Esta seção traz reflexões sobre alguns pressupostos referentes à Análise do Discurso (AD) que embasam a nossa pesquisa. Ela está organizada levando-se em consideração alguns eixos.
Primeiramente, a partir da diversidade de perspectivas que estão presentes nas pesquisas acadêmicas quando se trata da AD, apresentamos a abordagem a qual nos apoiamos, discutindo sobre a noção de discurso.
Nessa mesma linha, posteriormente, apresentamos diferentes concepções de
linguagem a partir da “virada linguística”, discutindo as visões estruturalista e
sociolinguística. Nesse sentido, refletimos sobre a linguagem e o discurso, enfatizando a linguagem em uso como um dos pressupostos fundamentais da AD. Estes elementos possibilitam fundamentar nossas análises buscando compreender como as práticas argumentativas foram construídas na sala investigada.
Justificando nossas escolhas teórico-metodológicas trazemos reflexões sobre as contribuições e implicações da AD para o campo da Educação em Ciências, enfatizando conceitos da AD que contribuem para nossa pesquisa: i) cultura, ii) prática, iii) sala de aula, iv) interação social e identidade; envolvendo a discussão de sujeito e relações de poder; v) saber disciplinar; abrangendo a questão dos conhecimentos científico e escolar, ou seja, do interdiscurso; vi) o sentido e a memória discursiva e finalizamos discutindo diferentes modos de falar e as condições de produção.
A seguir, expomos de forma geral os pontos mencionados acima, bem como as implicações de considerar a AD para a pesquisa em Educação em Ciências, como é o nosso caso.
A diversidade de perspectivas relacionadas à Análise do Discurso é sinalizada por diversos autores como Gee (1996, 2005, 2010), Rex et al. (2006), Blommaert (2005) e Bloome (2005, 2008, 2009), e é, a partir desses estudos, que caracterizamos a nossa visão. Nesse sentido, alinhamo-nos com Gee (2010), quando esse autor propõe que essas diferentes abordagens não devem ser consideradas em uma visão dicotômica, colocando-se em lados
Além disso, concordamos com a afirmação de Bloome e colaboradores (2008) de que a escolha por uma ou outra perspectiva pode restringir ou potencializar a investigação.
Segundo Gee (2005), há divergências em relação ao próprio conceito de discurso
The term Discourse is meant to cover important aspects of what others have called, by different names (though these are not, of course, all synonymous terms), discourses (FOUCAULT, 1973, 1977, 1980), communities of practice (LAVE e WENGER, 1991), cultural communities (CLARK, 1996), discourse communities (BERKENKOTTER e HUCKIN, 1995), distributed knowledge or distributed systems (HUTCHINS, 1995), thought collectives (Fleck, 1979), practices (BARTON e HAMILTON, 1998; BOURDIEU, 1998; HEIDEGGER, 1962), activity systems (ENGESTROM, 1990; LEONT'EV, 1978), actor-actant networks (CALLON e LATOUR, 1992; LATOUR, 1987), and (one interpretation of) "forms of life" (WITTGENSTEIN, 1958 apud GEE, 2005, p. 110).
Ou seja, há vários estudos que utilizam o termo discurso, mas com significados diferentes, o que sinaliza a importância de evidenciarmos qual ou quais são os significados em que nos baseamos.
Para essa explicitação, iremos usar os estudos de Bloome et al. (2008), que discutem o conceito de discurso como verbo e como nome e os estudos de Gee (2010) e
Bloome que discutem o conceito de discurso com “D” maiúsculo.
Gee (2010) exemplifica dizendo que um bom cozinheiro não é reconhecido apenas em sua fala, mas na ação de usar as receitas, os utensílios e os ingredientes. Além disso, precisa valorizar alguns elementos como a apresentação do prato e a combinação de
sabores. Assim usa o Discurso com “D” maiúsculo para significar esse algo mais do que a linguagem propriamente dita. O discurso com “d” minúsculo “significa qualquer instância da
linguagem em uso ou em qualquer trecho da linguagem falada ou escrita, muitas vezes
chamado de ‘texto’ no sentido mais amplo, em que os textos podem ser orais ou escritos”
(GEE, 2010).
O autor também discute o conceito de discurso visto como verbo, com “D” maiúsculo, argumentando que as pessoas constroem identidades e atividades não só apenas
por meio de linguagem, mas também usando a linguagem juntamente com outras “coisas” que
não sejam propriamente a linguagem. Exemplifica dizendo que, para ser reconhecido como um membro de um grupo, o sujeito deve agir e se vestir a partir do que é considerado aceito pelo grupo, esclarecendo que
People build identities and activities not just through language, but by using language together with other ‘stuff’ that isn’t language. If you want to get recognized as a street-gang member of a certain sort you have to speak in the ‘right’ way, but you also have to act and dress in the ‘right’ way, as well. You also have to
engage (or, at least, behave as if you are engaging) in characteristic ways of thinking, acting, interacting, valuing, feeling, and believing. You also have to use or be able to use various sorts of symbols (e.g., graffiti), tools (e.g., a weapon), and objects (e.g., street corners) in the ‘right’ places and at the ‘right’ times. You can’t just ‘talk the talk’, you have to “walk the walk” as well (GEE, 2010, p. 28, grifo do autor).
