

O Réquiem, de Verdi, a missa fúnebre, uma composição que trata da morte, da libertação, do consolo e da ressurreição, tocada e cantada pelos prisioneiros judeus na sala de espera da morte, foi uma das apresentações mais tocantes e memoráveis (BRENNER, 2104, p. 90-92).

Sem dúvida, o auge da produção músico-teatral em Terezín foi Brundibár. A ópera foi

apresentada em 55 ocasiões e precisou ser reformulada inúmeras vezes, porque os membros do

elenco frequentemente eram enviados para Auschwitz depois de suas apresentações. O

compositor Hans Krása havia apresentado Brundibár em um orfanato, em Praga. Como não

havia instrumentos no gueto, Krása reescreveu a partitura que, originalmente, previa a

participação de uma orquestra.

Brundibár, que significa “zangão”, foi uma metáfora da situação vivida pelas crianças em Terezín e durante a Segunda Guerra Mundial, de forma geral. A ópera conta a história de duas

crianças, Pepicek e Aninka, cuja mãe estava doente. As crianças saíram ao mercado para

conseguir leite, mas como não tinham dinheiro, decidiram cantar para conseguir algum. O

Nesse momento, os animais aconselhavam os irmãos a formarem um grande coro e

combater o realejo. Elas recitavam o provérbio: “Muitos cães são a morte da lebre”. Depois do

confronto, as crianças cantavam o coro final: “Nós vencemos porque não desistimos”. A ópera

tem como tema “Se você vir junto com outros em uma causa conjunta, você irá vencer”. Em

Terezín, Krása mudou o final para um novo tema: “Quem ama a justiça não deve ficar parado

e não deve ter medo. Ele é nosso amigo” (GRUENBAUM, 2004, p. 48, tradução nossa).

A criança que representou o gato em Brundibár sobreviveu. Para ela, as crianças em

Terezín tinham um forte desejo de voltarem a ser crianças e os elementos culturais do campo

eram mais importantes do que qualquer tipo de conforto. “As crianças adoraram a apresentação

de Brundibár e foram rápidas em relacioná-la com sua própria situação no campo, aplaudindo ruidosamente quando o vilão, Brundibár, era derrotado”. A peça rapidamente transformou-se em um símbolo de esperança para as crianças (GRUENBAUM, 2004, p. 48, tradução nossa).

[Eva Hermmannová]71: Cantávamos o final com grande ênfase. Naquele momento

nos sentíamos livres. De alguma forma, naquele momento sentíamos que aquilo não era somente a representação de uma peça teatral. De repente, éramos capazes de nos identificar com aquele desejo, que continha todas as nossas esperanças: que o bem prevalecerá sobre o mal (BRENNER, 2014, p. 205).

Quando os nazistas produziram em Terezín o filme “O Führer doa uma cidade aos

judeus”, eles incluíram cenas de Brundibár, bem como das crianças que estavam assistindo ao espetáculo. Eles queriam que o mundo todo soubesse quão benevolentes eram com os judeus.

“Lembro de uma coisa”, diz Handa72, “As meninas mais velhas de nosso Abrigo

trabalhavam na horta. É claro que era proibido comer verduras. Na época em que foram feitas as cenas do filme, as meninas eram pintadas com uma tinta marrom, para dar a elas a aparência de saudáveis, bronzeadas pelo sol. E cada uma das meninas recebeu uma cesta com verduras, que deveriam carregar pendurada no braço e, então, caminhavam juntas por uma estrada, cantando, em direção à câmera. Num determinado lugar, deviam morder uma maçã ou outra fruta qualquer, a seguir

71 Eva Hermmannová morava no quarto 24 do alojamento L410. Ela cantava no coral de Brundibár. 72 Handa Pollak é sobrevivente do quarto 28 do alojamento L410.

viravam em uma curva, onde lhes tomavam a cesta imediatamente, assim como a fruta que haviam mordido [...]” (BRENNER, 2014, p. 314).

