• Sonuç bulunamadı

Reel Döviz Kuru ve Doğrudan Yabancı Yatırımlar Arasındaki İlişkiyi Konu

BÖLÜM II TÜRKİYE’DE REEL DÖVİZ KURU, YABANCI SERMAYE

3.2. Reel Döviz Kuru ve Doğrudan Yabancı Yatırımlar Arasındaki İlişkiyi Konu

Flávio, membro fundador da comunidade surda de Campina Grande, tinha 40 anos, quando nos concedeu a entrevista. Além de trabalhar na EDAC, como instrutor de Libras, trabalhava no setor de reprografia de uma escola particular de Educação Básica, em Campina Grande. Ele atravessou as três grandes fases da educação de surdos, que consideramos aqui: o Oralismo, a Comunicação Total e o Bilinguismo. Sofreu, portanto, por muitos anos, a negação do direito de usar a Libras como sua língua natural.

Filho de pais ouvintes, ele é o caçula de três irmãos. Descobriu que era surdo aos oito anos e recorda esse momento como uma experiência formadora em sua vida. Lembra que quando era pequeno, apesar de não compreender o que as pessoas do seu convívio falavam, ele insistia em se comunicar com elas e esbarrava sempre na impossibilidade de os outros o compreenderem. Para sua surpresa, quando perguntou a sua mãe porque ele não falava, ela lhe disse que havia nascido surdo, assim como seu irmão mais velho. O fato de descobrir que o irmão também era surdo deixou-o muito feliz, pois já não estava mais sozinho. Partilhar com ele a condição de surdo explicava porque se comunicavam por gestos.

Ao compreender que seu irmão ouvinte ia à escola, pediu a sua mãe para estudar também. A sua condição de surdo, no entanto, lhe foi apresentada por ela como a razão principal que o impedia de estudar: “Meu irmão [o ouvinte] ia para a escola de ouvintes e eu tinha vontade de estudar. Eu queria estudar, mas minha mãe me falava que não, que surdo era diferente, que lá todo mundo era ouvinte. Mas eu queria, tinha vontade de ir para a escola” (FLÁVIO, entrevista narrativa, linhas 53-56). Combateu desde cedo o preconceito arraigado na família da concepção do surdo como deficiente e por isso excluído da escola. Sua insistência motivou sua mãe a tentar “ensinar-lhe a falar”. Mas, ele logo compreendeu que o método utilizado pela mãe - o treinamento pela repetição de palavras para nomear os objetos – não era o que ele queria. Suas dificuldades o deixavam agitado, nervoso, e mesmo que sua mãe o encorajasse a ter calma e paciência para aprender, ele queria ver “coisas diferentes”, por isso não desistia de ir à escola, o que fez sua mãe a conseguir o consentimento da diretora da escola de seu irmão ouvinte, para ele frequentar a escola.

Figura 02 – Sinal de Flávio

O primeiro dia de aula apresenta-se em sua memória como um “momento charneira9”.

Ele pensava que iria encontrar outros surdos na escola, mas descobre, para seu espanto, que era o único surdo. Estava sozinho. Guarda na memória, que em seu desespero para se comunicar, ficava “inventando barulhos” e as pessoas “olhavam para [ele] e pensavam que era doido”. Na hora do recreio, procurou a proteção do irmão ouvinte e pediu para ir para casa. Nunca mais voltou a essa escola.

Seus pais percebendo seu desejo de falar, o levaram a Recife, a fim de procurar tratamento para a surdez. Como ninguém lhe explicava nada, achava que iria fazer uma cirurgia e “ficar bom”. Mas, para sua frustração, foi “aparelhado” e como “ficava tonto”, usou os aparelhos de amplificação sonora por apenas duas ou três semanas; sua vontade era jogar “tudo aquilo fora”.

