O desejo da personagem Sócrates no Fedro é de que o orador se torne um dialético. Mas o que é ser dialético e o que é a dialética? Qual sua natureza? Por que Platão se utiliza desse método? A dialética seria complementar à reminiscência ou teria progressivamente substituído esta, como afirmam alguns teóricos?
Conforme atesta Trabattoni (2010, p. 201) Platão começou a escrever os diálogos dialéticos após concluir a escrita da República. Neles os assuntos que foram esboçados nos diálogos precedentes foram de fato discutidos e aprimorados, inclusive retificada a doutrina das ideias.
Para este comentador, a dialética platônica se divide em duas partes: uma de caráter socrático, mais aberta, com a presença de aporias e dialógica, e a ὁutὄἳ ὁὄigiὀἳlmἷὀtἷ ὂlἳtὲὀiἵἳ, ὁὀἶἷ ὁ ἳἵὁὄἶὁ “ὧtiἵὁ-epistemolὰgiἵὁ” ἷὀtὄἷ ὁὅ interlocutores funciona como ferramenta para se chegar ao conhecimento.
Sócrates fala da dialética no Fedro nos seguintes termos:
63 Fedro 276e-277 a: , φ Φαῖ , : π ὺ ᾽ α α π υ π α α , α α ῃ , α ὼ υ π υ α , φυ ῃ α π ῃ ᾽ π υ , αυ ῖ φυ α ῖ α α α π π α, φυ ᾽ α πα α , α α α ῖ π π υ α α.
Dessas divisões e sínteses eu mesmo, Fedro, sou um apaixonado, a fim de ser capaz de falar e pensar. E se eu julgar qualquer outro capaz de observar a unidade e a pluralidade nascida daquela, a esse eu perseguirei no encalço dos seus passos, como se fora um deus. Ora, aos que são capazes de o fazer, eu chamo-lhes, pelo menos até este momento, dialéticos, se os nomeio retamente ou não, um deus o sabe. 64
Ora, sem o método dialético Sócrates se considera uma pessoa incapaz de pensar alguma coisa. A diferença que este guarda com a retórica segundo Dixsaut (2001, p.11) é a de que o orador tem o livre uso da palavra, embora não tenha compromisso de demonstrar conceitualmente aquilo que expressa, por não ser esta a natureza desse saber.
Ora, então para pensar, segundo o Fedro, é necessário partir do princípio de que a realidade se apresenta múltipla aos sentidos, porém faz parte de uma unidade inteligível. Sócrates acrescenta:
E o Palamedes de Eléia, não sabemos nós que falava de tal maneira com arte que as mesmas coisas apareciam aos ouvintes semelhantes e dessemelhantes, unas e múltiplas, ou ainda em repouso e em movimento?
65
Ou seja, cabe, portanto ao dialético ter experiência dessas duas realidades: o da permἳὀêὀἵiἳ ἶὁ ἥἷὄ, “gêὀἷὄὁ ὅuὂὄἷmὁ”, ὃuἷ ὧ ἳὂὄἷἷὀἶiἶἳ ὂἷlἳ parte racional da alma, e a dos entes que sofrem mudanças e transformações.
No caso do Fedro, o método usado para buscar a Forma é o da divisão (diaíresis) e da unificação (synagogé). Ora, Sócrates retoma o discurso de Lísias justamente para mostrar que tal escrita é sem pé e sem cabeça, não sendo possível (dividir e juntar), ou seja, não existe um caminho discursivo que possa fazer as ideias se ligarem numa participação, pois a escrita ou o discurso oral deve “convir entre si e ao seu todo (264 c).” Como iremos juntar algo que não tem pé e nem cabeça?
Para ilustrar essa necessidade da conexão entre as formas Sócrates faz uma alusão ao epitáfio do lendário rei da Frígia, Midas:
64 Fedro 266c: α α , Φαῖ , α α υ α , α α φ ῖ : ᾽ α υ α α π π π φυ ᾽ , ‘ α π ᾽ ῖ έ’ α α ὺ υ α υ α π α , , α α . 65 Fedro 261 d: α Πα α α ῃ, φα α ῖ υ α α α α, α α π , α α φ α;
Sou uma brônzea virgem que jaz sobre o túmulo de Midas. Enquanto a água fluir e as grandes árvores florescerem, eu permaneço aqui sobre essa tumba tão chorada a anunciar a quem passa que Midas aqui está sepulto.66
Sócrates em sua conversa com Fedro a respeito da retórica tenta mostrar que esta precisa avançar para o método dialético, sem jamais negar sua importância dentro da sua função que é persuadir a alma.
