A busca pela originalidade, em meio a tantos aportes e vias metodológicas, foi, sem dúvida, um determinante disposicional na construção deste estudo. Segundo Lahire (2004), é preciso “estar disposto”, no sentido de encontrar os caminhos criativos para o “fazer da pesquisa”.
Os “retratos sociológicos” surgiram, em meu percurso investigativo, como uma via instigante, prenhe de incertezas, dúvidas e imprevisões, a começar pelo lugar social das protagonistas, cujos retratos dispunha-me a “pintar”: meninas em processo de redefinições identitárias a negociar, em suas trajetórias, o “ato de matar”...
Iluminada pelas vias teóricas de Pierre Bourdieu e Stuart Hall, cheguei ao entendimento de que o “retrato pintado” sempre será uma obra inacabada, tendo em vista que não é possível apreender a integralidade dos percursos de um sujeito em suas trajetórias. Especificamente, as personagens em foco, cujos percursos de vida são marcados por faltas, por ausências, por dramas e tragédias que começam precocemente na infância e continuam a agravar-se na adolescência, ainda em curso.
Para construir os retratos das adolescentes, fiz uso de algumas técnicas tomadas
de empréstimo da historiografia66, estando ciente dos limites da memória em face da não linearidade na vida de qualquer sujeito. Cabe assinalar o fato dos entrevistados “se esquecerem” de certos detalhes do conjunto de acontecimentos que vivenciaram. Acontece, também, de personagens que compartilharam experiências em comum situarem em datas ou em momentos diferentes determinados fatos vividos. No caso peculiar das protagonistas do meu estudo, a memória incide sobre fatos e acontecimentos dramáticos, “coisas que, às vezes, se precisa esquecer”: são casos de abusos sexuais na infância; são situações de abandono e de perdas; são contextos de afetividades mutiladas; são múltiplas circunstâncias de privações; e
66 Nas últimas décadas, especificamente, a partir dos anos 90, com a criação da Associação Brasileira de História
Oral, em 1994, ocorreu um aumento do interesse pela História Oral no Brasil. Uma busca que, até bem pouco tempo atrás, havia sido expressa apenas nos textos literários, passa agora a se fazer presente nos aportes de historiadores, sociólogos e antropólogos. Este aumento do interesse pela biografia e pela contextualização de trajetórias individuais é perceptível em matrizes teóricas da contemporaneidade, tais como: a nova história francesa; o grupo de historiadores britânicos de inspiração marxista; a micro-história italiana; a nova história cultural norte-americana; a historiografia alemã recente e, ainda, a historiografia brasileira atual: “Apesar das diferenças entre estas tradições historiográficas, podemos notar em todas elas o interesse por trajetórias
os momentos traumáticos dos homicídios, com envolvimento em assaltos, latrocínios, rivalidades, vinganças e disputas.
Trabalhando lembranças, esquecimentos e narrativas, entrecortadas de emoções, de silêncios, de pausas, fui, à semelhança de uma “pintora naif” 67
, construindo o meu jeito de pintar a partir de experiências anteriores de trabalho de campo e de minhas intuições. Procurei afastar-me dos “modelos” de retratos longos apresentados por Lahire (2004), buscando não aprisionar a riqueza das experiências a paradigmas metodológicos68
.
Na construção dos seis retratos, realizei 18 entrevistas69 abertas, ou seja, cerca de três entrevistas com cada menina no espaço do internato, abrangendo, assim, todas as adolescentes70 com envolvimento na prática de homicídio, na época da pesquisa. Das seis entrevistadas, apenas B.J.F.N. permanece no internato cumprindo sentença. Após o desligamento das cinco outras meninas do Centro Educacional Aldaci Barbosa, continuei a tentar seguir suas trajetórias: realizei contatos telefônicos, inclusive com seus familiares; visitei suas residências; viajei até Iguatu para dar continuidade ao retrato sociológico de D.P.D.L.; cartografei espaços de passagem diária das adolescentes: bairro, terminais de ônibus, determinadas praças de Fortaleza e o calçadão da orla, especificamente, a Avenida Beira Mar 71.
67 A pintura Naif, chamada “ingênua”, em francês, ou de primitiva, como é mais conhecida no Brasil, é um tipo
de pintura produzida por artistas não eruditos, que têm como inspiração retratar temas populares, tanto no contexto do campo como da cidade. Em geral, são autodidatas e, como não seguem regras, não estão ligados a uma escola ou concepção teórica definida.
