2.4. ÇağrıĢım ve Diğer Disiplinler
2.4.9. Psikiyatri ve ÇağrıĢım
São João fica situada no sopé da Serra do Lenheiro, em cuja superfície escalvada os lenhadores, que lhe deram o nome, não deixaram em pé um único arbusto, sendo dividida ao meio por um braço do Rio Limpo [...]. Ela se compõe de várias ruas íngremes, que seguem pelas ladeiras acima e são cortadas por outras, mais planas, paralelas ao rio. As ruas são pavimentadas com pedras arredondadas e geralmente têm de cada lado uma calçada em plano mais elevado, feita de lajes. A maioria das casas se compõe de lojas de aparência bem cuidada e cheias de mercadorias de várias procedências, principalmente louças e artigos de algodão da Inglaterra. Viam-se fardos de algodão cru e pilhas de grosseiros chapéus de feltro, fabricados na província, bem como outros artigos manufaturados em Minas Gerais. Tudo isso dava a impressão de ser ali uma próspera e florescente cidade. Entre as mercadorias à venda havia grandes quantidades de sal, em sacas colocadas do lado de fora, junto à porta. Todo ele era trazido do Rio [de Janeiro]; durante nossa viagem, as tropas de burros com carregamento de sal, que encontramos pelo caminho, eram mais numerosas do que as que transportavam qualquer outra mercadoria. [...] De acordo com informações fidedignas, é de 7.000 o número de seus habitantes. Contudo, esse número cresce dia a dia. É tão privilegiada a situação da cidade no que se refere à sua acessibilidade [...], não obstante achar-se localizada no interior.27
27 Trecho do relato feito pelo viajante inglês Roberto Walsh em 1828, citado por Morais (2002, p. 54-55) em seu
São João del-Rei tem sua história iniciada no tempo do Brasil Colônia, em 1701, quando Tomé Portes d’El Rey, vindo de terras paulistas à procura das riquezas, desistiu de continuar sua busca, instalando-se “[...] à margem esquerda do caudaloso Rio das Mortes, no vau ou porto de passagem do Caminho Geral, posteriormente denominado Caminho Velho”. Após fixar-se na região, desistindo de sua busca inicial, o desbravador deu início a plantações e fez do lugar a “[...]principal estalagem onde os passageiros se refazem por chegarem já muito faltos de mantimentos” (GAIO SOBRINHO, 2000, p. 31). Inicialmente, o local recebeu o nome de Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes. Portanto, a cidade de São João del- Rei, ao contrário de outras cidades mineiras do mesmo período – Ouro Preto, Mariana e Diamantina, por exemplo –, não teve seu início impulsionado pela exploração do ouro presente na região. Antes, serviu de pouso para os viajantes recobrarem as forças.
A propósito, paulatinamente outras pessoas foram chegando, até que em 1704, com a descoberta do ouro na região, teve início a extração dessa riqueza. A exploração trouxe para a região paulistas e forasteiros, especialmente portugueses – chamados de emboabas. A busca do ouro gerou conflitos, porque os paulistas reivindicavam para si o monopólio das explorações no local, alegando que este pertencia aos limites de sua capitania. Esses conflitos ficaram conhecidos como Guerra dos Emboabas28. Após o final da disputa, em 1709, os paulistas,
vencidos pelos portugueses, se retiraram do local, iniciando-se, assim, um período de franco crescimento, expansão e importância do arraial que, em 8 de dezembro de 1713, foi elevado à condição de Vila, recebendo o nome de São João del-Rei, numa homenagem ao Rei D. João V de Portugal. Um ano após se tornar Vila, São João del-Rei também passou a ser a sede da extensa Comarca do Rio das Mortes.
Com a atividade agrícola e a atividade pecuária ainda em sua rotina, a Vila de São João del-Rei continuou fortalecendo suas atividades mercantis, que se tornaram cada vez mais vitais. Essas atividades garantiram a sobrevivência da Vila quando, a partir de 1750, a exploração do ouro entrou em decadência em toda a Capitania das Minas Gerais. Com a exploração em baixa e a coroa portuguesa cobrando impostos cada vez mais altos, surge um movimento revolucionário, inspirado nos ideais iluministas: a Inconfidência Mineira.
Indignados com a situação, pessoas de diversos ramos da sociedade provenientes, sobretudo, de São João e de Vila Rica – atual Ouro Preto – juntam-se em e organizam uma rebelião contra a metrópole. Essa rebelião coloca São João del-Rei em uma posição de ainda mais destaque, por abrigar diversos inconfidentes e, dentre eles, o mais famoso, Joaquim José
da Silva Xavier29, o Tiradentes, além de ser cogitada para ser a capital30 após o esperado sucesso
da revolução. Em 1789, o movimento foi encerrado pela denúncia do coronel Joaquim Silvério dos Reis, que acarretou a execução sumária de Tiradentes e o exílio dos demais participantes do movimento.
Apesar do grande impacto causado pelo fim não esperado da Inconfidência Mineira, a intensa movimentação da cidade fez com que São João del-Rei não perdesse sua importância, especialmente devido à sua localização.
De posição geográfica privilegiada, por ser entrecortada por importantes estradas, São João del-Rei foi um dos principais centros de exportação dos produtos mineiros e de redistribuição de mercadorias. Possuía uma vida política, econômica e cultural intensa, exercendo papel fundamental no abastecimento de produtos alimentícios e de consumo em geral e de circulação de pessoas e mercadorias (ARRUDA, 2011, p. 64).
