BÖLÜM II. ŞÖHRET ARAYÜZÜ
2.3 Şöhrete Tarihsel Bir Bakış
2.3.3 Rönesans ve Şöhret
O período democrático, apesar da clandestinidade do PCB, de 1946 a 1964 se pautou pela organização liberal democrática. Nessa época a União Democrática Nacional (UND), o Partido Democrático Social (PSD), o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e o Partido Social Progressista eram as principais instituições partidárias do sistema político. Aqui nos concentraremos nos três primeiros partidos políticos, porém, todos eles, neste recorte cronológico, precisaram se posicionar, de uma forma ou de outra, sobre temas que ocupavam a mente e o coração das pessoas no
151 VIZENTINI, Paulo G. Fagundes. Do nacional-desenvolvimentismo à Política Externa Independente
(1945-1964). In: FERREIRA, Jorge e DELGADO, Lucília de Almeida Neves (orgs) O Brasil Republicano, vol. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 200.
152 REIS, Daniel Aarão. Entre Reforma e revolução: a trajetória do partido Comunista do Brasil entre 1943 e 1964. In: História do marxismo no Brasil: partidos e organizações dos anos 1920 aos 1960. Campinas: Edunicamp, 2007, vol. 5.
debate político: getulismo, trabalhismo, nacionalismo e reformas de base estavam na ordem do dia.
Ângela de Castro Gomes, assim explica o getulismo, enfatizando a amplitude que o conceito quer trazer em relação aos limites do partido e de uma doutrina partidária,
O getulismo excedia o trabalhismo e o PTB, e não por motivos de acordos interpartidários, comuns em momentos eleitorais. O getulismo era trabalhismo se nessa associação a dimensão ideológica fosse privilegiada; mas getulismo não era trabalhismo em termos organizacionais, isto é, partidários153.
Ângela de Castro Gomes154 e Lucília de Almeida Neves Delgado155 trabalham estes temas e destacam a ligação do trabalhismo, do getulismo (forma personalista), do reformismo e do nacionalismo com o PTB. Gomes ainda aponta a influência do partido trabalhista inglês na forma de aproximação dos interesses das classes trabalhadoras. Delgado, entre outros autores, destaca o diferencial do PTB por incluir na plataforma programática as questões sociais. Esta historiadora nos mostra o conteúdo do programa do PTB e a composição partidária da Câmara Federal de 1945-1962, onde identificamos respectivamente a pauta de reivindicações sociais e o crescimento da bancada trabalhista na Câmara Federal.
A organização do PTB é estudada com enfoque em três tendências: getulistas pragmáticos (burocratas e sindicalistas ligados a Getúlio e ao Ministério do Trabalho com hegemonia no partido entre 1945 e 1954); doutrinários trabalhistas (intelectuais orgânicos que queriam desvincular o partido do Estado com influência no partido de 1948 até a década de 1960); pragmáticos reformistas (com atuação de 1955 em diante e características da tendência getulista e da doutrinária, seu expoente principal foi João Goulart).156 Vale lembrar que o Ministério do Trabalho incluiu
também elementos provenientes dos círculos chamados libertários, como foi exposto anteriormente com citação de Bóris Fausto.
O PTB se aproximou do PCB no fim da década de 1950 e início da de 1960, o que provocou rupturas do PSD com o PTB. Concomitante ao estabelecimento desta
153 GOMES, Ângela de Castro. Partido Trabalhista Brasileiro (1945-1965): getulismo, trabalhismo, nacionalismo e reformas de base. In: FERREIRA, Jorge, REIS, Daniel Aarão (orgs) As Esquerdas no Brasil. Vol. 2, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p.66.
154 Op. Cit.
155 DELGADO, Lucília de Almeida Neves. Partidos políticos e frentes parlamentares: projetos desafios
e conflitos na democracia. In FERREIRA, Jorge e DELGADO, Lucília de A. N. (orgs) O Brasil
Republicano. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
156 NEVES, Lucília de Almeida. Trabalhismo, nacionalismo e desenvolvimentismo: um projeto para o Brasil. in: FERREIRA, Jorge. O populismo e sua história. p. 177 e 178.
aliança, observamos que a necessidade de uma reforma agrária no Brasil ganhou corpo no PTB e que este passou a apresentar em seu programa um conjunto de propostas que atemorizaram as elites brasileiras. Como destaca a literatura – Gomes, Delgado e também Maria Victoria Benevides157 em trabalho sobre Juscelino
Kubitscheck –, o PSD adere à proposta da industrialização modernizadora, mas permanece ligado ao latifúndio, se afastando do PTB e de sua proposta de reforma agrária, tributária, urbana e educacional.