Ele frequentou, por um ano, com seu irmão surdo uma pequena “escola” em Campina Grande, que funcionava na garagem da casa de uma surda adulta, que havia estudado em Recife e acolhia crianças surdas. Ficou surpreso ao perceber que os surdos se comunicavam por gestos. Dos nove aos dezesseis anos, frequentou uma instituição para atendimento a deficientes, que desenvolvia o trabalho com os surdos, numa linha oralista. Lembra-se da felicidade de encontrar ali um grupo maior de surdos, que se comunicava por gestos. Ele soube ali, por um surdo que morava em Brasília, da existência da Libras - de uma língua diferente da que eles praticavam com os gestos. Começaram, então, a aprendê-la com o colega de Brasília. E a partir de então, ele e seus colegas surdos deixaram de usar gestos para falar em Libras e se comunicar com todas as pessoas que usavam a língua de sinais. A partir de 16 anos de idade, começou a viajar para ter contato com outros surdos em centros mais desenvolvidos e aprofundar seus conhecimentos de Libras, uma vez que com ela realizava seu desejo de se comunicar efetivamente.

Em 1996, graças aos contatos com um amigo surdo, começou a trabalhar na biblioteca de uma Escola Estadual de Educação Básica, onde permaneceu por cerca de dois anos. Em seguida, Flávio foi convidado a trabalhar na EDAC, que necessitava de professores de Libras. Ele devia ensiná-la aos professores ouvintes a se comunicar com os alunos surdos para estimulá-los a usar a Libras. Embora o convite o deixasse muito contente pelo convívio com

9 É aquele que representa uma mudança significativa entre duas etapas da vida, um divisor de águas! Um ponto

de transição de uma situação para outra. Esse termo é usado “tanto nas obras francesas quanto portuguesas sobre as histórias de vida, para designar os acontecimentos que separam, dividem e articulam as etapas da vida” (JOSSO, 2004, p. 64).

outros surdos, perguntava-se como poderia ser “professor” se não sabia como ensinar, pois não havia concluído seus estudos.

Com a ajuda de uma amiga surda e a colaboração das professoras ouvintes da EDAC aprendia questões relativas à metodologia de ensino e à organização das aulas. Esforçava-se para assumir plenamente suas funções de instrutor de Libras, e desde 2001, participa dos encontros de planejamento para o ensino de Libras, promovidos, inicialmente, pela assessoria pedagógica da UFCG. Flávio atribui a esses encontros o seu desenvolvimento como docente, pois neles aprendeu como princípio metodológico, a necessidade de ensinar Libras em contexto. Passou a planejar o ensino, conjuntamente com os outros instrutores, a partir desses aprendizados, percebendo que ensinar Libras para os alunos surdos e para os ouvintes não era apenas ensinar vocabulário, previamente selecionado por meio de uma lista de palavras.

Para a sua formação, também foram significativos os cursos e palestras dos quais participou, ministrados por instrutores de Libras vindos do Rio de Janeiro e de São Paulo, que trouxeram conhecimentos e materiais de ensino para um melhor desenvolvimento de seu trabalho. No período de 2004 a 2006, participou do Curso de Formação de Instrutores de Libras, promovido pela UFCG, que julga muito importante para sua formação, porque lhe trouxe conhecimentos sobre a história das pessoas surdas, o ensino contextualizado e a diferença do ensino de Libras e de Língua Portuguesa.

Em 2000, reiniciou seus estudos na EDAC, mas volta a abandoná-los, em 2007, quando cursava o segundo ano do ensino médio, em função da necessidade de trabalhar os três expedientes, para garantir o sustento da família. Flávio é casado (com uma ouvinte) e pai de três filhos (ouvintes).

Apesar de ser considerado na EDAC como “instrutor” de Libras, diz que se sente “professor”, pois considera que tem as mesmas responsabilidades. Entende que a diferença de nomenclatura remete a uma questão de hierarquia e que será resolvida quando tiver formação em nível superior, então se tornará um “professor de verdade”. Flávio gosta de exercer sua profissão, mas não tem certeza de no futuro, se tiver condições de fazer estudos em nível superior, prestar vestibular para cursos de formação de professores. Pensa em cursar algo diferente, uma profissão de maior prestígio social e nível salarial, talvez Engenharia.