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2.2. ÇALIŞANLARIN İŞ GÜVENLŞİĞİ KÜLTÜRÜNE YÖNELİK

2.2.3. Psikometrik Uygulamalar

Todas as entrevistadas estão, de algum modo, ligadas às políticas públicas de atendimento às mulheres do município de Belo Horizonte. Veremos, a seguir, os diversos momentos e caminhos pelos quais cada uma delas entrou nos programas, e qual é sua participação neles hoje.

Dentre as entrevistadas, algumas participaram desde a elaboração das políticas públicas e assumiram posições de chefia a nos equipamentos. Esse é o caso de Márcia e Graça. Outras, como Luzia e Karin, também participaram do processo de elaboração das políticas públicas, mas não assumiram cargos nesses programas, sendo que Karin presta consultorias para eles. Já Ermelinda e Daniele entraram nos programas depois que eles já haviam sido implementados e ocupam posições de gerência.

Márcia, Graça, Luzia e Karin estavam presentes desde o início da elaboração e implementação das políticas públicas voltadas para mulheres no município. No entanto, apesar de serem todas militantes, suas posturas e os lugares de onde emitem o discurso são diferentes.

No capítulo sobre a história do movimento de mulheres em Belo Horizonte, vimos como foi a participação de Graça no processo de construção dessas políticas públicas, principalmente na criação do Benvinda. O elemento que dá o tom de seu discurso é a importância do trabalho com as bases em sua atuação política. Quando o Benvinda foi criado, ela assumiu sua coordenação. Depois trabalhou como técnica na CASV e foi sua coordenadora do final de 1999 até meados de 2000, quando reassumiu a gerência do Benvinda. No momento da entrevista, ela tinha se descompatibilizado para se candidatar à vereadora.

Márcia também participou de reivindicações para a formulação de políticas públicas, principalmente dentro do PT, e atuou na elaboração e implementação dos

programas. Ela nos conta que participa dessas políticas desde que elas começaram a ser preparadas: “(...) a gente tá desde o início, eu, Margareth, desde a comissão paritária e outras coisas.”

Márcia foi gerente da Casa Abrigo até o final de 1999, quando assumiu a coordenação da Coordenadoria Municipal dos Direitos da Mulher.

Enquanto Márcia apresenta-se como membro do movimento de mulheres que reivindicava ações do Estado, Luzia identifica-se como representante do governo, que recebia as demandas dos movimentos sociais. Segundo ela, é deste lugar que ela participa da elaboração das políticas públicas: “(...) participei muito diretamente da... da... construção desses dois equipamentos porque a época eu trabalhava na secretaria de governo, um órgão que também recebia essas demandas, é. “

Luzia nunca assumiu nenhum cargo de chefia nos programas de atendimento a mulheres. Sua atuação política no município foi significativa em outros setores; ela ocupou várias posições de prestígio na administração local. No momento em que realizamos a entrevista, ela estava se candidatando a vereadora; antes disto era secretária municipal da Regional Nordeste

Outra militante que participou da elaboração dessas políticas públicas para mulheres foi Karin. Ela identifica-se como representante da UFMG. Essa condição a manteria, segundo ela, como participante autônoma ou, até mesmo, neutra. Vejamos suas palavras:

K: Eu acho que desde a época em que a gente começa a se encontrar pra criação da delegacia, pra definir depois... é... eu acho que no momento que a gente faz isso e como, de alguma maneira, eu se... eu, como uma dos membros do CDM, vô pra essa reunião, depois também como alguém ligada a UFMG... A UFMG vai designando, olha convida-se UFMG pra participar dos... de alguns projetos delineando. Primeiro delegacia, depois delineando casas ab, casa abrigo, depois delin... Entende, assim, quando

convida UFMG e eu já tinha meu contato com o pessoal todo, esse pessoal todo por causa militância anterior. É... e porque eu acho que eu era meio neutra dentro do CDM, também (grifo nosso). Neutra no

sentido de que... eu num tô lá no comecinho... no comecinho... eu não tive de... eu não participei de determinados rachas da esquerda que foi no finalzinho de setenta, começo de oitenta, tá? Eles não me reconheceram, filiada ao partido político, isso ficava mais fácil, porque, nossa!, cê num imagina, os rachas eram horrorosos. Os rachas eram muito difíceis. É... por uma certa ingenuidade política, tá, é... portanto... e naquele momento eu era... um zero a esquerda, né, nessa época... então, eu num fiquei contaminada nas relações. É... eu, essa é uma leitura assim muito pessoal pra dizer, ó como isso... eu continuei tendo convivências, é... pessoais, agradáveis. Sabe? É... E porque não tinha muito espaço de poder, como... algumas pessoas disputavam mesmo. Sabe, então, na hora de ocupar

lugares e ta... ta... tá... essa era uma questão que num... pra mim num tinha ressonância, né, pra mim isso não era um debate feminista. Então, eu não punha em risco. É... quando o... se delineou o projeto da casa-abrigo, então eu vou como representante da UFMG, né, e tal. Teve um momento que me perguntaram: você vai querer coordenação? Eu falei ‘de jeito nenhum’. Acho que isso aliviou também. Sabe? Eu falei ‘de jeito nenhum’. O meu lugar, é, pra mim é muito claro como é que a gente da universidade chega num lugar desse,e esse é um lugar onde você onde você veio trazer um certo olhar, um certo debate, uma certa, né, uma certa... questionamento das... de coisas, é..., enquanto representante da universidade.