68 Os “retratos sociológicos” construídos por Lahire consistem em realizar uma série de entrevistas com os
mesmos sujeitos, considerando suas práticas, comportamentos, maneiras de ver, sentir e agir em diferentes domínios ou esferas de atividades, em microcontextos das vivências dos sujeitos investigados. Trata-se de uma
metodologia de cunho interpretativo “sobre aspectos que parecem tanger ao detalhe, passagens aparentemente repetitivas e, se acrescentarmos a isso a ausência de objeto “concreto”, de questão social que englobe todos os
retratos e que entusiasme o leitor a concentrar sua atenção sobre ela, estes estudos podem decepcionar uma parte
das expectativas comuns do leitor em busca de história de vida, de biografia e de „moral da história‟” (LAHIRE,
2004, p. 46). Nesta empreitada, em vez de construir personagens ou comportamentos padrão, preferi alinhavar seus percursos trilhados, deixando que o leitor as conheça de forma inacabada, através de suas próprias narrativas. O que não significa privilegiar a ambiguidade em vez da coerência, mas revelar uma impossibilidade em permanecer cega e insensível às dissonâncias e diferenças contextuais de uma personagem para outra.
69 Em alguns momentos, tive que montar estratégias para desenvolver um diálogo sem receios com as jovens.
No entanto, algumas entrevistas transformaram-se em quase monólogos ou silêncios, com respostas curtas e
pausas longas, pois, via de regra, a adolescente em cumprimento de sentença é “desconfiada”. Em verdade, na
maioria das vezes, a vida foi dura com ela e, como forma de sobrevivência, esta jovem reveste-se de uma
“couraça protetora”, faz cara de mal, de modo que falar pouco ou através de códigos lhe garante, inicialmente, a
segurança.
70
Na época, o número total de jovens que cumpriam sentença por ato infracional de homicídio eram 06 (seis) adolescentes. Vide tabela de classificação das infrações cometidas em 2007, 2008 e 2009 em anexo, no final do trabalho.
71
Sobre isso, vale retomar o item anterior, em seu último parágrafo, no qual exponho de forma panorâmica a relação mantida com as adolescentes ao longo da pesquisa, bem como o meu trajeto cartográfico a seguir fios e rastros deixados pelas personagens deste estudo.
Desse modo, encarnei o ofício da pesquisadora nômade, enfrentando o desafio de seguir os rastros deixados pelas adolescentes. Como recurso adicional de ampliação do olhar investigativo, voltei ao internato Aldaci Barbosa em 2010 e defrontei-me com outras jovens que cometeram homicídio. Considerei pertinente ouvi-las sobre o homicídio cometido e suas vivências. Levantei um material significativo que me permitiu avançar nas reflexões, estabelecendo um cotejo com as protagonistas dos retratos, apesar de optar por não utilizar este material no trabalho de tese. Constituem novas narrativas de jovens envolvidas nas circunstâncias do ato de matar, cujas falas me possibilitam ver melhor o universo das
protagonistas deste estudo: é a estratégia do “jogo de espelhos” em que, ao deparar-me com
novas trajetórias, pude perceber, com maior nitidez, especificidades e convergências com as minhas personagens. Assim, elaborei, ao todo, 26 entrevistas, realizadas durante o ano de 2007, 2008 e início de 2009, marco temporal da investigação.
Na construção das grades de entrevistas72 para “pintar” os retratos, segui certas exigências metodológicas, no sentido de elaborar questões específicas sobre as trajetórias das adolescentes.
1. Em primeiro lugar, incidi o olhar nas matrizes socializadoras: família, escola, bairro, grupos e “tribos” 73, buscando perceber redefinições identitárias ao longo da infância e da adolescência, até o ingresso no internato;
2. No conjunto das grades de entrevistas da maioria dos retratos, a sociabilidade, os laços de afeto e as negociações de amizades ocupam um lugar de destaque. De fato, seguindo as narrativas de determinadas protagonistas, tentei apreender, através da
72 Nesta empreitada metodológica de construção de retratos sociológicos, retomo de Bernard Lahire (2004) a expressão “grades de entrevistas”, no sentido de designar a natureza das diversas questões elaboradas durante o procedimento da entrevista. Desse modo, Lahire utiliza o termo “grade” para designar um bloco ou uma série de
perguntas elaboradas propositalmente, tendo em vista atender as imposições e demandas do objeto em seus recortes. Nos retratos de Lahire, as questões teóricas impunham perguntas precisas nas entrevistas, inclusive do ponto de vista do percurso biográfico dos sujeitos investigados. O percurso biográfico foi retomado diversas vezes, através de diferentes enfoques e contextos: as amizades, a relação com a escola, os vínculos familiares etc.
