As histórias, brincadeiras e lugares da infância das professoras foram levantadas através de entrevistas semi-estruturadas e gravadas em áudio, sendo retomados aqui alguns aspectos fundamentais de suas falas.
P1
P1 conta que sua infância foi marcada pelo trabalho, pela falta de liberdade, pelas brincadeiras fortuitas e por uma vida familiar povoada por muitas brigas e violência.
Minha infância foi mais pra trabalhar. Quando a gente era pequena tinha que dar conta de limpar a casa, deixar tudo pronto antes dos meus pais chegarem do serviço. E pra gente brincar na rua, a gente saía escondido. E se eles pegassem a gente na rua, era uma surra42.
Relata que a família, constituída pelos pais e por seis filhos, sempre passava por grandes dificuldades financeiras, não tendo, por vezes, nem o que comer. A mãe, que trabalhava como doméstica e o pai, como pedreiro, saíam cedo para o trabalho e os filhos mais novos ficavam sob os cuidados dos mais velhos. Segundo Oliveira, Rego e Aquino (2006), a memória estrutura-se em identidades de grupo e relaciona-se ao pertencimento afetivo desse grupo, ou seja, a infância é lembrada através dos membros da família.
O pai, opressor e muito autoritário, exigia que os filhos realizassem os serviços e mantivessem sempre a casa limpa e em ordem, caso contrário agia com violência sobre eles e a esposa.
De acordo com suas próprias palavras, quando criança era vista como um bicho a permanecer enjaulado e logo teve que parar de estudar para começar a trabalhar:
Pra mim era como um bichinho, porque tinha que ficar trancado dentro de casa. A gente não podia sair nem no portão, que a gente apanhava. A gente não tinha essa liberdade que hoje eles têm. A vida da gente era muito presa. Eu lembro que eu comecei a estudar. Daí meus pais me tiraram da escola, fui começar a trabalhar na primeira firma.
Dentre os lugares da infância, P1 recorda-se basicamente do quintal de sua casa, que era pequeno, sujo e repleto de entulhos. Os serviços diários de casa, tais como buscar lenha no mato para acender o fogão caipira, pegar louça lavada do quintal e pegar água do poço, se constituíam em “brincadeiras” de sua infância. Ela e os irmãos tentavam brincar na rua, após a
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As falas das entrevistadas foram transcritas de forma o mais fiel possível ao jeito de cada uma se expressar. Essas falas estão grafadas em letras de tamanho 10.
realização dos diversos serviços, mas sempre se mantinham atentos a verificar se os pais não estavam a retornar do trabalho, pois se os pegassem na rua, era surra na certa. Suas brincadeiras preferidas eram amarelinha, bolinha de gude, taco, queimada, pega-pega, passa- anel, carrinho de rolimã e pular corda. Relata ainda que em determinada época tiveram uma televisão em casa e passavam o tempo todo a assistir.
P2
P2 relata que era considerada uma “bobona” pela professora e vizinhos, pelo fato de ter crescido muito e rapidamente quando ainda era apenas uma criança, despertando indignação pelas atitudes consideradas infantilizadas. E assim os adultos exigiam que apresentasse atitudes mais apropriadas de menina mais velha, que ainda não tinha. Relata que da mesma forma que ela, sua única filha também vivenciou o mesmo problema. P2 por diversas vezes em sua narrativa explicita o olhar dos outros sobre ela e também sobre a filha e a internalização desse olhar na constituição de sua autoimagem.
Apesar das dificuldades relativas a esses fatos, afirma ter tido uma infância feliz, repleta de brincadeiras em casa, na rua, na casa das amigas e na escola. Só não tem boas recordações da época da pré-escola, a qual iniciou aos quatro anos de idade.
[...] a lembrança que eu guardo até hoje é que eu tive uma infância bem feliz, porque eu brincava muito, tanto na rua, quanto em casa, na casa das amigas, na escola. Eu não me lembro de toda essa alegria na pré-escola. Era aquilo comedido, lá na mesinha, tudo certinho. Em vez de eu estar brincando com a outra, eu tinha que brincar ali no meu lugar.
As narrativas tendem a ser pontuadas por marcos temporais, espaciais, relativos a eventos ou a relações interpessoais (OLIVEIRA; REGO; AQUINO, 2006). No caso de P2 a entrada na pré-escola aos 4 anos de idade marcou consistentemente sua infância, à medida que provocou, de acordo com suas percepções, um corte nas possibilidades de brincar livremente.
Quanto aos lugares da infância, P2 conta que até os dois anos de idade brincava com os brinquedinhos em seu berço, uma vez que a mãe trabalhava fora e o pai cuidava dela e da irmã. Após os dois anos, brincava no quintal de casa com a irmã. Aos quatro anos foi para a pré-escola. Dos seis aos doze anos, conta que brincava muito na calçada e rua de sua casa. Dentre as brincadeiras preferidas estavam casinha, bola, triciclo, corda, patinete e bicicleta.
