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BÖLÜM V. BULGULAR VE YORUM

5.1 Pazar Dergisi: Sahiplik ve Denetim

5.1.1 Pazar Dergisi’nin kurucusu Safa Kılıçoğlu

O golpe militar deflagrado em 31 de Março de 1964 teve apoio de diversos setores da sociedade e também dos Estados Unidos da América. Os estadunidenses se ressentiam da política externa independente que vinha sendo adotada no Brasil a partir a Revolução de 1930.

A defesa de um projeto nacionalista levada a cabo com a Revolução de 1930 encontrou lugar no Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), na frente política- parlamentar, e na Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) que se somou ao Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Numa mesma linha de atuação estavam intelectuais comprometidos com reformas sociais e com a defesa dos interesses nacionais.

Num outro polo articulavam-se empresários, latifundiários e representantes do capital internacional que foram os principais atores deste golpe que vinha sendo urdido desde a década de 1950. Os golpistas contavam com o apoio do Instituto Brasileiro de Ação Democrática e dos Institutos de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), órgãos ligados aos militares. As linhas ideológicas destes institutos eram definidas na Escola Superior de Guerra (ESG). Já na frente político-partidária os golpistas se articulavam a partir da União Democrática Nacional, partido que congregava as forças conservadoras do país entre os anos de 1946 a 1964.

Neste período dois projetos estavam em disputa, um nacionalista e outro "entreguista".219 O projeto nacional-desenvolvimentista getulista/trabalhista buscava

a multilateralização das relações internacionais, com isso passava a se desvincular de um alinhamento histórico com o imperialismo estadunidense. No trabalhismo as chamadas Reformas de Base, entendidas como uma necessidade para se alcançar maior justiça social no campo, se associou ao projeto que previa um desenvolvimento capitalista alavancado por meio da industrialização.220

Observa-se que "o nacionalismo não era hostil ao capital estrangeiro, mas à sua fuga ou ausência.”221 O capital contudo se opunha a essa tese, buscava garantir o

219 VEZENTINI, 2007.

220 Reforma agrária, educacional, fiscal, eleitoral, urbana, do estatuto do capital estrangeiro e bancária.

repatriamento do capital investido além da política econômica favorável. Essa perspectiva é a mesma que se encontra em destaque na Carta-Testamento de Getúlio Vargas, ocasião em que ele denuncia os vultuosos lucros das empresas estrangeiras e o esforço realizado pelo Governo para diminuir o valor das remessas de lucro ao exterior.

Esse quadro conflituoso redundou na conhecida tragédia da história política brasileira. A esse respeito Vezentini considera que, "articulando-se diretamente com Washington a oposição acabou isolando o governo e levando o presidente ao suicídio em 1954”.222

A morte de Getúlio não pôs fim ao trabalhismo getulista, pelo contrário, João Goulart (Jango), Leonel Brizola, Fernando Ferrari, Alberto Pasqualini (ideólogo do trabalhismo do PTB) deram continuidade, juntamente com muitos outros militantes, ao projeto que não era exclusivamente dele. O PTB prosseguiu conquistando paulatinamente mais espaço no Congresso Nacional.223 O projeto nacional- desenvolvimentista defendido pelo PTB foi incorporado ao reformismo. Com Jango esse discurso foi radicalizado e a defesa dos interesses dos trabalhadores atemorizou as elites conservadoras. Em 1964, Jango se colocou a favor dos sargentos revoltosos contra superiores hierárquicos, promoveu encampação de empresas privadas e regulamentou a remessa de lucro ao exterior.

Diante desse quadro na Guerra Fria, o serviço de inteligência estadunidense militar, "a CIA atuava no país apoiando os setores golpistas, enquanto a Casa Branca contornava o monopólio da política exterior pela União, negociando acordos apenas com os governadores da oposição, passando por cima do governo federal."224

Embora o regime político instaurado tenha sido uma ditadura militar, o desfecho de 1964 foi obra, portanto, não somente de uma facção militar, mas deve ser compreendido como uma articulação entre setores militares, do capital internacional e da sociedade civil.

