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1.4. İŞ GÜVENLİĞİ PERFORMANSI

1.4.2. Güvenlik Performansının Ölçümü: Risk Analizi

1.4.2.2. Risk Analizi Metotları

Desde a década de 1980, o movimento feminista tem colocado em pauta a questão da violência de gênero. A violência é um ponto chave da militância, a ser denunciado e posto em questão na luta pela criação de estruturas de apoio voltadas às mulheres. Temos que ter claro que, embora existam diferentes posições de gênero – marcadas pela raça/etnia, classe social, cultura, religião, de geração – a violência perpassa a vida de muitas mulheres. Ela, tão presente no cotidiano de muitas pessoas, é um desrespeito aos direitos fundamentais e um obstáculo para a cidadania. Essa idéia pode ser traduzida nas palavras de Moraes (2003, p. 505): “O tema da violência é primordial quando se trata de direitos de cidadania, na medida em que a democracia é incompatível com todas as formas de violência que atingem a integridade física, moral e psicológica”.

Numa sociedade na qual a arbitrariedade e a assimetria caracterizam as relações sociais, a lógica da violência pode substituir a lógica do direito. Carreteiro (2001, p. 159) afirma que a violência e o não reconhecimento do outro ferem profundamente o sujeito, restringindo sua cidadania ao exercício formal da intervenção coercitiva do Estado: “O sujeito desfiliado, desafiliado (sic), excluído, não só se sente desvalorizado socialmente, mas invalidado psiquicamente”.

Hannah Arendt (1985), em seu livro Da violência, afirma que a violência sempre teve um papel fundamental na atividade humana. Ao longo de seu argumento, a autora diferencia violência de vigor, força e poder. Nessa discussão, nos interessa a relação entre violência e poder, já que o poder é visto como a base para a compreensão das relações de gênero e, portanto, da violência de gênero. Para Arendt, onde quer que violência e poder se combinem, o poder – que não precisa de justificativa, mas de legitimidade – é o fator fundamental e predominante,

pois a ameaça ao poder ou sua diminuição são um convite à violência. Não basta, entretanto, diferenciarmos poder de violência. É preciso entender que eles se opõem e que a violência não irá jamais gerar poder. Arendt (1985, p. 29) analisa esta questão da perspectiva psicológica e da política:

Diz-se freqüentemente que a impotência gera a violência, o que psicologicamente é verdadeiro, pelo menos quanto às pessoas possuidoras de vigor natural.

(...)

Politicamente falando, a questão é que a perda do poder torna-se uma tentação em substituir a violência pelo poder (…) e que a violência em si própria resulta em impotência.

Arendt (1985) alerta para o perigo de teorias orgânicas, nas quais o poder e a violência são interpretados em termos biológicos. O exemplo da autora refere-se ao racismo, mas também pode ser pensado a respeito do gênero:

O racismo, seja branco ou negro, está impregnado de violência por definição por objetar contra fatos orgânicos naturais – uma pele branca ou negra – que não poderiam ser mudados de modo algum (…) O racismo, distinto da raça, não é um fato da vida mas uma ideologia (…) A violência os conflitos raciais é sempre assassina, não sendo porém ‘irracional’; é a conseqüência lógica e racional do racismo. (ARENDT, 1985, p. 42).

Assim, não podemos pensar a violência como irracional. Ao contrário, a violência de gênero regula as relações sociais: “(…) visa à preservação da organização social de gênero, fundada na hierarquia e na desigualdade de lugares sociais sexuados que subalternizam o gênero feminino” (ALMEIDA, 1996, p. 35), existindo à medida que as relações de poder vigentes são ameaçadas.

No contexto estudado, a violência contra a mulher pode levar à sua exclusão social, mas paralelamente proporcionar sua inclusão na política social. Entendemos a violência de gênero como uma condição multidimensional de intensa opressão, que atinge predominantemente mulheres e crianças28. Fazemos a leitura de gênero

devido à sua importância, juntamente com classe e raça/etnia, na constituição do sujeito e na sustentação que dão à estrutura social brasileira (SAFFIOTI e ALMEIDA, 1995).