Karin afirmou que nunca teve a intenção de ocupar espaços de poder, pois seu lugar nos debates sobre a criação de políticas públicas, como dito acima, era de representante da universidade. Sua participação depois da implementação dos programas foi como consultora externa, como acadêmica. Segundo ela, várias outras pessoas da universidade foram chamadas para prestar consultorias. No seu caso, ela atribui os convites para prestar consultorias à sua participação como militante feminista desde a criação da Delegacia e, também, à boa relação que ela mantém com a Márcia e com “as outras meninas”:

M: No caso da... COMDIM, parcialmente, no meu modo de entender, foi muita delicadeza de Márcia... e mais tarde as outras meninas, por convite da Márcia e tal, que por sua vez é uma tiete assim (risos). Em principio muito engraçado, né, no meu modo de entender, assim, legal, no sentido assim, qualquer coisa que fala também elas se encantam. É muito bonitinho, sabe, assim (risos tímidos). Tem hora que eu falo, gente a contribuição é tão pobre. Mas elas são encantadas em princípio, de antemão (voz séria novamente). Elas já tão imaginando que a contribuição vai ser importante. É muito legal isso, né.

Como consultora, portanto, Karin participa dos programas sem perder sua autonomia política.

Ermelinda e Daniele, por sua vez, entraram nos programas quando eles já estavam em funcionamento, nos anos de 2000 e 2004, respectivamente. Hoje ocupam os cargos de gerente do Benvinda e da CASV. Ermelinda era funcionária da prefeitura da cidade de Sete Lagoas (MG) e participava dos encontros feministas como sindicalista. Ela conta que, desde que soube do trabalho realizado na Casa Abrigo, na Conferência da Saúde da Mulher em Belo Horizonte, teve vontade de trabalhar no programa: “Eu me lembro que eu achava o programa fantástico. Eu me lembro que eu comentava com algumas pessoas, gente eu ainda quero trabalhar nesse projeto”.

Alguns anos mais tarde, ela ficou conhecendo a Márcia no Encontro Feminista de Salvador, com quem conversou sobre os programas. Ermelinda, que também é filiada ao PT, conta que, depois desse encontro, procurou Márcia e propôs realizar um projeto na CASV. Ermelinda começou a trabalhar na Casa Abrigo em 2000, desenvolvendo um projeto durante suas férias-prêmio:

E: E, nesse encontro [feminista] em Salvador, eu conheço a Márcia, ela me fala da Casa Abrigo Sempre Viva, acho que foi no final de 99. Quando é em 2000 eu procuro ela, ela tava, ela tinha saído da coor... da... do Sempre Viva e tinha ido pra Coordenadoria da Mulher, quando ela funcionava na Álvares Cabral e aí eu... a gente marca uma entrevista, eu converso com ela nessa perspectiva de... de conhecer a Casa Abrigo, nessa época eu tava em licença, em férias-prêmio da prefeitura de Sete Lagoas, fiquei quatro meses de férias-prêmio. E aí ela me apresenta a Graça, que era a atual coordenadora. E eu começo um... um... um projeto.

Após o término das férias-prêmio, ela foi contratada temporariamente para trabalhar na CASV. Em 2001, Célio de Castro (PT) tomou posse na prefeitura de Belo Horizonte, o que levou a algumas mudanças nas políticas públicas. Graça voltou a coordenar o Benvinda, e Ermelinda assumiu a coordenação da CASV:

E: Então nessa situação a gente avaliou que eu ficaria no Sempre Viva, a Graça viria pro Benvinda e a Márcia assumiria a Coordenadoria. Foi isso que então aconteceu. Então eu assumo o Sempre Viva enquanto gerente, é, em março de 2001 e a Graça vem pro Benvinda. Então eu fiquei esse tempo, de março de 2001 até junho de 2004, eu fico na gerencia do Sempre Viva. Nesse momento a gente se encontrava mais ou menos parecida. A Graça gerente do Benvinda, sai para ser candidata à vereadora, então abre- se esse espaço aqui e, então, seria interessante eu vir pra cá... tinha um pouco um cansaço, é, meu da estrutura do Sempre Viva que é uma

estrutura, é..., massante. Na verdade eu fui a que ficou mais tempo na

coordenação, é..., do Sempre Viva, entre eu a Márcia e a Graça, foi eu, né, fico mais tempo naquele lugar. Então foi quando eu vim para o Benvinda, discutir então uma política aqui do Centro de Apoio, né, então eu assumo aqui a partir de junho (grifos nossos).

Ermelinda coordenou a CASV durante três anos e meio. Em julho de 2004, teve a oportunidade de assumir a coordenação do Benvinda, o que, segundo ela, foi bom, pois a estrutura e o dia-a-dia da CASV são muito desgastantes. Quando realizamos a entrevista para essa pesquisa, ela já estava gerenciando o Benvinda há um mês.

