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OndokuzuncuYüzyıldan Günümüze “Görünür” Olmak ve Şöhret

BÖLÜM II. ŞÖHRET ARAYÜZÜ

2.3 Şöhrete Tarihsel Bir Bakış

2.3.4 OndokuzuncuYüzyıldan Günümüze “Görünür” Olmak ve Şöhret

A preponderância do Executivo na relação com o poder Legislativo se fez presente na nova ordem institucional instaurada após a Ditadura Militar (1964-1985) com a Constituição de 1988.176 A ideia de um executivo fortalecido não implica simplesmente em uma centralidade política que pode prescindir dos poderes locais na administração da coisa pública, já que estes por meio de suas articulações podem fazer frente ao poder central. Posteriormente, será novamente abordada esta questão em estudo de caso sobre a atuação do Executivo estadual no período de 1986-91, quando outras variáveis serão evidenciadas.

O trabalhismo foi perseguido pela ditadura militar e os parlamentares e intelectuais que representavam este pensamento foram também perseguidos e houve a tentativa de apagar suas ideias políticas. Porém, em livro de Moniz Bandeira, Leonel Brizola responde em entrevista, concedida ao autor por volta de 1979, sobre a reorganização do PTB na redemocratização, onde o Instituto Gallup constatara que “cerca de 3,5 milhões de cariocas e 8 milhões de paulistas, ou seja, 40% da população do Rio de Janeiro e São Paulo querem a organização de um Partido Trabalhista”.177

Alguns setores da sociedade que queriam uma intervenção dos militares para assegurar continuidade democrática, o chamado golpe preventivo com vistas ao restabelecimento do sistema político liberal-democrático, com a perspectiva de sucesso nas próximas eleições, como foi o caso de gente como Juscelino Kubitschek, Ademar de Barros, Carlos Lacerda que inicialmente apoiaram os militares no governo, se viram depois alijados do quadro político. Assim como os trabalhistas erraram no cálculo ao subestimar as forças populares contrárias articuladas pelos grupos conservadores, opositores do PTB, receosos com o crescimento eleitoral do PTB e com as reformas de base, também se frustraram os

176 O controle da agenda dos trabalhos legislativos, a exclusividade de iniciativa de algumas matérias, as medidas provisórias e os pedidos de urgência são alguns elementos apontados por Argelina C. Figueiredo e Fernando Limongi para sustentar a preponderância do Executivo. FIGUEIREDO, A. C. e LIMONGI, F. Executivo e Legislativo na Nova Ordem Constitucional. Rio de Janeiro: Editora FGV, 1999, p. 10.

177 A entrevista e as referências a Bandeira encontram-se no livro BANDEIRA, Moniz, Brizola e o

participantes do golpe que pretendiam o restabelecimento do sistema democrático representativo, com as expectativas de eleições em 1965 para presidente.

Apesar da oposição, os militares não abriram mão do poder e dentro do próprio congresso contaram com um ‘braço civil’ composto em sua maior parte por udenistas no intento de cassar os mandatos de parlamentares ligados ao PTB e ao trabalhismo.

“Logo no primeiros dias de abril de 1964, um dos principais temas em debate no Congresso Nacional era o das cassações de parlamentares. Muitos políticos que apoiaram o movimento de 1964 participaram do processo de cassações”178. Lúcia

Grinberg mostra que já em 10 de abril havia uma lista com 102 nomes para cassações. Não foram todos os udenistas a favor do AI-2, houve uma minoria como exceção.

As eleições de outubro de 1965 foram orquestradas com base em uma nova legislação eleitoral que visava restringir a quantidade de partidos. Nas eleições para governadores a UDN perdeu em nove dos onze estados em disputa. Isto se aliou à rejeição de emendas constitucionais que visavam garantir maior intervenção federal e ampliação das competências da Justiça Militar, e levou o governo militar a decretar o AI-2 que, a partir de 27 de outubro de 1965,

radicalizou as medidas punitivas em vigor, aumentou os poderes presidenciais, atribuiu à Justiça Militar a responsabilidade pelo julgamento de crimes contra a segurança nacional, aumentou o número de ministros do Supremo Tribunal Federal de 11 para 16, extinguiu os partidos políticos existentes e estabeleceu eleições indiretas para presidente da República.179

Grimberg mostra ainda o discurso de Eurico Resende (UDN-ES) que viu o ato como uma ‘medida heroica’. Após o AI-2 foi decretado o Ato Complementar n. 4 (AC-4), com repercussões negativas em todos os partidos, pois havia um piso de 120 deputados e 20 senadores para a formação de novos partidos. Basicamente, tivemos a seguinte movimentação, sendo que as trocas não seguiram essa orientação em todos os casos: a UDN engrossou fileiras na ARENA, o PTB no MDB e o PSD cindiu-se, diluindo-se nos dois partidos de forma mais equilibrada, pendendo mais para a ARENA. De um total de 116 parlamentares no PTB, 38 foram

178 GRINBERG, Lucia. Partido Político ou Bode Expiatório. Um estudo sobre a Aliança Renovadora Nacional (1965-1979) – Arena. Rio de Janeiro: Mauad, 2009, p.51.

para a ARENA e 9 udenistas foram para o MDB. As disputas intraoligáquicas nos estados levaram ao recurso das sublegendas e à formação de oposições com mesmo espectro ideológico.