Para discutirmos a violência de gênero, voltaremos nossa atenção para a pesquisa realizada por Karin von Smigay (2000), na qual a autora fez uma revisão consistente da produção brasileira e internacional (especialmente francesa) sobre o

tema, além de propor um novo modelo analítico para as relações conjugais de gênero. Smigay (2000) analisa o problema da violência de gênero partindo do argumento que a violência de gênero vai muito além dos limites da privacidade, constituindo um problema social, uma violação aos direitos humanos. Para ela, as relações violentas estão calcadas em desigualdades entre os pares, aparecendo como uma alternativa à negociação com o outro e reafirmando o sistema hierárquico de dominações simbólicas.

Partindo desses argumentos, a autora propõe que as relações conjugais violentas se articulam em torno de um tripé: intimidade, erotismo e violência. Ou seja, as relações violentas são estruturadas por um vínculo em que a própria violência, ao lado do erotismo e da intimidade, estrutura a relação. O espaço da intimidade é lugar privilegiado para a expressão das fantasias, dos desejos, do erotismo, mas também para acobertar violências, submissões e limitações:

Tendo como fundo o campo das intimidades, pretendo desenhar o mundo contraditório das relações violentas, onde se entrecruzam restos de ternura, projetos frustrados e reiteradas expressões de desamor, mas, costurando esse tecido roto, em frangalhos, o mito de um amor que ainda poderá ser ressuscitado e será redentor, recuperando, para sempre, parceiros que hoje naufragam em suas pequenas trajetórias da vida privada. (SMIGAY, 2000, p. 71).

A violência visa destruir o outro “(...) em sua imagem, seus pertences – materiais e simbólicos – suas esperanças, investimentos e, em última instância, o próprio vínculo amoroso” (SMIGAY, 2000, p. 221). A violência atinge e marca profundamente os espaços psíquicos e o corpo, que é o locus da violência.

Existe uma relação direta entre a cidadania e o exercício da violência no corpo, vista com naturalidade e tolerância na vida cotidiana. Nesse ponto, nos apoiamos no estudo de Caldeira (2000) sobre o “corpo incircunscrito”29. O argumento da autora é que há uma relação intrínseca entre a tolerância à violência e deslegitimação dos direitos civis, pois o que poderia circunscrever o corpo – ou seja, colocar limites na interferência e abuso do outro – é a garantia de direitos individuais e a legitimação da justiça. O problema é que no Brasil os direitos civis são

28 A violência de gênero pode também ter como objeto “(...) homens que fazem sexo com outros

homens, homens de classes subalternas, ‘de cor’ e homens que não exercem dominação sobre as mulheres”(SMIGAY, 2000, p. 222).

29 A autora define “corpo incircunscrito” como corpo permeável, aberto à intervenção, no qual as

manipulações do outro não são consideradas problemáticas. O “corpo incircunscrito” não é protegido pelos direitos individuais.

historicamente negligenciados em relação aos direitos sociais e também aos políticos, e o corpo não é respeitado em sua individualidade e privacidade. É sobre esse “corpo incircunscrito” dos dominados que as relações de poder se estruturam e que os significados circulam:

O corpo é concebido como um locus de punição, justiça e exemplo no Brasil. Ele é concebido pela maioria como o lugar apropriado para que a autoridade se afirme através da inflição da dor. Nos corpos dos dominados – crianças, mulheres, negros, pobres ou supostos criminosos – aqueles em posição de autoridade marcam seu poder procurando, por meio da inflição da dor, purificar as almas de suas vítimas, corrigir seu caráter, melhorar seu comportamento e produzir submissão. (CALDEIRA, 2000, p. 370)

O corpo, entretanto, não é apenas o locus do abuso, da violência e do prazer do outro (SMIGAY, 2000). Afinal, as mulheres “(...) passaram a usufruir do prazer sexual, a exprimir seus desejos, a conhecer o próprio corpo, a ler seus sinais e a interpretar suas mensagens” (RAGO, 2004, p. 39). Contudo, essas mudanças têm provocado conflitos de gênero e gerado mais violência, o que mostra que o problema da violência de gênero é complexo e merece nossa atenção.