73 Inspirada em Michel Maffesoli (1987 b), retomo a metáfora da tribo, no sentido de entender a metamorfose do
vínculo social na vivência das minhas protagonistas. Segundo o autor, o tribalismo é um fenômeno em voga na contemporaneidade em todos os domínios: “Antes de ser político, econômico ou social, o tribalismo é um fenômeno cultural” (1987, p. 6). Nesta perspectiva, Maffesoli sustenta que é perceptível um paradoxo em torno do que ele chamou de tempo das tribos, partindo da ideia de que vivenciamos, hoje, um tempo circunscrito pela dificuldade de indicar uma direção, e que convive “com a insegurança do conceito de indivíduo” (p. 4). Retomamos, desse modo, a compreensão de descentramento do sujeito anunciada por Stuart Hall (1999), sendo
este um ponto de convergência, também, com a compreensão de “vida em trânsito”, de viver nas fronteiras do
presente, explicitada por Homi Bhabha (2007). Sobre os tempos contemporâneos, conclui Maffesoli (1987 b, p.
4): “talvez seja preciso saber aceitar, e viver, com esse paradoxo. Em vez da lengalenga, do sortilégio de que se
tratou: redizer, sempiternamente, as palavras-chave do século XIX, é preciso saber se contentar com as metáforas, analogias, imagens, todas as coisas vaporosas, que seriam os meios menos piores possíveis para dizer
reconstituição da natureza dos diversos vínculos ou afinidades, as negociações identitárias vivenciadas em diferentes situações e circunstâncias. Assim, relações vivenciadas podem revelar uma parte - e apenas uma parte - daquilo que as jovens envolvidas na prática de homicídio foram se tornando ao longo de seus percursos;
3. Outro foco de questões direciona-se à própria prática do homicídio, considerado socialmente um ato infracional extremo, a colocar estas meninas numa condição de conflito com a lei. Neste tocante, enfrentei o desafio de adentrar terreno delicado e de difícil abordagem, qual seja, os sentidos e significados que o ato de matar assumiu em suas trajetórias de vida. Interessava-me perceber e delinear como este momento traumático e de violências marca os processos de construção identitária das personagens. É este um campo de tessituras em que fui entrelaçando fios para “pintar” este momento em suas vidas, prenhe de sentimentos, emoções, dores, silêncios e angústias. De forma intencional, tentei afastar-me das críticas, elaboradas pelas protagonistas, ao contexto institucional, mas concentrar-me nas maneiras de ver, sentir e agir, face ao ato do homicídio e à experiência de internação;
4. Nas grades de entrevistas, priorizei as percepções, sentimentos e vivências acerca da condição de privação da liberdade, vivenciadas por todas, de maneira própria e peculiar: o tempo de permanência, a condição de primeira vez ou de reincidência; a experiência de estar e viver no Centro Educacional Aldaci Barbosa;
5. Outro tema em destaque nas grades de entrevistas é a representação construída pelas adolescentes acerca do próprio futuro e dos projetos de vida para além do internato. Partindo desse feixe de questões, pude aglutinar dados sobre os objetivos e sonhos das meninas após o desligamento institucional.
Durante a elaboração dos retratos sociológicos, leituras realizadas anteriormente também vieram à tona no meu processo de produção. Foram leituras acumuladas ao longo de minha formação e que, neste contexto, retomo a partir de um novo ângulo. Cito aqui o caso do moleiro Menocchio, da obra de Carlo Gizburg, intitulada “O queijo e os vermes”. Neste livro, o autor propõe outro modo de entender a história social, descrevendo-a sob o prisma de um destino individual, ou de um grupo, ao adentrar a complexa rede de relações na qual o personagem se inscreve. Para Gizburg (1987, p. 25), através da trajetória do moleiro pode-se pensar o conceito de cultura como “uma jaula flexível e invisível dentro da qual se exercita a liberdade condicionada de cada um”. Neste caso, a trajetória do personagem pode revelar muito da sociabilidade de um contexto em dado momento.
No meu caso, a decisão de trabalhar trajetórias, “pintando-as” em forma de retratos, circunscreve o entendimento de que os percursos trilhados pelas minhas personagens revelam muito mais do que o simples contexto de meninas pobres, oriundas de bairros periféricos, viciadas em drogas, prostituídas e envolvidas na prática de homicídio. Em verdade, as redefinições vividas, ao longo das rotas e percursos identitários, revelariam múltiplas dimensões do contexto contemporâneo, ou seja, aspectos de um tempo que, também, passa por redefinições e metamorfoses.
De fato, certas maneiras de ser e estar no mundo, em determinado espaço e tempo, podem ser pensadas através da recomposição de trajetórias singulares. Nesse entendimento, os percursos trilhados são compreendidos como um trajeto descontínuo, circunscrito pela inexistência de uma linha ininterrupta, cujos pontos de “início, meio e fim” não estão demarcados. Assim, nas andanças das minhas protagonistas, supostos “finais” podem metamorfosear-se em novos começos, fazendo-as encarnar novos personagens e trilhar novos caminhos em suas histórias.
3.2 Provocações a movimentar o olhar investigativo: trilhas e rastros em busca da