No Brasil, em termos de terceirização, em muitos casos, o que se desenvolveu foi apenas uma “intermediação de mão-de-obra”, que não está ligada à técnica alguma de produção.
Para combater este quadro perverso, as Entidades Estatais, dentre elas cabe destaque especial para o Ministério Púbico do Trabalho, não têm medido esforços, atuando em três frentes distintas: falsas cooperativas, estágios irregulares e terceirização ilegal.
No Piauí, o Ministério Púbico do Trabalho, somente no ano de 2005, instaurou 88 inquéritos para apuração de fraudes, nas relações de trabalho. De acordo com informativo da Procuradoria Regional do Trabalho da 22a. Região53,
A fraude através de “estágios” chega a situações absurdas. Registrou-se o caso de uma empresa do setor lojista em que todos os empregados eram “estagiários”. Instituições de ensino superior e empresas “especializadas” em “fornecimento de estagiários” também são investigadas por essa prática irregular pelo MPT, cuja atuação resultou até em condenação de uma empresa que fraudava relações de emprego.
Diz ainda o referido informativo, que:
Graças a uma ação civil pública proposta pelo MPT, representado pelo Produrador João Batista Machado Junior, a companhia telefônica Telemar foi condenada pelo Tribunal Superior do Trabalho a registrar como seus, em livro próprio e na CTPS, retroativamente à data de admissão, cada um dos trabalhadores que lhe prestaram serviços de natureza empregatícia, mas sob o manto do estágio, bem assim a pagar todos os direitos trabalhistas pertinentes. A mesma decisão foi tomada em relação aos trabalhadores terceirizados que prestaram serviços não eventuais e típicos de atividade- fim à companhia.
Além de sentenciada a assinar as carteiras de trabalho dos antigos estagiários, a companhia telefônica não mais poderá promover a terceirização irregular e fraudar as relações de emprego com uso de estagiários.
Muito embora atitudes louváveis como esta estejam multiplicando-se pelo Brasil afora, há ainda um longo caminho a ser percorrido pelas Entidades Estatais para a erradicação da terceirização ilícita. E neste caminho, precisa-se, primeiramente, “fazer a lição de casa”, o que se explica na perspectiva de que o próprio Judiciário ainda se utilize, e muito, desta prática inconstitucional e imoral.
53
MPT combate mais intensamente as fraudes nas relações de emprego. Boletim da Procuradoria
Regional do Trabalho da 22ª Região, Teresina, n. 3, p. 3, mar./abr. 2005. Disponível em:
Tem-se, expressamente fixados, na Constituição, os requisitos mencionados para a execução de serviços púbicos: impessoalidade; publicidade; moralidade; acesso amplo; concurso púbico; tudo para evitar os defeitos por demais conhecidos do favorecimento, do nepotismo e da promiscuidade entre o púbico e camadas mais privilegiadas do setor privado.
Resulta desses dispositivos que a execução de tarefas pertinentes ao ente público deve ser precedida, necessariamente, de concurso púbico. Nestes termos, a contratação de pessoas, para prestarem serviços à Administração, por meio de licitação fere o princípio do acesso público. Assim, se, por exemplo, algum município quiser contratar um servidor, deverá fazê-lo mediante realização de concurso púbico de provas e títulos, que será acessível a todos os cidadãos, respeitados os requisitos pessoais exigidos em termos de qualificação profissional, por acaso existentes e justificados em razão do próprio serviço a ser realizado. Ao se entender que o mesmo município possa realizar esse mesmo serviço por meio de uma empresa interposta, estar-se-á, simplesmente, dando uma rasteira no requisito do concurso púbico e mais, permitindo o favorecimento de uma pessoa jurídica, que, no fundo, estará recebendo dinheiro púbico, sem uma justificativa para tanto.
Nas palavras de Jorge Luiz Souto Maior54,
[...] fácil verificar, também, o que se passa nos entes administrativos por este Brasil afora com a prática da terceirização. Os ‘terceirizados’, que, no geral, são vigias, copeiros, auxiliares de limpeza, garçons, estão sempre inseridos na lógica cotidiana das atividades da administração e, conseqüentemente, subordina-se à dinâmica que lhe é natural, mas são tratados de forma preconceituosa, como cidadão de categoria inferior, que estão ali prestando serviços, por favor, da empresa prestadora. São elementos descartáveis e com relação aos quais sequer alguma espécie de atenção precisa ser dada, a não ser para algum ato de caridade. Ao final do contrato, firmado entre o ente púbico e a empresa tomadora, os terceirizados são dispensados, ad nutum, não recebem seus direitos e para tentar fazer vale-los são obrigados a se submeter a um longo percurso na via processual, tendo, ainda, que suportar o ente público dizendo, em audiência, que nada tem a ver com tal situação, arrotando o § 1o do art. 71, da Lei n. 8.666/93 e valendo-se dos privilégios processuais que a legislação, também de forma inconstitucional, lhe confere.
54
Na contra-mão destes caminhos percorridos por parcela significativa de Entidades Estatais, há que ser ressaltado, como dissemos no início deste tópico, a atuação do Ministério Púbico do Trabalho, que em sua vasta área de atuação, tem respaldado suas ações, nos princípios fundamentais estabelecidos nas normas da Organização Internacional do Trabalho.
Nas palavras da Procuradora Geral do Trabalho, Sandra Lia Simon55, durante palestra no Fórum Internacional dos Direitos Humanos e Sociais, “Como guardião dos direitos humanos decorrentes das relações do trabalho, os princípios fundamentais da Organização Internacional do Trabalho se confundem, no Brasil, com as metas institucionais prioritárias do Ministério Púbico do Trabalho”, e enfatizou ser o norte da atuação institucional do MPT, a busca da dignidade do trabalhador. Para a Procuradora Geral, “a dignidade deve ser vista como um valor supremo que atrai o conteúdo de todos os direitos fundamentais comuns à espécie humana.” Sandra Lia Simon, conclui, que “eventuais mudanças no plano jurídico e das relações de trabalho não devem resultar de supressão de prerrogativas do trabalhador.”
Conclui-se, portanto, que cabe a todos os que compõem a sociedade, sobretudo às Entidades Estatais e às pessoas ligadas ao mundo jurídico, exigir que o Estado respeite a Constituição, mesmo que isto se faça para a defesa do direito de outras pessoas, abstratamente consideradas, pois, do contrário, mais tarde, não se terá o argumento da constitucionalidade para se proteger de alguma agressão aos direitos fundamentais.