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1. CHAPTER

2.2 Representation of Beauty

Merecem atenção especial as nulidades que podem acometer o mais importante dos atos processuais: a sentença. É que, dependendo do grau de contaminação por ela sofrida, não fará coisa julgada, não trazendo, portanto, a segurança jurídica que se espera da jurisdição.

Entendemos que existem três classes de sentenças viciadas: inexistentes, nulas e rescindíveis.

266WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Nulidades do processo e da sentença, cit., p. 157-159. 267NERY JÚNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. op. cit., p. 580.

Sentença inexistente, “é o julgado que não reúne as mínimas

condições materiais sequer para aparentar o ato processual que pretende ser”.268

Araken de Assis afirma que o ato processual inexistente é incapaz de gerar efeitos.269 Esse entendimento doutrinário não é o que melhor se aplica à espécie. As sentenças inexistentes, que constituem atos processuais, serão ou poderão ser eficazes até que uma declaração judicial as declare como tal. Neste aspecto, comungamos do pensamento de Teresa Arruda Alvim Wambier.270

Como exemplos de sentenças inexistentes temos: aquelas proferidas por quem não é juiz ou não reduzidas a termo; aquela não publicada ou sem dispositivo; uma segunda sentença proferida no mesmo processo; quando o litisconsorte necessário deixa de ser convocado para compor o processo.

O meio adequado para a argüição de inexistência das sentenças é a ação declaratória de inexistência e não a ação rescisória. Tecnicamente, é inadequada a utilização da ação rescisória porque é requisito para o ajuizamento desta a ocorrência da coisa julgada, situação não alcançada pelas sentenças inexistentes.271 Não está sujeita ao prazo prescricional de dois anos após o trânsito em julgado para seu ajuizamento.

As sentenças nulas são aquelas que, quer por vícios intrínsecos, ou seja, contidos na própria sentença, quer por vícios anteriores a ela, ficam sujeitas, em razão das nulidades, à sua desconstituição. O meio de ataque às sentenças nulas é a ação rescisória (art. 485 do CPC).

268THEODORO JÚNIOR, Humberto. A coisa julgada e a rescindibilidade da sentença. Revista Jurídica, n. 219, p. 13, jan. 1996.

269ASSIS, Araken de. op. cit., p. 14.

270“Trata-se de fenômeno razoavelmente análogo ao da lei inconstitucional – ela não o é até que o órgão competente o afirme, embora esta afirmação, no caso de controle concentrado, tenha efeito ex tunc.”. WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Nulidades do processo e da sentença, cit., p. 232.

São exemplos de sentenças nulas: defeitos graves no relatório que impossibilitem a identificação da lide, das partes e de suas principais ocorrências; sentenças sem fundamentação; extra ou ultra petita; proferida por juízo absolutamente incompetente ou impedido; não intimação e intervenção do Ministério Público em processos em que sua intimação e/ou intervenção se fazia obrigatória; casos flagrantes de violação do contraditório e da ampla defesa.

Para Teresa Arruda Alvim Wambier, todavia, com a ocorrência do trânsito em julgado, serão rescindíveis dentro de dois anos as sentenças nulas em si mesmas (vícios intrínsecos), incluindo-se aí as sentenças que desatenderam ao princípio da congruência mostrando-se citra, ultra ou extra petita, bem como as que não apresentarem requisitos essenciais, como por exemplo, o relatório e a fundamentação. Também serão rescindíveis as sentenças provenientes de processo onde tenha havido nulidades (vícios extrínsecos) e outros casos, como por exemplo o do artigo 485, II. 272

As sentenças nulas são rescindíveis, mas nem toda sentença rescindível é nula. Teresa Arruda Alvim esclarece que não é inexpressiva a parte da doutrina que considera haver transformação da nulidade em rescindibilidade após o trânsito em julgado.

Todavia, a autora não concorda com esse entendimento pelo fato dos termos apresentarem significados diferentes. É que, segundo ela, a nulidade é um estado defeituoso e a rescindibilidade é a possibilidade de a sentença ser rescindida, por meio da ação rescisória. E uma coisa não se transforma em outra. Assim considerando, a nulidade não se transforma em rescindibilidade e esta também não se transforma em nulidade.273

272WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Nulidades do processo e da sentença, cit., p. 227.

273 “Todas as sentenças nulas são rescindíveis, embora nem todas as sentenças rescindíveis sejam nulas.

É uma diferença importante entre o sistema de nulidades do direito privado e do direito público, uma vez que, no direito privado, as nulidades devem ser declaradas como tal e, no direito público, especialmente no direito processual, por causa da autoridade de que ficam revestidas, precisam ser desconstituídas. Isto porque a ação

Concordamos com a citada autora. Assim se posicionando, concluímos que sentenças nulas são aquelas que padecem de alguma nulidade e sentenças rescindíveis são as sentenças que padecem de nulidade e as que podem ser rescindidas por meio de ação rescisória.

Em relação às sentenças rescindíveis, vale lembrar que as sentenças judiciais são ordinariamente reformadas com os recursos previstos em nosso ordenamento jurídico. Uma vez operada a coisa julgada, o remédio processual adequado a desconstituí-la é a ação rescisória.