Ora bem, o poema de Midas tem todos os versos soltos, isto é, tanto faz ler o primeiro quanto o último, o leitor não precisará fazer ligações, o que foge ao preceito do método dialético, pois conforme diz Bornhem (1997, p.31), “o ser está na
relação, o ser só é na relação”.
Além dessa falta de articulação do manuscrito de Lísias, Sócrates nota que aquele não teve o cuidado de definir o tema do discurso, que é o amor. Caracterizar e definir tal tema parece ser tarefa um tanto complexa, por se tratar de um assunto cuja natureza difere dos objetos sensíveis, mais fácil de determinar. Sobre o amor é possível diversas definições, dependendo do ponto de vista, seja do amante, seja do amado ou de nenhum dos dois casos.
E essa relação no Fedro se dá através de subidas e descidas, onde a filosofia enquanto dialética, conta com a mistura da força e da fraqueza, mencionam alguns intérpretes que percebem a dialética do Fedro comprometida com a realidade do mundo e do homem.
Ora, postula Bornhein (1997, p.32) então que se podemos realizar os dois movimentos dialéticos (synagogé e diaíresis) isso significa dizer que o Ser é móvel e imóvel ao mesmo tempo. Porém essa conclusão nos colocaria em uma aporia, diz ele, pois como o repouso e o movimento podem ser a mesma coisa ao mesmo tempo?
A solução para este estudioso é o recurso da participação, isto é, da relação e da articulação das ideias. E o Fedro parece estar o tempo todo reclamando por essa conexão de ideias.
66Fedro 264 e: —“ α πα , α ᾽ π α ῖ α . φ ᾽ ῃ α α α ῃ, α υ α π υ α υ π υ, πα α απ α .” εiἶἳὅ ᾽ αφ α π α α , ῖ π υ, α .
Dixsaut menciona (2000, p.9), e com ela concordamos que essa atividade de unir, de relacionar o uno e o múltiplo somente é possível através do discurso, embora o dialético mude o método. Mas sem a linguagem seria impossível pensar ou falar alguma coisa como já dissera Sócrates.
Consideramos importante notar que para os intérpretes o método dialético aplicado por Platão no Fedro é o mesmo utilizado no Sofista e no Político, mas com a ressalva de que o componente mítico e a presença de Eros no contexto do Fedro permite um enriquecimento teórico todo especial em torno da paixão pelo Belo.
O método dialético da divisão e da reunião no diálogo que examinamos tem como objetivo estabelecer uma relação necessária e inseparável entre o sensível e o inteligível, ou seja, do fluxo da realidade, do fluxo dos modos de dizer o Ser.
Sócrates nos dá uma pista do ofício do dialético quando diz:
É de fato assim, meu caro Fedro. Mas, em minha opinião, muito mais bela se torna a ocupação nestas matérias, quando alguém, no uso da arte dialética, toma uma alma apta e nela planta e semeia discursos com entendimento, discursos capazes de vir em socorro de si mesmos e de quem os plantou, não improdutivos mas possuidores de gérmen, de que mais discursos nascem em outros temperamentos e podem tornar para sempre imortal, e assim conceder ao seu detentor o mais alto grau de felicidade de que um ser humano pode ter.67
Sócrates é transparente em afirmar que o dialético é aquele que tem a função de educar a psykhé, de semear discursos capazes de ter vida própria. E o dinamismo desse discurso significa que ele está sempre correndo o risco de não dizer a totalidade do ser, mas sempre aberto ao aperfeiçoamento, eis aqui a fonte de sua vitalidade: nunca ser exaustivo.
Ora, desde quando falamos do diálogo, a presença da alma é constante tanto no processo da dialética como na reminiscência, pois ela parece ser o ponto central de todo o filosofar. Mas cabe investigar se no Fedro há alguma evidência de que Platão tenha substituído o segundo processo pelo método dialético, pois
67 Fedro 277 a: , φ Φαῖ , : π ὺ ᾽ α α π υ π α α , α α ῃ , α ὼ υ π υ α , φυ ῃ α π ῃ ᾽ π υ , αυ ῖ φυ α ῖ α α α π π α, φυ ᾽ α πα α , α α α ῖ π π υ α α.
segundo Trabattoni (2010, p.96) há uma tese bastante difundida de que gradualmente a reminiscência foi substituída pelo processo dialético.