Grimberg salienta o papel dos políticos conservadores, em especial os da Arena ao receber expressiva quantidade de filiações, na sustentação do regime e ressalta que identificar a participação destes como ‘um jogo de interesses fisiológicos’ é uma redução, pois o regime contou com o seu ‘braço civil’ na definição das prioridades do Estado brasileiro a partir de então. Evidencia que mesmo na primeira república os partidos não eram destituídos de representatividade, mas representavam os interesses de poucos, em geral da oligarquia.180

Eurico Resende, líder do governo no Senado que formou o conselho político que Geisel reunia no Palácio do Planalto, compartilhava do entendimento de que o MDB não significou contestação ao regime, já que os “agentes de contestação” foram banidos da vida pública. Existiram os banimentos, porém a história fez emergir novos atores que colocaram a Ditadura Militar em xeque e defenderam um sistema político democrático associado aos direitos humanos e sociais. No entanto, de acordo com Grimberg, o getulismo, na redemocratização, não dividiu mais a sociedade como aconteceu no período de 1945 a 1964. A discussão sobre o fim da ditadura e sobre a garantia dos direitos humanos polarizou o debate e fortaleceu o capital político do MDB com sua oposição à ditadura militar181.

A polarização entre a perspectiva nacional-estatista e a liberal internacionalista, por exemplo, não deixou de penetrar o discurso religioso. Enrique Dussel fez uma interessante observação sobre a estrutura político-ideológica da Igreja Católica e destaca a divisão interna existente dentro da Igreja, separando a igreja institucional da igreja popular182.

Neste sentido Lucília Delgado e Mauro Passos apontam para a diversidade de práticas e discursos dentro da Igreja e para o destaque que a “questão social” foi adquirindo dentro da igreja como um todo, requerendo uma forma de intervenção

180 Idem, p. 61.

181 Idem, p223.

182 DUSSEL, Enrique. De Medellín a Puebla uma década de sangue e esperança. De Medellín a Sucre – 1968-1972. Vol. 1. São Paulo: Edições Loyola, 1981.

desta na defesa da justiça social.183 Há uma inovação da postura da Igreja Católica

com a eleição de João XXIII, que publica encíclicas que favorecem o debate sobre as questões sociais na formação de pessoas incumbidas da liturgia da igreja e na prática do fiel.

Em 1968 ocorreu a II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, em Medelín, quando a igreja popular proclamou a Teologia da Libertação com o objetivo de buscar soluções para as questões sociais e ocorreu também a denúncia da violência institucionalizada e a constatação da injustiça social184. Se em 1964 a Igreja legitimou o golpe militar, através da CNBB, devido ao ‘perigo bolchevique’ identificado com o avanço do PTB e das reformas de base, em 1968 iniciou-se um claro movimento da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil contra as práticas empreendidas pelos militares no comando do Brasil.

Michael Löwy estuda a atuação da CNBB neste período e demonstra que esta instituição se posicionou claramente contra a ditadura militar na década de 1970 e se apresentou como principal adversário do Estado autoritário, mais ainda que o MDB, com protestos públicos contra o regime liderados por D. Helder Câmara. Löwy fala de um cristianismo de libertação ao destacar a atuação da Igreja em consonância com os direitos humanos e sociais com papel relevante nas relações políticas e institucionais.

Da Juventude Universitária Católica (JUC) formou-se, a Ação Popular (1962) que devido à postura conservadora dos bispos, ingressou no PCB. Porém, o marxismo da JUC era diferente do PCB185. Ocorre uma prática evangelizadora a partir de um

engajamento político quando primam pela justiça e pela dignidade da vida. Por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEB's) houve resistência às imposições políticas. As CEB’s também abrigaram grupos diversos que, por restrição dos direitos políticos, não encontravam espaço de atuação em outros lugares. Em 1968 a Igreja se colocou como grupo de pressão,186 se opondo tanto às violações dos

183 DELGADO, Lucília de A. N. e PASSOS, Mauro. Catolicismo: direitos sociais e direitos humanos

(1960-1970). In: FERREIRA, Jorge e DELGADO, Lucília de A. N. (orgs) O Brasil Republicano vol. 4.

Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 184 Idem, p.114.