O Brasil continua calcando sua política externa no alinhamento automático com os EUA. Também prossegue a abertura completa da economia ao capital internacional. Entretanto, JK retoma o projeto de industrialização, só que agora apoiado na produção de bens de consumo durável para as classes de média e elevada renda158
É importante a observação de que apesar do perfil pragmático de muitas lideranças trabalhistas, esta conduta e também o personalismo eram combatidos no interior do partido pelos chamados doutrinários trabalhistas. Estes se constituíram em defensores de um reformismo social que integrou o programa do PTB até sua extinção com o golpe militar de 1964.159
O perfil doutrinário e pedagógico com que Pasqualini conduziu sua campanha o diferenciava bastante dos demais candidatos, e isso teria dado ao Partido um perfil bastante peculiar. É de se destacar também a ausência de argumentos que fizessem referências sólidas a Getúlio ou ao getulismo no seu discurso (...) . Até então, as falas de Pasqualini pouco se ocupavam disso, sendo muito mais voltadas para definir e formar uma mentalidade social transformadora, porém sem referências a um líder condutor, somente ao Estado. À medida que os anos passavam, no entanto, a relação entre Vargas e Pasqualini sofreria alterações. Era raro Alberto Pasqualini fazer referências públicas a Vargas no início do convívio partidário. Contudo, anos depois, em 1950, já durante sua campanha para o Senado, isso foi se tornando cada vez mais frequente [...] Se antes Pasqualini criticava o personalismo varguista, agora a figura de Vargas era vista como importante instrumento de fortalecimento e atração para o trabalhismo.160
Nas palavras do próprio Alberto Pasqualini:
Creio que, assim, poderemos perceber melhor o que o Getúlio Vargas representa para a massa trabalhadora. O povo não poderia compreender o trabalhismo nos seus delineamentos teóricos, na sua concepção abstrata, nos seus princípios científicos. Sabe, porém compreende-lo através da ação
157 BENEVIDES, Maria V. O governo Kubitschek: a esperança como fator de desenvolvimento. In: GOMES, Ângela de C. O Brasil de JK. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2002.
158 VIZENTINI, Paulo G. Fagundes. op cit. p. 205. 159 Neves, op. cit. p.188.
160 VASCONCELLOS, Laura V. Alberto Pasqualini e o trabalhismo no Brasil. Dissertação (Mestrado) Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Rio de Janeiro, 2007, p. 35
política e administrativa de um homem que o tem realizado. Essa pessoa representa para o povo uma diretriz, uma tendência que sabe corresponder às suas necessidades, aos seus anseios, às suas aspirações. Não segue o povo uma orientação por causa da pessoa, mas segue a pessoa por causa de sua orientação. A ideia é mais assimilável através de sua personificação, que se não deve confundir com personalismo.161
O problema do personalismo influenciando a baixa institucionalização dos partidos permanece como objeto a ser estudado ainda hoje nas relações políticas e sociais estabelecidas no Brasil. Tradicionalmente, o PSD se organizava em torno dos chefes locais, numa postura considerada pragmática. Para os chefes locais, “seu poder político e sua capacidade de arrebanhar votos estavam largamente condicionados à sua capacidade de distribuir empregos e obras públicas à sua clientela”.162
A UDN permanecia ligada à elite latifundiária e aos setores conservadores do Brasil, tendo São Paulo como espaço de convergência maior de forças políticas. A inclinação do PSD para o campo da UDN deixou os trabalhistas isolados na disputa política. O temor do uso social da terra e das fábricas, em detrimento do direito liberal da inviolabilidade da propriedade privada, permitiu a formação de uma coalizão de forças entre militares, partidos políticos, Igreja, imprensa e sociedade civil que culminou com a deflagração do regime ditatorial imposto pelos militares em consonância com os interesses conservadores e do grande capital fincados na sociedade brasileira.
