3. KĠTAP TANITIM YAZILARI VE MAKALELER
3.7 RA, The Royal Academy of Arts Magazine, London, Friends of The Royal
O sentido do trabalho carece de multirrefenciais para ser desvendado. A Filosofia, a Economia, a Sociologia, a Psicologia devem ser convidadas a participar dessa análise. Antes, porém, é fundamental a compreensão desse complexo fenômeno chamado trabalho.
O trabalho é uma das colunas da sociedade capitalista moderna. Ele é imprescindível na atual forma de viver da humanidade. Por outro lado, o trabalho compõe um conjunto de fatores que próprio homem precisa para viver. De acordo com Morin (2001), mesmo que as pessoas não precisassem financeiramente do trabalho, mesmo assim o faria por diversas razões, entre elas:
para se relacionar com outras pessoas, para ter o sentimento de pertencimento, para ter algo que fazer, para evitar o tédio e para se ter um objetivo na vida.
Por meio do trabalho e a linguagem o ser humano entra no mundo da cultura e se distingue do animal. Pelo trabalho, o ser humano conhece e transforma a natureza; convive com os seus semelhantes além da família; conhece seu poder e suas limitações; impõe-se uma disciplina; desenvolve habilidades e imaginação, isto é, pelo trabalho o individuo se autoproduz (ARANHA; MARTINS, 2003). Afirma ainda as autoras: “Como o trabalho, o ser humano não permanece o mesmo, porque modifica a percepção do mundo e de si próprio.”.
Se o trabalho existe desde que o primeiro ser humano transformou a madeira em um arado ou em uma lança, o seu significado e sua importância, por terem sido submetidos a profundas reviravoltas, mudaram ao longo dos séculos de maneira radical e numerosas vezes sucessivamente, conforme constata Lévy-Leboyer (1999).
Essas alterações no significado do trabalho, citadas acima, são frutos das mudanças sociais, econômicas e tecnológicas pelas quais passam a humanidade. Atualmente, destacam-se duas grandes visões de significados com componentes avaliativos claramente antagônicos (BASTOS et al.1995).
De um lado tem-se a visão que vincula o trabalho à noção de sacrifício, de esforço incomum, de carga, fardo, algo esgotante para quem o realiza. Trabalho como sinônimo de luta, lida, lide. A punição a Adão e Eva pela desobediência foi a expulsão do paraíso e a condenação ao trabalho. A Eva coube também o “trabalho” do parto. (BASTOS et al., 1995).
Essa visão negativa do trabalho advém do significado do termo latino que originou a palavra trabalho (tripaliare) e do substantivo tripaliuum, instrumento de tortura formado por três paus, ao qual eram atados os condenados. Daí a associação do trabalho à noção de punição, tortura, sofrimento, pena, labuta etc., (ARANHA; MARTINS, 2003).
Tanto na Antiguidade grega como na Roma escravagista, afirmam as autoras, o trabalho manual é desvalorizado por ser feito por escravos, enquanto as pessoas livres – em alguns casos as mulheres não eram incluídas nessa definição – se dedicavam ao “ócio digno”.
Na outra visão, ainda conforme Bastos et al.(1995), o significado do trabalho é positivo, visto como a aplicação das capacidades humanas para propiciar o domínio da natureza, sendo responsável pela própria condição humana. Essa reabilitação do trabalho começa ainda na idade média com Santo Tomás de Aquino, que afirma que todos os trabalhos, inclusive o manual se equivalem e são dignos. Nesta visão, o trabalho significa fazer com cuidado, ter
atenção na execução de uma tarefa. Na tradição cristã, com a Reforma protestante, o trabalho passa a ser visto como instrumento da salvação e forma de realizar a vontade divina.
Morin (2001), articulando vários conceitos define trabalho como sendo o dispêndio de energia mediante um conjunto de atividades coordenadas que visam produzir algo útil. Assevera a autora, que o trabalho pode ser agradável ou desagradável; associado ou não a trocas de natureza econômica; executado ou não dentro de um emprego. O trabalho seria assim uma atividade útil, determinada por um objetivo definido além do prazer gerado por sua execução. Destaca ainda a importância e os papéis do trabalho na sociedade moderna. Para a autora, o trabalho exerce uma influência considerável sobre a motivação dos trabalhadores e também sobre sua produtividade.
Del Maestro Filho (2007) apresenta um conceito mais prático e contemporâneo ao lembrar que o trabalho é o meio pelo qual o ser humana consegue o seu sustento, mesmo que possibilite o seu desenvolvimento pessoal e familiar.
Lévy-Leboyer (1999), numa perspectiva sociológica, declara que o trabalho se revela como um potencial para a satisfação de necessidades sociais que se sobrepõe até mesmo à família, vizinhança ou associações em geral. Apesar disso, a autora ressalta que o trabalho nos últimos anos tende a ser percebido como rotineiro, repetitivo e burocrático, levando os trabalhadores a um estado de crise com relação às suas motivações.
O sentido do trabalho pode ser compreendido, então, como um componente da realidade social construída e reproduzida, que interage com diferentes variáveis pessoais e sociais e influencia as ações das pessoas. Tolfo e Piccinini (2007) afirmam que o sentido do trabalho influencia (além de ser influenciado) o próprio trabalho, a flexibilidade e a produtividade dos empregados, pois afeta as crenças sobre o que é legítimo e o que se pode tolerar do trabalho. Benevides e Spessoto (2009) retiram do conceito de sentido do trabalho três componentes. O primeiro está ligado com o significado do trabalho propriamente dito, reflete o valor do trabalho aos olhos do indivíduo e a definição ou representação que ele tem. O segundo, diz respeito à orientação da pessoa no seu trabalho, o que ela busca e os propósitos que guiam suas ações. O terceiro, a relação fenomenológica entre o indivíduo e o trabalho que ele executa e entre suas expectativas e valores e o que ele mostra quotidianamente no trabalho. Que pese a inexistência de uma teoria que organize o corpo de conhecimentos existente e da qual possam ser retiradas conclusões inequívocas sobre o significado do trabalho, o papel das organizações, afirma Morin (2001, p.9), é o de investir na modificação dos comportamentos
de tal forma que, gradualmente, os trabalhadores sejam conduzidos a desenvolver atitudes positivas com relação ao seu trabalho, à empresa que os emprega e a eles próprios. “É o comprometimento com o trabalho que constitui o principal indicador de uma organização eficaz”.
Afirma ainda a autora, no mesmo sentido de Aranha e Martins (2003), que a execução de tarefas permite às pessoas exercerem seus talentos e suas competências, resolver problemas, exercitar novas experiências, aprender novas competências. Em outras palavras: realizar-se, atualizar seu potencial e aumentar sua autonomia. A satisfação que pode ser obtida na execução de tarefas dá sentido ao trabalho.
Evidenciando mais uma vez a multirreferencialidade, apresenta-se uma visão filosófica. Cortela (2007) lembra que trabalho é obra e que obra vem do grego poiesis, que significa obra, aquilo que se faz, que se constrói, em que se vê. Seria a criação na qual o indivíduo cria a si mesmo na medida em que cria o mundo.
Se o trabalho tem diferentes significações, a relação do ser humano com ele padece também, como ser verá na próxima seção, de várias significações.