185 Sobre o cristianismo de libertação ver LÖWY, Michael. As esquerdas na ditadura militar: o cristianismo de libertação. In: FERREIRA, Jorge; REIS, Daniel Aarão (orgs). As esquerdas no Brasil. Vol. 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007.

direitos humanos como ao modelo de desenvolvimento fundamentado na opressão dos pobres.187

A oposição enérgica da Igreja através da CNBB exerceu forte influência na redemocratização, nos movimentos sociais organizados, como o Partido dos Trabalhadores, a Central Única dos Trabalhadores e o Movimento Rural dos Trabalhadores Sem-Terra. Löwy enumera algumas características do cristianismo de libertação nesses movimentos: a) radicalismo ético-social e “mística” do combate pela libertação; b) anticapitalismo com forte influência moral; c) “basismo”, com desconfiança da política institucional.188

O MDB ganhou corpo na oposição ao regime somente em meados da década de 1970 quando teve vitórias eleitorais sobre a ARENA. O MDB agregou diversas tendências da esquerda no Brasil e a tradição trabalhista foi vista como um segmento moderado desta. Somente na legislatura de 1978 há um destaque para a tendência popular ou socialista no MDB. Rodrigo Motta ressalta que a presença de comunistas no MDB trouxe “alguma respeitabilidade entre setores mais politizados e intelectualizados da sociedade”.189

Em relação ao movimento de luta pela abertura política, Francisco Carlos Teixeira da Silva contesta a tese dos militares de que a oposição (MDB) e segmentos da sociedade civil (ABI, OAB, CNBB, Universidade, estudantes, etc.) não desempenharam papel relevante na redemocratização do Brasil.

As vitórias eleitorais do MDB representam um esgotamento do respaldo que inicialmente os militares tiveram na sociedade para a intervenção junto ao governo em 1964 e um demonstrativo de que os militares perderam a iniciativa das reformas. Com o crescimento do movimento popular ocupando as ruas e exigindo a anistia, o retorno dos exilados e o movimento das "Diretas Já", os partidos passam a assumir a direção da abertura, que já não se encontra mais nas mãos dos militares.

Porém, a nova República iniciou-se sob o controle das elites políticas, quando o PMDB ganha votos do PDS para Tancredo em troca da transição pactuada, ou seja, garantindo o domínio das elites e impunidade àqueles que violaram os direitos

187 LÖWY, Michael, 2007, p.313. 188 Idem, p.317.

189 MOTTA, Rodrigo Patto Sá. O MDB e as esquerdas. In.: FERREIRA, Jorge; REIS, Daniel Aarão (orgs). As esquerdas no Brasil. Vol. 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 293.

humanos. O PFL surgiu de uma facção do PDS que se opôs a Paulo Maluf. E a esquerda encontrou-se dividida em disputa com a concorrência entre o PMDB – conhecido pelo histórico de oposição à ditadura, e com a reforma partidária acomodou em seus quadros organizações comunistas (PCB, PC do B, MR-8), que não puderam constituir-se em partidos; o PT – com destaque das lideranças sindicais, da militância de religiosos e de intelectuais revolucionários marxista- leninistas, desempenhou papel fundamental nas Diretas Já e na Assembleia Constituinte –; e, o PDT – recuperando a herança trabalhista no final do século XX e englobando novos temas com o chamado socialismo moreno, de Darcy Ribeiro. O PT apareceu como alternativa hegemônica da esquerda após enfraquecimento do movimento de restauração do trabalhismo no Brasil empreendido por Brizola e o PDT. Nesse contexto, o PT, de acordo com o historiador Daniel Aarão Reis, arroga para si um elemento diferencial em relação aos outros partidos de esquerda, quando são “o trabalhismo e o comunismo, acusados de serem artífices de derrotas e, principalmente de terem atrelado os trabalhadores a causas e a propósitos

populistas e burgueses”.190

Esse contexto de retorno ao pluripartidarismo é mais entendido como uma estratégia de enfraquecimento do MDB que vinha impondo sucessivas derrotas à Arena do que uma iniciativa democrática dentro do processo de abertura191. Este ensejou uma nova configuração política partidária em uma sociedade que já não se encontra mais polarizada em relação às reformas de base, mas na perspectiva de votar para presidente.

O debate das Diretas-já, embora tenha permitido a “construção de instrumentos efetivos que pudessem sustentar a permanência da ordem democrática”192, abafou o

debate sobre as reformas ainda pendentes no Estado brasileiro. Tais reformas ainda motivam debates em que os direitos sociais propostos no trabalhismo getulista são defendidos em oposição à onda neoliberal que dominou o debate político no final do século XX.

190 REIS, Daniel Aarão. Trajetória, metamorfoses, perspectivas. In.: FERREIRA, Jorge; REIS, Daniel Aarão (orgs). As esquerdas no Brasil. Vol. 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p.507. 191 SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Crise da ditadura militar e o processo de abertura política no

Brasil, 1974-1985. In.: O Brasil Republicano. Vol. 4. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

192 DELGADO, Lucília de Almeida Neves. Diretas Já: vozes das cidades. FERREIRA, Jorge; REIS, Daniel Aarão (orgs). As esquerdas no Brasil. Vol. 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, .421.