P1
Para P1 o conceito de criança e de infância relaciona-se ao brincar, ser feliz e ter um pouco de autonomia. Afirma que dar autonomia não é deixar a criança fazer o que bem
entender e se machucar, mas que o adulto deve estar atento, acompanhando as ações da criança.
A prática de P1 demonstra essa tendência em acompanhar com os olhos a movimentação das crianças pelos espaços da sala e também sempre desafiá-las a explorar outros espaços do CEI. No entanto, a proximidade física ou o permanecer sentada junto das crianças acompanhando suas explorações só foi sendo ampliada com o passar do tempo ao longo do ano. As observações de sua prática demonstraram que para P1 ser autônomo é fazer as coisas por si mesmo, solitariamente e sem a mediação do adulto.
P2
P2 afirma que para ela a criança deve poder fazer o que tem vontade, deve ser livre para ocupar todos os espaços, utilizar todos os brinquedos e ser bem cuidada. P2 demonstra certo ressentimento pelo fato de ter sido obrigada, na fase dos quatro anos, a ficar sentada solitariamente na mesinha da escola, sem se relacionar com as outras crianças.
Porque eu estou pensando na criança pequena. Todas têm que ter um certo limite, mas ter liberdade que eu falo é não ficar como eu ficava ali. E acho assim, o contato com as outras crianças é muito importante também.
Para P2, assim como para a companheira de sala P1, a infância também remete à liberdade. Contudo, as observações de suas atividades iniciais com os pequenininhos revelavam certa insegurança em deixá-los mais soltos para explorar os espaços. Inicialmente tinha certa dependência de P1 para tomar decisões acerca das atividades a propor às crianças.
P3 (a)
Segundo P3 (a), a criança é um ser em formação. Afirma que pensa na criança de acordo com aquilo que ela lhe transmite pelo olhar, que é principalmente amor. A infância está diretamente relacionada aos cheiros, sons, espaços físicos e acolhimentos que marcaram a vida da criança.
Os contatos iniciais com P3 (a), que logo se afastou do cargo, demonstraram grande sensibilidade na leitura das inúmeras mensagens não verbais transmitidas pelos pequenininhos. A capacidade de acolhimento, de fato, revelou-se uma característica forte de sua prática. Contudo, seu relato denuncia uma visão da criança como um ser que ainda não é e que através do processo de formação marcado por boas experiências poderá vir a ser alguém feliz.
P3 (b)
A narrativa de P3 (b) denuncia uma visão impregnada pelas concepções produzidas na modernidade por Locke, as quais a criança era vista com uma massa a ser moldada, como algo que não está pronto e que precisa ser formado ainda através do que as pessoas lhe concedem. Assim, em sua concepção, a criança será o que o adulto determinar que ela seja, não tendo possibilidade alguma de modificar isso.
Eu vejo que a criança ... Ela é algo pra ser moldado. [...] eles não nascem prontos. Então, de acordo com o que eles vivem, ou com a família, isso vai tornando ele, vai fazendo a pessoa. Vai formando a criança. Então depende muito do convívio, como ele foi tratado, se ele recebe carinho do ambiente, se o ambiente é tranquilo, se não é. Acho que muitas coisas influenciam na formação das pessoas.
Durante toda sua fala a respeito das idéias sobre criança e infância, P3 (b) salientou o fato de que os adultos devem tomar muito cuidado com a forma pela qual lidam com a criança, uma vez que podem marcar positiva ou negativamente sua infância de maneira irreversível. Além disso, segundo P3 (b), sua autoestima e o fato de sentir-se segura dependem essencialmente das experiências que os adultos lhe proporcionaram.
Somente ao final da entrevista, a professora relata que ao iniciar o Ensino Fundamental vivenciou situação de forte preconceito por parte de uma professora, pelo fato de ser gordinha, o que lhe ocasionou uma baixa auto-estima e grande insegurança. Afirma que tais sentimentos a acompanham até hoje nas relações que estabelece com as pessoas em geral e com o ex-marido, mesmo após ter se submetido à psicoterapia.
P4
A concepção de criança de P4 encontra-se muito misturada à autoimagem que construiu em sua infância e certamente uma imagem muito negativa, a qual procura desvencilhar-se a todo custo.
É o início de tudo. Quando eu olho pra criança, eu vejo o futuro, eu vejo a inocência. Um início que pode ser tudo de bom ou não. Então eu procuro sempre que seja tudo de bom o início de uma criança. Se ela é boazinha, tranquila, dentro de criança que a gente gosta, ai que ótimo! Se ela é aquele exemplo de como eu fui, mimada, mal educada, que fica contrariando a gente, eu não olho do jeito que olhavam pra mim. Eu tenho dó pela situação da criança, porque eu sei que ela vai sofrer depois. Então eu não recrimino, mesmo que ela esteja com a mãe, faça birra, fique contrariando.
Sua concepção de criança assemelha-se à visão romantizada da criança inocente declarada por Rousseau (DAHBERG; MOSS; PENCE, 2003). Uma criança que se não for
sufocada pelos mimos e a outros erros de má educação do adulto, tenderá a continuar boa e pura.
Durante a entrevista, por diversas vezes P4 comentou que procura não mimar os filhos porque não quer que eles sofram os estigmas que sofreu.
P4 considera a infância como uma fase preparatória de um vir a ser, de uma fase onde a criança irá ensaiar o que será na fase adulta. Sua fala denuncia a valorização de uma infância diferente daquela que vivenciou.
A infância é bonita. Eu acho que a criança tem que brincar muito, como se tivesse fazendo algo muito importante. Que nem o adulto quando está buscando alguma coisa, ta aprendendo, fazendo um curso. A brincadeira pra criança é a mesma coisa. Quando bem sucedida é uma realização, é uma conquista. [...] Eu vejo a infância como uma preparação para a idade adulta. Claro que sem nenhuma preocupação. Livre de qualquer preocupação, qualquer situação. Mas é inconscientemente uma preparação.