2. Ritm Araçları
2.3. Ritm Araçları Hazırlama
O Código Civil pátrio conferiu direitos sucessórios ao nascituro.
O artigo 1.798 dispõe sobre a capacidade jurídica para suceder, estabelecendo que os nascituros figuram como legitimados à sucessão.
Diante dos avanços tecnológicos no campo da reprodução assistida, tem-se discutido na doutrina se o embrião crioconservado seria também legitimado a suceder, uma vez que se encontra concebido, geneticamente individualizado.
A análise sobre o embrião crioconservado merece estudo próprio, tendo em vista a riqueza científica do tema e a intensa discussão doutrinária que o assunto desperta. Nesse passo, frisamos que nosso estudo fixa-se à análise no ente humano que se encontra em desenvolvimento in vivo, independente da forma com a qual concretizou-se a concepção (natural ou artificial).
Feito o recorte temático, retomemos a análise do artigo 1.798 do Código Civil, segundo o qual “legitimam-se a suceder as pessoas nascidas ou já concebidas no momento da abertura da sucessão.
De uma só vez, o dispositivo reconhece a personalidade do nascituro através de dois conceitos jurídicos nele inseridos.
Primeiro atribui legitimidade ao nascituro para suceder.
Ora, legitimação (aptidão específica) para suceder pressupõe a capacidade jurídica (aptidão genérica) sucessória. Por seu turno, a capacidade jurídica pressupõe personalidade jurídica.
Ou seja, além de possuir aptidão genérica para adquirir direitos sucessórios e contrair as obrigações decorrentes (capacidade jurídica), o nascituro tem aptidão específica para adquirir os direitos sucessórios e contrair obrigações (legitimidade).
Segundo, o dispositivo, expressamente, legitima as pessoas concebidas ao direito a suceder, reconhecendo, desse modo, que os entes concebidos são pessoas.
É cristalino o reconhecimento da personalidade jurídica do nascituro. Essa conclusão, porém, não é consenso doutrinário.
204 VELOSO, Zeno; SILVA, Regina Beatriz Tavares da. Arts. 1.784 a 2.027. In: Código Civil Comentado. 8 ed.
São Paulo: Saraiva, 2012. p. 1781
205 Ibidem, p. 1760-1761
206 FRANCA, R. Limongi. Manual de Direito Civil. 4.ed. rev. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 1980. p.
144.
Para Zeno Veloso,
o conceptus (nascituro) é chamado à sucessão, mas o direito sucessório só estará
definido e consolidado se nascer com vida, quando adquire personalidade civil ou capacidade de direito (art. 2º, primeira parte). O nascituro é um ente em formação
(spes hominis), um ser humano que ainda não nasceu. Se o concebido nascer morto, a sucessão é ineficaz.204 (Grifo nosso)
Com muito respeito, ousamos discordar.
Primeiro, o direito sucessório, em verdade, é definido e consolidado (leia-se, constituído) no momento da abertura da sucessão, uma vez que nesse preciso instante, a herança transmite-se imediatamente aos herdeiros legítimos e testamentários (art. 1.784, CC02).
Em comentários ao artigo 1.784, do Código Civil de 2002, Zeno Veloso ensina que:
extinguindo-se a personalidade civil, [...] abre-se a sucessão, dando-se, no mesmo
instante, a transmissão do patrimônio do de cujus. [...] Os herdeiros, por essa
previsão legal, tornam-se donos da herança ainda que não saibam que o autor da sucessão morreu, ou que a herança lhes foi transmitida.205 (Grifos nossos)
Acompanhamos a lição de Veloso, sendo pacífico na doutrina brasileira o entendimento de que a transmissão do patrimônio aos sucessores segue pari passu ao passamento do de cujos. Logo, não há falar em definição ou consolidação futura do direito sucessório, condicionado a nascimento com vida.
Em um segundo ponto, conexo ao primeiro, discordamos que o fato “nascer com vida” faça surgir personalidade civil ou capacidade de direito, momento em que, segundo o jurista, o direito sucessório estaria consolidado.
Ora, como legitimar (aptidão específica) uma pessoa à aquisição de um direito, sem que, antes, ela possua capacidade jurídica (aptidão genérica) para titularizá-lo? Mais: como atribuir capacidade (atributo da personalidade) a alguém sem, antes, qualificá-la com a personalidade jurídica de que é pressuposto?
