2. KURAMSAL BĠLGĠLER ve KAYNAK TARAMALARI
2.3. Pseudomonas cichorii Ġle Ġlgili Kuramsal Bilgiler
Conforme já mencionado, a SMED/BH – sob o argumento de garantia da carga horária anual mínima do aluno, exigida pela LDBEN 9394/96 – resolveu suspender a realização da reunião pedagógica dentro do horário de funcionamento regular do turno de trabalho do professor, evitando, assim, a dispensa dos alunos e a diminuição da carga horária semanal de aulas. Uma docente analisa os impactos dessa medida sobre o trabalho docente:
Eu avalio que as condições de trabalho já foram diferentes. A questão da reunião pedagógica... Eu não consigo avaliar a justificativa de perda da carga horária para o aluno, porque ele acaba ganhando em outra coisa, num coletivo mais organizado, em ações mais... Porque essa ideia do aluno estar perdendo com a reunião pedagógica dentro do horário do turno... Agora, sim, ele está perdendo. Ele ganha, às vezes, duas horas semanais. Mas e a articulação do grupo que não está acontecendo? Isso significa para o professor trabalhar sozinho às vezes, porque às vezes ele vai ficar na sala sem conseguir um intercâmbio com o grupo, com o grupo até da Escola, sem saber o que o 3º ciclo está fazendo, o que o 1º está fazendo. Então, só vem fechando o leque coletivo. (Depoimento de docente do 1º ciclo)
O depoimento acima expressa, de maneira significativa, que a visão quantitativa de inclusão escolar, por parte da SMED/BH, se sobrepôs às necessidades efetivas dos docentes para realizarem, com eficácia, o trabalho cotidiano. O número de horas do aluno na escola é priorizado, ficando em segundo plano a organização coletiva do trabalho.
No caso específico da EMAH, campo da pesquisa aqui descrita e analisada, os docentes, ao acatar a medida acima mencionada, tiveram o tempo coletivo de discussão e reflexão da prática amplamente comprometido:
A questão da implementação do ciclo na escola, que eu acompanho desde o início, está mais latente após o fim da reunião pedagógica, isso é claro, porque a gente tinha as reuniões pedagógicas ou as reuniões do grupo todo e a Escola depois se organizava em ciclos, pelos ciclos, com os ciclos. Então, não tinha essa coisa de “o ciclo tal vai fazer isso”. Havia a organização e a reunião da Escola, mas no grupo. Depois, é claro, se cada ciclo tinha alguma especificidade, algum problema deles próprios para estar resolvendo, aí sim, havia a necessidade de meia hora, uma hora, tudo bem, nós íamos para o ciclo. Mas sempre havia a discussão no coletivo da Escola, tudo que se passava na Escola, tudo, tudo, desde o administrativo aos projetos pedagógicos, tudo passava pelo grupo todo. [...] A Escola é muito dinâmica, você tem que ter essa previsão, essa organização prévia do que você está fazendo, porque senão acontece o que aconteceu agora, essa coisa maluca de... Ultimamente não tem sido possível uma organização coletiva prévia. Pelo menos por parte da SMED não há espaço para isso, não há tempo. (Depoimento de docente do 1º ciclo)
Segundo alguns docentes, a impossibilidade de manter o caráter coletivo das reuniões pedagógicas comprometeu não somente a gestão coletiva e o planejamento integrado da Escola, mas o próprio Programa Escola Plural. O depoimento abaixo indica uma contradição por parte da SMED/BH que, ao
determinar o fim da Reunião Pedagógica dentro do turno de trabalho do docente, gerou obstáculos maiores para a efetivação de um projeto pedagógico em sintonia com os princípios da Escola Plural:
Os horários de reunião pedagógica, nós acreditamos que nós perdemos muito por conta dessas escolas que não usavam os horários realmente para as reuniões pedagógicas. Nós sempre fizemos a reunião pedagógica. Agora, assim, para nós é claro, a Escola Plural não existe mais. A Prefeitura, quando ela acabou com a reunião pedagógica [dentro do turno de trabalho do professor] foi o golpe final. (Depoimento de docente do 1º ciclo)
Como é possível perceber, apesar de vários documentos relativos à Escola Plural defenderem a necessidade de o trabalho docente se organizar de forma coletiva – com estudos, discussões e avaliação conjunta das ações pedagógicas da escola –, na prática, “quando ela [a PBH] acabou com a reunião pedagógica [dentro do turno de trabalho do professor] foi o golpe final”, uma vez que a dimensão coletiva desse trabalho foi muito dificultada.