A partir de 1964 o Brasil perceberá uma inversão no direcionamento da política externa e interna no que diz respeito ao desenvolvimento nacional. A partir daí o capital internacional se colocou de forma hegemônica e os militares cumpriram o

222 VEZENTINI, 2007, p. 204. 223 VEZENTINI, 2007, p. 204. 224 VEZENTINI, 2007, p. 20.

papel de realizar uma limpeza nas instituições promovendo prisões, torturas e extermínio. Esse projeto aterrorizante esteve presente no golpe desde os primeiros momentos.225 O historiador Carlos Fico, estudioso do tema, explica ainda que entre

as causas da ditadura militar estão “as transformações estruturais do capitalismo brasileiro, a fragilidade institucional do país, as incertezas que marcaram o governo de João Goulart, a propaganda política do Ipês, a índole golpista dos conspiradores, especialmente dos militares”.226

Em 1968 foi decretado o Ato Institucional nº 5, que restringiu as liberdades políticas e deu amplas margens de atuação ao Poder Executivo. Concomitante à face mais cruel do regime ditatorial que empreendeu prisões arbitrárias, tortura para conseguir informações dos presos, e exterminou sumariamente muitos deles, foi implementada uma política econômica que, acompanhando o desenvolvimento econômico mundial, refletiu em melhorias sociais e crescimento econômico do país.

Esse desenvolvimento econômico, o chamado "milagre econômico", entretanto, ocultava sua face sombria: o endividamento sem precedentes na história do Brasil do Estado brasileiro. O capital internacional, um dos principais interessados na política econômica adotada pelos militares, também foi protagonista no crescimento da dívida externa do país.

A dinâmica da economia brasileira levou à diminuição do papel do setor primário, enquanto que os setores secundário e terciário aumentaram em relação ao produto interno bruto (PIB) do Brasil. Na década de 1950 o setor primário compunha 60,1% da economia e despencou para 29,9% em 1980. O desenvolvimento industrial percebido nessas três décadas alavancou o crescimento do setor terciário. Francisco Carlos, que define esse período como modernização autoritária, formulou um quadro explicativo desse fenômeno a partir das taxas de inflação entre 1960 e 1983.227

Assim, observa-se que de 1962 a 1969 ocorreu um ciclo depressivo da economia brasileira a qual se recuperou em 1970 dentro do período chamado de “milagre econômico” (1968-1973). O impacto do aumento dos preços do petróleo provocados pelos protestos dos países árabes contra os EUA que apoiou Israel na Guerra do

225 FICO, 2004, p. 5; 23.

226 FICO, Carlos. Versões e controvérsias sobre 1964 e a ditadura militar. Revista Brasileira de História,São Paulo, Vol. 24, nº 47, 2004. Disponível em Scielo, acesso 23/06/2013, no endereço: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882004000100003.

Yom Kippur (1973) afetou a economia brasileira novamente. O Brasil vinha se desenvolvendo com sua economia ligada à industrialização, no processo de substituição de importações com forte abertura para o setor automobilístico.

Esta última crise provocada pelos acontecimentos de 1973 levou à ocorrência de novo período caracterizado por grandes greves operárias em São Paulo, que se tornaram mais marcantes no ano de 1979. A partir de 1980 o Brasil passou a promover a exportação de capitais para pagamento da dívida externa, herdada desse processo. A modernização econômica também alterou profundamente a organização social e política do país. Ocorreram transformações aceleradas

em todos os setores da vida brasileira com alterações estruturais importantes, e definitivas, como a relação campo/cidade e a reafirmação de estruturas já implantadas antes de 1950: a industrialização, a concentração de renda e a integração no conjunto econômico mundial.228

Modernização autoritária, modernização conservadora são conceitos aplicados ao processo de industrialização ocorrido no Brasil. No Espírito Santo o estudo desse mesmo fenômeno durante a década de 1970 redundou no conceito de “modernização violenta”. Souza Filho demonstrou que o processo de modernização da economia capixaba promoveu o desenvolvimento das forças produtivas e intensificou a concentração de renda e, desta forma, promoveu a exclusão social, assim como a expulsão do homem do campo, por isso acrescenta violenta.229

O milagre econômico dos militares promoveu o alinhamento da Política Externa do Brasil em relação ao comercio exterior, especialmente com os EUA.230 Os interesses estadunidenses no Brasil incluíam desde o favorecimento para empresários que desejavam realizar investimentos no Brasil e temiam a encampação de suas empresas quanto um claro plano de intervenção com vistas a garantir o alinhamento e afastar o perigo vermelho, potencializado pela situação de miséria e representado pelas forças progressistas alojadas no antigo PTB.231

228 SILVA, 1996, p.301.

229 SOUZA FILHO, 1990. 230 VIZENTINI, 2007.

231 Sobre as explicações das correntes mais importantes da historiografia acerca do golpe de 1964 e o papel dos EUA no mesmo ver: FICO, Carlos. Op. Cit. e O golpe de 1964 e o papel dos EUA. In: ARAUJO, M. A.; FERREIRA, M. M.; FICO, C.; QUADRAT, S. V. Ditadura e Democracia na América