A produção começou em 26 de fevereiro de 1944. A direção coube ao prisioneiro judeu-

alemão Kurt Gerron, diretor, dançarino e ator. O filme foi realizado com o dinheiro confiscado

dos judeus checos. Depois do lançamento, a maioria do elenco, juntamente com o diretor, foi

mandada para Auschwitz-Birkenau e executada nas câmaras de gás. O nome original do filme

é Theresienstadt: Ein Dokumentarfilm aus dem judischen Siedlungsgebiet, “Terezin: um

documentário sobre a zona de povoamento judeu”73. A obra foi parcialmente destruída depois

da guerra.

Por ocasião das filmagens, a equipe ofereceu fatias de pão com margarina para as crianças, mas elas foram devoradas pelos “atores” famintos, obrigando a equipe a recomeçar a cena por três vezes seguidas.

73 Trechos desse filme estão disponíveis no site http://www.youtube.com/watch?v=qEQPjvDXeZY. Acesso em:

CAPÍTULO 2

Pedagogia e arte em Friedl Dicker-Brandeis

Figura 3 – Friedl Dicker-Brandeis74

74 Fonte: RUBIN, Susan Goldman. Fireflies in the dark. The story of Friedl Dicker-Brandeis and the children of

Temos a arte para que a verdade não nos destrua

Nietzsche

Aproximadamente 15.000 crianças passaram pelo campo de concentração de Terezín.

Destas, apenas 93 sobreviveram ao confinamento e extermínio impostos pelos nazistas. Friedl

Dicker-Brandeis ministrou aulas de artes para as crianças em Terezín. É impossível comensurar

a grandiosidade do trabalho que ela desenvolveu, até porque a maioria de seus alunos não

sobreviveu à guerra. Sua influência e apoio ajudaram-nas a ter novas perspectivas sobre a vida

e devolveu-lhes a esperança.

Frederike, ou Friedl, como era chamada, nasceu em 30 de junho de 1898, em Viena,

Áustria. Perdeu a mãe com quatro anos de idade e foi criada pelo pai, que era funcionário de

uma papelaria.

Desde criança, Friedl se interessou por arte. Quando jovem, ela explorou o coração de

Viena, centro cultural da Europa naquele momento, participando de exposições de Gustave

Klimt e Egon Schiele. Em 1914, iniciou seus estudos em fotografia na Escola Experimental de

Design Gráfico de Viena. Continuou a formação na Escola de Artes e Ofícios de Viena, onde

esteve aos cuidados de Franz Cizek75. De acordo com Wix (2010) e Makarova (1999), Cizek

viria a ser uma influência duradoura em seu trabalho como artista e professora.

Mais tarde, foi aluna de Johannes Itten, em sua escola particular, em Viena, e, entre 1919

e 192376 o acompanhou à Bauhaus, em Weimar. Friedl estudou com Johannes Itten no curso

preliminar e nas oficinas, frequentou todas as palestras de Paul Klee e estudou desenho e

encadernação com ele. Nas oficinas, Friedl cursou concepção teatral com Oskar Schlemmer e

Lothar Schreyer, escultura com Oskar Schlemmer, litografia com Lyonel Feininger, cor com

Wassily Kandinsky e desenho têxtil com Georg Muche. De acordo com Wix (2010), suas

75 Infelizmente encontramos poucas informações relacionadas ao período em que Friedl estudou com Cizek. 76 Essa é considerada a primeira fase da Bauhaus, caracterizada por uma abordagem mais expressionista e

maiores influências na Bauhaus foram o curso preliminar de Itten e as palestras de Klee sobre

infância, arte e natureza. Anos mais tarde, em 1931, Walter Gropius escreveria numa carta de

apresentação sobre sua ex-aluna:

Como ex-diretor e fundador da Bauhaus em Weimar, acompanho com grande interesse a atividade artística da senhorita Dicker. Durante todo esse tempo ela primou por seu extraordinário e raro talento artístico e chamou atenção de todos os professores para o seu trabalho. A versatilidade de seu talento e sua grande energia fez com que seus trabalhos passassem a fazer parte daquilo que de melhor o Instituto tem a oferecer (BRENNER, 2014, p.226).

Ela casou-se com seu primo Pavel Brandeis em 29 de abril de 1936.