Isto é, o que Gee (2010) denomina discurso com “D” maiúsculo integra linguagem, ações, interações e formas de utilizar vários símbolos, pois o autor
use the term “Discourse,” with a capital “D”, for ways of combining and integrating language, actions, interactions, ways of thinking, believing, valuing, and using various symbols, tools, and objects to enact a particular sort of socially recognizable identity. Thinking about the different Discourses a piece of language is part of is another tool for engaging in discourse analysis (GEE, 2010, p. 29).
Assim, segundo Gee (2010), o discurso é culturalmente situado, vai além da linguagem oral e escrita. É o discurso com D maiúsculo que está vinculado a identidades sociais. Nesse sentido, segundo o autor, o reconhecimento do que somos envolve mais do que
a “linguagem”, envolve agir e interagir com o outro, usando de maneira apropriada vários
modos de dizer (escrito ou falado), usando os objetos e levando em consideração o lugar em que isso ocorre.
Em nossa pesquisa, utilizamos essa concepção vendo o discurso com “D”
maiúsculo que vai além do texto que é falado ou escrito, considerado como formado por pessoas, de objetos (como livros) e de maneiras de falar, de agir, interagir, pensar, crer e valorizar (GEE, 1996, p. 20). Discurso não é apenas um conjunto de palavras; é um conjunto de regras sobre o que você pode e não pode dizer e sobre o quê dizer, discurso é muito mais do que falar ou escrever (p. 314).
Sendo assim, explicitamos a nossa visão, já que, em nossa pesquisa, consideramos a AD como uma abordagem investigativa que carrega em si ideologias e pressupostos teóricos, não como um conjunto descontextualizado e neutro que pode ser usado para analisar qualquer fenômeno, mas como elementos que nos ajudam a ver e a compreender o que acontece na sala de aula (BLOOME et al, 2008, p. 16).
Rex e colaboradores (2006, p. 95) definem discurso como “instâncias de
comunicação por meio da linguagem”. Essa definição enfatiza a concepção de discurso como
linguagem em uso, pois as pessoas utilizam a linguagem para interagir com o mundo. Nesse
sentido, o autor compreende os discursos como sendo “meios convencionais de comunicação que geram e são gerados por formas convencionais de pensar”. Seus trabalhos também
o estudo dos processos discursivos utilizam diversas perspectivas e métodos, mas não necessariamente vinculam-se a definições de linguagem em uso.
Outro aspecto que podemos citar é que algumas pesquisas em AD tomam como aspecto metodológico a abordagem etnográfica. Muitas pesquisas que incorporaram a AD numa vertente sociolinguística partem de pressupostos relacionados à abordagem sociocultural e à etnografia não considerada como conjunto de métodos ou técnicas, mas como lógica de investigação. Rex et al. (2006), por exemplo, buscou explicitar como estudantes e professores na sala de aula construíram práticas culturais via processos discursivos.
Ao considerar os pressupostos da AD nas pesquisas em Educação em Ciências, há implicações para o tipo de pergunta que orienta a pesquisa, como, por exemplo, em relação às perguntas que buscam compreender aspectos envolvendo a dinâmica da sala de aula, como é o caso da nossa pesquisa. Isto é, considerar a AD como um pressuposto teórico-metodológico tem implicações na própria construção das questões de pesquisa, pois geralmente os estudos baseados em AD buscam analisar o processo e não o produto e levam em consideração as ações dos sujeitos no momento da interação. Nesse sentido, nossas questões de pesquisa explicitadas a seguir, refletem esses aspectos:
i) Como acontece a construção de práticas argumentativas nas aulas de ciências? ii) Como as crianças se apropriam de diferentes formas de falar e de se posicionar diante do grupo, em particular, como os gêneros discursivos orais se constituem nas aulas de ciências?
iii) Como as práticas argumentativas e científicas e a construção de gêneros discursivos orais se inter-relacionam nas interações discursivas?
Em outro trabalho, Gee (2010, p. 8) também aborda essa diversidade de perspectivas, refletindo que há abordagens que olham para o “conteúdo” e outras enfatizam
mais a estrutura da linguagem, o que ele chama de “gramática”, pois o autor
define discourse as instances of communication through language. During these instances, people draw upon knowledge about language to use language to accomplish something in the world […] Discourses we understand to be conventional ways of communicating that generate and are generated by conventional ways of thinking (GEE, 1992 apud REX et al., 2006, p. 95, grifo do autor).
Em nossas análises houve a preocupação em reconhecer os diferentes modos de usar a linguagem e identificar regularidades e singularidades nos discursos dos participantes
no processo interativo, refletindo sobre a aceitabilidade d que e como é dito em relação a adequação ou não ao contexto discursivo.