A crise do petróleo de 1970 aprofundou o fosso aberto com a crise do café de 1962, principal produto da pauta de exportações brasileira que, como veremos, teve seus preços achatados e com profundos impactos no país e no estado do Espírito Santo. Como efeito desses fatores o Espírito Santo sofreu com a concentração fundiária e o êxodo rural.232

A Nova República colheu os frutos deste modelo econômico que aumentou a dependência do mercado internacional.Entre 1968 e 1973 a taxa de crescimento da renda per capta era de 7,9% para uma inflação de 19,1%. Entre 1986 e 1991 a taxa de crescimento da renda per capta foi de 0,2% para uma inflação de 876,3%. O PIB cresceu a uma média de 11,58% entre 1968 e 1973.233

A migração de excedente de renda para outros países foi facilitada pela lei 4.390/64 que ampliou de 10 para 12% a margem de remessa de lucros para o exterior sem o pagamento de imposto suplementar. A redação da lei 4.131 de 1962 que restringia a repatriação de no máximo 20% por ano do capital investido foi abolida pelos militares. Assim, os valores poderiam ser repatriados livremente, inclusive sem autorização prévia do Banco Central, organismo que também foi uma criação dos governos militares.234

As teorias econômicas e o discurso pautado na cientificidade de pressupostos cujos efeitos promoviam a exclusão social se colocaram como fundamento das mudanças que se realizavam.

Tendo em vista que para crescer o Brasil precisava elevar sua poupança interna, prevaleceu uma concepção segundo a qual não se deveriam adotar políticas econômicas de distribuição de renda, uma vez que as classes de renda mais elevada poupavam mais que as de baixa renda. Dessa forma, fundamentado nessa teoria, caso a renda nacional fosse direcionada aos mais pobres, a poupança interna diminuiria (conforme princípio econômico de que a propensão para consumir é maior nas classes de renda mais baixa).235

Tendo em vista as previstas reações ao caráter autoritário dessa política econômica, o controle do sistema econômico se encontrava protegido pela vigilância política e

232 VALADÃO, 1999; CAMPOS JÚNIOR, 2006.

233 Cf. VELOSO, Fernando A. Uma análise econométrica do crescimento econômico brasileiro. Disponível em http://bibliotecadigital.fgv.br/ocs/index.php/sceesp/ce/paper/viewFile/1212/398, acesso em 27/06/2013.

234 O conteúdo integral da lei criada no governo de Jango encontra-se no site http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4131.htm. As alterações e a nova redação feitas no governo militar de Castelo Branco, após o golpe encontram-se disponíveis no endereço eletrônico http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4390.htm. Acesso em 27/06/2013.

militar. A repressão se intensificou nesse contexto, já que concomitantemente os direitos sociais foram submetidos aos interesses do capital. Assim, as atividades sindicais e políticas voltadas para os interesses dos trabalhadores foram reduzidas devido ao controle exercido pelos militares que promoveu a desestruturação dos organismos oficiais de defesa da classe trabalhadora.

A condução do Estado passou a refletir a hegemonia do capital internacional. Nesse quadro, o crescimento econômico que elevou as taxas do PIB per capta não redundou em distribuição de renda, pelo contrário a superação da crise se voltou para o crescimento econômico com investimento nas empresas. Nesse modelo de desenvolvimento

Mesmo sem uma necessidade rigorosa de empréstimos externos que financiassem grandes déficits em transações correntes, ocorreu um aumento do endividamento, por meio da capacitação de recursos do exterior e seu repasse para empresas dentro do país (...) Houve um agravamento de todo o quadro social no país, algo em teoria incompatível com a visível elevação da riqueza nacional. De fato, segue uma interpretação do que teria sido o milagre econômico brasileiro: um intenso crescimento da acumulação capitalista beneficiado por altíssimas taxas de lucros resultantes da compressão dos salários dos trabalhadores, de maneira tão exagerada, que chegou a ameaçar a continuidade do processo de crescimento.236

Na sequência dos fatos a crise do petróleo de 1973 abalou a economia mundial, sobretudo as economias dependentes do mercado externo. Países como o Brasil sofreram forte redução da demanda. Nesse novo contexto, o Estado, no governo de Ernesto Geisel (1974-1979) tomou a frente dos investimentos e em aliança com o capital internacional privilegiou os bens de capital (máquinas e equipamentos) e insumos básicos.237