O PTB se apresentou nesse período como a grande força política ligada aos interesses populares, fundamentado no diferencial de incluir as questões sociais no âmbito do Estado, protegendo a população dos abusos do poder econômico. A plataforma política era ampla e os direitos sociais e trabalhistas incluídos, além do apoio à reforma agrária, inviabilizavam a continuidade das relações econômicas e sociais estabelecidas na sociedade e com os outros partidos maiores.
Em 1945, o PTB ocupava 7,7 % das vagas na Câmara Federal, e em 1962, 29,8 %, ficando abaixo do primeiro lugar na composição partidária da Câmara Federal, o PSD, por apenas 0,5% dos votos. O PDS ocupava, em 1945, por volta de cinquenta
161 Ibidem, p. 35.
162 MARAN, Scheldon. Juscelino Kubitschek e a política presidencial. In GOMES, Ângela de Castro. O
por cento da Câmara e a UDN em torno de 29%. A UDN foi o partido mais prejudicado ao longo desse período, ficando com 23,4 % das vagas em 1962.163 O aumento da representatividade do PTB no sistema político está ligado ao programa de defesa das classes trabalhadoras e a isso se somava a herança trabalhista. De acordo com Jorge Ferreira
No trabalhismo, estavam presentes ideias, crenças, valores e códigos comportamentais que circulavam entre os próprios trabalhadores muito antes de 1930. Compreendido como um conjunto de experiências políticas, econômicas, sociais, ideológicas e culturais, o trabalhismo expressou uma consciência de classe, legítima por que histórica.
(...) O próprio projeto trabalhista, para ser compreendido e aceito, não pode ignorar o patrimônio simbólico presente na cultura política popular. O sucesso do trabalhismo, portanto, não foi arbitrário e, muito menos, imposto pela propaganda política e pela máquina policial. Igualmente não foi casual que o PTB, a institucionalização do projeto, tenha sido a organização mais popular durante a experiência democrática pós-45, tornando-se, em 1964, a maior agremiação no espectro político do país164
Ferreira entende da mesma forma que Ângela Gomes a relação entre classe trabalhadora e Estado como uma via de mão dupla, ou seja, o que aconteceu não foi somente uma manipulação. Havia trocas, interesses atendidos entre a classe política e os trabalhadores. Seguem destoando em seu modelo teórico da ideia de que houve um "desvio" promovido pelo Estado varguista.
A urbanização rompeu com a política do voto estabelecido e contabilizado nas fazendas e assim a classe política teve que se direcionar ao eleitor, ir até ele, mesmo que demagogicamente, para buscar atender às suas expectativas. Na primeira república o voto estava consolidado na prática das eleições a bico de pena e ata falsa, que foram extintas do sistema político.
Neste novo contexto, a oligarquia ingressou em partidos voltados para angariar votos das massas e teve que sujeitar às novas regras do jogo, no qual elas não tinham mais a hegemonia como outrora, o que não significa, porém, que restaram submissas. A UDN compôs um agrupamento de pessoas que se identificaram na oposição ao Estado Novo e continuou combatendo a herança política de Getúlio
163 DELGADO, 2003, p. 142.
164 FERREIRA, Jorge. O nome e a coisa: o populismo na política brasileira. _ O Populismo e sua história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001, p.103.
Vargas.165 Foi composta pela seguinte coalizão de forças conforme nos apresenta
Delgado:
a) oligarquias destronadas com a Revolução de 1930;
b) antigos aliados de Getúlio, marginalizados depois de 1930 ou em 1937; c) os que participaram do Estado Novo e se afastaram antes de 1945; d) os grupos liberais com uma forte identificação regional;
e) as esquerdas166.
O confronto das forças políticas nesse contexto criou condições para a articulação e formação de frentes que divergiram em questões ideológicas e políticas. A Frente Parlamentar Nacionalista (FPN) atuou entre 1956 e 1964 com evidente postura nacionalista que representava no congresso proposições do interesse de organizações como Confederação Geral dos Trabalhadores, Pacto de Unidade e Ação (PUA – organização intersindical), Ligas Camponesas, União Nacional dos Estudantes (UNE); foi já uma segunda experiência pois a primeira foi frustrada por Juscelino Kubitschek que fechou a Liga de Emancipação Nacional em 1956.167 A FPN representava o pensamento trabalhista.
