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O principal lócus de pesquisa foi o Centro Educacional Aldaci Barbosa Mota, internato feminino em Fortaleza, espaço que possibilitou a proximidade com as adolescentes e a realização de entrevistas. Este espaço, prenhe de sentidos e significados, impulsionou-me a avançar nos caminhos da pesquisa. A cada visita, a cada imersão neste universo institucional, surgiam-me inquietações e questões sobre as meninas e suas experiências de reclusão.

Nas primeiras incursões a este campo de pesquisa, busquei refletir sobre a

necessidade da “conversão do olhar” durante a observação do lócus investigativo. No meu caso, por estar familiarizada com o Centro Educacional Aldaci Barbosa no contexto do exercício profissional, foi necessário exercitar a “vigilância epistemológica”, no sentido de desconstruir alguns resquícios do olhar técnico institucionalizado pela lógica da assistência social e, na maioria das vezes, aprisionado em atividades burocráticas: audiências, relatórios sociais, estudos de caso etc. 74. Em verdade, esse exercício de vigilância epistemológica foi

74 Refiro-me à experiência como estagiária e assistente social em unidades de internato no Ceará, mais especificamente, em duas unidades de internato masculinas, Centro Educacional São Miguel e Centro Educacional Dom Bosco, durante os anos de 1997, 1998, 1999 e 2000. Logo após estes anos de vivência profissional, ingressei no mestrado em sociologia - UFC.

fundamental para o refinamento da construção teórico-metodológica deste estudo, na busca de desconstruir percepções naturalizadas acerca do espaço institucional.

Luzes sobre esta postura de estranhamento e conversão do olhar me foram lançadas por Simmel (1983) na sua esclarecedora discussão sobre a necessidade de

“desfamiliarização” ou “distanciamento” no processo da pesquisa. Nesta perspectiva, retomo o ensaio de George Simmel sobre o “estrangeiro”, no sentido de evocar o papel do sociólogo, do pesquisador a vivenciar situações de estranhamento e diferença em contextos peculiares, onde se impõe o exercício, concomitante, da proximidade e do distanciamento:

O forasteiro evocado aqui não é o viajante que chega hoje e parte amanhã, mas aquele que permanece. Em virtude da unidade fundamental entre a proximidade e a distância própria de toda relação humana, ele está longe das pessoas de que é próximo; sua condição de estrangeiro fazendo com que embora distante, ele lhes seja igualmente próximo. Sua objetividade constitui outro aspecto de seu status. Não estando fundamentalmente ligado nem aos traços particulares nem as tendências específicas do grupo, ele as examina com objetividade. Todavia, essa objetividade não é feita apenas de passividade e de desligamento. Ela corresponde a uma estrutura específica feita de distância e de proximidade, de indiferença e de participação... Quem diz objetividade não quer dizer não-participação (situando-se este termo fora de um estilo de interação subjetiva ou objetiva), mais uma forma específica e positiva de participação 75

(1983, p. 402-404).

Desse modo, a “metáfora do estrangeiro” foi fecunda, ajudando-me a pensar estratégias e formas de proceder no campo de pesquisa, esclarecendo sobre a necessidade de se criar uma distância adequada nas relações construídas no lócus da investigação. Tal distância assinala o entendimento de que, o pesquisador, em contextos peculiares, deverá conviver com a síntese oscilante de dois contrários, ou seja, entre aquilo que é representado pela ordem convencional das coisas e pelo olhar que dela se tem à distância. Assim, para compreender a conduta do indivíduo “crente”, o pesquisador deve – entre outros recursos – converter o olhar e visualizar as coisas do ponto de vista do incrédulo. Nesta lógica, busquei, a todo o momento, clarificar minha relação com as meninas envolvidas na prática de homicídio, procurando construir um clima de confiança e acolhimento, sem deixar-me envolver nas “tramas dos dramas” que circunscrevem suas vidas. Tal estratégia permitiu evitar, ao mesmo tempo, a “hipermetropia” do observador que se posiciona muito distante de seus protagonistas, quanto à visão “míope” do participante, que tende de fato a ter uma

75

Ver: The Stranger. In: The sociology of George Simmel. Glencoe III, Free Press, Trad. Dinah de Abreu Azevedo. Tradução cotejada com o original alemão Exkurhs über den Fremden. In: Sociologie, Ed. Cit., 1950. Ver ainda: Sociologie et Épistémologie. Paris: PUF, 1981; e de Alfred Shutz: Collected Papers: Studies in Social Theory. The Hague: Martinus Nijhoff, 1964.

intimidade excessiva com o “morador de rua”, com o “presidiário”, com o indígena ou homicida, a ponto de se tornar, ele próprio, um deles. Em verdade, não me servi do meu “status de estrangeira” para alienar a cultura do internato ou violar suas regras, de forma proposital. Busquei, sim, entender as trajetórias de meninas que acabaram por negociar com as rotas do crime, numa tentativa de decifrar seus contextos, perspectivas e processos identitários.