As mulheres – e seus problemas – foram durante séculos vistas como pertencentes à esfera privada, e os homens, como portadores legítimos do poder e da autoridade, podendo exercer violência contra sua mulher e seus filhos sem a interferência do Estado, que não reconhecia a violência de gênero como um problema político e, portanto, não a coibia. Santos (1994) afirma que, para o Estado, as desigualdades no domínio doméstico eram vistas como naturais e irrelevantes e a esfera da intimidade pessoal como impossível de ser politizada. É contra isso que se apresenta uma das principais reivindicações do feminismo radical, a de que a esfera pessoal é política. É graças às reivindicações e à publicização do problema pelo movimento feminista que esse quadro vem aos poucos mudando - o Estado brasileiro (em nível municipal, estadual e federal) está se responsabilizando pelo combate à violência contra a mulher, embora ainda tenha muito a ser feito (por exemplo, a punição efetiva dos agressores).

Como a violência de gênero ocorre muitas vezes dentro da família30, a relação entre estrutura familiar e esse tipo de violência vem sendo trabalhada pelas feministas. Almeida (1996, p. 37) desmistifica a idéia de família como lugar de

30 O marido ou parceiro é o principal agressor (53% nos casos de ameaça a integridade física e 70%

nos de quebradeira), seguido pelo ex-marido ou ex-companheiro. Dados da pesquisa A mulher

proteção, amor e cuidados:

(…) a família é uma instituição violenta e, em considerando a população adulta, a violência é notadamente de gênero, atingindo, preferencialmente, a categoria que se inscreve de forma subordinada no contexto de relações desiguais de gênero.

A família é um lugar privilegiado para o surgimento da violência de gênero. Isso não significa, entretanto, que esse problema seja de ordem privada. A dicotomia público-privado é apontada pelas feministas como um elemento responsável pela exclusão das mulheres da cidadania. As mulheres estiveram sempre situadas na esfera privada, e sua participação na vida pública foi historicamente restrita. Silveira (1999) defende a necessidade de uma rearticulação das relações entre esses dois espaços, politizando o privado e desconstruindo o público. Para tanto, é preciso questionar as relações de poder, a fim de que as mulheres tenham autonomia e independência para enfrentá-las. Desse modo, aos poucos torna-se possível redefinir a própria noção de cidadania.

Gregori (1993, p.107)31sugere que as ações feministas, não assistencialistas, não caridosas, buscam despertar as mulheres “para a ação política e se construir como sujeito político defensor de seus direitos”32. E o direito implica no reconhecimento – que pode ser feito com base em estratégias de cidadania – de que a violência é um problema de ordem socioestrutural, oriundo da estrutura familiar.

À medida que encaramos a questão da violência de gênero como um problema social e de direitos humanos, temos que pensar em estratégias políticas para resolvê-la. Entre suas estratégias de ação, o movimento feminista procura chamar atenção para os diversos tipos de violência33sofridos por mulheres:

31 Smigay (2000) assinala que a importância do trabalho de Gregori está no fato de que ela tentou

introduzir o subjetivo como um dos elementos fundamentais na análise da violência de gênero, enfrentando as limitações da perspectiva macro-social vigente na época.

32 A autora distingue assistencialismo de política. O assistencialismo é relacionada à noção de

caridade e impede a mobilização dos demandantes. A política, por outro lado, pode ser pensada como denúncia e autonomia.

33 As formas da violência de gênero são muitas. A violência sexual é quando a mulher é forçada,

mesmo por seu marido, a ter relações sexuais quando não deseja ou a praticar atos sexuais que não lhe agradam, quando é criticada pelo seu desempenho sexual, quando é obrigada a presenciar outras pessoas tendo relações sexuais ou a ouvir relatos de relações sexuais de seu companheiro com outras pessoas. Ato destrutivo é quando o companheiro quebra móveis, joga os pertences da mulher na rua, destrói ou esconde os documentos da mulher, destrói suas roupas ou quaisquer objetos pessoais ou quando mata seu animais de estimação. A violência física configure-se se o companheiro a agride com tapas, mordidas, socos ou fogo ou quando tranca a mulher contra sua vontade, a coloca

Desde meados dos anos 80, as feministas reivindicam com muita ênfase uma política social preocupada com a segurança das mulheres nas ruas e em seus próprios lares, punições mais severas para o estupro e a violência doméstica, programas de proteção às vítimas e campanhas de conscientização nas escolas e nos meios de comunicação. (PINKY e

PEDRO, 2003:304).