Fernando Ferrari, em texto da década de 1950, exalta em uma de suas falas no Legislativo Federal o “pensar trabalhisticamente” e, como representante do PTB, contou com o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) na divulgação e fundamentação teórica de seu programa. Intelectuais e advogados trabalhistas reforçavam os princípios da corrente nacional-estatista.
A frente chamada Ação Democrática Parlamentar (ADP) foi composta pela UDN, pelo PR e por alguns integrantes do PSD que não concordavam com o caráter nacionalista, distributivo e reformista do PTB. Os integrantes da ADP se apropriaram do Estado após o golpe e contaram com investimentos estrangeiros para sua mobilização ideológica e política. A ADP contou também com o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), organismo financiado por empresários brasileiros e estrangeiros que gastou “alguns milhões de dólares” no combate à propagação do comunismo no Brasil. Isto significou combater também o trabalhismo que já
165 DELGADO, 2003, p.142. 166 Ibidem, p.137
apresentava estreitas ligações com os comunistas, mas que não se confundia com esta doutrina.168
As frentes parlamentares representavam interesses antagônicos na sociedade brasileira. E a renúncia de Jânio Quadros à presidência,169 em 1961, fez tencionar
mais ainda as forças em oposição presentes na política brasileira. O PTB vinha constantemente sendo identificado com os interesses do comunismo soviético por aqueles que, embora apresentassem um discurso em defesa da pátria, representavam contraditoriamente os interesses do capital estrangeiro no Brasil. A UDN juntamente com a oligarquia paulista e de outros estados, comerciantes e a imprensa conclamavam os militares para pôr fim à “ameaça estrangeira no Brasil”, não a dos EUA, identificados como aliados, mas da URSS.
A posse de João Goulart foi garantida por forças legalistas localizadas na imprensa, com destaque para o Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Diário de Notícias, Diário Carioca, A Noite, O Jornal, Última Hora, Correio Brasiliense, Zero Hora170, e no meio militar, marechal Henrique Teixeira Lott entre outros militares.
A imprensa apoiou a posse de João Goulart, porém a radicalização do discurso em prol da nacionalização das riquezas e de sua distribuição de forma mais equitativa que ganhava corpo dentro do PTB levou ao afastamento por parte dos setores da imprensa que anteriormente o apoiaram. Sobretudo pelo temor da campanha de seu cunhado, Leonel Brizola, que inclusive conclamou a população a se armar para a defesa desses interesses.
O tempo do trabalhismo foi marcado por ambiguidades e contradições. Significou paradoxalmente dirigismo, paternalismo e potencial de autonomia para sujeitos históricos, como o eram os trabalhadores brasileiros. Foi marcado pelo personalismo de seus líderes, mas acalentou proposições cooperativas e coletivistas. Significou busca de aperfeiçoamento do capitalismo, buscando humanizá-lo para reforçá-lo, mas também representou alguma possibilidade de aproximação com o socialismo reformista. Traduziu
168 Esta distinção remete à discussão sobre reforma ou revolução, qual a investida mais eficiente para mudança qualitativa na organização do Estado brasileiro. Para ver mais sobre as frentes parlamentares e sua atuação ver Delgado (op. Cit.)
169 Ato considerado por sua filha como causa dos males da sociedade brasileira durante a redemocratização, e de caráter golpista. Ver: Filha de Jango responsabiliza-o por crise no país. A Gazeta, 25/08/1988, p. 2.
170 Para atuação da imprensa no golpe de 1964 ver ABREU, Alzira A. A imprensa ajudou a derrubar o
governo Goulart. In FERREIRA, M (org.). João Goulart: entre a memória e a história. RJ: Ed. FGV,
repúdio à luta de classes, mas ao mesmo tempo acabou por incentivar reivindicações de forte teor conflitivo por parte dos trabalhadores.171
À medida que o PTB se aproximava das forças populares e colocava as reformas de base na ordem do dia “na lei ou na marra” e que os protestos iam aumentando, as forças conservadoras procuraram isolá-lo.