No universo das adolescentes em cena, um elemento a provocar-me, continuamente, foi o próprio corpo destas meninas envolvidas na prática do homicídio. São corpos marcados pelas suas vivências: cicatrizes de balas e ou de facadas; queimaduras de escapamento de motos; tatuagens como memória viva de vínculos, inserções e situações. Enfim, são corpos mapeados e sinalizados que encarnam trajetórias. Assim, realizei sessões fotográficas das marcas e sinais destes corpos juvenis a vivenciar a privação de liberdade. As reflexões e análises, desencadeadas por este instigante material empírico foram a base na construção de um capítulo intitulado: “identidade à flor da pele: tatuagens, marcas e sinais de uma identidade em produção”. O objetivo deste capítulo é entender estas marcas de cicatrizes e tatuagens, desenhadas nos corpos das adolescentes, como sinalizadores de trajetórias identitárias. O pressuposto de análise é o entendimento de que o corpo da jovem muito revela, do projeto, sempre em aberto, de suas vidas. Nesta busca de trajetórias, empreendi uma tessitura teoria-empiria, trabalhando imagens e narrativas das meninas sobre as marcas e sinais inscritos em seus corpos.

Lançando um olhar crítico-reflexivo sobre os meus caminhos investigativos, seguindo trilhas e rastros deixados pelas personagens deste estudo, percebo que fui empreendendo um esforço que me permitiu, como pesquisadora, “romper a casca do ovo”. Nestes percursos, muitas vezes, minha sensação oscilou entre o pensamento de “estar à deriva”, à semelhança de alguém que procura novos rumos e descobertas, em contraste com o impulso curioso e criativo, que encarna maneiras críticas de pensar e se posicionar no campo investigativo, típicas de alguém que não quer ser percebido como simples “forasteiro” no meio de sujeitos classificados como “marginais”. Nesta perspectiva, construí uma “démarche” que implicou em dois momentos distintos:

1. Momento de campo no internato, o qual se revelou, à primeira vista, como um “mundo de grades e obstáculos” (OLIVEIRA, 2001, p. 22), tanto para as meninas em cumprimento de sentença, como para mim. Senti-me vigiada e direcionada a seguir certas normas institucionais. Neste momento investigativo, o diário de pesquisa também se

configurou como um lugar de desabafo, onde relatei minhas dificuldades, desconfianças, estranhamentos e angústias deste percurso de pesquisa;

2. Momento de campo em diferentes espaços e situações, no resgate de trajetórias, deslocando-me até aos lugares onde fosse possível e viável encontrar com estas protagonistas. Vale ressaltar que “esbarrei” com elas em locais tantas vezes inesperados: terminais de ônibus, na Avenida Beira-Mar, em parques públicos (Parque do Cocó, Parque Adahil Barreto), no Centro de Fortaleza e em vários outros espaços. Contudo, após o desligamento das jovens do internato e diante das imprevisibilidades de encontros, mantive contatos telefônicos com as adolescentes e/ou contatos indiretos, através de recados enviados pela família ou até pelos técnicos do Centro Educacional. Enfim, fui criando estratégias para chegar às protagonistas, agora de volta à vida, sem as grades do espaço institucional.

Assim, o internato se definiu como o primeiro recorte para adentrar as trajetórias trilhadas por meninas envolvidas na prática de homicídio como campo prenhe de ambiguidades e de questões que a nossa sociedade não consegue resolver sem apelar para a naturalização e indiferença. Nesta lógica, o internato é entendido aqui como um momento de trânsito, circunscrito como espaço de negociação identitária, lugar onde as jovens experienciam múltiplos processos desencadeadores de redefinições de trajetórias: condição de cumprimento de uma sentença judicial; privação de liberdade; vigilância institucional permanente; obediência às regras institucionais e o desafio de conviver coletivamente com meninas que têm em comum a marca do conflito com a lei. Assim, o internato é entendido como um território fronteiriço, lugar onde “algo começa a se fazer presente...” (BHABHA, 1998, p. 24) na vida das minhas protagonistas, circunscrito no limiar entre a reclusão e a vivência em liberdade, tão esperada após o cumprimento da “sentença”, consubstanciada na chamada “medida socioeducativa de internação”.

Benzer Belgeler