Na concepção do nosso intérprete, a tese da substituição é inaceitável na medida em que os dois métodos assumem papéis diferentes no pensamento de Platão. No Fedro, está claro que um dia as almas tiveram acesso às Formas, pois:
No circuito, contempla a própria justiça, contempla a sabedoria, contempla a ciência, não a que está sujeita à gênese, nem a que difere conforme se aplica a um ou outro dos objetos que nós agora chamamos seres, mas à ciência que se aplica ao Ser que verdadeiramente existe.68
De uma forma mítica a anamnese está presente no Fedro e é o fundamento de todo e qualquer discurso que o homem pretenda estabelecer como verdadeiro, pois as Formas são objetos do exercício dialético. Mas qual a distância do conhecimento que resulta da dialética para o Ser que verdadeiramente existe? É possível ao homem ter conhecimento da coisa em si? Ora, a linguagem e suas dimensões aparecem como um instrumento capaz de enriquecer o entendimento do homem. É ela que revela o ser do mundo e do homem. Mas segundo Sócrates não é tão fácil chegar a esse entendimento e o risco de se perder é muito grande.
68Fedro 247 c – 247 e: α α α αφ α α, υ υ ῃ α , π π , π . ᾽ α α π ῃ φ , α π υ ῃ ῃ π α α , α υ απ α α φ α α πα ῖ, π φ α π ῃ. π α α α , α φ , α π , π , ᾽ π υ α α ῖ α , π α : α α α α α α α α ῖ α, α π α , α . α π φ ὺ ππ υ α πα α α α π᾽ α α π .
CONCLUSÃO
As dimensões da linguagem no Fedro. Eis a nossa pretensão ao iniciar um
estudo sobre o Fedro de Platão. Ora, o caminho que a pesquisa nos conduziu foi a de que neste diálogo há uma concepção nitidamente antropológica da filosofia que é também diálogo.
Não podemos dizer que foi uma tarefa fácil delimitar o tema dentro desse diálogo tão misto. Mas podemos afirmar que conseguimos chegar ao que buscamos que foi tentar enxergar no dicurso a mistura ineliminável da razão e do desiderativo, forças capazes e promotoras do filosofar.
Pareceu-nos que ao relacionar os conceitos escrita e memória todas as questões tomaram a posição de oferecer muitas respostas para o que tentamos enxegar. Pois, ao por em xeque o poder do discurso escrito, Sócrates também estava colocando a competência da linguagem como um instrumento capaz de educar a alma e revelar o ser das coisas e do mundo, na pauta das discussões.
O que pareceu elucidativo em nosso estudo sobre a escrita ou o discurso oral foi que o mesmo representa um estímulo para a memória. O conceito de memória foi uma das chaves que abriu a pesperspetiva para que entendêssemos o conhecimento como constituinte de uma origem divina. No entanto, jamais se pode esquecer que o homem vive no mundo das sensações, da mudança e dos fenômenos, e isso é fundamental para que se compreenda a relação entre memória e recordação.
Todavia, sem o entendimento de que é através da linguagem que isso tudo acontece, não haveria como sair do ponto inicial da pesquisa. Pois, se a alma desperta através das sensações para buscar sua origem divina, o discurso surge como estimulante dessas reminiscências. Ou seja, o esquecimento é a fonte da busca que dá sentido ao ser do homem no mundo. Mas é preciso estimular, despertar a alma com imagens belas. Educar a visão para aquilo que seduz, que dá prazer, que lembra o belo em si que um dia foi vislumbrado. Mas essa visão não significa o olhar literal do órgão dos sentidos; significa o olhar do inteligível, do noûs, que se alimenta e se nutre com palavras que também são imagens.
O que não podemos deixar de registrar quando mencionamos o prazer é a tese discutida entre os interlocutores se o amor é um mal ou um bem. A tese que se
apresenta como aceita pelos debatedores é a de que o amor é verdadeiramente o desejo, a força que impulsiona as almas para a busca do conhecimento, isto é, beleza e amor se confluem no impulso irracional que gera o saber.
