2. KURAMSAL BĠLGĠLER ve KAYNAK TARAMALARI
2.5. Pseudomonas fluorescens Ġle Ġlgili Kuramsal Bilgiler
A origem do Projeto Educação tem cor? está na Lei nº. 10.639, de 09 de janeiro de 2003, que normatiza a inclusão da temática História e Cultura Afro- Brasileira e Africana no currículo oficial.
Em 2004, no rastro dessa determinação legal, a SMED/BH enviou para as escolas da RME/BH um Kit de Literatura Afro-Brasileira, contendo 56 títulos. Essa iniciativa deu impulso ao desenvolvimento de um projeto denominado O Canto dos Encantos da Literatura Afro-Brasileira, cujo objetivo era introduzir e divulgar, de maneira lúdica e prazerosa, para todos os segmentos da EMAH, a temática étnico-racial, “visando a sensibilização, o debate, a inclusão, o desenvolvimento da auto-estima e da totalidade da formação humana, a desmistificação e a valorização da cultura afro-brasileira” (EMAH, documento 4, 2006, p. 16). Iniciado em 2004, esse Projeto continuou durante o ano de 2005.
Paralelamente a essa ação da EMAH, foi instituído um grupo de estudos denominado Diversidade 2005, composto por representantes da Gerência Regional de Educação do Barreiro (GERED-B)55, do Núcleo de Relações
55
A GERED-B é a Gerência de Educação da Regional Barreiro, que cuida, como o próprio nome indica, de questões administrativas e pedagógicas ligadas à educação naquela região da cidade de Belo Horizonte.
Étnico-raciais e de Gênero da SMED/BH, do Núcleo de Bibliotecas e, ainda, por três docentes de cada escola da Regional Barreiro. Esse grupo se dispôs a discutir e construir propostas adequadas para a abordagem do tema étnico- racial no cotidiano escolar. Nesse sentido, seus objetivos eram:
estudar a lei 10.639/03 que regulamenta o ensino da História da Cultura afro-Brasileira e Africana;
trocar experiências, dentro e fora da RME, entre as escolas sobre trabalhos pedagógicos desenvolvidos;
estudar e discutir obras, visando a elaboração de resenhas; produzir material pedagógico sobre a temática;
criar um grupo de discussão na Internet;
convidar grupos que já atuam com esse tema para participar de atividades na escola;
definir estratégias para divulgação do Kit para a comunidade escolar;
pesquisar e sugerir filmes que tratem a temática;
construir estratégias de parceria entre os profissionais da biblioteca e professores;
mediar através da biblioteca, a discussão do tema na escola; criar subsídios para o fortalecimento dessa discussão no Barreiro.
(EMAH, documento 5, caderno 1, 2006, p. 13)
Como fruto das discussões desse grupo de estudos, três funcionárias da EMAH, juntamente com uma representante da SMED/BH, resolveram coordenar, em março de 2006, um seminário denominado Educação tem cor?. Nesse encontro, que contou com a participação de alunos, professores, funcionários e comunidade em geral, ocorreu a apresentação de um filme que tratava da temática étnico-racial, seguida de comentários. Houve, ainda, apresentação da Lei n.º 10.693/03, da proposta de trabalho do Grupo Diversidade 2005 e, também, apresentações culturais diversas relacionadas ao tema.
Estavam lançadas as bases para a confecção de uma coletânea, com o mesmo título do seminário, composta de três cadernos, nomeados respectivamente: A cultura afro-brasileira em debate, O currículo afro-brasileiro em debate e Os sujeitos da sala de aula. Essa coletânea, cuja proposta era rediscutir e redimensionar as práticas pedagógicas relativas à abordagem das questões étnico-raciais na EMAH, complementava as ações que a Escola já vinha implementando dentro dessa temática.
Durante o segundo semestre do ano de 2006, a coleção foi, então, apresentada aos docentes, servindo de elemento de divulgação dos trabalhos realizados no Grupo Diversidade 2005, além de apresentar algumas propostas pedagógicas já efetivadas na EMAH.