No Brasil, algumas dessas reivindicações vêm paulatinamente sendo atendidas. Na década de 1980, as feministas articularam-se e constituíram uma agenda nacional de combate à violência contra a mulher, na qual reivindicavam a criação de políticas públicas destinadas a mulheres em situação de violência. Foram criados os SOS Mulher34e as delegacias especializadas. Os SOS, que surgiram primeiramente no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Belo Horizonte, “(…) representaram a primeira forma de prestação de serviços jurídicos, de abrigo e de práticas de conscientização junto a sobreviventes da violência” (ALMEIDA, 1996, p. 23).

Na década de 1990, foram criados centros de apoio e abrigos para mulheres em situação de violência de gênero, como as instituições resultantes das políticas públicas com as quais trabalhamos nesta pesquisa e que discutiremos no capítulo seguinte, a Casa Abrigo Sempre Viva (CASV), o Benvinda - Centro de apoio à mulher e a Coordenadoria Municipal dos Direitos da Mulher (COMDIM), localizados em Belo Horizonte/MG. Para Almeida (1996, p. 67), é imprescindível a criação de abrigos que atendam a demanda, tanto emergencial quanto a previsível, para termos uma eficiente política de segurança voltada para sobreviventes da violência de gênero:

A existência de abrigos permite às mulheres que se vêem confrontadas à violência: obter segurança contra risco imediato; recuperar-se psicológica e fisicamente da violência sofrida; ter a oportunidade de elaborar um quadro mais claro de sua situação e refletir sobre as saídas disponíveis; e partilhar a experiência com outras mulheres, rompendo o isolamento característico de quem vive tal problema.

Uma das discussões atuais sobre as políticas de abrigamento refere-se ao não questionamento da possibilidade de tirar o agressor de casa. As mulheres abrigadas na CASV queixam-se35de sentirem-se prisioneiras enquanto seus

em risco ou a ameaça com uma arma mortal. A violência emocional é quando o homem xinga, ofende, ameaça espancar a mulher ou seus filhos, a impede de trabalhar, sair ou ter amizade.

34 Uma análise da história dos SOS Mulher pode ser encontrada em Gregori (1993).

35 Esses dados estão nos relatórios feitos por mim dos “Encontros de Mulheres no Resgate da

agressores continuam levando vida normal. Em Quebec, relata Almeida (1996), há uma política de abrigamento consolidada, onde há possibilidade de se retirar o agressor da residência, e com as mulheres é feito um trabalho de desvitimização, no qual são reforçadas sua auto-estima, autonomia e capacidade de decisão.

As políticas públicas têm grande importância para a emancipação das mulheres, mas não são o bastante para acabar com a opressão do sexo feminino:

(…) conquistas feministas traduzidas em termos de políticas públicas (o que denomina a norma oficial) não são suficientes para a alteração das relações hegemônicas. Para que o pessoal seja vivido como político, transportando- se do nível do discurso para as práticas cotidianas, é preciso que esta concepção inscreva-se no habitus (grifo nosso), seja vivida enquanto experiência de gênero, e permeie as lutas pela construção de uma contra- ideologia, passando a informar ações individuais e coletivas. (ALMEIDA, 1996, p. 144).

Silveira (1999) propõe que o “empoderamento” e a autonomia, que estão localizados na fronteira entre o individual e o coletivo, possam servir de critérios para uma avaliação política das ações relativas à cidadania das mulheres. A mulher, tomando consciência de seu valor, torna-se mais poderosa para enfrentar as discriminações e as relações de poder, ampliando suas estratégias de ação com o objetivo não só de resistir à condição de dominação, exploração e discriminação, mas de superá-la. Esse processo é conhecido como “empoderamento” (empowerment):

As práticas de empowerment observadas na pesquisa visam criar condições para que as mulheres, nos diferentes espaços em que atuam, possam forjar a cidadania como um processo, vista como estratégia de enfrentamento de relações de poder que engendram e reproduzem as desigualdades em diferentes níveis. Essas ações têm a finalidade não só de resistir à dominação, exploração e discriminação, mas de superar essa condição. (SILVEIRA, 1999, p. 188).