A ação rescisória é uma ação de natureza constitutiva e tem como objeto a anulação da sentença transitada em julgado.Trata-se de uma ação porque enseja a formação de uma nova relação processual . O prazo para ajuizá- la não se adequa a nenhum tipo de recurso e, uma vez ajuizada, o réu será citado para apresentar defesa.274 O recurso ataca uma decisão ainda sujeita a modificação dentro do mesmo processo. A rescisória ataca uma decisão transitada em julgado de um outro processo.

O fundamento jurídico para sustentar a ação rescisória é justamente o fato de que as sentenças podem, eventualmente, ser iníquas, conter alguma imperfeição tão grande que mereçam ser rescindidas, em detrimento do

rescisória é uma ação desconstitutiva (= constitutiva negativa) cuja função é desconstituir a coisa julgada, para, depois, atingir a nulidade da decisão, agora já não mais “protegida” pela coisa julgada. A nulidade é, então, atingida indireta ou mediatamente.

Não é inexpressiva parte da doutrina que afirma que após o trânsito em julgado a nulidade se converte em rescindibilidade.

Não estamos de acordo e a primeira das razões é de ordem lógica. A nulidade é, como se viu, um estado defeituoso. A rescindibilidade, a seu turno, é a circunstância de o ato, que padece daquele vício, que se encontra naquele estado defeituoso, poder ser impugnado por meio da ação rescisória.

O sufixo dade tem sentidos e funções diferentes em ambas as expressões: nulidade e rescindibilidade. Não tem sentido dizer-se que a nulidade deve ser convertida em rescindibilidade, como se um vício se convertesse no outro. Até porque ser rescindível não é ser viciada: veja-se a hipótese do art. 485, VII, do CPC!” WAMBIER, Teresa Arruda Alvim. Nulidades do processo e da sentença, cit.

274Citamos o conceito e os caracteres da ação rescisória esposado por José Frederico Marques: “A ação rescisória é aquela que tem por objeto ajuizar pedido de anulação de sentença passada em julgado. Remédio por excelência para anulação dos efeitos da sentença passada em julgado, a ação rescisória é de natureza constitutiva, uma vez que tem por fim extinguir a situação jurídica consubstanciada na decisão que se busca anular. Não é recurso, e sim ação. Ajuizado o pedido rescisório, procede-se à citação do réu e se instaura uma nova relação processual. Além disso, o prazo para a propositura da rescisória não se coaduna com a natureza dos procedimentos recursais.” MARQUES, José Frederico. op. cit., v. 4, p. 410.

princípio que garante a segurança jurídica das decisões alcançadas pela autoridade da coisa julgada.

As hipóteses de cabimento da ação rescisória estão expressas no artigo 485 do Código de Processo Civil.275 O artigo 495 do CPC prescreve que o prazo para a parte propor a ação rescisória extingue em dois anos, contados do trânsito em julgado da decisão.

Vê-se, pois que os requisitos da ação rescisória são três: sentença de mérito transitada em julgado; cabimento em uma das hipóteses do rol do artigo 485 e observância do prazo decadencial de dois anos.

As sentenças terminativas que não fazem coisa julgada material não podem ser rescindidas por força do caput do artigo 485 do CPC, que exige o trânsito em julgado de sentença de mérito. Igualmente excluídas estão as sentenças proferidas em medidas cautelares, homologatórias e que decidam relação jurídica continuada.276

O artigo 487 do CPC dispõe sobre a legitimidade para a propositura da ação rescisória: a) quem tiver sido parte no processo ou seu legítimo sucessor; b) o terceiro juridicamente interessado e c) o Ministério Público em duas hipóteses: se não foi ouvido no processo em cuja intervenção lhe era

275“Art. 485. A sentença de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando:

I - se verificar que foi dada por prevaricação, concussão ou corrupção do juiz; II - proferida por juiz impedido ou absolutamente incompetente;

III - resultar de dolo da parte vencedora em detrimento da parte vencida, ou de colusão entre as partes, a fim de fraudar a lei;

IV - ofender a coisa julgada; V - violar literal disposição de lei;

VI - se fundar em prova, cuja falsidade tenha sido apurada em processo criminal, ou seja, provada na própria ação rescisória;

VII - depois da sentença, o autor obtiver documento novo cuja existência ignorava ou de que não pôde fazer uso, capaz, por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável;

VIII - houver fundamento para invalidar confissão, desistência ou transação, em que se baseou a sentença; IX - fundada em erro de fato, resultante de atos ou de documentos da causa;

§ 1º. Há erro, quando a sentença admitir um fato inexistente, ou quando considerar inexistente um fato efetivamente ocorrido.

§ 2º. É indispensável, tanto num como noutro caso, que não tenha havido controvérsia, nem pronunciamento judicial sobre o fato.

obrigatória e quando a sentença é o efeito de colusão entre as partes para fraudar a lei.

Apesar de a ação rescisória ser voltada a rescindir uma decisão judicial defeituosa e, portanto, voltada contra a Jurisdição, contra o Estado, inexiste no rol de legitimados a previsão da participação do Estado como réu.277