P3 (a)
P3 (a) conta que teve uma infância muito feliz e tranquila. Morava em uma cidade litorânea, em um condomínio de prédios, que se constituía em uma perfeita comunidade, na
qual tinha quatro amigas e uma madrinha muito especial com quem brincava. Novamente no caso de P3 (a), torna-se visível a estruturação da memória em identidades de grupo. As recordações do lugar de moradia aparecem como sendo membro da comunidade local (OLIVEIRA; REGO; AQUINO, 2006).
Segundo afirmações de P3 (a), apesar de a mãe ser extremamente repressora e controladora, o que a “salvou” foram as inúmeras brincadeiras realizadas na infância, dentre as quais destaca pega-pega, queimada e literatura infantil. Relata que tinha em casa muitos livros de histórias infantis e que sempre se encantou com a leitura.
Sobre os lugares de sua infância, P3 (a) relata que se lembra muito do apartamento em que morava, pois “era gostoso, aconchegante, extremamente organizado e limpinho”. Mas, segundo ela, o que mais marcou sua infância foi o contato com o mar. Acredita que o fato de crescer junto dele tenha provocado uma ampliação de sua sensibilidade.
P3 (b)
P3 (b) relata que sua infância foi marcada pelas brincadeiras com o irmão mais novo, pelos programas infantis de televisão e pelas músicas do conjunto infantil “Balão Mágico”. A configuração da narrativa revela a mentalidade cultural de determinada época. Para P3 (b) as músicas do conjunto infantil marcaram positivamente uma fase de sua infância. Conta que se lembra de ter perdido o avô, de quem muito gostava, aos 2 anos, mas que o vínculo com a mãe sempre foi muito bom, e com ela sempre manteve um ótimo relacionamento.
A entrada na EMEI, aos 5 anos, também considera um fato marcante em sua vida, detendo-se a descrever a grande admiração que tinha pela primeira professora e pelo ambiente da escola.
Assim, ela era bem carinhosa, meiga... Uma pessoa tranquila, que mostrava, assim, as atividades que eu gostava. Tudo que ela passava, as atividades, eu gostava. [...] Eu gostava e me sentia muito bem naquele ambiente. [...] Eu tenho uma grande admiração por ela, talvez porque ela tratava a gente bem, com carinho.
Afirma que as experiências na escola provavelmente tenham determinado sua opção pela profissão de professora. “Acho que foi ali que eu comecei a admirar e comecei a pensar na profissão que tenho hoje”. De acordo com Oliveira, Rego e Aquino (2006, p. 128), “a memória é crucial para sabermos o que fomos, o que somos e projetar o que queremos ser”.
Além dos espaços da EMEI, P3 (b) conta que se lembra do quintal de sua casa, que apesar de estreito era aconchegante, gostoso e era onde brincava com alguns vizinhos, o irmão
e seu cachorro. Além do quintal podia brincar na rua, em frente de sua casa, pois era tranquila, tinha várias crianças e um clima tranquilo entre os moradores. Afirma que gostava mais de brincar na rua, de brincadeiras tradicionais, tais como: elefante colorido e amarelinha. Às vezes também brincava em sua casa, de casinha e com as bonecas.
P4
Ao ser solicitada que falasse sobre sua infância, P4 relata que esta “não foi assim das melhores”, uma vez que os irmãos já eram mais velhos e a família “não era muito bem estruturada”. Conta que o pai era alcoólatra, espancava os familiares e que ao completar sete anos ele veio a falecer. Em função disso, cresceu muito solitária. Não tinha muitos amigos e vivia sempre às voltas da mãe que a mimava muito para compensar a falta do pai. P4 acredita ter se tornado uma criança desagradável, uma vez que as tias sempre lhe criticavam e a chamavam de mimada e chorona.
P4, assim como P2, explicita o olhar das outras pessoas sobre si mesma e a internalização desse olhar na constituição de sua autoimagem. Por isso, ao falar de si e de sua vida traz o consenso de outras vozes na constituição da própria subjetividade. De acordo com Bakhtin (apud FREITAS; SOUZA; KRAMER, 2003) há uma polifonia de vozes e uma intertextualidade na construção da memória: aquilo que o sujeito narra sobre si mesmo encontra-se incorporado por outras vozes.
P4 conta que como não tinha amigos limitava-se a brincar de boneca, mas sempre sozinha e em lugar próximo à mãe. A dependência emocional da mãe e a insegurança aparecem como dificultadoras de seu processo de apropriação e de objetivação do mundo objetivo, vindo a caracterizar sua subjetividade.
Olha, eu brincava muito no meu quarto. Quando minha mãe estava na cozinha, eu ficava com ela, montava casinha de boneca, essas coisas... Tudo do lado do fogão. Ou eu ficava na área de serviço, ou no meu quarto, ou na cozinha com a minha mãe. Onde a minha mãe tava, na verdade, eu estava junto. Sempre com ela, sempre nos espaços dentro de casa, sala, quarto. Se ela fosse para cozinha, eu ia sempre junto com a minha mãe. Eu até dormia com ela.