Embora o Fedro seja um diálogo que trate do amor de uma riqueza incomparável, fomos seduzidos pelos discursos sobre Eros no Banquete e embora possuam contextos diferentes, foi profícua a relação que estabelecemos entre essas duas obras, assim como quando buscamos um suporte do conceito de alma na
República. E com isso não percebemos um erro metodológico recorrer algumas
vezes, de forma específica a outra obra.
O conceito de alma se mostrou como um eixo condutor da discussão de todo o diálogo. Isso porque ela estava sempre relacionada com a retórica quanto com o amor e a filosofia. Poderíamos até concordar com Trabattoni que seja a alma o tema central do Fedro, embora ela sem eros e sem filosofia perca esse sentido.
O fato de Sócrates perceber que a alma é mista de humano e divino coloca a atividade filosófica num patamar muito acima da retórica da época, que era o discurso concorrente. Isso porque Platão retira a verdade do poder do sagrado, mas deixando ainda uma referência ao divino, e coloca essa mesma verdade na responsabilidade dos homens, não de um grupo especializado, mas para qualquer pessoa que deseje o saber e seja bem conduzido.
Todavia, é na linguagem que o Ser se revela, e ela aparece no Fedro como capaz de muitos sentimentos, que vá da organização racional do pensamento ao despertar dos mais nobres e terríveis desejos. Principalmente como responsável por provocar a desmesura.
Ora, isso significa que um discurso pode ser remédio ou veneno. O que confirma o que diz Jaeger (2010, p.1033), que a “medicina grega se enquadra perfeitamente dentro da antropologia platônica.” Pois Sócrates pretende no Fedro mostrar que a linguagem é sempre uma retórica, mas nem sempre conduz para o bem. O orador é semelhante ao médico. Sua responsabilidade é enorme, pois trata das almas enfermas pelos logos e cuida da saúde daquelas que estão bem.
Portanto, é preciso conhecer bem o objeto, a alma. Assim como os remédios. E ainda mais, o acompanhamento dos efeitos que o medicamento pode causar, no caso os discursos.
Deve-se pensar então na amplicação do conceito de retórica que Platão pretendeu fazer ao associar essa dimensão da linguagem com a dialética. Pois o discurso é algo vivo, assim como um organismo. Ele se movimenta o tempo topo, é o próprio movimento do pensamento. Mas é um movimento que precisa ser vigiado, guiado. É um movimento semelhante ao cosmos que a alma herdou, mas que possui a liberdade própria dos seres do mundo. Ou seja, há influências externas e internas no homem que lhe permitem pensar de um modo ou de outro.
A retórica de Lísias se apresentou como um modo de perceber o amor. O que Sócrates pretende mostrar é que o pensamento pode avançar, pode elevar o nível dos argumentos, até mudar de tese. Algo que não tinha pé e nem cabeça, pode tomar forma, pode ser reparado através do logos.
Isso vai depender dessas forças externas e internas, ou seja, das dimensões da linguagem que irão atuar nos interlocutores no momento da discussão, no diálogo silencioso que ao mesmo tempo se faz linguagem partilhada.
Ora, as palavras por si só não dizem nada. Elas precisam estar em relação umas com as outras. E essa relação carrega em seu bojo um compromisso ético e epistemológico, pois sair da multiplicidade para buscar a unidade requer partir sempre de um horizonte comum. E esse horizonte diz respeito ao acordo que os interlocutores estabelecem ao iniciar o processo rumo à verdade. O processo dialético que está, antes de tudo, ligado a Eros. Isto é, cada um sente a necessidade, a carência que possui da verdade. Mas sabe que assim como o amor, essa vontade sempre vai ser desejo.
Todavia isso não impede que o homem avance e busque o saber na medida do possível. A dialética do Fedro nos ensinou que as subidas para o uno e as descidas para o múltiplo são as forças e fraquezas da caminhada rumo às Formas. E que essa fraquesa vem da própria fragilidade do logos que, embora auxiliado às vezes pelo silêncio, pela linguagem mítica, pelo poético, não deixa de ser incapaz de dizer o todo do Ser. Por isso o discurso sempre precisa de um socorro, de um auxílio, pois é impossível ao homem dizer tudo de uma coisa, mas a cada momento de entusiámos a razão procura dizer aquilo que naquele momento é suficiente.
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