Em um dos textos da coletânea, a autora – docente da EMAH – faz um relato delicado da sua trajetória profissional, destacando o confronto, sempre presente, entre a sua cor “abaianada” e a de seus alunos, que abaixam o olhar e encolhem o ombro diante do professor. Lembrando a necessidade de se discutir o preconceito, ela enfoca a falta de tempo para as Reuniões Pedagógicas, as quais seriam espaço privilegiado para formação em serviço. Diante dessas dificuldades para se cumprir as determinação da lei n.º 10.693/03, ela faz as seguintes interrogações:
Às vezes, vamos cumprindo ordens, trabalhando temas politicamente corretos, abraçando causas e nem nos perguntamos: - o que sinto em relação a isso? Por quê? Qual a minha posição em relação à? Sinto bem em discutir determinado tema? Minha formação acadêmica me permite? E a minha formação moral, social, estética? Essas perguntas são terríveis para nós brasileiras e brasileiros. Mexe com nossos brios e com a nossa “inteligência”. É como se duvidassem que não sabemos a respeito de nós mesmos! Falar de “racismo” exige coragem para olhar para dentro, para reconhecer a igualdade nas diferenças! Porque exige coragem só a citei duas vezes até agora, choca! Como olho o outro que não sou eu? E o outro, e o outro, e outro? (EMAH, documento 5, caderno 3, 2006, p. 18)
Com esse material em mãos, no segundo semestre de 2006 os docentes iniciaram discussões, dentro de cada ciclo, acerca da validade e da legitimidade das práticas cotidianas que contribuem para uma educação que privilegie – ou não – a diversidade, a igualdade e a inclusão. Para preparar essas discussões coletivas dentro de cada ciclo, uma docente sugeriu aos colegas:
A questão desse material – que são aqueles livrinhos que a Escola produziu, sobre Educação tem cor? –, eu pedi para as pessoas trazerem. Todo mundo já recebeu. Eu queria sugerir que a gente fizesse uma leitura dele, que fosse aqui mesmo na Reunião [do ciclo], mas dividisse, que cada um lesse um texto, que são vários textos, tem artigos bons aqui dentro, são
textos que as pessoas da Escola escreveram, outros de pessoas diferentes. E que semana que vem, na hora da Reunião dividisse, cada um lesse um texto e cada um remetesse, falasse para o pessoal. O que vocês acham? Você lê um texto, eu leio outro, cada um lê um texto aqui. Vai ter mais, uns dois, três para cada um. Mas, se começássemos com o texto do livro 1, aí divide, aí cada um lê um texto. Depois o caderno 2, para poder garantir que a gente conheça o material todo. Depois, quem tiver interesse lê o material todo. [...] Pra gente parar e ler os três livros fica difícil, né. Mas se cada um lê um texto, fica tendo conhecimento do material todo. Pode ser? (Depoimento de docente do 1º ciclo)
Contraditoriamente, apesar de ter em mãos um material tão rico, elaborado com a participação de profissionais da Escola, os docentes não tinham tempo para um estudo mais sistemático ou para discussões que envolvessem todo o coletivo. Daí a proposta para que “cada um lesse um texto e ficasse tendo conhecimento do material todo”, através da socialização em Reunião do Ciclo.
Ainda que o Projeto Educação tem cor? tivesse por objetivo subsidiar o trabalho, em atendimento à Lei n.º 10.693/03, alguns docentes, já durante o processo de discussão coletiva, demonstravam ter alguma experiência acumulada no trabalho com a questão étnico-racial. Assim, as prescrições encontradas nos cadernos iam sendo renormalizadas pelos docentes durante as discussões e, mais ainda, na atividade real de trabalho. Nesse sentido, uma docente comenta:
Quando eu cheguei, em agosto, eu já sabia de uma lei, que agora temos que trabalhar a questão afro-brasileira. Então, um dia eu falei com a coordenadora o seguinte: “Eu não sei o que foi programado, mas eu já estou trabalhando com os meninos”. [...] Eu estou trabalhando Literatura Africana, então eu vou trabalhar a cultura através da literatura. [...] Assim que eu terminei a questão do negro, eu vi que havia outras questões, que tem alunos que são diferentes. A questão da Izabela, que eles implicam com ela por causa da cor, que ela é negra e o Pedro, que eles chamam de gordo. Aí eu preferi continuar trabalhando não só a questão do negro, mas de todas as diferenças. Aí eu sugeri esse projeto Ser diferente é legal. Perguntei para eles [os alunos] se gostariam de trabalhar com filmes e eles adoraram. A única coisa que realmente prende a atenção da turma toda é a televisão. Eu não consigo essa atenção deles aqui na sala, quando leio uma história. Em qualquer tipo de atividade que eu dou na sala estou sempre interrompendo, chamando a atenção de um,
brigando com outro. E o filme não, o filme é bem mais tranquilo. Aí, então eles ficaram felizes... [...] Então, toda quarta-feira, eu passo um filme para eles. Eles fizeram uma lista de filmes que já ouviram falar e gostariam de assistir. Dessa lista, eu estou trabalhando com eles os que estão relacionados ao tema. (Depoimento de docente do 1º ciclo)
O depoimento acima indica que a passagem do currículo prescrito para o currículo real envolve interesses diversos, tanto da docente como de toda a turma. Ao gerir a distância entre ambos, a docente utilizou sua autonomia para definir os projetos que iria desenvolver com a turma e a forma de promover a interdisciplinaridade entre esses projetos e as questões étnico-raciais. Levou em conta, ainda, os interesses dos alunos na opção pela metodologia a ser adotada no encaminhamento da temática Ser Diferente é Legal. O uso de filmes como recurso metodológico mostrou-se adequado tanto para prender a atenção dos alunos como para tratar do tema em questão.
Conforme afirma Schwartz (1988), há exigências colocadas pelas atividades de trabalho que não podem ser antecipadas. Então, somente quando terminou de trabalhar a questão étnico-racial, ligada à negritude, é que a docente percebeu “que havia outras questões“ sobre as diferenças entre os alunos que também deveriam ser trabalhadas. Indo além de uma determinação legal, a docente abordou os preconceitos que os seus alunos demonstravam no cotidiano. A partir de situações concretas, ela fez uso de si por si mesma, renormalizando o projeto original e utilizando o espaço da sala de aula para intervir na formação ética de seus alunos.