A problematização da violência de gênero como manifestação cotidiana das relações de poder entre homens e mulheres, que impede o exercício da cidadania plena, visa abrir possibilidades para pensarmos a violência como uma questão política, que envolve direitos humanos e saúde pública. Portanto, o problema da violência de gênero pode ser enfrentado com base em estratégias de cidadania que permitam às mulheres enfrentarem as relações de poder, as desigualdades e a exclusão. Assim, cidadania é peça-chave no processo de emancipação das mulheres.

noção de cidadania, enfatizando as modificações impulsionadas pela lógica de gênero e pela luta do movimento de mulheres para o reconhecimento da violência de gênero como um problema de ordem política. No próximo capítulo, trabalharemos as contribuições da psicologia social para o campo da cidadania, estabelecendo uma base para a análise dos sentidos da cidadania para mulheres que são lideranças de movimentos sociais e gestoras de políticas públicas voltadas para mulheres em situação de violência de gênero.

4 DIMENSÕES PSICOSSOCIAIS DA CIDADANIA

A cidadania vem sendo tradicionalmente objeto de estudo das ciências sociais e políticas, do direito e da história. Mais recentemente, a psicologia social começou a trazer suas contribuições para a abordagem desse tema. Segundo Spink (1994, p. 93), a psicologia social, na medida em que privilegia o estudo dos fenômenos sociais contextualizados e das relações entre o indivíduo e a sociedade, preocupa-se em “(…) focalizar o processo individual ou grupal de construção da pessoa cidadã”. Consideramos, portanto, que a cidadania engloba dimensões políticas, históricas e psicossociais. Neste capítulo, contemplaremos a cidadania a partir de uma perspectiva psicossocial.

A cidadania, segundo Hirschman (1983) diz respeito à relação da população, que reivindica, com o Estado, que garante os direitos e faz a política. O autor propõe dois modos possíveis dessa relação se estabelecer: como consumidor ou como cidadão.

O consumidor seria aquele que consome os serviços prestados pelo Estado, estabelecendo com este uma relação na qual há ausência de luta. Suas preocupações seriam em sua maioria pertencentes ao âmbito privado e relativas ao bem-estar material. Com o aumento de serviços oferecidos por setores privados da população, ele passaria a consumir educação, saúde e lazer e não mais a reivindicar seus direitos básicos. Hirschman (1983) afirma que o consumismo exagerado de bens e serviços pode levar à alienação e à crença de que a felicidade só pode ser atingida através da acumulação de bens de consumo.

O consumidor reduz sua participação política ao voto e acredita que com isso fez a sua parte e que o que lhe resta é esperar a ação do Estado. O voto garante uma parcela mínima de participação a todos e, paralelamente, estabelece um “teto máximo” para a participação política, não traduzindo as convicções e reivindicações de cada um e levando a uma apatia política. A restrição do envolvimento do cidadão através do voto é, em parte, necessária e central no processo democrático, mas limita também o exercício da paixão política, podendo gerar decepção e despolitização (HIRSCHMAN, 1983).

O cidadão, por outro lado, entende sua relação com o Estado como uma relação de direitos e deveres que devem ser cumpridos por ambas as partes. O cidadão participa de ações políticas e acredita no potencial de transformação social

e política presente nessas ações. Ele envolve-se em questões cívicas e comunitárias, agindo na esfera política, na qual está situado. O objetivo de sua luta é que as reivindicações transformem-se em lei ou em alguma política pública.

Não podemos nos esquecer, no entanto, que os lugares de consumidor ou cidadão não são estáticos. Para Hirschman (1983), a passagem das atividades privadas para a vida pública e vice-versa explica-se por um ciclo: busca de satisfação, expectativa, decepção, busca de satisfação em outro objeto, expectativa e assim sucessivamente. O autor afirma que:

O mundo que tento compreender neste ensaio é um mundo em que homens pensam que querem uma coisa e, ao consegui-la, descobrem, para seu desalento, que não a querem tanto quanto pensavam ou não a querem em absoluto e que alguma outra coisa, de que não tinham ciência mínima, é o que realmente querem. (HIRSCHMAN, 1983, p. 25).

No entanto, pensamos que há outros motivos, para além da frustração, que levam as pessoas a participarem de ações políticas e a se engajarem em movimentos sociais. O primeiro desses motivos33 seria o compromisso com os

valores e crenças políticas, relacionados ao modo como a pessoa avalia o movimento social. O segundo é a identificação com os grupos de referência, que leva as pessoas a participarem para compartilhar os ganhos com o grupo e não