Assim, a cidade foi se recuperando do grande baque. Em 1838, a Vila de São João del- Rei foi elevada à condição de cidade. Segundo dados da biblioteca municipal da cidade, o município contava com cerca de 1.600 casas, arranjadas em 24 ruas, além de 10 praças, casa bancária, hospital, biblioteca, teatro, cemitério público, serviços de correio e iluminação pública a querosene31. É dessa época também a criação do segundo jornal de Minas, Astro de Minas, o
qual circulou de 1827 a 1839 (JINZENJI, 2008).
Elementos de grande destaque da cidade são suas magníficas igrejas, a maioria no estilo barroco mineiro, bem como a arquitetura em geral. É possível observar, para além das construções coloniais mais afamadas, o movimento de uma sociedade em constante mutação. “De passado colonial marcante, ao mesmo tempo em que reagia a esses acontecimentos, a cidade o acolhia, convertendo, conformando, subvertendo e submetendo a todos às marcas da modernidade e do progresso” (ARRUDA, 2011, p. 66). Com a intenção de preservar a herança cultural construída ao longo dos séculos de existência, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) realizou o tombamento do conjunto arquitetônico e urbanístico da cidade em 1938. Contudo, o tombamento não havia delimitado a área da cidade a ser
29 Tiradentes nasceu em 1746, na Fazenda do Pombal. Três municípios – São João del-Rei, Ritápolis e São José
do Rio das Mortes (atualmente Tiradentes) – reivindicam para si, ainda hoje, o título de terra natal do famoso personagem da Inconfidência Mineira.
30 Na verdade, São João del-Rei chegou a ser capital provisória do estado de 5 de abril a 22 de maio de 1833, por
ocasião da “Revolta da Fumaça”, que levou revoltosos à então capital do estado, Vila Rica, e fez com que o governo transferisse a capital para a cidade. Em memória desse episódio, foi instalado em São João del-Rei um chafariz, construído em 1834, chamado “Chafariz da Legalidade”. Para maiores detalhes sobre a Revolta da Fumaça, consultar Morel (2003).
preservada, o que foi acertado em 1947. A partir de então, cerca de 700 imóveis passaram a ter sua preservação garantida. Desde então, entre alguns casos polêmicos de descumprimento de lei, descaso com as construções e divergências de opinião acerca da tentativa de preservação do patrimônio, a arquitetura marcada para ser preservada vem disputando espaço com o moderno, sobrevivendo e ensinando que o passado pode e deve conviver com o presente.
Figura 2: São João del-Rei atualmente Fonte: https://www.facebook.com/223470327857967/photos/a.223472511191082.1073
741827.223470327857967/367317703473228/?type=3&permPage=1. Acesso em 11/12/15. Ao longo do século XIX, São João cresceu populacional e economicamente, impulsionada por uma economia forte que a tornava referência de uma significativa região do estado (GRAÇA FILHO, 2002). Certamente por isso, a cidade abrigou a criação de outras duas instalações muito importantes. Em 1881, chegou a São João a Estrada de Ferro do Oeste-Minas (EFOM), que ligou a cidade à malha ferroviária de outras importantes cidades da região, bem como à Estrada de Ferro Central do Brasil. E em 1883, foi implementada a Companhia Industrial São Joanense de Fiação e Tecelagem, impulsionando ainda mais a já forte economia da cidade. Esse passo culminou na indicação, em 1893, de São João del-Rei para capital do estado de Minas Gerais, concorrendo com Belo Horizonte, chamada à época de Arraial de Curral del-Rei32 (GUILARDUCI, 2009). Após a escolha de Belo Horizonte, em 1897, a cidade
foi perdendo força no âmbito estadual e nacional, tendo seu crescimento diminuído.
32 Segundo Guilarduci (2009), a cidade de São João del-Rei não concorreu diretamente ao posto de capital do
estado. Duas regiões – territórios que pertenciam a outras cidades – consideradas em condições para a instalação da futura capital foram escolhidas para a disputa do posto. Uma delas, localizada nos arrabaldes de São João, era a chamada Várzea do Marçal. A outra região escolhida para o certame, e vencedora, foi aquela onde se situa atualmente Belo Horizonte, na época integrante do município de Sabará. Com a escolha realizada, Várzea do
Assim sendo, entre as décadas de 1980 e 1990, período abrangido por esta pesquisa, São João del-Rei já enfrentava a calmaria que a tornou uma cidade estável, sem crescimentos abruptos nem crises repentinas. Talvez devido à criação de estradas que suportam um fluxo grande33 de veículos, São João também deixou de ser o caminho preferido para as principais
rotas terrestres que ligam a capital de Minas a duas das principais cidades do Brasil – São Paulo e Rio de Janeiro. Com isso, a cidade perdeu a visibilidade e a posição estratégica que tinha no passado. Contudo, para a mesorregião do estado em que se localiza e, principalmente, para a sua microrregião, São João continuou sendo referência em inúmeros setores e serviços, tendo investido recursos, sobretudo, com vistas ao avanço da educação institucional e à propagação da cultura. Os investimentos nesses setores representaram um papel importante na decisão pela outorga à cidade, em 2007, do título de Capital Brasileira da Cultura daquele ano.