Como demonstra Rodrigo Motta172 existiam vários grupos, além do IBAD, que articulavam os interesses das classes dominantes no Brasil, defendendo uma propaganda liberal, antiestatal, como fazia este instituto por meio da revista Ação
Democrática com tiragens muito altas, material caro e distribuição gratuita chegando
a mais de 200 mil exemplares no auge das publicações . O Grupo de Ação Patriótica era formado por estudantes universitários de orientação direitista que se envolveram no contrabando de armas.
Havia ainda Cruzada Cristã Anticomunista; Centro Brasileiro Europa Livre; Patrulha da Democracia (organização secreta que reunia 15 pessoas); Movimento Anticomunista (MAC) e Comando de Caça aos Comunistas (CCC), que executavam sequestros de personalidades de esquerda além de colocarem bombas em alvos comunistas, organismos que continuaram ativos após o golpe militar; Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP); Liga Feminina Anti- Comunista; Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES); entre outras organizações no Brasil que se espalharam como objetivo de garantir a continuidade da estrutura social, política e econômica do Brasil.173 Alguns elementos filiados a estes institutos fizeram conspiração contra Jango chegando inclusive a fazer estoque de armas, contatos na área militar, e a constituir serviço de inteligência por iniciativa própria da organização, que durante o golpe dará subsídio à Comunidade de Informações dos militares. A garantia da permanência e continuidade da estrutura socioeconômica brasileira estava colocada no chamamento à intervenção das forças armadas na sociedade e na política brasileira.
O PTB fortalecia seu discurso junto aos movimentos sociais que eram bem expressivos se comparados aos períodos anteriores. Porém, o alcance do
171 NEVES, Lucília de Almeida. Trabalhismo, nacionalismo e desenvolvimentismo: um projeto para o Brasil. in: FERREIRA, Jorge (org.). O populismo e sua história. p. 202.
172 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. João Goulart e a mobilização anticomunista de 1961-1964. : IN: FERREIRA, M (org.). João Goulart: entre a memória e a história. RJ: Ed. FGV, 2006.
trabalhismo na sociedade brasileira, apesar de ganhar força ao longo dos anos com aumento contínuo da representação na Câmara, não abrangia toda a sociedade e não impediu que Jango e o PTB fossem extirpados do cenário político nacional brasileiro em 1964.
O jornal do Brasil anunciou em 20 de março de 1964 que cerca de 500 mil pessoas participaram em São Paulo, da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, o que foi uma resposta dos grupos conservadores à iniciativa do PTB e de Jango de promover comícios em cidades estratégicas em favor das ‘reformas de base’. Já no primeiro comício, Goulart assinou um decreto nacionalizando refinarias de petróleo privadas e outro desapropriando propriedades que ultrapassassem 100 hectares localizadas a 10 kilômetros a margem de rodovias ou ferrovias e as de mais de 30 hectares situadas nas zonas que constituíam bacias de irrigação dos açudes públicos federais.174
As propostas de reformas encampadas pelo governo incentivaram o surgimento de organizações das classes médias, preocupadas com a perda da situação social (status quo) e por isso sensíveis aos discursos reacionários, contra os movimentos populares e urbanos. O plebiscito realizado no Brasil após a posse de Jango, altamente favorável ao presidencialismo deu a Goulart e ao PTB a falsa ideia de que a maioria do país era favorável às “reformas de base”, ou que havia condições para implementação das mesmas.
A Revolta dos Sargentos deu início ao afastamento da imprensa em relação a Goulart e ao PTB, uma vez que as declarações dos trabalhistas incluíam a reivindicação dos militares de baixa patente insurgidos em seu programa quando ao contrário era esperada uma represália do governo em relação a este movimento. A Revolta dos Marinheiros liderados pelo cabo Ancelmo em 26 de março de 1964 foi interpretada como o início da revolução comunista servindo, portanto, de justificativa para os grupos de direita e as forças armadas acelerarem o golpe e tomarem o poder, sob o pretexto de se preservar a ordem social e a hierarquia nas forças Armadas.175
174 ABREU, A. 2006, p.122 e 123. 175 Ibidem.
1.5 A supressão do trabalhismo pela Ditadura Militar e o retorno com a Nova