Em setembro de 2005, após grande mobilização da categoria docente – incluindo um mês de greve ocorrida em maio –, a SMED/BH enviou às escolas um comunicado informando que concederia um abono de R$ 700,00 (setecentos reais) como incentivo à participação dos professores em Reuniões Pedagógicas. Esses encontros poderiam acontecer no horário extraturno da jornada dos profissionais e/ou aos sábados.
Os professores da EMAH aceitaram realizar tais encontros, mas dada a impossibilidade de se chegar à definição de um horário único que atendesse aos interesses e disponibilidade de tempo de todos os docentes, definiu-se por três momentos de encontro semanal, dando a todos a oportunidade de cumprir o horário de Reunião Pedagógica. Entretanto, esse novo arranjo fez com que a reunião pedagógica perdesse o seu caráter original, pois em cada um dos encontros estavam presentes – e ausentes – docentes dos dois turnos da Escola.
Essa reorganização do trabalho gerou muitas críticas entre os docentes, que alegavam assumir uma sobrecarga de trabalho, pois frequentar tais reuniões representava dedicar mais tempo da vida privada e familiar às atividades da escola. Ao falar sobre o seu trabalho, um docente evidencia a sua dificuldade de conciliar tempo de trabalho com outros tempos de sua vida:
É o tempo, esse tempo da gente mesmo. […] Às vezes eu trabalho até no sábado. […] É muita correria, você não tem tempo para almoçar, basicamente, você tem que sair de uma escola e ir para outra, quer dizer, são muitos fatores… Você vê que realmente é uma profissão que é extremamente desgastante, desgastante mesmo. Eu quase não tenho tempo livre, tempo para mim mesmo, minha família, meu filho. […] Porque a escola toma o tempo da gente todo, o tempo inteiro, para você marcar um médico, um dentista é aquela coisa complicada demais. (Depoimento de docente do 1º ciclo)
Esse depoimento demonstra que o tempo de trabalho vai consumindo toda a vida do docente, fazendo com que falte tempo livre, “tempo para mim mesmo, minha família, meu filho”, e mesmo para cuidar da saúde. E quando a reunião pedagógica – momento de encontro e de formação do grupo – passa a exigir mais tempo, a profissão torna-se ainda mais desgastante, pois:
Na verdade, nem de madrugada, sério. Quantas vezes a gente acorda de manhã e fica pensando em quantas coisas que precisa fazer naquele dia? Naquilo daquele aluno, o que aconteceu, o que pode acontecer, o que está acontecendo com ele? E a escola, você sai da escola, mas ela não sai de você, é uma coisa impressionante. Você cria um vínculo muito grande. [...] Você cria um vínculo com os alunos, não tem jeito, é uma relação humana, é ser humano com ser humano, no cotidiano. Você tem 200 dias ou mais por ano, são quatro horas por dia. Quer dizer, querendo ou não, não tem como um professor falar que não cria vínculo com o aluno dele, não tem como. (Depoimento de docente do 1º ciclo)
Mas, apesar de terem que se submeter às determinações da SMED/BH, os docentes da EMAH – talvez pelos vínculos criados, pela relação de “ser humano com ser humano, no cotidiano” – recorreram a alternativas internas para manterem- se coerentes com a proposta de inclusão na qual o coletivo acreditava. Assim, as Reuniões por Ciclo tornaram-se, diante daquela conjuntura, uma instância importante para a manutenção da dimensão coletiva do trabalho.