Pelo que foi narrado até agora, podemos perceber que as entrevistas para essa pesquisa foram feitas em um momento de transição. Havia um mês que os cargos de gerência tinham sido reconfigurados. Márcia estava de licença-

maternidade, e a Coordenadoria foi assumida temporariamente por Margareth61.

Graça saiu da coordenação do Benvinda para se candidatar à vereadora. Ermelinda, que já estava desgastada com o trabalho na CASV, assumiu a gerência do Benvinda. E a CASV ficou sem coordenadora, até a entrada da Daniele. Márcia conta que procurou pessoas que pudessem ocupar o cargo, e uma delas indicou a Daniele:

C: E a entrada da Daniele?

M: (Breve pausa) É. Pois é... (tom grave) eu... precisava de uma pessoa, né, que tivesse pelo menos alguma... alguma... entrada nessa discussão de gênero, ou pelo menos já tivesse participado, a gente... A idéia era trazer a Ângela pra trabalhar com a gente aqui, ela é do programa de família, ela sempre vinha pra discutir casos aqui com a gente dentro do abrigo, e ela... ela sempre teve muito a fim de trabalhar com a gente e ela tem muito o perfil de gerente, porque ela é gerente, sempre foi, né, é uma... e que a Assistência não abre mão dela.

C: Hum?

M: Não abriu mão. Então eu falei: ó, Ângela, mas comé que eu vou fazer, eu preciso de alguém, uma pessoa, né, gerente. A gente foi perguntado pra algumas pessoas, né, o que... que, se elas conheciam alguém. Aí que a Ângela falou: é... eu posso te indicar uma pessoa? Que aí aparece a Daniele.

Nas palavras de Daniele:

D: (...) Na verdade, uma amiga, ela foi chamada, né, pela Marcinha pra vir pra gerenciar a Casa, né. Que... a Ermelinda tava saindo, então. E essa pessoa não se interessou e tal e me indicou pra Marcinha, falou que tinha uma pessoa e tal e... do SOSF e tal, deu algumas indicações, e eu conversei com a Marcinha, né, e acabamos acertando de vir pra cá.”

A transferência de Daniele do Serviço de Orientação Sócio-Familiar (SOSF) para a CASV foi feita às pressas. Segundo Márcia, não houve tempo de ela gerenciar o processo de transição, que acabou sendo conturbado:

M: Conversando com a Daniele e já sabendo que ela tinha uma experiência com o programa de família, e ela já tinha trabalhado no Miguilim com abrigo pra crianças, né, é... que já tinha uma trajetória. Então eu falei: cê topa? Ela: é um desafio, vamos ver, né. Cê fica, eu vou entrar de licença, mas antes d’eu entrar de licença eu ainda faço a transição, que não foi feita, então, pra ela, eu não sei, como é que, talvez até através da sua entrevista se ela. Pra ela é tudo novo, por mais que era. Eu falei isso pra ela, eu tive oportunidade, outro dia eu fui lá, eu estive lá no abrigo, deixei o Bernardo

61 Margareth também tem uma trajetória de militância no movimento de mulheres e trabalha na

dormindo aqui e fui lá, pra conversar com ela. Eu falei: olha, né, não se sinta amedrontada, eu acho que é um desafio, é um trabalho novo, mais, né, imprima o seu jeito. Que é uma coisa também, Carol, que eu faço com as pessoas. Eu dô muita autonomia, porque as pessoas têm que buscar... se elas acreditam naquilo, se é um trabalho, se elas tão responsáveis, que elas façam, né, é... pr’aquilo ali, é..., desenvolver.

Em pelo menos duas falas de Daniela, podemos perceber como ela se sentia em seu primeiro mês de trabalho num equipamento que ela não conhecia:

D: Eu num consigo, assim nesse momento sabe, Carolina, que ocê me pegou assim, de um mês aqui e... jogada, assim, dentro da Casa Abrigo” (grifo nosso). Com um turbilhão de coisas, né, pra pensar, pra organizar, pra... (risos) fica difícil definir, assim, pr’ocê, sabe.

D: “Espero que eu tenha conseguido ajudar em alguma coisa, porque o tempo realmente é muito curto, né. E o trabalho aqui é muito puxado. E ocê

então é jogada logo na prática (grifo nosso) e com um monte de coisa,

então.

Daniele fala que foi “jogada” na CASV e, no decorrer da entrevista, mostrou- se angustiada por ainda não se sentir preparada para trabalhar com a violência de gênero. O processo de entrada da Daniele na coordenação da CASV levanta a questão da formação de novas lideranças e da revitalização das bases no movimento de mulheres. Ela nunca foi militante no movimento de mulheres, assumiu esse cargo como uma técnica da prefeitura. É a partir deste lugar que ela falou durante a entrevista.

A maior parte das pessoas que ocupam os cargos de poder nos programas da prefeitura voltados para mulheres veio dos movimentos sociais. No capítulo anterior, começamos a discutir sobre como foi esse processo de migração de lideranças de movimentos sociais para o aparato do Estado. A seguir, nos deteremos mais na análise deste ponto.