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A Fundação Casa Grande-Memorial do Homem Kariri é uma organização do terceiro setor, instituída no formato de Fundação, na qual não há distribuição de lucros. Ainda que autônoma, pois não pertence nem à esfera pública nem à privada, a Fundação pode receber subvenções do Estado, através de editais e convocatórias públicas de captação de fundos (MARTINS, 2016). O projeto original, iniciado em 1992, consistiu na restauração e transformação de uma casa em ruínas em um museu que contasse a história arqueológica e mitológica do povo Kariri, chamado Memorial do Homem Kariri (ANEXO B). No entanto, logo no primeiro dia de abertura do museu, as crianças se apropriaram do espaço e, aos poucos, começaram a reproduzir, para os visitantes, a história das peças arqueológicas ali presentes (TEDx Talks, 2015). Assim, nas palavras de Limaverde (2010, p.117):
As crianças chegaram ao espaço da Casa Grande e se identificaram com as lendas e o acervo pré-histórico dos primeiros habitantes da Chapada do Araripe. Com o tempo, a novidade do Museu foi dando lugar ao sentimento de pertença a esse espaço [...]. Essas crianças foram os primeiros guias mirins do Museu e hoje, passados 17 anos, são os jovens que formam o Conselho Cultural da Fundação Casa Grande e que repassam para os mais novos e para quem ali passa a tecnologia da gestão cultural. Uma das iniciativas de destaque da Fundação é o Programa de Comunicação, que
recuperou a rádio difusora do município, “A voz da liberdade”, criando o projeto Escola de
Comunicação da Meninada do Sertão e os outros laboratórios de Rádio FM, TV, Editora e Internet (GHANEM, 2012). De acordo com Oliveira (2009), esse projeto foi levado pela UNICEF para Angola e Moçambique, países que contam hoje com 31 rádios inspiradas no programa “De criança para criança”, que, como o nome já diz, é feito por crianças para outras crianças. O projeto também deu origem à rede de crianças comunicadoras em língua portuguesa do Brasil, Moçambique e Angola, com apoio do UNICEF.
Atualmente, cerca de quarenta crianças e jovens, entre 6 e 18 anos, estão matriculados na instituição e participam, de forma totalmente voluntária, de um conjunto de atividades culturais em seis grandes áreas: arte, música e cinema, comunicação, desporto, pesquisa e conteúdo, meio ambiente e turismo (MARTINS, 2016). Conforme Ghanem (2012), toda segunda-feira, há uma reunião pela manhã, para distribuir as equipes nas atividades dos dez laboratórios mantidos pela Fundação: DVDteca, TV, gibiteca, biblioteca, laboratórios de arqueologia, editora, rádio, laboratório de internet, memorial e teatro. Além de outras atribuições relacionadas à limpeza, manutenção e organização das atividades.
Por meio desses laboratórios, a Fundação Casa Grande (2017a) oferece, não só para as crianças e jovens da região, mas também para suas famílias, cinco programas básicos: educação infantil; profissionalização de jovens; empreendedorismo social; geração de renda familiar e sustentabilidade institucional. Dessa atuação junto às famílias, surgiu, em 2002, o grupo de
“Mães da Casa Grande”, com o objetivo de integrar os pais das crianças e jovens da Fundação
ao projeto educacional ali desenvolvido, através de um plano ordenado de geração de renda familiar complementar (TURISMO COMUNITÁRIO FCG, 2017a). Assim, as famílias passaram também a ter um envolvimento direto com a Fundação, através da promoção do turismo local, por meio de um empreendimento social que foi criado: a Agência de Turismo Comunitário (MARTINS, 2016).
A Agência de Turismo Comunitário nasceu da necessidade de operacionalizar o receptivo turístico da Fundação Casa Grande e tem como princípio garantir a geração de renda familiar para as famílias parceiras, por meio de atitudes éticas e solidárias, criando um ambiente de integração entre a população local e os visitantes, dentro de um contexto de turismo de experiência que preza pela conservação ambiental, valorização da produção da cultura e da identidade local (TURISMO COMUNITÁRIO FCG, 2017b). Hoje, o empreendimento é formado por dez pousadas domiciliares, pelo restaurante na Fundação Casa Grande e por uma lojinha de lembranças, que vende o artesanato produzido nas oficinas caseiras.
Anualmente, a Fundação atrai mais de 68.000 visitantes à cidade de Nova Olinda e é responsável, através do museu e de suas atividades de laboratório, pela realização de oficinas e parcerias de intercâmbio com diversas organizações, em nível nacional e internacional (ALMEIDA, 2016). Além de promover atividades de educação complementar, a Fundação constituiu-se em um espaço cultural de encontro social e entretenimento para a comunidade local e de seus visitantes (MARTINS, 2016). Segundo Limaverde (2010, p. 117), “todo esse potencial turístico tem proporcionado ao município de Nova Olinda uma alternativa de desenvolvimento econômico e social, gerando emprego e renda para as famílias”. Em 2008, o município recebeu do Ministério do Turismo, a categoria nacional de Município indutor do turismo, para a implementação de ações de desenvolvimento regional através do turismo.
Para Ghanem (2012, p.121), o caráter inovador da Fundação Casa Grande “está na
educação que realiza, marcadamente diferente da educação familiar e da educação escolar do
pequeno município de Nova Olinda”. Um dos traços distintivos dessa inovação está no lugar
central que as crianças e jovens ocupam na operação da organização, na sua constante manutenção e limpeza e, sobretudo, nos sentidos e formas das atividades realizadas, que derivam fundamentalmente de suas aspirações, gostos e iniciativas infantis (GHANEM, 2012).
Acrescenta-se, ainda, como parte dessa experiência inovadora, “o envolvimento das famílias com o conjunto do projeto por meio de uma alternativa econômica, integrada ao engajamento
dos filhos na continuidade de sua própria carreira escolar” (GHANEM, 2012, p. 121).
Essas novas relações, portanto, determinam outras formas de parcerias entre indivíduos, grupos, associações, a iniciativa privada e o poder público, viabilizando a criação e a operacionalização de projetos que surgem em comunidades, muitas vezes, à margem de políticas, financiamentos e patrocínios, nas quais a autogestão e cogestão são ideias essenciais na busca de diferentes fontes de apoio (OLIVEIRA, 2009). Assim, a Fundação Casa Grande, por meio de suas atividades e da rede de negócios familiares criados, capacita e cria oportunidades que minimizam as situações de exclusão, além de atuar como agente na construção de identidades, formação intelectual e crítica da população (MARTINS, 2016).