Por óbvio, não se legitima, sem capacitar. De igual modo, não se capacita, sem personalizar. Nesse sentido, é a lição de Limogi França: “Quem diz direitos afirma capacidade. Quem afirma capacidade reconhece personalidade”.206
Maria Helena Diniz, por seu turno, afirma que
A capacidade sucessória do nascituro é excepcional, já que só sucederá se nascer com vida, havendo um estado de pendência da transmissão hereditária, recolhendo seu representante legal a herança sob condição resolutiva. O já
concebido no momento da abertura da sucessão é chamado a suceder adquire desde logo o domínio e a posse da herança como se fosse nascido, porém, em estado
207 DINIZ, Maria Helena. Código Civil anotado. 14 ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 35
potencial, como lhe falta personalidade material, nomeia-se-lhe curador ao ventre. Se nascer será tido como se nunca tivesse existido, logo, a sucessão será ineficaz. Se nascer com vida, terá capacidade ou legitimação para suceder.207
Com o máximo respeito, temos de discordar.
A cada fragmento do ordenamento jurídico que, ostensivamente, personaliza o nascituro, é frequente o uso, por diversos juristas, de qualificações ao direito do concebido e também à própria condição do conceptus, reputando-os como “excepcional”, a fim de, com isso, negar-lhe a personalidade.
São tantos os direitos conferidos ao nascituro que mais adequado seria qualificar como excepcionais as hipóteses em que o ordenamento jurídico não lhes confere direitos.
Muitas outras considerações natalistas ou dos partidários da personalidade condicional, invariavelmente, referenciam situações que maculam a coerência o ordenamento pátrio. Como compatibilizar, por exemplo, a “pendência na transmissão hereditária”, como sugerido por Diniz, na medida em que o nascituro, conforme assinala a mesma jurista, “adquire desde logo o domínio e a posse da herança”?
A solução concepcionista, novamente, revela-se a mais adequada, porquanto mantem a coerência do ordenamento jurídico.
Diferentemente da doação de imóveis, na qual a transmissão da propriedade ocorre com o registro, a herança, seja legítima ou testamentária, é transmitida aos sucessores no preciso momento da abertura sucessória (art. 1.784, CC02).
Não há, no direito sucessório, qualquer requisito formal (tais como contrato, registro, aceitação) a ser cumprido pelo nascituro de que ele não disponha na sua condição para que se concretize a transmissão da herança. Tanto não há, que a transmissão patrimonial opera- se automaticamente, ex lege, dispensando, inclusive, o conhecimento de herdeiros quanto à morte do autor da sucessão.
Diante da transferência automática, é forçoso convir que a constituição do direito (plano da existência) opera-se desde a abertura da sucessão, estando sob sua condição resolutiva negativa, nos moldes da construção teórica de Silmara Chinelato.
Durante a o período gestacional, a eficácia não se revela plena ao nascituro. Há, por óbvio, o efeito ex lege da transmissão sucessória automática. No entanto, os efeitos somente atingem sua plenitude diante do nascimento com vida, uma vez que o quinhão do nascituro será reservado em poder do inventariante até o seu nascimento (Art. 650, nCPC).
Desse modo, pela dicção do artigo 650 do novo Código de Processo Civil, entendemos que a transmissão patrimonial não autoriza os representantes do nascituro a entrar
na posse dos bens referentes ao seu quinhão hereditário, uma vez que estarão sob a posse do inventariante, a fim de aguardar o nascimento do conceptus e, com isso, verificar se o herdeiro veio à luz com ou sem vida.
Reputamos prudente a disposição da nova lei processual, uma vez que, sem descaracterizar a personalidade do nascituro, preveniu a ocorrência de prováveis confusões patrimoniais.
Assim, nascendo com vida, a condição resolutiva não se implementa, razão pela qual o direito atinge plena eficácia.
No entanto, nascendo sem vida, implementa-se a condição resolutiva, pelo que resolve-se o direito, extinguindo-o para todos os efeitos (art. 127, primeira parte, CC02).
O direito patrimonial sucessório, ao contrário da sustentação teórico-natalista, é constituído em favor do nascituro com a abertura da sucessão, como expressamente determina a legislação. A distinção observada, no cotejo entre o tratamento conferido aos nascidos e aos nascituros, restringe-se tão somente ao plano da eficácia, de modo a aguardar a plenitude dos efeitos para o momento do nascimento.
208 SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais: uma teoria geral dos direitos fundamentais na perspectiva constitucional. 10 ed. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. p. 98
209 Ibidem, p. 220